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Olá, eu sou José Manuel Fernandes. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM, 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta". Esta semana era quase inevitável. Vamos ter que falar de toda esta controvérsia em torno da memória histórica e da forma como a celebramos. Tudo isto a propósito das estátuas que estão a ser derrubadas, por assim dizer, nalguns casos derrubadas, noutros casos vandalizadas, um pouco por todo o mundo. Foi um movimento ao qual já nos referimos em programas anteriores, mas numa circunstância ainda muito circunscrita ao mundo anglo-saxónico, em concreto aos Estados Unidos, por causa das estátuas na altura de generais e figuras da Confederação, portanto, ligadas à guerra civil. Também algumas figuras, no caso de Inglaterra, ligadas ao império, como Cecil Rhodes, que teve um caso muito famoso porque tem o seu busto no edifício em Oxford, na Universidade de Oxford. Mas agora o movimento é genérico, alastrou a todo o mundo e chegou também a Portugal, com alguma controvérsia que, de regresso, não é nova, de uma estátua relativamente recente existente na Largo da Misericórdia, em Lisboa, de homenagem ao padre António Vieira. Sem querer concretizar muito e para não discutirmos estátua a estátua, monumento a monumento, a questão é que poderíamos começar talvez por aí, o problema de saber até que ponto é que nós podemos olhar para estes monumentos e, nalguns casos, achar que faz parte da lógica natural da própria sequência da política e da história, derrubar símbolos do passado, e nós até celebrarmos isso, como aconteceu na Revolução Húngara, quando uma estátua de Estaline foi deitada abaixo, nas revoluções no leste da Europa, quando novamente vieram muitas estátuas abaixo, quando foram as famosas imagens da estátua do Saddam a ser derrubada quando foi em Bagdá, estátuas de outros ditadores, no momento em que as ditaduras caem, as estátuas vêm abaixo, ou este julgamento de monumentos que estão às vezes há séculos em determinadas posições, umas vezes mais destacados, outras vezes nos cantos de alguns parques, e de repente há uma fúria das multidões contra eles, em nome de ofensas, de gente que se diz ofendida. Até que ponto este julgamento atual feito ao seu passado histórico faz sentido? Como é que lê isso, José Gama?
A minha leitura é a seguinte: os presentes de cada época histórica que não tiveram a oportunidade de ser participantes ativos da história, adoram temas simbólicos, porque não tendo participado nos temas reais, têm aí um local para expandir a sua imaginação, as suas opções, as suas tormentas interiores, as suas angústias. E portanto, passam de uma guerra real para o plano de uma guerra simbólica. É já o que se passa no domínio cultural. E na verdade, se há um parco conselho que eu posso dar a alguém, é o de que não tenha a tentação de se ver constituída em estátua, porque as estátuas são muito gratificantes no momento da sua inauguração, mas são alvos muito fortes em relação ao que pode vir a acontecer no futuro. Esta questão das estátuas, não só estátuas, parques, monumentos, nomes de ruas, até.
Nomes de ruas, exatamente.
De cidades. Pois bem, é uma questão que teve sempre a sua existência, em regra, a sua existência mais intensa no período de grandes transformações políticas ou sociais, de grandes revoluções, de grandes guerras.
No caso da Rússia, a atual São Petersburgo, já se chamou Petrogrado, já se chamou Leningrado e voltou a chamar-se São Petersburgo. Só pra citar um caso mais conhecido, mas há muito mais cidades que mudaram de nome no caso da Rússia.
