Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bem-vindos de regresso ao "Conversas da Quinta". No final da semana passada, morreu em Barcelona um antigo presidente de Angola, durante muitos anos presidente de Angola, José Eduardo dos Santos. Na altura em que estamos a gravar este programa, ainda não se sabe o que vai acontecer com o corpo de José Eduardo dos Santos, onde será o funeral, porque há uma disputa dentro da família e entre, pelo menos parte da família, e o governo de Luanda. Este final de vida acabou por ser um pouco atribulado, mas independentemente disso, vale a pena, por um lado, recordar José Eduardo dos Santos e, por outro, tentar perceber até que ponto o atual regime angolano persegue ou não o seu legado e a razão de ser destas tensões. Jaime Guerra Pinto, José Eduardo dos Santos era aparentemente apenas um tecnocrata relativamente competente em 1979, quando ascende à liderança do MPLA, depois da morte de Agostinho Neto, mas terá superado todos os seus adversários e criado um regime que durou mais de 38 anos. Mais dois anos do que aqueles que o Salazar foi presidente do Conselho de Ministros.

Exatamente, Salazar foi 36 anos.

36 anos. Como é que isso se explica?

Eu acho que é um caso que a gente tem visto já em várias situações na história política e muitas vezes neste tipo de regimes, em que há uma figura no momento de uma sucessão, que talvez fosse um bocadinho surpresa. Porque o presidente Agostinho Neto estava doente, mas talvez na época não se esperasse que fosse morrer tão depressa. Era um homem ainda relativamente novo. E portanto, havia ali várias figuras de proa, figuras históricas, Lúcio Lara, o próprio general Ndalu, uma série de figuras de primeira linha e de outra geração. E penso que algumas dessas figuras não quiseram entrar numa luta acesa, na altura, por essa sucessão, e esperaram e, de certo modo, toleraram ou até deixaram acontecer uma figura como José Eduardo dos Santos, que era ministro dos Negócios Estrangeiros. Esse ministro dos Negócios Estrangeiros já tinha revelado, com certeza, algumas qualidades ou capacidades diplomáticas. Mas, de facto, como não era propriamente uma das figuras de proa, eu acho que essas figuras de proa deixaram naquele duplo sentimento, por um lado, que o poderiam influenciar, portanto, poderiam, através dele, serem eles os verdadeiros chefes de fila da banda. E por outro, pensando que seria uma espécie de interregno e logo se veria. José Eduardo dos Santos, como outros dirigentes que estiveram historicamente em situações dessas, percebeu que a partir do comando do aparelho político-administrativo, do Estado, podia exatamente ganhar influência e poder dentro do próprio partido e gradualmente ir dominando algumas dessas figuras de proa que antes, de certo modo, tinham consentido ou que se tinham apagado para o deixar passar. E assim foi o que aconteceu. E não seria a primeira vez, nem será a última vez, que este tipo de situações acontecem. Estávamos a falar, na época, de um partido único que tinha ganho a primeira fase da guerra civil, estava, nesta altura, mais ou menos a reacender-se a segunda fase da guerra civil, a UNITA tinha recuperado alguma capacidade militar, estava a ser ajudada na altura pela África do Sul, por Marrocos, já pela França também. Mas na altura, o domínio e o controle de Angola pertencia, de facto, ao governo, ao poder do MPLA. E portanto, José Eduardo dos Santos fez exatamente, e não é propriamente um segredo, foi a estratégia que seguiu, até porque também foi respeitando e aceitando esses mais velhos. Foi jogando com o equilíbrio e com as próprias diferenças entre eles e conseguiu progressivamente ganhar a hegemonia dentro do partido e do Estado.

Jaime Gama, há um momento crítico. Na fase inicial, o regime angolano é um regime de influência marxista, influenciado pela União Soviética, influenciado por Cuba. Os cubanos são decisivos para a vitória do MPLA, logo em 1975. E depois, na passagem da década de 80 para a década de 90, o regime transfigura-se e passa a adotar a economia de mercado, mas que é uma economia de mercado sui generis. José Eduardo dos Santos falava em acumulação primitiva do capital, quer dizer que isso, no fundo, era basicamente uma desculpa para o enriquecimento rápido da elite do regime. Como é que olha para este período?

