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Olá, eu sou José Manuel Fernandes. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM, 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Bem-vindos de regresso ao "Conversas à Quinta" e hoje vamos recordar de novo uma efeméride redonda com 500 anos. Estamos a falar dos 500 anos da excomunhão de Martinho Lutero. A 3 de janeiro de 1521, o Papa Leão X excomungou Martinho Lutero, depois de Martinho Lutero não ter aceito as suas instruções para renegar as suas teses. E mais do que isso, quando conheceu a bula papal, fez questão de a queimar publicamente. Mas seja lá como for, a Igreja Católica não quis aceitar aquilo que eram as sugestões reformadoras de Martinho Lutero e isso acabou por provocar uma divisão na Igreja que seria irreversível, que dura até hoje. A Igreja Católica, a Igreja de Roma, continuou a obedecer ao Papa e criaram-se as diferentes igrejas protestantes que até hoje continuam a ter uma influência grande, mas não têm uma obediência única. Tudo isso se passou nos primeiros dias de 1521, na Alemanha, e os esforços, nomeadamente do Imperador Carlos V, não produziram efeito. A divisão consumar-se-ia. Jaime Gama, estamos vendo estes eventos à distância de 500 anos, quando Martinho Lutero sai de Worms, que é onde ele é chamado pelo imperador para tentar ainda uma reconciliação, e ele acaba por ser acolhido por um príncipe alemão, vai para um castelo e faz aquilo que talvez seja uma das coisas mais revolucionárias para além das suas teses, que é traduzir a Bíblia para alemão e permitir que todas as pessoas, todos os cristãos, possam ler a Bíblia, porque antes ela estava em latim e só podia ser traduzida para os cristãos pelos clérigos. E isso é algo que vai mudar profundamente o mundo cristão, porque a partir desse momento, todos podem ler a Bíblia, todos podem ter acesso à palavra de Deus.

Nós temos que entender na questão de Lutero e da Reforma Protestante, sobretudo a Reforma Protestante Luterana, porque ela é bem distinta de outras, vários conjuntos de problemas que se articulam. Um é o da própria trajetória pessoal de Lutero, que é um frade agostiniano que tem uma excelente preparação acadêmica e universitária no domínio do direito, da teologia, da história das línguas bíblicas. É alguém extremamente bem formado de um ponto de vista da consistência dos seus conhecimentos eruditos. Depois, temos que ver um problema que com este se liga, que é o problema da Alemanha e do que resta do Sacro Império Romano-Germânico, que é obviamente um problema político, na medida em que a Alemanha não está unificada e sente-se um pouco secundarizada por um poder político forte em Roma com o Papado, que tem uma dimensão territorial e estatal, e com países como a França, a Espanha, a Inglaterra, que têm uma unidade política e que são, à época, países cristãos católicos. A própria Inglaterra. Não nos esqueçamos que Henrique VIII é, num dado momento, um dos principais oponentes de Lutero, agindo em sincronia com Carlos V. E depois há um problema cultural, que é o problema do papel da língua nacional no acesso ao conhecimento bíblico. E isso é algo que Lutero também vai usar como um fator de implantação e de irradiação da sua mensagem. Sabemos todos hoje a importância que ele dá a uma interpretação bíblica direta do crente com o texto bíblico, e daí a importância dessa tradução Do Novo Testamento para a língua alemã, a par depois com a elaboração de catecismos também em língua alemã. Portanto, o problema da necessidade de o crente poder exercer liturgicamente a sua crença na língua nacional, aqui uma guerra com o latim, uma guerra com Roma, mas também o fato de o luteranismo pôr muito em evidência o papel da Escritura, o papel da relação direta do crente com a Escritura, só a Escritura, e também só a fé, diminuindo a função de intermediação do clero, que aqui é visto como um clero mais da obediência romana, em relação ao qual esta nova postura de Lutero vem avançar. Portanto, nós estamos num contexto em que há o desenvolvimento do próprio Martinho Lutero enquanto monge agostiniano, há o problema do acesso da crença à língua nacional, neste caso, com a língua alemã, e o papel que daí deriva para a unidade alemã, uma questão cultural, e depois há uma questão política. E não nos esqueçamos de uma obra muito importante, porque Lutero escreveu as teses que afixou em Wittenberg, mas há um texto que não é tanto um texto teológico, mas que é um texto que tem também, neste contexto, muita importância, que é o que escreve Lutero dirigido, é a obra "Apelo à Nobreza Cristã da Nação Alemã sobre a Reforma da Cristandade". Este texto, que é um texto de 1520, portanto, que antecede a sua excomunhão, é um texto que tem uma mensagem claramente política, porque ele no fundo apela às várias unidades políticas em que a Alemanha estava dividida no contexto de um Sacro Império muito comandado e influenciado por Roma, para que assumam uma responsabilidade maior e direta na gestão da cristandade. Há, portanto, uma aliança aqui entre o pregador de uma nova visão de organização da Igreja e o apelo a um reordenamento político das entidades, os bispados, os principados, os ducados, que constituíam a Alemanha, mas que não logravam agir com unidade. Portanto, da confluência de tudo isso é que resulta a Reforma Luterana e este enfrentamento que tem neste momento com Carlos V, um momento muito especial, porque no fim, Lutero conclui dizendo, não se autorretrata, dizendo que: "Através da passagem das Escrituras, estou preso à palavra de Deus, portanto, não voltarei atrás, pois agir contra a consciência não é seguro nem saudável, que Deus me ajude. Amém." Esta frase tem um grande relevo em tudo o que é a teologia luterana, porque é aqui uma cisão com o imperador Carlos V, imperador do Sacro Império, tinha acabado de ser eleito, e com uma forma de organizar o poder na Europa em que a periferia alemã começa a ganhar uma influência, jogando a separação religiosa também a par de uma autonomização e independência política.