Sim, mas nas situações, digamos, mais pacíficas, em que não há confrontação direta entre estados ou em que não há tumultos grandes do ponto de vista interno, essas questões são muito recuperadas por movimentos culturais que depois se transformam em movimentos políticos e depois também se transformam em correntes e grupos militantes, alguns dos quais extravasam rapidamente da esfera da disputa das ideias pra esfera da própria ação direta e da violência, como acontece em muitos casos. E portanto, o fenômeno passa a ser um fenômeno descontrolado. Neste caso do padre António Vieira, eu até me recordo como é que nasceu a ideia da estátua Porque em 2008 celebrou-se o quarto centenário do nascimento do padre António Vieira e houve uma reflexão: por que tendo o padre António Vieira nascido em Lisboa e sendo uma figura tão importante da história da literatura portuguesa, não tinha uma estátua em Lisboa? E assim é que, sem grande controvérsia, na altura não houve oposições dramáticas de ninguém.
Houve até várias comemorações.
Houve uma concertação de boas vontades. Sim.
Houve edição das obras completas, houve até um esforço importante para o conseguir.
Certo. E a estátua foi inaugurada nesse contexto. As estátuas também, não é só o problema do enfoque histórico. Em relação a uma estátua, pode haver um problema de discordância quanto à pessoa. Pode haver um problema de discordância quanto ao momento da inauguração, da implantação do monumento. Pode haver uma discordância estética quanto à forma como o monumento está concebido, uma questão de gosto. Há sempre essa problemática.
E nós temos algumas estátuas particularmente desagradáveis.
Sim. Em princípio, isso é normal. Depois, também a outra coisa que é normal é que, em circunstâncias normais, as estátuas são colocadas ou ateadas por deliberações de órgãos representativos, que em princípio são órgãos municipais. E é por isso que em muitas destas circunstâncias, estes movimentos acabam por desembocar em petições que acabam por ir parar aos municípios e depois os municípios deliberam. Os municípios, na sua deliberação, também têm vindo a evoluir, porque houve alturas em que isto era menos controverso, mas a partir do momento em que estas correntes e grupos de opinião têm influência em segmentos do eleitorado, isso passa a ter um certo valor de pressão em relação aos decisores. E portanto, os decisores também não só se posicionam sobre o problema, mas sobre a repercussão que uma posição deles em torno do problema possa vir a ter na sua eleição ou na sua reeleição. Portanto, há aí um condicionamento, mas é um condicionamento que faz parte do jogo geral da democracia. Agora, o derrube por movimento instintivo de pequenos grupos ou por ações surpresa, as pichagens por ações inopinadas, grupos que alguns deles atuam clandestinamente e não se sabe quem são, e os próprios que podem ser considerados impulsionadores indiretos, às vezes ficam mal colocados e acabam também por desautorizar esses desvios ativistas, porque não se querem comprometer com as consequências controversas dessas atuações. Tudo isto é um fenômeno novo, é um fenômeno moderno, é um fenômeno que se tem intensificado. O grupo Estados Unidos, que tem muito a ver com a questão dos confederados, sobretudo, é um fenômeno que arranca em 2015, quando foram assassinadas em Charleston nove pessoas e depois daí se gerou um movimento a pôr em causa as estátuas e os monumentos de confederados. Já houve 14 remoções nos Estados Unidos. Depois, na América Latina, é o caso de Cristóvão Colombo e de Fernando Cortez. Colombo também vem para a América do Norte.
Mas Colombo também está, neste momento, na América do Norte.
Sim, de forma muito intensa.
Apesar de ele nunca lá ter estado.
Não. E depois temos este fenômeno com mais incidência na Inglaterra e na Bélgica, com o caso mais especial de Leopoldo II, e depois agora também em Espanha, com as questões relacionadas com Cristóvão Colombo, que na Catalunha também desencadearam agora uma controvérsia muito acesa. E depois temos a questão do padre António Vieira e da estátua do padre António Vieira, que é uma questão um pouco surpreendente na medida em que é uma questão que arranca num contexto muito minoritário e muito reduzido, mas como todas as coisas desta natureza, tem um poder de fazer os campos em apreço, decimirem-se com grande intensidade.