É talvez importante vir um pouco mais atrás. O MPLA tem características na sua fundação que o recortam, porque o MPLA que vai existir em 75 não é bem o MPLA que existia antes de 75. Há aí também uma evolução. E há também a circunstância de o MPLA se ter visto bastante circunscrito e limitado na sua intervenção quando se dá a oportunidade da independência. E a própria trajetória de José Eduardo dos Santos como jovem militante, a sua ida para o Instituto dos Petróleos e os Químicos em Baku para estudar, adquirir uma capacidade tecnológica e também alguma capacidade na área das comunicações militares, que depois o leva a desempenhar, ainda antes da independência, um papel em Cabinda. Cabinda local muito difícil para o MPLA, porque não nos esqueçamos que havia Mobutu, Zaire, o MPLA foi corrido para o Congo, Brazzaville, mas a sua ação em Cabinda era muito dificultada, não só pela FNLA, no norte de Angola, como também pela própria FLEC, que era um movimento que fazia grande atrição ao MPLA em Cabinda. Portanto, há aí essa primeira situação. Depois há, em Angola, a vicissitude do processo de transição na descolonização, uma emergência do MPLA com apoio externo. E depois há um grande conflito interno, porque há o conflito interno que já vinha de longe com a Frente Leste e com Chipenda, houve o conflito com a revolta ativa, há o conflito do fraccionismo com o nitismo.

Esse conflito do nitismo, que é em 77, é o mais sangrento de todos, porque apesar de todos os outros foram dissidências ou perseguições, mas não houve nada que se parecesse com o nitismo.

Sim. José Eduardo dos Santos, ao assumir o Ministério dos Negócios Estrangeiros, ainda no governo presidido por Lopes Nascimento, o primeiro governo da independência, penso que é valorizado pela liderança de Neto na componente ligação de José Eduardo dos Santos à sua formação na Rússia e conhecimento da área do petróleo. E a importância do petróleo na geopolítica angolana e o que o petróleo e um bom conhecimento das dinâmicas do petróleo pode levar à manutenção de um relacionamento com a França e com os Estados Unidos. Depois há também a circunstância que resulta, quando morre Neto, da circunstância de Lúcio Lara entender que não tem condições para suceder a Neto, porque toda a origem do nitismo é a contestação a Lara, a Íco Ferreira e a outros. Portanto, à componente mulata do apoio a Neto. Consequentemente, José Eduardo dos Santos tem a vantagem da sua origem não mulata, de pertencer a uma geração mais jovem, que não está plenamente envolvida nessas atrições muito duras do MPLA, internas, e também de conhecer e ser capaz de ter alguma expertise no relacionamento com a Rússia, que é um parceiro muito importante de Angola, mas também na janela de oportunidade pela temática do petróleo, da relação com países, não só com a União Soviética, e por isso também a questão da França e dos Estados Unidos. É, portanto, todo esse conjunto de fatores que o leva a ser eleito presidente do MPLA e automaticamente, por tradição do MPLA, a ser presidente da República e comandante-chefe das Forças Armadas. Portanto, esse modelo é um modelo que prevalece nessa sucessão. A construção do próprio poder interno no MPLA, por José Eduardo dos Santos, é um trabalho do próprio, que vem a seguir e das vicissitudes seguintes, o que é valorizado em seu benefício nesse processo de disputa, que implica a tomada de medidas discretas para emoldurar algumas das figuras mais clássicas, sempre num processo subtil e não agressivo, que o vai caracterizar. Mas isso já é a fase seguinte, é a adaptação à queda da União Soviética, à queda do comunismo e a tudo isso.

José Negra Pinto. Essa passagem é feita na altura da Com os acordos de Bicesse, depois com a paz com a UNITA, mas essa paz fracassa. Olhando à distância, já passaram praticamente 30 anos desses acontecimentos, ainda hoje se discute um pouco responsabilidades naqueles acontecimentos. Até que ponto é que a UNITA foi empurrada para uma desconfiança do que estava a passar, aos acontecimentos de Luanda, quando a cabeça da UNITA é decapitada, mas ao mesmo tempo Jonas Savimbi não tinha vontade nenhuma de aceitar os resultados.