Já me corrigiu. Esta questão política é, aliás, aquilo que acaba por, de alguma forma, salvar Lutero, porque ele depois vai sair de Worms e vai se acolher num outro local.

Curiosamente, é um príncipe católico, que defende o que era um príncipe católico, e aliás, tinha a mania das relíquias, tinha uma grande coleção de relíquias. Aliás, a grande diferença aqui, porque tinha havido pré-Luteros. Tinha havido, nomeadamente, Wycliffe, em Inglaterra, que defendia teses um bocado parecidas com as luteranas, sobretudo pondo em contraste a opulência e a riqueza de certa parte do clero, em contrapartida ou em contraste com os princípios de humildade, de pobreza, etc., pregados por Jesus Cristo, nomeadamente no Sermão da Montanha. É também a questão exatamente do que é chamada a simonia, portanto, a venda das indulgências, algumas dúvidas sobre alguns sacramentos e, sobretudo, uma certa contestação da autoridade de Roma. Isso tinha sido feito por Wycliffe, em Inglaterra, é feito também pelo famoso Jan Hus, de Praga. É evidente que tinha havido, no século XIII, um fenômeno que eu julgo que atrasou um bocado a Reforma, que foi exatamente a reforma dentro da Igreja, o próprio aparecimento de Francisco de Assis e do franciscanismo, que deu, de facto, ali uma renovação dessa linha de pobreza, de obediência, mais próxima desses ensinamentos evangélicos. Mas aqui Lutero depois tem um grande suporte

dos príncipes protestantes, de uma série deles.

Não eram protestantes ainda.

Não, protestantes é a partir só de 1529, quando eles fazem o tal protesto, mas eram de vários príncipes que viram vantagens também políticas, porque por um lado retiravam-se de certo modo da obediência ao imperador Carlos V e por outro apropriaram-se de larguíssimos bens do clero, dos conventos, dos monges, etc. E isso também foi um fenômeno muito importante. Aliás, depois há o caso mais concreto do Henrique VIII de Inglaterra, que começando por ser, como o Jaime Gama estava aí a lembrar, um grande inimigo de Lutero, e até o Papa chama-lhe "Defensor Fidei", a seguir, por causa da questão da anulação do matrimônio para casar com a Ana Bolena, ele entra nisso e depois também entra, claro, com grande interesse na nacionalização dos bens dos conventos em Inglaterra. Portanto, há aqui uma conjuntura política muito forte e que Lutero vai aproveitar. Por outro lado, também à volta dessa conjuntura política, temos as várias confissões protestantes.

Mas Lutero, a sua ideia inicial não era partir a Igreja, era reformá-la.