José Miguel Pinto, um dos argumentos que tem sido evocado é que algumas destas estátuas representaram, celebraram num determinado momento, heróis, à luz daquilo que eram os critérios dessa época, mas hoje representam valores ou representam heroísmos que, de alguma forma, podem ser considerados ofensivos por uma parte da população e que essa parte da população era uma parte da população que ou não existia ou estava, por assim dizer, sub-representada, escondida, não tinha voz e que agora aparece no espaço público e, portanto, tem voz, quer ter representação e por isso quer exprimir-se dessa forma. Isso, obviamente, é toda a discussão que nos Estados Unidos aparece em torno do problema Da sua representação ou não dos afro-americanos ou dos negros americanos, mas também aqui na Europa e em Portugal, em particular, dos descendentes de africanos, que também de alguma forma reivindicam esse mesmo estatuto, se bem que sua presença em Portugal seja muito mais minoritária do que é nos Estados Unidos e, sobretudo, não sejam descendentes de escravos aqueles que cá vivem. Sente que, de alguma forma, essa entrada no espaço público dessas correntes é uma entrada representativa ou é uma entrada feita por via de outrem? Isto é, há quem, em nome dessa entrada, venha com uma agenda que não é a agenda dessas comunidades?
Eu acho que sim, acho que não é a agenda das comunidades. No caso dos Estados Unidos é diferente, mas no caso português são coisas clandestinas, são coisas feitas mesmo nestas manifestações que aparecem e são nitidamente minoritárias e, aliás, a maior parte das pessoas não estão sequer geneticamente ligadas a esses oprimidos do passado. São pessoas que por causas políticas entram, de facto, num jogo, que me parece um jogo um bocadinho paranoico. Porque é exatamente aplicar os critérios de valor político atuais, ou que pelo menos têm alguma representatividade atual, porque nem sequer são maioritários, a figuras históricas e a acontecimentos históricos que não têm nada a ver com isso. É evidente que, por exemplo, Dom Afonso Henriques não era propriamente um democrata, nem sequer um liberal. É evidente que os reis de Portugal até aos finais do século XVIII, até aos princípios do século XIX, eram monarcas de certo modo absolutos.
De certo modo, até se nos lembramos de Dom José e o seu primeiro ministro.
Exatamente, esses já estão completamente absolutos.
O Marquês de Pombal.
Exatamente. Que era considerado, aliás, o Marquês de Pombal, de certo modo, um progressista da época. Portanto, todas essas ironias da história.
Aliás, é muito curioso que a estátua do Marquês tenha sido-
Porque está alta.
Está alta. É difícil lá chegar. É um local de celebração anual, mas dos clubes de futebol.
Exatamente.
E curiosamente, é uma estátua quase consensual, não sei se é hoje consensual, mas foi até erguida no tempo do Estado Novo, mas vindo como um projeto que vinha da República.
Como projeto que vinha da República, portanto, é uma figura até de uma certa continuidade. Eu, por exemplo, acho que uma das razões por que o padre António Vieira foi vandalizado é porque a estátua é baixinha, portanto, está ali. Normalmente, também estes heroicos vandalizadores não se dão a muitos esforços, portanto, se houvesse um pedestal, naturalmente, não teriam lá ido. Mas é tudo também uma carga de absurdo, é uma coisa importada, é uma moda importada, porque mesmo em relação aos conceitos de racismo que se pretende agora apresentar na sociedade portuguesa, são conceitos que não têm nada a ver. Eu não estou a dizer que não haja algum racismo, sobretudo que não haja pessoas racistas na sociedade portuguesa, aliás, brancos e negros. Não estou a dizer que não existam essas coisas. Agora, todos estes critérios são essencialmente políticos, são de uma espécie de, chamemos de assim, nova esquerda, que anda a pescar causas um bocado por todo lado. Solidariza-se com causas que passam a ser internacionalistas, uma vez que desapareceu a Internacional Comunista, já não existe, nem tem um centro de comando, nem coisa nenhuma. Portanto, solidarizam-se de uma forma mimética com este tipo de causas. E tudo isto desencadeia no espaço público também uma certa paranoia. E atribuem-se a figuras históricas, aliás, o caso do padre António Vieira, numa figura que demonstra ou uma certa má vontade, mas sobretudo demonstra uma grande estupidez e ignorância, porque na sua época foi exatamente um lutador por causas dos índios, até de certo modo dos escravos, um homem que faz um apelo cristão à dignidade dessas pessoas. Portanto, é uma figura completamente mal escolhida, mesmo dentro dos padrões dos protestantes.