Eu penso que, na conjuntura, a UNITA assumiu um bocado a ideia de que como na Guerra Fria tinha estado ao lado do vencedor da Guerra Fria. De certo modo, a Guerra Fria tinha acabado. E aliás, os Estados Unidos, ainda antes de Bicesse, até nas vésperas de se começarem a identificar as negociações de Bicesse, os Estados Unidos, através do então, nessa altura, desk officer do National Security Council para África, Walter Kansteiner, o secretário de Estado Jimmy Baker tinha mandado prevenir o doutor Savimbi de que apressasse e que acelerasse os acordos de paz, porque os Estados Unidos estavam a acabar a Guerra Fria com a União Soviética e, portanto, queriam deixar esses conflitos chamados periféricos arrumados ou pelo menos encaminhados para soluções pacíficas. Mas o que o doutor Savimbi confiou, de certo modo, demasiado nessa lógica da Guerra Fria, que estava exatamente por definição a acabar ou que já tinha acabado, é que confiou demasiado e, portanto, de certo modo, ficou convencido de que ia ganhar. Também é preciso ver que, e eu lembro-me muito bem dessa circunstância, que nem um, nem outro, nenhuma das partes confiou inteiramente na outra, ou seja, confiou inteiramente no sentido de desarmar absolutamente. Houve uma parte, houve forças da UNITA que ficaram armadas discretamente. E o MPLA, a partir de uma certa altura também, através de unidades de polícia especial, também de certo modo, manteve uma certa capacidade militar. Portanto, não houve isso. E houve também aqui uma outra coisa, uma outra responsabilidade, foi que exatamente os aliados, de uma parte e de outra, de certo modo, em vez de se terem concentrado no cumprimento dos acordos, foram bastante laxistas no cumprimento. Por exemplo, nomeadamente a Constituição, por exemplo, uma coisa que seria essencial, que era o exército único, essa Constituição esteve sempre atrasada. Moçambique ganhou com isso, porque Moçambique ganhou muito com os erros de Angola. Em Moçambique, quando se fez depois os acordos de Roma, as coisas avançaram e os mediadores internacionais, mais que saber qual era o lado que ia vencer ou prevalecer, quiseram que de facto as coisas fossem cumpridas e, portanto, que houvesse efetivo desarmamento, que houvesse essas coisas todas. Em Angola houve um certo laxismo em relação a isso. E, portanto, cada lado, de certo modo, estava convencido que ganhava. Houve uma coisa que eu acho que incendiou um bocado os ânimos, que foram, sobretudo, a maneira de transmitir os resultados. Começaram a transmitir os resultados que davam, de facto, a UNITA não só a perder, como a perder em áreas onde eles estavam convencidos que não iam perder. E, portanto, a ideia de que havia ali fraude, etc, foi uma coisa que surgiu com muita força. E depois, como estaremos lembrados, passaram-se praticamente quase um mês em várias tentativas de se salvar os acordos e ao fim desse mês houve, num sábado, penso eu que fim de outubro, princípio de novembro, houve de facto aquele movimento em Luanda em que foram liquidados uma série de dirigentes da UNITA. Pronto, e a guerra voltou em força. A UNITA tinha uma certa capacidade no resto do país e ocupou uma série de áreas. E a guerra recomeçou. No fundo, houve sempre uma desconfiança muito grande de parte a parte e, de certo modo, os próprios negociadores também não foram muito exigentes. Foram tentando salvar o processo, transigindo com as sequências ou sequelas dessa falta de confiança. Isso, claro, na hora da verdade, as coisas estavam no terreno e foi impossível pará-las.

Muitas vezes quando se escuta o legado de José Eduardo dos Santos, ele gostava de se apresentar como arquiteto da paz ou homem da paz. Jaime Gama, concorda com esta visão ou, no fundo, Eduardo dos Santos é o arquiteto da paz porque, dizendo de uma forma um bocadinho seca, matou Jonas Savimbi? Eu sei que não foi ele que matou diretamente.

Penso que José Eduardo dos Santos soube aproveitar muito bem, na construção da imagem, o antagonismo com a imagem de Jonas Savimbi. Ou seja, quando um aparecia sempre com pistolas, fardado, a fazer discursos um pouco incendiários, José Eduardo dos Santos sempre se colocava numa posição de moderação, abertura e integração, e sempre com um espírito de adaptabilidade. Adaptabilidade que, no fundo, resultava do fim dos regimes de partido único como ideologia e, portanto, uma certa abertura ao multipartidarismo. Acabou o comunismo, vamos ver como conseguimos compatibilizar com o capitalismo. Acabou o marxismo, como vamos ter aqui uma coisa que se possa definir vagamente como social-democracia e aderir até à Internacional Socialista. Portanto, um certo sentido pragmático e também um sentido de gestão de imagem. Mas isso não significava a ausência de uma teoria. E essa teoria era uma teoria onde se balanceava, por um lado, o emprego da força, das várias forças de coerção, não só militares, como securitárias e dos serviços de informação, a noção de que a vitória é algo que se conquista com aliados e depois uma abertura à negociação, com uma promessa de integração, mas uma negociação como um vencido, nunca uma negociação com uma parte igual, e absolutamente igual. E por isso a guerra civil se prolonga no pós-Bicesse, ao Protocolo de Lusaka e depois tudo aquilo, no fundo, vai acabar num protocolo militar que acaba por ser a rendição do remanescente militar da UNITA, porque uma parte do mecanismo político já tinha sido integrado na UNITA renovada e na presença da UNITA renovada no GURN e no Parlamento de Angola. Portanto, há um faseamento de etapas que leva a essa consolidação. Ou seja, há uma doutrina que tem a ver também com a doutrina sobre a conversão do MPLA e a sua desideologização em relação ao marxismo-leninismo, à sua componente mais radical, mas que não é uma cedência quanto à teoria de que esse partido deve continuar a ser um partido hegemônico, o partido que governa, o partido que manda. E por isso a importância do controle da ação militar, a sua coordenação com a ação política, uma grande disciplina do sistema, quase que a nulificação do MPLA enquanto força política que comandasse as deliberações do presidente e a sua transformação num comitê de campanha eleitoral, num comitê de campanha para a realização dos chamados grandes eventos de massa. E aí uma conversão e uma integração, com muita influência dos marketeiros brasileiros, das novas técnicas de comunicação, a televisão, a rádio, enfim, um upgrade no uso da informação, mas visando um controle global da situação, com aberturas, com integração, mas com integração não disruptiva, portanto, com a integração não antagônica, com a integração nunca alternativa. E também uma redução do campo dos desafiantes internos e a sua domesticação através da participação em várias outras áreas de atividade, não diretamente políticas, mas que eram apetecíveis para os protagonistas e que os mantinham reverentes ou pelo menos neutralizados em relação à disputa, a qualquer disputa.