Não. É até muito curioso, porque Lutero, tenho cuidado, mesmo em relação às famosas teses de Wittenberg, ele manda-as, na altura, ao ordinário da diocese ou aos bispos. Ele manda aquilo e até quer guardar alguma reserva disso. Só que, e é um fenômeno que eu acho que também é muito interessante a gente chamar a atenção, é que já existe uma coisa chamada imprensa e, portanto, aquelas teses que ele fixou, as famosas lá na porta da igreja, aquilo rapidamente, em poucas semanas, estava a aparecer sob a forma de panfleto, estava a percorrer a Alemanha. Depois há esse esforço para ele se retratar. Ele, de facto, primeiro até tem uma certa linha de dizer que de facto acha que foi exagerado na forma, mas que na substância não se pode retratar.

A imprensa, na altura, tem umas décadas, não é? Gutenberg.

A imprensa tem umas décadas, mas mais de 200 cidades na Europa já têm impressoras, já têm tipografias, portanto é relativamente fácil. Aliás, uma das características muito interessantes de toda esta luta entre os luteranos e outras confissões protestantes e os católicos, é a quantidade de panfletos, a quantidade de desenhos. São muito comuns, por exemplo, retratos, sobretudo do lado luterano, retratos do Papa representando como se fosse o demônio ou a arder no inferno. E os católicos também respondem com um quadro, aliás, célebre, em que é Lutero tentando Cristo. Há já uma animação enorme na Europa da época, exatamente também por causa da imprensa, há uma grande animação de polêmica. Toda esta polêmica, pois não é só o Lutero, não é só todos os outros líderes, Calvino, Zwingli, Thomas Münster, Matthys, é uma quantidade enorme. Lutero será talvez um dos mais conservadores. Lutero politicamente depois, por exemplo, quando é a Revolta dos Camponeses, Lutero é muito firme na condenação da Revolta dos Camponeses e incita mesmo os príncipes protestantes a castigarem os camponeses revoltados. Queriam abolir a servidão da gleba e essas coisas todas, achavam que aquilo não era para isso. E portanto, esse mundo protestante depois vai se fragmentar numa série de confissões diferentes.

Eu sublinho que Lutero afixa as teses de Wittenberg em latim, querendo reduzir o círculo da discussão.

Exatamente.

E há duas coisas na argumentação de Lutero, uma mais eclesial e outra mais política, que convém retermos. Primeiro, a posição de Lutero contra as indulgências pregadas por Johann Tetzel, um dominicano, é a de que as indulgências põem em causa o princípio da confissão auricular.

Exatamente.

Feita por um sacerdote. E, de certa forma, remetem isso para o pagamento de uma bula. E sobretudo quando remetem isso para o pagamento de uma bula que se pode aplicar a pessoas já mortas para subirem do purgatório para o céu, isso para Lutero é pôr em causa o essencial da função sacerdotal e da ordem, como tendo o poder exclusivo para administrar a confissão aos fiéis. A segunda questão é uma questão política, é que esse dinheiro era para prosseguir as obras da Basílica de São Pedro E Lutero acha que essas obras deviam ser feitas com o patrimônio papal de Roma, e não indo buscar recursos à periferia das dioceses católicas, que era o que se proporcionava com o pagamento das bulas que andavam a ser vendidas. Portanto, há aqui uma argumentação que até podemos considerar uma conservadora do ponto de vista eclesial e litúrgico, de defesa da confissão pelo sacerdote. Lutero já era pároco nessa altura e, portanto, era sensível na administração da sua atividade sacerdotal a esse ponto. E o segundo é uma versão, se quiser, nacionalista política de uma drenagem no seio da cristandade, da periferia com menos poder e menos rica, neste caso, para um centro que, tendo recursos, estava a vir buscá-los onde não devia.

Bem, nós vamos agora interromper para o habitual intervalo. Regressamos dentro de alguns minutos. Estamos de regresso para a segunda parte do "Conversas à Quinta". Estávamos a conversar sobre os 500 anos da excomunhão de Martinho Lutero. Estávamos a recordar não só as condições em que ele foi excomungado, mas também as razões que o levaram a criticar as práticas, na altura, da Igreja Católica. Algo que há pouco o Jaime Goreta Pinto estava a referir, que foi o impacto que teve a coincidência das críticas de Lutero com o facto de existir já na altura a imprensa. Isso depois tem um outro impacto, que é o seguinte: ele ao iniciar o processo de tradução da Bíblia para as línguas comuns, do latim para a língua das-

Ele traduziu de grego. A tradução da Bíblia, do Novo Testamento, é de grego.

É de grego.

Penso que é de grego.