Ó Jamela, um dos pontos que é levantado relativamente ao argumento contra o padre António Vieira é que ele era um esclavagista seletivo, no sentido em que ele era contra o esclavagismo dos índios, mas não contra o esclavagismo dos africanos. Ele manifestou-se contra a brutalidade de alguns donos de escravos. Há textos onde se pode inferir que ele era contra, por exemplo, o facto de haver segregação nas festas religiosas, mas não era alguém que se tivesse manifestado contra a escravatura.
Ele tem uma grande concentração na defesa das comunidades indígenas índias. Também temos que o enquadrar na sua visão do projeto jesuíta para a América Latina, porque essa proteção que os jesuítas vão fazer aos índios na América Latina tem em vista uma missionação e uma conquista dessas comunidades pro campo cristão, que depois vai levar à formação de repúblicas para independentes de índios comandadas pela Companhia de Jesus, o que é uma heterodoxia muito mal vista pelo Estado português e pelo Estado espanhol. Essas repúblicas, num entendimento entre Espanha e Portugal, acabam por ser enquadradas pela força na soberania dessas duas potências, porque desafiavam a ordem colonial da América Latina, tal como visionada por espanhóis e portugueses. Portanto, a proteção dos índios é, para os jesuítas, um quid distintivo na missionação, em que eles se pretendem colocar do lado do que avaliam como mais ameaçado para projetar a sua inculturação nesses territórios. Por isso, há um centramento na defesa do índio, o que não deixa de ter o seu valor, porque o índio, em todo aquele contexto, acaba por ser o mais fraco do elo da cadeia da colonização. É um elo mais fraco que os próprios escravos transportados para as plantações. Portanto, é uma opção estratégica da Companhia de Jesus, que mais uma vez apõe numa fronteira do conhecimento, da aventura e pesquisa social muitíssimo interessante. Mas o padre António Vieira é um homem da sua época, não é um intelectual do século XXI produzido pelas universidades norte-americanas. Não é um globalista da esquerda norte-americana.
Bem, nós terminamos aqui a primeira parte. Vamos fazer agora um intervalo para o noticiário e a publicidade. Regressamos dentro de alguns minutos. Jaime Nogueira Pinto, no entanto, há uma coisa que nós temos que reconhecer. Quer dizer, há, por vezes, figuras que são controversas e que, portanto, a sua presença no espaço público pode, de facto, causar alguma discussão. Um exemplo que poderá ser quase consensual, digamos que é o de Leopoldo II. Leopoldo II é uma figura histórica indiscutível da história da Bélgica, está ligada ao Congo Belga, mas a própria história do Congo Belga, o próprio fato de ser um reino dele e não da Bélgica, tudo isso faz dele uma figura particularmente controversa e a própria forma como se deu a colonização daquele território. Portanto, a sua celebração, pura e simples, pode, digamos assim-- aquilo que muitas vezes se defende é a ideia de que: "Ok, sim, senhor, há uma estátua, vamos contextualizá-la". Contextualizar é sempre algo difícil. É pôr uma placa, é pôr um texto explicativo, é algo que se faz, se calhar, bem num museu, é algo que se faz, se calhar, mal numa praça. Nós sabemos que há muitos sítios donde desapareceram estátuas. Não serão muitos, mas enfim, donde o Jaime, de sua casa, havia uma estátua ao pé do Marechal Carmona, que desapareceu. Portanto, no contexto da revolução, foi uma circunstância muito particular. Em Portugal, muito poucas estátuas desapareceram.
