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Está aberto o gabinete de guerra da Rádio Observador. Hoje vamos dar destaque ao que se passa em Israel, porque Benjamin Netanyahu estará de saída. Comigo está o tenente-general Marco Serronha. Bom dia, bom domingo. Bem-vindo à Rádio Observador. Vamos começar por esta situação e perceber o que é que muda nesta liderança de Israel. O que acontece é que Eisenkot vai ser hoje indigitado como primeiro-ministro, depois vai ter 28 dias para formar governo. Netanyahu já está muito crítico desta situação, diz que Israel não vai sobreviver. Isto foi uma decisão do presidente de Israel, Isaac Herzog, que olhou para os apoios de cada um e era uma conta fácil de fazer. Eisenkot tinha o apoio de 67 deputados, Netanyahu tinha apenas 46 deputados e, portanto, Eisenkot foi convidado a formar governo. Vamos depois perceber que governo é esse e como é que pode funcionar. Mas já à partida, que impacto tem para a região? Há conflitos na Faixa de Gaza, há também Israel participando no conflito do Irão, mas toda essa situação de conflitos em torno de Israel, que impacto é que tem esta saída de Netanyahu?

Olá, bom dia mais uma vez e bom dia também a quem nos ouve. Netanyahu está no governo há mais de 20 anos e tem sido um resistente político e muito provavelmente, embora tudo indique nesta fase que Eisenkot vai ter eventualmente condições. A questão do governo, quem é que vai entrar, quais são os partidos que vão entrar e quais são aqueles que só prestam apoio no Parlamento, que é o caso dos partidos árabes, que muito provavelmente não irão integrar o governo, dá algum grau de capacidade de sucesso ao governo, pelo menos nesta fase, nos próximos meses, muito provavelmente. Netanyahu estará numa situação, sob o ponto de vista de voltar ao poder nesta fase, relativamente afastado. Isso vai ter impactos naturalmente até sob o seu ponto de vista pessoal e as questões que ele tem com a Justiça, visto que a posição oficial de primeiro-ministro lhe dava alguma flexibilidade e alguma capacidade de ir adiando isso. Portanto, eu julgo que sob o ponto de vista político, Netanyahu vai se remeter agora, muito provavelmente. Nem sei se à oposição, se vai mesmo abandonar a política, mas vamos ver. Agora, o impacto que isto tem sob o ponto de vista estratégico na região vai ser relativamente grande. Há aqui um denominador comum que todos os partidos judeus, sejam eles mais à esquerda, mais ao centro, mais à direita, têm uma base comum, que tem a ver com a sobrevivência do Estado de Israel e com um conjunto de condições que é preciso criar para o efeito, nomeadamente questões da luta contra o terrorismo. Há posições mais abertas desta ala, por assim dizer, relativamente ao diálogo com os palestinianos, embora Eisenkot e alguns dos seus apoiantes já tenham dito que nesta fase é muito difícil prever a questão do estabelecimento de um segundo Estado, um Estado palestiniano. A teoria dos dois Estados não a chutam completamente para canto, como nós costumamos dizer, mas ficará muito provavelmente afastada. Isto tem razões de natureza securitária para Israel, naturalmente, que é a incapacidade dos moderados palestinianos exercerem o poder, seja na Cisjordânia, seja na Faixa de Gaza. Porque o Hamas e a Jihad Islâmica, se houvesse eleições na Cisjordânia neste momento, mais que provavelmente, o Hamas iria ganhar as eleições e isso é inaceitável para Israel. Não quer dizer que se ponha de lado a ideia e a resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas relativamente aos dois Estados, mas não haverá capacidade de o implementar. Isso com certeza não vai parar a resistência palestiniana, que temos visto na Cisjordânia e é algo, o problema de Gaza, para resolver naturalmente com a desmilitarização do Hamas, embora a Eisenkot diga que espera no espaço de 18 meses ter a Faixa de Gaza relativamente pacificada e o Hamas desarmado e fora do leque político, por assim dizer, ou fora do leque político-militar de Gaza. Sob o ponto de vista do Irão, eu julgo que nesta fase não há condições para Israel continuar a participar na operação. E isto tem muito a ver com o posicionamento do Irão, porque o Irão tem mecanismos para estimular a participação de Israel.

Claro.

