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Está na hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta terça-feira. Se quiser entrar em direto depois das 10h, só tem de ligar 910 024 185, mas também pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador ou então enviar-nos a sua mensagem de voz através do WhatsApp. Carla. Quando o Donald Trump disse na campanha eleitoral que a sua palavra preferida era tarifas, poucos o levaram a sério. Mas agora que chegaram taxas alfandegárias de uma dimensão como não se via há mais de 100 anos, percebeu-se que afinal o que Trump disse em campanha era mesmo para levar a sério. Depois do proclamado Dia da Libertação, em que anunciou as novas taxas a aplicar a todas as importações, veio o pânico. A Bolsa de Valores de Wall Street teve dois dias negros no final da semana passada e ontem o pânico parecia ter-se estendido a todo o mundo, mas depois começou alguma recuperação das cotações. Mais incertas são as reações políticas. A China já retaliou, a União Europeia veio dizer que prefere negociar e acabar mesmo com todas as barreiras alfandegárias. Na indústria há quem tenha anunciado investimentos e quem prepare despedimentos. Algo, no entanto, parece certo: estamos a viver um daqueles momentos de viragem, de consequências difíceis de prever e até de motivações difíceis de entender, pelo que regressamos no Contracorrente de hoje a este terramoto que está a abalar a economia mundial. Bom dia, José Manuel. Achas que já se consegue perceber o que é que vai acontecer?

Acho difícil.

Ainda é cedo.

Podemos tentar compreender. Ontem houve um texto muito interessante, vou citá-lo aqui, publicado por um antigo colaborador de Donald Trump, é de uma escola política diferente dele. Foi alguém que também trabalhou com George W. Bush e portanto será um neoconservador, que é John Bolton, foi embaixador junto das Nações Unidas no tempo de Trump. E ele diz uma coisa que é curiosa, que muitas pessoas acham que conseguem compreender a estratégia de Trump. Mas ele diz que isso é impossível, e é o que resulta um pouco da sua própria experiência, porque a única coisa que conta para Trump é Trump, e o que vai na cabeça de Trump. E conseguir antecipar o que é que vai na cabeça dele é do limite da adivinhação. Muitas vezes, quando procuramos racionalizar aquilo que são as medidas tomadas pela sua administração, temos dificuldade em fazê-lo, porque não derivam diretamente de uma escola política, de uma escola de pensamento, de uma filosofia estabelecida. Inclusivamente, muitas vezes não se percebe se derivam apenas de quem teve o seu ouvido, como se costuma dizer, de quem conseguiu falar com ele em último lugar antes de ele falar. E nisto das tarifas pode ter acontecido o mesmo, apesar de ser muito claro que ele tinha aquilo na cabeça há muito tempo. Porventura, houve subvalorização do que ele andou a dizer. Nós estamos muito habituados a que os políticos não cumpram promessas, mas por acaso, se há coisa que ele tem feito é fazer como presidente o que disse que ia fazer quando andava como candidato, o que também é surpreendente para muita gente. Dito isto, feito este alerta, acho que ao tentar compreender aquilo que pode estar a acontecer no mundo, temos que ver o mundo que tínhamos e o mundo que talvez passemos a ter. Um mundo diferente, com regras diferentes. Recapitulando muito rapidamente, depois veremos isso um pouco melhor depois das 10h. A economia desde o pós-guerra, que é o que aqui é determinante. Quando a guerra acabou, nós tínhamos uma economia absolutamente dominante a nível mundial, que era a economia americana. A Europa estava destruída, a China praticamente não existia, o Japão destruído estava. Tínhamos um mundo a sair dos impérios coloniais, uma realidade completamente diferente da realidade do pós-guerra. Houve um acordo muito importante na altura, que foram os acordos de Bretton Woods. Basicamente, o que estabeleceram foi uma relação fixa entre o dólar e as outras moedas, e o ouro, uma espécie de chapéu de chuva militar americano e o acesso de todo mundo ao mercado americano, que era na altura o único mercado com poder de compra e portanto, o único que podia puxar pelos outros. Este mundo caiu há pouco mais de 50 anos. As pessoas já não se recordam, mas houve um momento parecido com o atual, só que com outro presidente, mas também muito controverso, em 1971, que foi quando um dia Nixon foi à televisão e disse: "Acabou a paridade dólar-ouro e vamos para um mundo diferente." Isto causou uma desordem enorme em todo o mundo e houve um período da década de 70 muito conturbado, designadamente no Reino Unido, uma década incrível, até que podemos dizer que a partir de Reagan e Thatcher, entrámos naquilo que muitos chamam a ordem neoliberal. Com regras diferentes: tarifas baixas, livre movimento de capitais, taxas de câmbio flexíveis, e a América continuava a ser uma espécie de poder militar supremo, mas a atuar mais como polícia do mundo do que propriamente apenas no quadro da Guerra Fria, coisa que se prolongou a partir, sobretudo, de 89, com a queda do Muro de Berlim. Ora, é essa ordem que aparentemente está a cair. Aquilo que tanta gente, sobretudo à esquerda, mas também à direita, criticava, que era a ordem neoliberal, estará a chegar ao fim, e está a ser atirada abaixo por Donald Trump, e nós não sabemos bem o que vem a seguir, porque entre os seus conselheiros há quem tenha dito que isso era necessário acontecer e que tenha dito o que era preciso fazer e que era preciso fazer com cuidado, e nós percebemos que aparentemente ele está a fazer sem cuidado nenhum, até pela forma como definiu os valores das tarifas. E isso também ajuda a perceber porque é que quer as empresas, quer os blocos de países estão a reagir de forma diferente. Há países que optaram por negociar: Japão, União Europeia, o próprio Canadá. Outros que optaram por retaliar, o caso mais evidente é a China. Mas a produção industrial da China corresponde neste momento já ao dobro da produção industrial ou manufactura dos Estados Unidos. É este o mundo em que estamos e, por exemplo, ontem houve empresas americanas, empresas de automóveis, que decidiram investir mais e empresas que decidiram despedir pessoas. Os próprios empresários não sabem bem o que hão de fazer, porque isto de facto é um mundo muito diferente daquele a que estávamos habituados. Até o que aconteceu nas bolsas é um sinal disso. Nós tivemos dois ou três dias de pânico em Wall Street e ontem recuperou. Tivemos ontem um dia de pânico nas bolsas asiáticas e nas bolsas europeias. As bolsas asiáticas já recuperaram esta noite. Vamos ver o que acontece às europeias. Isto está muito confuso e claramente, porventura, estamos a entrar num momento parecido com o que aconteceu em 1971, depois daquela intervenção de Nixon, depois do fim de Bretton Woods, quando também houve grande confusão e houve de facto ali um período de grande instabilidade. A dúvida é se esse período começou agora ou se começou em 2018, quando começou a guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, e já nos esquecemos disso. E no fundo, a administração Biden foi mais um intervalo do que propriamente uma continuidade.

A história há de explicar-nos isso melhor.

Já vem aí a mera administração. Falamos depois disso tudo, depois das 10h.

Até já, José Manuel. Ligue 91 002 41 85 e dê-nos a sua opinião em directo no "Contra-Corrente". Tem também as nossas redes sociais, o site do Observador e pode sempre enviar-nos a sua mensagem de voz por WhatsApp para o nosso número 91 002 41 85.