Sim, o Salazar, aliás, tinha o bom senso de não querer que fizessem estátuas dele. Teve sempre exatamente isso. Portanto, também não havia propriamente muitas estátuas. Sim, há casos, por exemplo, o caso do rei Leopoldo é um caso, de certo modo, já era uma época que não estávamos propriamente no século XV ou no século XVI. Portanto, é uma figura com aspectos, de facto, muito negros. Aliás, há vários romances. O Conrad, por exemplo, no "Heart of Darkness", tem exatamente passado nessa época da exploração do Congo pelos belgas, de facto, com-
É, o romance que se diz que inspirou até o filme do-
Exatamente, do "Apocalypse Now".
"Apocalypse Now".
É, por causa daquela ideia do rio e tudo isso. Mas aqui, com toda essa controvérsia, são, de facto, casos limite, porque hoje não sei se haverá muitos belgas que terão grande simpatia ou pelo menos vão expressar grande simpatia pelo Rei do Congo. Contudo, como sabemos também, esse estado de pretensa quase feudal foi uma coisa estabelecida também em Berlim, porque deu jeito às potências Deu jeito às potências dominantes exatamente essa criar uma espécie de tertius genus na sua apropriação e na sua partilha da África. É um caso limite. É preciso ver que figuras, desde Churchill até figuras históricas como Colombo ou como até o nosso corte real, etc. Essas figuras fazem parte de uma história de que os povos, na relatividade toda a história, se orgulham. Quer dizer, por cada um ou por cada cinco ou 10 que vão vandalizar ou destruir, haverá 100 que ficam chocados com isso. Está bem, são a tal maioria silenciosa. Também podem reagir, como em alguns sítios dos Estados Unidos começam a reagir. Se reagirem também com a brutalidade com que os outros atacam, transformamos as coisas numa espécie de guerra civil de baixa intensidade. Quer dizer, a paranoia de todo este processo é, de facto, o querer aplicar ou jogar em nome de uma espécie de justiça histórica, que quer corrigir coisas que na época não eram condenáveis, eram normais. Aliás, essas questões de escravatura também têm que ver. Não foram só os povos europeus ou os povos brancos que escravizaram os outros povos. Também os outros escravizavam entre si. E ainda no século XIX, no Mediterrâneo, piratas muçulmanos saqueavam áreas cristãs e levavam esses cristãos como escravos. Portanto, há primeiro uma grande ignorância histórica. E depois há uma demagogia de grupos minoritários esquerdistas que fazem disto uma espécie de nova religião. E depois há também aqui uma coisa muito complicada, que é uma famosíssima frase bíblica, que é a passagem da culpa. Os filhos serão castigados pelos erros dos pais. Por exemplo, na América, de facto, desde a Lei dos Direitos Cívicos de Johnson, em 65, houve um esforço da maior parte dos americanos, brancos e negros, de integração. E é evidente que num país que tem muitas dezenas ou até mais de milhões de habitantes, as comunidades de um modo geral não vivem em confronto. Agora, este tipo de situações, quando acontecem situações, de facto, de violência, que são casos, se forem generalizadas, é evidente que estamos a criar aqui um fermento de tensão e quase de guerra civil entre comunidades, que não me parece que seja um caminho civilizado e que seja um caminho muito construtivo para essas comunidades. Portanto, aqui há, de facto, uma intenção de rutura da vida cívica. Porque, neste caso, o Estado procedeu como devia proceder. O polícia culpado vai ser incriminado, vai ser julgado, vai ser com certeza condenado. E, portanto, há, de facto, aqui uma manipulação claríssima e depois no resto do mundo há uma manipulação claríssima de um acontecimento. Lamentável, mas que está a tomar proporções ou repercussões que estão muito para além do que ele devia representar.