Se isso fizer parte da sua estratégia, que é reativar o Hezbollah, e a partir daí começa a se tornar difícil para um novo governo não tomar atitudes militares contra o Irão diretamente, visto que isso já foi feito no passado. Agora, será mais difícil, julgo eu, aquela aliança umbilical que havia entre Netanyahu e Trump. Tudo isso será mais difícil. O próprio Trump, muito provavelmente, não irá ter na ideia uma operação militar mais robusta no Irão nesta fase, presumo eu. Estas ações militares, sim, mas uma operação mais robusta, não. Embora tudo isto, os planeamentos estão em cima da mesa. Mas será mais difícil Israel nesta fase, até porque está numa fase de levantar o governo A não ser que haja uma ameaça à segurança de Israel muito grave, não antevejo que Israel possa participar em operações com os Estados Unidos semelhante àquilo que aconteceu em fevereiro deste ano. Portanto, nesse modelo de um ataque unilateral, não me parece que isso possa ser possível neste momento.

Olhando aqui para esta semana, temos o resultado das eleições do Partido Democrata nos Estados Unidos da América, ou seja, o Partido Republicano com uma forte queda, muito penalizado pela situação no Irão. Israel, que está presente nestes dois conflitos, a liderança de Netanyahu acaba também por cair. É óbvio que existe muito mais do que apenas esses dois conflitos. A própria situação que levou aos ataques do Hamas de 7 de outubro penalizaram bastante Benjamin Netanyahu.

Agora, o que vai acontecer relativamente às investigações mais detalhadas sobre isso, que de algum modo Netanyahu tinha conseguido parar isso enquanto foi primeiro-ministro.

Mas acho que é importante ao dia de hoje perceber, passado todo este tempo, se o que estamos aqui a assistir é uma penalização por parte dos eleitores destas lideranças, Trump, Netanyahu, perante a forma como se desenrolaram esses conflitos na região.

Vamos lá ver, eu julgo que no caso de Israel, há uma penalização de Netanyahu por duas razões. Um, de facto, algum criticismo, e que tem os dois a ver com a mesma coisa. Algum criticismo relativamente à forma como Netanyahu geriu a parte da segurança de Israel no sentido de criar uma situação mais estável. Dá a ideia que o que nós percebemos, e que a grande maioria da população israelita percebia, é que Netanyahu estava numa postura de quanto mais guerra, melhor, porque isso era favorável à manutenção do seu governo. E, portanto, jogou muito nessa postura. E é evidente que muitos dos israelitas começam a ficar também cansados desse tipo de postura. Depois, era uma aliança aos partidos radicais judeus, que também de algum modo contribuía, Netanyahu para se manter no poder, tinha que satisfazer algumas das suas reivindicações, seja essencialmente na questão da Cisjordânia, naturalmente, que era a mais importante para os partidos ortodoxos, e de algum modo também a questão da região relativamente a manter esta postura de estado de guerra, que também era favorável àquilo que é a agenda dos partidos ortodoxos. E portanto, acho que a penalização veio um pouco daí, da incapacidade de Netanyahu não ter uma postura mais moderada e mais assertiva para os partidos ortodoxos, naturalmente. Fez-lhes as vontades praticamente todas e fechou os olhos a muitas coisas que muita da população israelita não via com bons olhos, nomeadamente esta gestão dos colonatos, de forma mais ou menos desordenada e com um grau de insegurança grande dentro do Estado de Israel, e depois o risco que isso traz e que começou a trazer para uma coisa que já não acontecia há muito tempo em Israel, que era os atentados terroristas dentro de Israel, naturalmente. Portanto, esta situação dentro do Estado israelita, tirando a Faixa de Gaza, é uma questão à parte. Mas em Jerusalém, como aconteceu, noutros sítios, voltaram os atentados terroristas e os israelitas, de algum modo, associam isso a esta postura mais radical de Netanyahu relativamente à questão da Cisjordânia. E portanto, nesse aspeto, foi penalizado. Nos Estados Unidos, eu julgo que sim, mas eu cá li uma outra questão que também foi muito sensível, que é a questão desta mistura entre negócios e política de Trump. Acho que Trump expôs-se muito nesta questão, de forma muito aberta e perfeitamente desabrida. E relativamente a este tipo de coisas e aos negócios, tanto no exterior, como quem é que está a pagar a construção lá do salão de baile e do arco e dos meios que estão envolvidos nisso, que não se sabe de onde é que vem o dinheiro. Ou para quem é que vai o dinheiro. E portanto, há aqui uma questão relativamente à corrupção que acho que afetou muito também, mesmo uma boa parte da base de apoio de Donald Trump. E depois a questão externa e a questão do direito de vida, que também foi fundamental, mas eu acho que a questão da corrupção corroeu mais do que aquilo que ele esperava.