Isso agora eu não te sei dizer. Mas ele faz essa tradução. O importante aqui é que traduz para alemão e depois isso torna-se comum nos países protestantes e, portanto, temos as várias Bíblias do Rei Jorge, as Bíblias dos países nórdicos, e a Bíblia torna-se algo que está presente nas casas das pessoas, mesmo nas casas mais pobres.

E ainda hoje uma grande parte dos luteranos observantes dorme com a Bíblia de Lutero debaixo do travesseiro.

E nos hotéis há sempre uma Bíblia nas gavetas. É uma coisa que eu gostava de notar, que é: quando nós depois olhamos para a evolução dos países e da história dos países, o facto de nos países protestantes, quase sempre, notamos que a literacia evolui mais depressa do que nos países católicos. Eu interrogo-me até que ponto isso está associado ao facto de, a partir do momento em que a difusão da Bíblia se torna comum, e isso é possível porque há imprensa, se não houvesse imprensa não teria sido possível, ela teria sido demasiado cara. Portanto, fazer a cópia da Bíblia e vulgarizá-la. Isso torna-se possível. Não só se torna possível, como é doutrina. Os crentes devem ter acesso direto à palavra da Bíblia e não apenas através do pastor. Isso acabou por ajudar ao desenvolvimento da literacia nos países protestantes. É muito visível no norte, inclusivamente em comunidades às vezes muito pobres. Já alguma vez ouvi alguém comentar que em países, por exemplo, que eram há 100 anos mais pobres do que Portugal, o caso, por exemplo, da Noruega, em que mesmo nas comunidades de pescadores, que eram paupérrimas, sabia-se ler, enquanto em Portugal a taxa de analfabetismo era quase 100%, porque os pescadores iam pro mar, mas as suas mulheres tinham que ler a Bíblia aos filhos. Sente esse impacto, de alguma forma, civilizador, quase?

Sim, eu acho que há um ponto aí que é muito curioso. Para a Reforma, Deus é palavra. O catolicismo

Tinha e tem toda uma parafernália de santos. As igrejas protestantes são igrejas normalmente nuas. Embora haja algumas mais próximas, os episcopalianos, os próprios anglicanos têm alguma aproximação. Mas de uma maneira geral, Deus é palavra. E cada homem, lá dizia o próprio Lutero, cada homem é um sacerdote. Aliás, a Igreja Católica, curiosamente, a partir do Concílio de Trento, do Papa Paulo III, também quis, de certo modo, entrar um pouco neste jogo. E fazem-se os famosos púlpitos de Trento, porque antes não havia a prédica. Passa a haver exatamente os púlpitos, que normalmente nas igrejas tradicionais eram a meio da própria nave, de onde o sacerdote depois numa dada altura falava. Há toda essa questão da palavra. Claro que também temos que ver aqui uma coisa. Por exemplo, a Inglaterra nisso utilizou muito depois a criação, de fato, daquela espécie de lenda negra sobre os países, nomeadamente sobre a Espanha, mas nós apanhamos um bocadinho por tabela, que era aquela ideia que os países católicos eram profundamente ignorantes, o que está um bocadinho por demonstrar quando a gente vai estudar essas coisas. Aí também há envolvida uma certa polêmica política e até às vezes quase geopolítica nesse sentido. Mas é evidente a necessidade-- eu ainda sou do tempo pré-conciliar, pré-Concílio Vaticano II, e portanto, o latim, embora fosse um latim relativamente fácil, o latim eclesial era um baixo latim.

Chamado latim norum ou latim macarrônico.

Praticamente macarrônico, porque é bastante inteligível. É exatamente bastante inteligível. Mas não há dúvida que essa ideia da divulgação da palavra de Deus nas línguas locais deu uma certa força à instrução e à alfabetização das classes populares.