Chamo Gama. Há algo que penso que talvez seja a altura de começar a debater, porque nós, para todos os efeitos, celebrámos há poucos dias o 10 de Junho. Dez de junho é o Dia de Portugal, das Comunidades, é o dia que está associado, supostamente terá sido o dia da morte de Luís de Camões. Luís de Camões, "Os Lusíadas", o poema que celebra a expansão portuguesa. E há, neste momento, todo um discurso de culpa sobre essa expansão. Há um discurso em que diz, por exemplo, que Portugal, todo ele, é uma espécie de museu dos mitos do império e da colonização. Porque por todo lado estão rotundas, praças, instituições, sociedades, museus, estátuas, em que os feitos heroicos do país, heroicos, entre aspas, para assim dizer, estão a ser matraqueados. E tudo isso foi feito à custa do sangue de outros. E, portanto, há quem conteste pura e simplesmente quase tudo. Eu pergunto o que é que restará até quase da nossa história, se formos por este caminho, porque este caminho está a ser feito. Estas palavras que eu li foram escritas esta semana nos nossos diários.
Pois é a opção pela autoflagelação, a opção pela assunção da culpa, a opção pela expiação histórica Enraizando tudo isso na etapa que é a desconstrução da história. Ou seja, aqueles que não fizeram a história e que, pelos vistos, só a querem prosseguir desconstruindo a história passada, entretêm-se a agitar este tipo de argumentário. Mas é interessante verificar uma coisa: essa desconstrução, esse ataque cerrado, é algo que não existe só agora, porque durante muitos anos foi objeto de uma investigação histórica orientada por parte dos outros poderes coloniais ou dos outros poderes mundialmente hegemônicos, que geraram escolas de analistas, investigadores e historiadores cuja única missão era denegrir o colonialismo dos outros. E o colonialismo português foi um bocado posto nessa posição. Se você vir na historiografia inglesa, anglo-saxônica, americana, na historiografia francesa, se vir na historiografia holandesa, encontra imensos autores que se especializaram nessa área, porque se sentiam mais confortáveis a tratar da colonização dos outros do que propriamente a tratar da sua própria colonização. Depois, tem uma circunstância particular e bastante interessante, é que quando se dá a independência das colônias portuguesas, estranhamente, à luz destes critérios atuais, os movimentos de independência dessas colônias não fazem dessas questões, questões de frontline e até procuram depois atenuar um pouco o que podia ser essa via confrontacional, para recuperar mais uma via de cooperação, de harmonização de interesses, de tentativa de estabelecer um modus vivendi que fosse benéfico para ambas as partes e até depois de estabelecer, por consenso, uma comunidade de todos esses países irmanados por uma língua comum. Portanto, há aí uma perspectiva diferente. O que é agora novo é que essa autoflagelação tem por principais intervenientes jovens historiadores que procuram encontrar um espaço público nas correntes historiográficas e nas universidades, isto é, abrir cadeiras de História, abrir áreas de pesquisa que, no fundo, justifiquem a instituição de cursos e a instituição de carreiras docentes especializadas nesse tipo de temáticas. E, portanto, há uma aliança entre esse interesse, que é mais um interesse corporativo do que científico, e grupos que até já são grupos de originários de países terceiros, mas nascidos nos países europeus, neste caso, nascidos em Portugal. Não muitos que percorrem esse tipo de orientação, mas percorrem esse tipo de orientação sob orientação e tutela de europeus, não sob a liderança desses próprios africanos, asiáticos ou latino-americanos. Ou seja, há aí uma amálgama que tem uns doutrinadores, que em regra são fracos como pesquisadores e investigadores e que compensam com ideologia a sua falta de capacitação teórica para abordar os problemas e que depois procuram gerar essas clientelas acadêmicas que dão respaldo a essas ambições corporativas no tecido escolar. E, naturalmente, a disputa pelo ensino da História e pelos conteúdos do ensino da História é sempre uma coisa muito interessante, muito relevante, e sobretudo quando a disputa pelos conteúdos da leitura histórica extravasa para a grande comunicação e para o acesso aos grandes media e extravasa também para o controle dos programas de História no básico e no secundário. Portanto, há aí também essa endogenidade de toda esta corrente desconstrutiva de um estudo mais científico e construtiva de uma interpretação mitológica muito orientada para finalidades de ativismo político prática e imediata.