Tenente-general Marques Gouveia, temos ainda três minutos, queria que falasse um pouco sobre a situação na Ucrânia e um aviso de Zelensky, porque Zelensky falou ontem sobre o plano de segurança de Trump para a Europa. Diz que pode ser perigoso. O presidente ucraniano diz que esse plano pode ser perigoso para a Europa.

Tendo o acordo dos russos, é sempre perigoso.

Exatamente. E é esse o sentido de Zelensky. Diz que se Trump está a negociar com a Rússia aquilo que vai acontecer na Ucrânia, estando a Ucrânia também no território europeu, isto acaba por ter um impacto direto na Europa e a visão de Trump para a segurança europeia, diz Zelensky, pode ser perigosa. Faz sentido este aviso de Zelensky?

Faz sentido, até pela postura de Zelensky relativamente à questão da forma como isto nasce. Esta comunicação é feita depois de uma reunião entre Dmitriev e Donald Trump. Portanto, na sequência dessa reunião, ele vem a terreiro com esta novidade. Independentemente de saber mais ou menos aquilo que há. Mas o que está aqui, de facto, em jogo, e isto pode indicar algum grau de descontrole de Trump também Que sabe que vai ter uma vida mais difícil a partir de janeiro, de tentar resolver aqui uma coisa com os russos que têm a ver com negócios, com toda a negociata que se está a montar relativamente à questão do regresso do gás russo à Europa e da compra da Lukoil, que está em território ocidental, europeu, que está sancionada. Tudo indica que há uma empresa americana interessada, ligada à Donald Trump, interessada em comprar isso. E portanto, de algum modo, uma promessa a Vladimir Putin que se estes negócios forem para frente, ele apoiará uma solução que tudo indica, vamos ver ainda os detalhes, será uma coisa muito parecida com os acordos de Minsk. Que é um droit de regard da Rússia relativamente à segurança europeia. E muito provavelmente, até inclusivamente, a eventual saída da NATO de alguns dos países que aderiram à NATO, nomeadamente os bálticos. Como exigência da Rússia relativamente a essa questão de segurança.

Faz mais a comparação com o que aconteceu em Yalta, em que foi Reino Unido, Rússia e Estados Unidos negociarem a configuração da Europa no pós-guerra e Zelensky aponta mais para uma solução desses.

Exato, sem os europeus. Tinha o Reino Unido, mas enfim, o Reino Unido tem sempre este pé fora da Europa continental, naturalmente. Essa é outra questão, porque de facto os europeus, tudo indica, não foram consultados para este desenho, nem têm muita noção do que vai sair daqui. Porque é assim, um mecanismo de segurança da Europa, sob o ponto de vista daquilo que foi listado, mecanismos de transparência, de conhecimento e de gestão de crises, estão montados através dos acordos de Helsinque, ainda de 1974, 1973. Isso não está morto, ainda está vivo. Naturalmente que isso entrou em decaída, por assim dizer, fruto do fim da Guerra Fria. Mas esses mecanismos estão em vigor. Não é preciso inventar nada de novo. Agora, parece-me que a Rússia não quer isso. A Rússia quer um sistema de segurança europeu onde tenha uma palavra a dizer sobre os seus vizinhos mais próximos, os europeus, nomeadamente os países que neste momento fazem parte da NATO e da União Europeia. Pode estar incluída, inclusivamente, a Polónia. Sabemos bem que toda essa zona ser o seu estrangeiro próximo e ele ter uma palavra, Putin, a dizer relativamente à soberania desses países. Isso, claro, é inaceitável para a Europa, naturalmente.

Sim, e daí as críticas de Zelensky. Tenente-general Marques Rui, obrigado por esta participação na Rádio Observador e bom fim de semana.

Bom domingo. Obrigado.