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Relatório de jogo na Rádio Observador. Segunda derrota seguida do Sporting em casa. A primeira delas foi na Champions, frente ao Lars Klins. Esta noite, para o campeonato, derrota frente ao recém-promovido Académico de Viseu, impressionante equipa que, neste momento, ainda não perdeu fora de casa na presente edição do campeonato. Números que poderiam ser surpreendentes, mas que talvez não surpreendam, porque Bruno Pinheiro vai fazendo um grande trabalho. Ainda assim, o Sporting de Mário Casica começou e até continuou ao longo do jogo sempre com bola, mas ficamos com a ideia que a estratégia esteve toda do lado do Académico.

Sim, dá para termos essa conclusão de forma mais ampla, que de facto o Académico foi a equipa mais organizada no Estádio de Alvalade, em todos os momentos do jogo e de forma mais global. Claro que ambas tiveram rasgos, mas em termos mais globais e com uma sequência mais prolongada de qualidade com e sem bola.

E conseguiram por isso o jogo, porque tinham um plano e conseguiram executá-lo.

Sem dúvida, é isso mesmo. E com e sem bola, acaba por ser a equipa mais organizada. Sente-se do outro lado, obviamente, e do lado do Sporting, muita intranquilidade em alguns momentos do jogo. Percebe-se claramente que a ansiedade, principalmente a jogar em Alvalade, é gritante e em alguns jogadores nota-se muito isso.

Mas a ansiedade estará só do lado dos jogadores ou Rui Borges também já sente aquela pressão que vai vindo das bancadas, porque hoje bem sabemos que este jogo terminou com muitos lenços brancos.

Sim. E falávamos até em direto e eu estou à vontade, já defendi muitas vezes o Rui Borges, já critiquei, mas acho que também já o elogiei muito. Mas a verdade é que Rui Borges tem de ter aqui um discurso diferente. Eu acho, nesta fase, que é uma fase delicada, o faz parte, a questão da energia.

E quando lhe perguntam se os adeptos estão a ser injustos, dá a ideia que fica num lugar de mim, que é tudo o que esses adeptos não gostam.

Sim, o trabalho faz parte. Ou seja, são declarações que não o ajudam nesta fase, parece-me. E ao mesmo tempo, não o aproximam dos adeptos. Acho que tem de ser mais incisivo. Eu percebo que não queira perder o balneário nesta fase e daí a questão dos elogios aos jogadores e tudo mais.

Mas a verdade é que não podem nem perder, que têm de ganhar, porque a equipa é quase nova, não é, Mário?

É isso. E aí é um problema de base. Eu não vou estar aqui a falar do que não sei. Não sei de quem é que parte esta ideia de partir literalmente o plantel ao meio, mas obviamente que não há treinador que resista, ainda para mais num contexto destes, ainda para mais depois de uma derrota pesadíssima como foi na final da Taça, partir o plantel ao meio com jogadores superinfluentes a sair. Claro, estranho era não estarmos nesta época a falar de momentos em que o Sporting não estaria bem. Eu não estou aqui a defender o Rui Borges, mas a verdade é que, e eu já disse isto noutros contextos e volto a dizer, se calhar com outros treinadores, e se fosse um treinador que tivesse começado, nós estávamos a dizer: "Calma, é preciso dar algum tempo, é preciso planeamento, é um projeto". Mas neste momento, o que dá a ideia é que há muita gente já no Sporting que já não acredita no projeto Rui Borges. E é aqui que o treinador tem de provar que há efetivamente uma construção que está a ser feita com este plantel. Dito isto, o Sporting perdeu muitas coisas em relação à época passada. O Sporting perdeu a capacidade de jogar em ataque organizado e ser uma equipa altamente dinâmica no último terço. Perdeu efetivamente referências que sabiam gerir bem os tempos de jogo. Uma coisa é teres Sulemana e Morita, outra coisa é teres Altimira e Doumbia, e nem falo propriamente do Altimira, mas o Doumbia é um jogador que ainda está muito perdido nesta equipa do Sporting em alguns momentos do jogo e não ajuda a temporizar e a ter alguma estabilidade. E a verdade é que é um Sporting sem jogo interior, hoje ainda mais visível, porque o Académico fechou muito bem, com a linha de cinco sem bola, com uns jogaços, neste caso do Messagem e principalmente o Karaman, e não houve jogo interior e o Sporting basicamente funcionava através de rasgos. Na primeira parte, muito com o Luís Guilherme e alguns fogachos do Flávio. Na segunda, o Hirankunda apareceu bem, mas é pouco para o Sporting.