Sim, José Gama, passando um pouco para outro ponto, que eu acho que é um ponto importante. Nós estamos aqui no princípio do século XVI e poucas décadas depois, no final deste século, ou melhor, no princípio do século XVII, vai estalar a Guerra dos Trinta Anos, principalmente na Alemanha, vai arrasar completamente a Alemanha, uma guerra religiosa terrível. A Alemanha só conheceria uma guerra tão destruidora com a Segunda Guerra Mundial. Mas antes disso, o que mostrava a capacidade destruidora que a religião tinha, que as guerras religiosas viriam a ter durante um período larguíssimo no continente europeu. Entretanto, passaram 500 anos e hoje há a preocupação de reaproximação. Este ano, está previsto para 25 de junho, em Roma, um evento ecumênico. A Federação Luterana Mundial e o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos tiveram uma reunião o ano passado e vão promover esse encontro em Roma. Há, no entanto, ainda muitos pontos que afastam as igrejas. Há quem proponha que a Igreja Católica faça um gesto que até hoje nunca fez, que é retirar a excomunhão de Lutero. No entanto, o ponto da Igreja Católica é que só se pode retirar a excomunhão a alguém vivo, não se pode retirar a excomunhão a alguém que já morreu. Enfim, eu não sou teólogo e não discuto esses temas. Aliás, eu não gosto de discutir temas de teologia, porque temas de teologia pertencem a uma-- eu não faço parte da igreja e, portanto, não me compete entrar nesse papo.

Eu não sou comunista e falo do comunismo.

Está bem, mas eu não discuto a doutrina com os doutrinadores. Acho que é um tema difícil para eu ter opinião quando entra nesse aspecto.

No fundo, você acha que é tão difícil-

Eu não quero saber se é o Trotsky ou o Lênin que tem razão nesse caso.

Você acha que é tão difícil discutir teologia diante ao teólogo ou dom bispo, como discutir genealogia diante a um rei? É uma inibição.

Sim, ou como eu discutir, por exemplo, futebol, que não sei nada, diante do Sidney Ramos.

A questão aqui é, no fundo, saber até que ponto é que hoje estamos preparados para É muito fácil falar de ecumenismo, mas nós ainda temos muito que separa não só a cultura, não digo a doutrina, mas sobretudo a cultura entre as várias religiões cristãs.

Há, de facto, um progresso imenso e desde o Concílio Vaticano II têm sido dados passos muito grandes e vão continuar a ser dados. O Papa Francisco foi à Suécia numa visita de grande significado, que passou um pouco despercebida nos mídia mundiais, em 2016, portanto antecedendo a celebração dos 500 anos da Reforma, e considerou Lutero um reformador. Houve também uma interpretação conjunta da noção teológica de justificação. Tem havido com a Igreja Luterana um desenvolvimento de relações bastante interessante e há quem considere até que essa celebração conjunta pode vir a traduzir-se na eliminação ou atenuação dessa excomunhão feita por Leão X e também da declaração de Lutero de considerar o Papa um anticristo e, portanto, a ideia de olhar para o futuro e não olhar para o passado compreendendo a história. Há aqui passos muito grandes. Eu lembro quando era pequeno, no contexto da minha educação de uma família tradicional católica, o protestantismo e sobretudo Lutero estavam muito em baixo. Eu lembro que era-nos distribuído na catequese um pequeno livro com a biografia de Lutero horrenda, e isso era uma vacina religiosa. E depois, por exemplo, a minha mãe, eu devia ter oito anos, dizia assim: "Tu podes ir a todo o sítio, mas não deves nunca entrar em tascas, na sede de um certo clube desportivo", que eu não digo qual é, "e em igrejas protestantes". Então eu fiquei com aquela ideia sempre das igrejas protestantes. Era uma coisa que não se podia entrar por recomendação das mães. Mas depois, fui vendo ao longo do tempo a evolução que há. Nós temos, por exemplo, Hans Küng, o que ele abriu no caminho do diálogo ecumênico e sobretudo com a Igreja Luterana. Por exemplo, em Portugal há uma biografia de Martinho Lutero escrita por Paulo Carreira das Neves, que é uma biografia muitíssimo interessante e muitíssimo avançada sobre Martinho Lutero. E não é de excluir um dia que haja, eu às vezes costumo dizer com um sentido de comiseração, que a Igreja Católica já tem reservado um lugar para Martinho Lutero como Doutor da Igreja. Eu acho que é difícil ir diretamente a santo, mas Doutor da Igreja é algo que está em aberto e é questão de esperarmos mais um tempo. E na verdade, muitas das coisas que hoje são ditas por Lutero, são absorvidas completamente pela Igreja Católica. Muito do que foi o protesto de Lutero hoje não tinha razão de ser, porque já não há as razões que levaram a esse tipo de protesto. Tudo isso foi diferente. Agora, vamos ver, por exemplo, a questão da relação com a Bíblia e com o texto da Bíblia. É certo que a Igreja Católica não favorece muito a relação direta com o texto bíblico, o que faz na missa há sempre em relação à Bíblia, excertos dos Salmos e dos Provérbios, depois uma epístola e depois um evangelho. Há uma integração selecionada em antologia. E a Vulgata era uma versão da Bíblia em latim, que depois era incorporada na missa e na catequese. Mas o acesso direto à Bíblia também, se é certo que tem essa vantagem da língua, mas, por exemplo, em relação ao Antigo Testamento, é responsável por muitas das tolarias teológicas dos evangélicos, porque a leitura e a interpretação literal, direta, pessoal da Bíblia, por pessoas que não têm o enquadramento histórico, teológico, cultural para o poder fazer, muitas vezes é suscetível de levar a consequências algo perversas. Há aqui um meio-termo entre as duas coisas que hoje penso que já está mais presente na consciência comum de que com o trabalho conjunto, com reflexão conjunta, se pode obter um rendimento melhor, uma percepção melhor e um lugar melhor para o fenômeno religioso na vida em sociedade. Eu estou consciente de que vai haver aí progresso. Uma vez fiz uma experiência pessoal muito interessante numa cidade alemã que é dividida a 50% católicos e luteranos, em que os luteranos são pessoas mais idosas, os católicos são pessoas mais jovens, 50%/50%. Assisti a uma missa às 11h, na igreja católica e ao meio-dia na igreja protestante

