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Talvez algo intermédio. Bom dia. Vamos ver o que está em causa na minha perspectiva. Estão em causa, por um lado, as circunstâncias do momento, que é que nós não temos a situação em Ceuta estabilizada. Ainda ontem houve uma gigantesca manifestação. Pelo número de pessoas que esteve presente, cerca de 10 mil pra uma população de 80 mil, estamos a falar de uma em cada oito pessoas esteve presente. Foi uma manifestação com aspecto não partidário, ou pelo menos era essa a intenção, com representantes das religiões todas, tinha muçulmanos, tinha judeus, tinha cristãos, tinham todos. Todos se fizeram representar. Estava lá o presidente da cidade de Ceuta, da região de Ceuta, mas não estava o representante do governo. E há ali uma enorme tensão. Há uma enorme tensão, primeiro que tudo, porque o número daqueles que lá ficaram não é tão pequeno como aquilo que se diz. Estamos a falar, porventura, entre 8 e 10 mil pessoas. É muitíssimo se pensarmos na dimensão de Ceuta. Estamos, sobretudo, a falar de um número muito elevado, poderão ser perto de 2 mil as chamadas menores não acompanhados. E esses têm direito a ir pra Espanha, é a política do governo espanhol. Isso está a levantar uma enorme crise interna em Espanha, porque há sempre a intenção de os distribuir pelas diferentes regiões e as regiões onde está o governo com o Vox, eles já disseram que não aceitam que isso aconteça e vão recorrer pra tribunal. Depois temos também ainda o problema da ausência de Pedro Sánchez, que está de férias. E há a ameaça de que no dia 15, isto é, este fim de semana, poderá haver outra avalanche, outra tentativa de chegar a Ceuta. Há um enorme mal-estar ali, sendo que uma parte destes oito, 10 mil que lá estarão são subsaarianos, não são marroquinos, e não sendo marroquinos, a política de Marrocos é não os aceitar de volta, o que quer dizer que de uma forma ou outra acabarão por entrar no território continental da Europa. Há algo que continua, que não acabou completamente, apesar da tentativa do governo espanhol de dizer que está tudo bem. Com base nisso, o governo italiano tomou logo medidas preventivas. Pode-se dizer: "É um exagero, ninguém entrou ainda no continente europeu." Isso talvez fosse verdade na altura em que o governo italiano tomou essas medidas. Se calhar ainda é verdade hoje, mas não será verdade no futuro, porque pelo menos os subsaarianos e os menores não acompanhados vão acabar por vir pro território europeu, mas sobretudo aquilo que está em causa na medida do governo italiano, que houve outras ameaças, houve ameaças da Finlândia, também falou disso o próprio governo dinamarquês, é se a Espanha não consegue controlar bem as suas fronteiras, nós temos que nos proteger do descontrole espanhol. Os outros governos nunca tomaram medidas, Itália resolveu tomar medidas, até porque há aqui duas questões também que são muito relevantes. Primeiro, em Itália, governa aquela que neste momento, na minha perspectiva, é a líder política mais marcante da Europa, aquela que no fundo tem mais poder real, porque tem popularidade, porque tem um governo estável, porque ganhou protagonismo na resolução de vários problemas europeus e nos equilíbrios europeus, designadamente na forma como a Europa está a tratar o tema dos imigrantes ilegais. Sendo que neste domínio, Meloni tem colaborado com as instâncias europeias, tem pressionado e conseguido que a própria Europa tenha evoluído nas suas políticas, nos seus acordos com os países da sul do Mediterrâneo, para evitar o problema à partida, evitar as tentativas de cruzar o Mediterrâneo, que acabam muitas vezes de forma trágica, e também encontrar fórmulas para evitar que uma vez entrada em território europeu seja impossível que essas pessoas regressem, mesmo quando não são requerentes de asilo autênticos, são imigrantes económicos, como são a maior parte destas pessoas. Portanto, isso tem feito de Meloni uma figura política determinante na Europa, um bocadinho em contraste com Pedro Sánchez. Além de estarem politicamente nos extremos daquilo que é o equilíbrio europeu neste momento, Meloni é alguém que vem da direita radical, mas que tem feito uma política relativamente moderada e Pedro Sánchez é alguém que vem da esquerda moderada e tem feito uma política relativamente radical, porque precisa de a fazer para conseguir manter o seu governo, que é um governo com apoios estranhíssimos, fragilíssimos, que nem sequer consegue aprovar orçamentos e que vive de taticismos. Daí também a reação do governo espanhol, que sem que tivesse acontecido nada de novo em Itália, resolveu primeiro fazer um ultimato, que para Meloni é a mesma coisa que dizer: "Estás a pedi-las." Em alguém que nunca cederia a isso. É apenas recordar a forma como Meloni reagiu a uma frase de Donald Trump, dizendo que ela tinha implorado uma fotografia ou uma selfie ao seu lado. Ela reagiu imediatamente de forma bastante violenta. É a sua maneira de fazer política e de ser, mais do que fazer política, a sua maneira de ser. Do lado espanhol, temos esta necessidade permanente de cálculo político, até porque ainda hoje saíram mais sondagens em Espanha, o número de espanhóis que acreditam nas explicações de Sánchez para o que se passou em Ceuta é mínimo e as sondagens são cada vez mais desfavoráveis ao Partido Socialista Espanhol. Portanto, isto também é, de alguma forma, uma fuga em frente. É evidente que isto é um arrufo, passa do dia 15, quando a Itália disser que, porventura, acaba esta situação, passa no dia 7 de setembro, que é quando a Espanha diz que acaba. Não sabemos exatamente o que é que vai passar, até porque, de facto, há aqui algumas incógnitas ainda. No entanto, eu diria que não é por aqui que vai acabar Schengen. Agora, aquilo que está sob enorme tensão é, de facto, qual é a política migratória da Europa, porque há sensibilidades muito diferentes entre os vários países europeus e essa discussão vai continuar em cima da mesa. Ainda agora, por exemplo, há também outro tema de discussão entre a Alemanha e a Itália, por causa de imigrantes ilegais que chegaram a um acordo para os redistribuir pela Europa, mas depois esse acordo, na prática, não é cumprido. Vamos tentar falar um pouco disto tudo e também das motivações políticas de Meloni, porque tem eleições para o ano que vem, tem um partido a surgir à sua direita e, portanto, também tem que cobrir esse flanco.

Também tem que olhar para o lado. José Manuel, falamos melhor então, com mais tempo no "Contracorrente". Até já.

Ok. Até já.

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