E a verdade é que o Académico de Viseu, apesar de estar um pouco mais recuado no terreno muitas vezes, conseguiu sempre proteger muito bem a sua área. De resto, também Rui Borges reconheceu isso mesmo na análise que fez ao jogo e também nos elogios que deixou ao adversário, que tem muito mérito nesta vitória. Mas a ideia que dá, e eu vou voltar a repetir esta ideia que repetimos em antena, porque eu acho que pode fazer algum sentido, porque, de facto, os Viriatus vieram até a um terreno muito difícil, até casa do Império do Leão, que neste caso não é o Império Romano. Viriatus conseguiram, de alguma forma, proteger o seu lugar, a sua área, e depois, conhecendo muito bem o campo e também as debilidades da equipa do Sporting, foram fazendo uma espécie de guerra de guerrilha, com muita velocidade na transição para a frente, chegando com isso ao golo. Foi aqui mesma a Viriatus esta vitória, temos de dizer assim.

Sem dúvida, é uma vitória muito aguerrida. E volto a dizer, há aqui momentos que merecem análise, e falámos disto na partida. A entrada, por exemplo, do Mortimer, e aqui é uma questão estratégica, poderia ser o Mortimer, poderia ser o Gouvi, e o Bruno Pinheiro prefere o Mortimer precisamente para agarrar o Araujo em alguns momentos e complicar um bocadinho a ação do Araujo. Aliás, o primeiro golo surge precisamente disso. E falámos disso, que o Araujo é atraído pelo Mortimer e isso dá espaço ao Rubinho, que é um lateral muito ofensivo, de criar o desequilíbrio para o cruzamento. Depois, a capacidade que a equipa teve para fechar com a linha três, com o Luís Silva a baixar e ter ali sempre constante superioridade. Foi um grande jogo dos centrais do Académico. Depois, a questão com bola, em que tiveste o Karaman constantemente de frente para o jogo, a criar vários desequilíbrios. Portanto, a verdade é que é um Académico extremamente organizado, como tu dizias. E hoje nem tivemos o melhor do André Clovis. Foi um jogo interessante, mas não foi, se calhar, um dos melhores jogos, nem conseguiu agarrar assim tantas bolas como isso, ainda que tenha tido algum protagonismo. João Guilherme sempre muito ligado ao jogo e sai daqui com dois gols. Portanto, houve aqui efetivamente trabalho de treinador, obviamente que sim. O Rui Borges E acho que também temos de equilibrar aqui as coisas. Mexe bem, parece-me, com a entrada do Ioannidis e do Catamo.

E o Sporting chega a empate precisamente nesse momento. Estava a perder por 1x0. Isso já na segunda parte.

Exatamente, mas depois é o que tem acontecido de forma constante e até falámos disso em jogo. O Sporting tem no gol a oportunidade para colocar este ímpeto em campo, colocar pressão no adversário. Foi exatamente o contrário. A equipa parte-se automaticamente e a verdade é que depois sentiu-se que o jogo já não estava sob o comando do Sporting depois do gol do empate, o que é estranhíssimo para uma equipa com a ambição do Sporting. Portanto, há muita coisa aqui a melhorar, obviamente, para a equipa de Rui Borges. Do lado do Académico, eu queria mesmo que isto ficasse reforçado, porque, de facto, é importante. Eu já sei que durante toda a semana vamos estar aqui a falar do Sporting e da crise do Sporting e houve um grande Académico hoje. Cinco vitórias seguidas.

Eu até disse qualquer coisa do gênero, mais do que Académico, é mesmo professor emérito, não é um mero Académico. Aqui é já o reitor, reitor de Viseu.

Totalmente. Portanto, há que dar muito mérito também ao jogo que estas equipas têm feito em alguns momentos. Eu sei que em Portugal, principalmente, temos sempre esta visão de que se correu mal é porque há mérito sempre da equipa maior. E obviamente que há mérito.

Às vezes acontece, mas neste caso aqui temos sinais claros de que não é por acaso. Temos uma equipa que, vinda da Segunda Liga, conquista, como tu bem mencionaste ao longo da emissão, cinco jogos vitoriosos no campeonato, cinco jogos seguidos a vencer no campeonato, um deles a terminar com a vitória em Alvalade. E também falámos disso, se aquele tal adepto do Manchester United fosse do Académico de Viseu, pintava um pouco mais fresco, digamos assim.

Surreal. É verdade. Cinco vitórias seguidas, ainda não perdeu fora de casa. E mais do que tudo, é a forma como o Académico se apresentou neste jogo, taticamente muito equilibrado, sem bola, a saber o que fazer, a saber ativar as transições e o espaço quando era necessário. O primeiro gol é de um trabalho fantástico.