Era muito interessante verificar: a Igreja Luterana, um público mais velho, a Igreja Católica, um público mais novo. Depois, a contestação ao sacerdócio de Roma, que é uma das constantes do luteranismo, não acaba por reduzir o papel do sacerdote como centralidade da missa, porque precisamente essa noção de que a Bíblia é a palavra, faz com que o pastor protestante tenha até na missa protestante uma proeminência superior à que tem na missa da Igreja Católica. E há aí um fenômeno muito interessante de verificar como uma coisa que nasce com um certo cunho contra certo tipo de clero, depois faz renascer também outro tipo de clero, e que até é mais impositivo na forma como quer considerar-se o dono da palavra divina para fazê-la partilhar por aqueles fiéis da sua paróquia. Portanto, é interessante ver como isso acontece, é um fenômeno social também, é um fenômeno cultural.

Jáme Garapinho, muito telegraficamente, porque nós estamos já mesmo em cima da hora, estamos mesmo a acabar, só temos dois minutos. Uma reflexão sobre esta última nota de Jáme Gama, porque houve uma certa deriva quase radical das igrejas protestantes, muitas igrejas protestantes.

Eu penso que há aí uma coisa que vamos talvez mais longe. Eu sou católico apostólico romano, portanto olho para estas coisas num aspecto essencialmente interessante, num aspecto transcendente. E acho que há duas frases de Cristo, que é: "há várias casas de meu pai e na casa de meu pai há várias portas". Portanto, essa ideia das portas do céu e essa ideia de que aqueles que em boa consciência, praticando aquilo que é entendido como bem e cumprindo os preceitos essenciais daquilo que é, no fundo, uma espécie quase de código de Deus e dos homens. As religiões todas salvam. Naturalmente, uns tipos que adorem um crocodilo e façam sacrifícios humanos a um crocodilo não é propriamente a mesma coisa. Mas as religiões monoteístas vividas dentro da fé e da coerência, e sobretudo, embora eu ache que a Igreja Católica tem talvez um conceito mais humano e da fragilidade da natureza humana e por isso mesmo mantém a confissão como qualquer coisa de importante, que é uma humilhação, que nós fazemos muitas vezes a uma pessoa que até talvez não seja melhor que nós. A Igreja Católica, nesse aspecto, tem mais atenção à fragilidade e à natureza do pecado, da condição humana. Talvez nesse aspecto seja mais compreensiva. Mas hoje, enfim, também há uma grande mudança nas próprias igrejas reformadas e há sobretudo uma mudança na própria geopolítica ou geografia da crença no mundo. Portanto, eu acho sobretudo isso. As polêmicas formais, etc., não me impressionam muito. Eu acho que acima de tudo, é viver o cristianismo com coerência e tendo a noção também da nossa fragilidade. E nisso a Igreja Católica penso que continua a estar atenta a isso.

Bem, terminamos mais um "Conversas à Quinta", desta vez sobre uma efeméride com 500 anos. Regressamos dentro de uma semana.