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Altura de conhecermos do que vai o José Manuel Fernandes falar no Contra-Corrente desta sexta-feira, dia 14 de agosto. Para participar e nos dar a sua opinião em direto, 91 002 41 85, ou então envie-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp pro número que é sempre o mesmo, 91 002 41 85. Carla. "Odisseia", de Christopher Nolan, é a grande sensação deste verão, com salas de cinema cheias e muitas discussões, sejam elas sobre a escolha dos atores ou sobre a fidelidade ao poema de Homero, o que em si mesmo é um sinal de que o cinema ainda pode ser mais do que um comando e uma assinatura de streaming. E também de um interesse pelos grandes livros, que muitas vezes julgamos enterrados nas bibliotecas ou reservados a acadêmicos. Por isso, queremos hoje não só discutir como é que uma história com mais de 3 mil anos ainda nos atrai e o que há mesmo de especial na Odisseia. Bom dia, José Manuel, já viste o filme. Gostaste ou ficaste desiludido?

Gostei. Gostei e acho que vale a pena ver, enfim, passe a publicidade, até por algumas das controvérsias, a saber a história dos atores, se tem partes mais woke ou menos woke, isso é relativamente secundário. Eu acho que, obviamente, o filme não tem toda a Odisseia. A Odisseia era basicamente um poema oral, portanto, um poema que foi transcrito para escrito, digamos assim, depois de, estima-se que uns três séculos, pelo menos, a ser transmitido oralmente entre cantadores. Portanto, era uma tradição e estima-se que lê-lo todo e recitá-lo, cantá-lo, se quiseres, durará 16, 18 horas e, portanto, naturalmente, um filme não podia ter essa duração. Mesmo assim, é um filme longo, quem vai ao cinema tem três horas sem intervalo.

Sim.

Mas eu não fiquei cansado. Agora, o que eu acho interessante é que nós estamos a falar de uma obra que é, eu diria, fundacional naquilo que é a cultura ocidental. As várias culturas, as várias tradições têm obras que são referenciais. E no caso da nossa cultura, que tem muitas raízes na Grécia Antiga, a obra que inspira um conjunto de outras obras romanas, depois do Renascimento, os nossos Lusíadas do Camões, o Inferno de Dante e por aí adiante, até a uma das obras consideradas fundamentais no romance moderno, que é o Ulisses, do James Joyce. Portanto, tudo isso, de alguma forma, se inspira nesta obra inscrita entre 26 e 28 séculos. Portanto, estamos a falar de algo que é muito antigo, que relata parte de acontecimentos ou de uma guerra, que foi a guerra de Tróia, que terá ocorrido há volta de 32 mil anos. Não, perdão, 3200 anos. Calma lá, não exageremos. 3200 anos, num período de transição no Mediterrâneo e, portanto, num período que precede aquilo que depois viria a ser a cultura da Grécia Clássica. A Ilíada, mas sobretudo a Odisseia, que é aquilo que está agora em causa, tem muitos heróis e muitas referências que vão sempre regressando e que são referências nossas. E que tem, além disso, algo que é uma particularidade importante. Esta obra foi passada a escrito, como disse, ela começou por ser uma tradição oral. Esta obra foi passada a escrito, mais ou menos na mesma altura em que um conjunto de textos escritos foram juntos para formar, nós hoje chamaríamos Bíblia, mas a Torah judaica, mais ou menos pela mesma altura, que são, porventura, os dois livros mais importantes da cultura ocidental. A Bíblia ainda hoje é muito lida, mesmo que não seja lida fio pra pavio. E nós aqui na Rádio Observador temos tido um podcast que está a ter, de resto, imenso sucesso. Tanto sucesso que estamos a multiplicar as séries precisamente sobre as histórias da Bíblia. No caso da Odisseia, é outra mitologia. Mitologia não, são outras referências, mas referências que se cruzam em muitos aspectos e que têm muito a ver com a forma como nós hoje entendemos as nossas relações uns com os outros, a forma como entendemos o que é o heroísmo, a forma como entendemos também, de alguma forma, o que é o amor, o que são as relações entre um homem e uma mulher. E nós olhamos muito pra Odisseia e muito do que ali está. Evidente que tem toda a mitologia, os deuses, as figuras, os feiticeiros ou as feiticeiras, as ninfas, todo esse imaginário, mas depois tem também figuras humanas com enorme densidade. E são essas que eu acho, mas isso é a minha opinião, eu não sou crítico de cinema, nem tenho competências para isso, de forma alguma, mas são essas que estão presentes um pouco, tanto na obra como Como no filme, vale a pena refletir sobre elas e perceber também como é que hoje um livro, uma obra que pode parecer muito densa, pode ser acessível, não apenas através de filmes aos mais novos, mas através da sua leitura. E eu vou contar aqui um pouco da história de como é que, nos Açores, miúdos bastante novos, todos os anos leem a "Ilíada", a "Odisseia" e outros clássicos gregos. E o fazem com um professor. São leituras voluntárias, em voz alta, coletivas e que são um enorme sucesso. Eu vou contar aqui um pouco o que esse professor relatou. Infelizmente, ele não tinha disponibilidade para estar hoje presente no "Contra-Corrente". É o Miguel Monjardim. Mas vou contar um pouco. Ele fez um artigo magnífico numa revista de Nova Iorque chamada "City Journal", onde conta a sua experiência com grande detalhe. E eu vou usar um pouco esse artigo para contar, porque é muito interessante ver como é que miúdos a partir dos 14 anos vão entrando na leitura de obras que nós olhamos para os nomes e até nos assustamos.

É isso mesmo. O trabalho do professor Miguel Monjardim é extraordinário, nós sabemos disso.

Extraordinário, é verdade.

Muito bem.

Estamos cá depois das 10:00. Também para falar das relações disto com a Bíblia. Temos connosco também o padre Fernando Figueiredo. Portanto, vamos poder não falar apenas daquilo que muita gente gosta de falar, que são os atores escolhidos pelo Christopher Nolan, mas um pouco de tudo o resto.

Há mais para além disso. Muito bem, encontro marcado para depois das 10:00. Até já.

Até já.

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