E também em Everton talvez não tenha engatado porque o jogo talvez não o tenha exigido, mas com boas respostas.

Respondeu bem, sem dúvida nenhuma, o Everton respondeu bem entre os postes. E depois é isso. Mesmo o primeiro gol é de nota, eu não quero usar a palavra artística, porque nota artística isso vimos no El Clásico em alguns momentos, mas é nota de treinador, é nota tática prime. A forma como o Karaman está de frente para o jogo, como o Araujo cai na ratoeira do Mortimer, e depois tens o Rubinho a aparecer por trás para o cruzamento. É trabalho de treinador e trabalho que foi bem feito. Portanto, quero dar muito mérito, efetivamente, à equipa do Académico e do lado do Sporting, já falámos muito também dos problemas que surgiram e foram muitos.

Mas hoje parece que, de alguma forma, Rui Borges quis abanar a equipa com algumas diferenças, nomeadamente a saída de Quaresma para a entrada de Ibrahim Abba para o eixo da defesa. Caík Pereira rendeu oficialmente também agora no campeonato, Rui Silva, e depois a inclusão de Flávio Gonçalves e também de Luís Guilherme para as saídas de João Simões e ainda de Geny Catamo. O Sporting não pareceu ganhar particularmente nestas posições. Até Flávio Gonçalves, que foi um dos melhores no início da época, pareceu estar hoje um pouco apagado e com dificuldades em encontrar-se no jogo.

Sim, vimos um pouquinho do Flávio, se calhar, no final da primeira parte, quando esteve mais próximo do Luís Guilherme, que eu acho que sai, se calhar, até um bocadinho de forma prematura, mas eu percebo que naquele momento, e atenção, eu se calhar faria exatamente as mesmas duas substituições. Mas sim, na primeira parte foi muito pouquinho do Flávio. E sente-se que a zona interior não funciona, do Sporting, principalmente. É uma equipa, como falava, dos rasgos no corredor. Hoje vimos muito Iranqunda na segunda parte, mas por dentro há pouquíssimo Sporting. E essa era uma das mais-valias que o Trincão, que o Gyulmen, que o Morita, principalmente o Trincão, que ativavam muito bem por dentro. Portanto, não podemos ignorar tudo isto.

Podemos dizer que o Sporting tem o interior como Portugal. Já a tender para o deserto, digamos assim.

É, está.

Está a desertificar a questão. E, na verdade, povoar o meio-campo é talvez o mais fundamental.

Completamente. E são baixas importantes.

E também perdeu o meio-campo frente ao Las Palmas. Já parece ser o segundo jogo em que Rui Borges não consegue resolver.

É, e eu acho que é isso que deve efetivamente preocupar mais nesta fase o Rui Borges, porque de facto muitas das maiores qualidades que o Sporting de Rui Borges apresentou estão-se a perder nesta temporada. Eu sei que era quase impossível replicar muitas das coisas boas que o Sporting apresentou na época passada, mas de facto está-se a perder muito e principalmente em Alvalade, sente-se que há pouca crença já de parte a parte dos próprios adeptos para a equipa, da equipa em alguns momentos do jogo, e eu acho que é aqui que Rui Borges tem de efetivamente ativar algo, tem de mudar algo, porque não está a funcionar esta ideia, não estão a funcionar estas peças desta forma, e é como te dizia, há aqui alguns elementos. Falaste no Flávio, eu acrescento o Dumbya, principalmente, que são dois jogadores que eu acho que ainda estão meio perdidos neste sistema tático do Sporting em alguns jogos. Já fizeram bons jogos, sim, mas também ainda parecem meio perdidos na ideia e na forma de controlar e, acima de tudo, de atacar o adversário. E eu acho que é aqui que o Sporting precisa trabalhar muito mais.

Rui Borges a sofrer enorme contestação. Quero saber se concordas com duas coisas, se o treinador tem condições para continuar e se vai mesmo continuar ou se de alguma forma, com aquilo que a semana vai trazer, a pressão não levará a uma decisão por parte do presidente do Sporting. E também perguntar-te se o Sporting acaba de dizer adeus ao título.

Eu acho que o Sporting não diz adeus ao título ainda, mas fica numa posição muito frágil, porque estamos em outubro e eu não consigo.

Está a nove pontos do Porto.

Já vi coisas a acontecer.

Que têm 27 e 27 possíveis.

É verdade.

E ainda por frente tem um Benfica, que também parece estar a carregar no acelerador.