Já me
Já me negaria, Pinto. Essa questão, para todos os efeitos, tem também algo importante que é: os países, as nações, as comunidades, se quisermos, precisam
de referências comuns. Nós podemos olhar para trás e termos essas referências comuns, sabermos que todas elas têm áreas cinzentas ou áreas menos luminosas, que não há heróis que não tenham lados menos positivos. Mas precisamos deles. Há países que inclusivamente têm como grandes referências derrotas militares. Estou a lembrar-me da Sérvia e da famosa Batalha de Kosovo Polje. Portanto, não têm obrigatoriamente de ser vitórias para serem referências mitológicas fundadoras.
E uma batalha de Lalis também.
Ou o nosso caso de Lalis também é um facto. Como é que nós ficamos, de repente, tudo o que os nossos navegadores fizeram passar a ser visto como atos condenáveis?
Claro que isto é um bocadinho estas correntes um bocado delirantes e desejosas de consideração social. E como o Jaime Gama, aliás, muito bem dizia, de criar os seus espaços e as suas clientelas e que de certo modo tomaram conta nos últimos anos. Nos últimos não, já há uns anos larguíssimos, tomaram conta de certos setores das humanidades, nomeadamente o ensino das humanidades e da história, em muitos lados, inclusive em Portugal, nos Estados Unidos, é uma coisa perfeita. E exercem, aqui talvez ainda não com essa brutalidade e essa violência, mas exercem exatamente um controle e um silenciamento de quaisquer dissidências, como se fosse indício de mau-caráter. Contra isso, nós temos fundamentalmente que primeiro contextualizar a história. De facto, com certeza que grandes figuras da nossa história, Nuno Álvares, por exemplo, ou Dom João I, de facto não eram partidários da resolução pacífica dos conflitos. Quando os espanhóis e quando os castelhanos nos invadiram, reagiram brutalmente. É evidente que nos fenómenos de navegação e colonização, há também muitos atos de violência, de brutalidade, nem de outro modo se poderia proceder. Agora, um povo, uma comunidade, precisa sempre de mitos e de ritos, quer dizer, não há comunidade, nenhuma comunidade sobrevive a não ter esses mitos e esses ritos. E da forma como exatamente estes desconstrutores da história atuam, quer dizer, vão desqualificando, vão desconstruindo a nossa identidade, a nossa solidariedade, em nome de causas absolutamente, ainda por cima, absolutamente minoritárias, porque nem sequer são causas que tenham algum registo importante do ponto de vista até eleitoral, de estatísticas eleitorais. E quem conheça relativamente bem o país e os vários grupos sociais do país e tenha alguma experiência de vida, sabe que essas causas não fazem parte do sentir comum da maior parte dos portugueses. É evidente que também como Jaime Gama tinha dito, que a partir do momento que esses grupos vão tomando conta do ensino da história, sobretudo no setor do primário e no secundário, vão tomando conta, vão refazendo e inventando uma história, é evidente que isso mudará a médio prazo o sentir do povo e das pessoas. E isso é que tem que ser denunciado e tem que ser combatido, porque o Nietzsche ensinava isso muito bem, quem se apropria da história do passado, apropria-se do presente e sobretudo apropria-se do futuro. Portanto, é importante reagir e contar as coisas como elas foram. É evidente que não vamos branquear, não é preciso sequer branquear, eram fenómenos de épocas, nem sequer somos especialmente notórios, por sermos um povo especialmente marcado por massacres e carnificinas.
Bem, terminamos mais um "Conversas à Quinta". Estaremos de regresso dentro de uma semana com um novo tema.