Acho que é uma questão de tempo se as coisas continuarem desta forma. Eu não consigo dizer-te isto porque já vi campeonatos A mudarem rapidamente no virar do ano. Acho que está efetivamente numa situação muito difícil e mais do que isso, é ver o Benfica a crescer e o Futebol Clube do Porto sempre super seguro. Portanto, eu acho que a maior dor de cabeça também não é só o Sporting, é ver como estão os dois adversários. A outra questão, desculpa, se tem condições, acho que infelizmente não faz sentido. Na minha opinião, acho que não faz sentido nesta fase da época fazer uma troca. Acho que o Sporting precisa ter alguma estabilidade neste momento. Efetivamente, se as coisas continuarem desta forma, se a equipa não conseguir responder, não conseguir ganhar, fica um bocadinho insustentável. Mas ao dia de hoje, acho que seria um disparate pensar-se nessa mudança de treinador nesta fase.

Para fecharmos este relatório de jogo da vitória do Académico de Viseu, em casa do Sporting, por duas bolas a uma, apenas a segunda derrota da época para o Sporting, a segunda consecutiva e a jogar em casa, mas a primeira para o campeonato. No campeonato conta também já 13 empates. Vamos saber e também já agora dizer que o Académico de Viseu é sexto classificado com 17 pontos e ainda não perdeu qualquer jogo fora de casa nesta edição do campeonato. Um registo impressionante para os comandados de Bruno Pinheiro. Vamos ao pior esta noite em Alvalade, Mário Cajica, na tua opinião.

Já falámos muito do Sporting de forma global, de Rui Borges. Acho que Rui Borges, obviamente, tem de estar no pior. Eu já toquei em alguns nomes, o Doumbia muito fora dela, o Flávio também acho que não foi um dos melhores jogos, mas a verdade é que hoje coletivamente não é um bom jogo do Sporting, portanto nem faz grande sentido estar a individualizar muito.

Nem Sérgio Altimira.

Nem o próprio Altimira. É até mais difícil encontrarmos boas unidades e eu acho que hoje não há ninguém que mereça, sequer, esta questão de estar sozinho no destaque negativo, porque há vários destaques negativos dentro do Sporting e coletivamente o problema é maior.

E para terminarmos em nota de beleza, o melhor esta noite, que é incontornavelmente esta grande surpresa do campeonato, também a parte do Santa Clara, de alguma forma, mas aqui vindo da segunda divisão, tem outro peso, o Académico de Viseu. Não sei se é este, se acertei.

Aí vou ser mais objetivo. Até vou já despachar o Sporting. Eu acho que tens um bom Irancunda na segunda parte.

Pelo menos o mais inconformado.

Sim, não foi uma exibição de encher o olho, mas foi o mais inconformado no momento ofensivo. Do lado do Académico, permite-me só rapidamente destacar aqui algumas unidades, principalmente, hoje o Karaman encheu-me as medidas.

Aquele cara que é o man.

O cara que é o man, sim, encheu-me as medidas. Grande jogo do Karaman e já falei disso, nos momentos com bola, de frente para o jogo, sempre bem posicionado, sempre a ter uma solução à frente da vista e eu acho que é também este tipo de médio, causa alguma estranheza que esteja, com todo o respeito pelo Académico, é uma equipa que merece todo o respeito, mas é um médio de outro nível, claramente, e percebe-se isso na forma como se oferece sempre aos companheiros, a dar linhas de passe e depois, de frente para o jogo, é um tratado. Depois, o Messagem também com um belíssimo jogo, sempre ativado em vários momentos do terreno, sempre a dar apoios e gostei particularmente da forma como se liga naquele meio-campo e obviamente o João Guilherme pelos dois golos e os centrais, o Michalis e o António Correia, grandes exibições na equipa do Académico. Eu sei que há mais, mas estes aqui encheram-me particularmente as medidas e claro, coletivamente, grande jogo do Académico e um excelente trabalho do Bruno Pinheiro, mais uma vez.

Foi um Viriato a vir à selva do Leão para o caçar bem caçado. Vitória do Académico de Viseu por duas bolas a uma, na nona jornada do campeonato, em casa do Sporting. O Sporting perde pela primeira vez esta época no campeonato, depois de ter perdido pela primeira vez esta época, em geral, na Champions, também no jogo que antecedeu esta derrota frente ao Académico de Viseu. Má série para o Sporting, que aqui acompanhámos com o Mário Cajica, que estará de regresso nos próximos jogos, em próximos jogos aqui na Rádio Observador, para mais comentário e também relatório de jogo. Um grande abraço, Mário.

Grande abraço, Vítor.