Está na parte concordante que José Eduardo dos Santos, no fundo, comprou a UNITA?

As forças políticas que disputaram o nacionalismo angolano, a verdade é que acabaram todas integradas num sistema de que o MPLA e Eduardo dos Santos foi o pivô central. E isso ainda hoje é visível. Isso é um fato, é um dado da vida política angolana, que também sabe muito bem projetar face a terceiros, a ambição de um papel regional e que sabe vender esse trabalho às instituições internacionais e à comunidade internacional com alguma maestria, porque quer a intervenção na independência da Namíbia, quer a valorização da sua ação no fim do apartheid na África do Sul, quer depois as sucessivas intervenções na RDC, quer também uma certa tutela sobre o Congo-Brazza, uma tentativa de subida na área do Golfo da Guiné. Não com tanto êxito, fazem com que Angola converta bem a sua localização geográfica, gerida com uma noção estratégica do seu posicionamento, quer em fator de consolidação de um poder interno, quer em fator de legitimação dos seus serviços internacionais e por isso também sempre uma porta aberta. Quem começou um percurso muito isolado com a União Soviética e depois com os cubanos, mas sempre também teve a ambição de ser um interlocutor dos Estados Unidos, em quase, não digo pé de igualdade, mas em plataforma muito elevada, nunca perdendo também essa janela. Ou seja, é um país em que um grupo político começa por ser muito minoritário, explora bem as divergências internas e se apresenta como agregador em sucessivas salamizações e integrações dos adversários e do que resta dos adversários, e depois na zona como um referencial de força que tem potencial para exportar geração de segurança, de integração regional, de intervenção na mediação de conflitos. Portanto, é também um papel que é valorizado. E depois também há a chamada abertura econômica, que correu como todos sabem, mas que é obviamente também algo que seduziu o mundo inteiro e o mundo ocidental. Portanto, estivemos no top do apogeu do sovietismo, estivemos na abertura globalizadora do capitalismo mundial, estivemos na relação com a China também, a procurar extrair o máximo, somos capazes de ter relações extranormais com Israel. Portanto, há uma versatilidade tática imensa na construção deste poder. E depois há um referencial das instituições, uma certa solenidade protocolar, uma capacidade de gerir o aparato militar, o aparato securitário, o aparato diplomático, o aparato universitário. Portanto, isso é algo que também deve ser estudado.

Já me garimpo. José Eduardo dos Santos enganou-se no sucessor? Estas tensões entre ele e João Lourenço, entre os seus homens e João Lourenço, as perseguições pelo sistema judicial aos filhos, a alguns dos generais que estiveram próximos de José Eduardo dos Santos, não foi uma transição de poder como ele sonharia ter feito?

Não sei. José Eduardo dos Santos tinha, quando se indicava muito, houve aquela altura que praticamente... Aliás, voltando, indo um pouco atrás, não nos podemos esquecer que quando pela primeira vez, se não estou em erro, logo a seguir à morte de Savimbi e à paz, etc, José Eduardo dos Santos, logo a seguir ou pouco antes, anunciou, deixou cair que estaria publicamente num discurso, não sei, já não me lembro bem exatamente qual foi o âmbito institucional, mas foi no fundo uma ideia de que estaria de saída, estaria a considerar a sua saída. João Lourenço, que na altura era o secretário-geral do MPLA, de certo modo candidatou-se. Deixou ele também dito e expresso que se o presidente estivesse de saída, ele estaria na linha de candidatar-se. Estaria disponível para. Isso levou ao...

Mas houve ali um momento em que aparentemente caiu em desgraça.

Exatamente, caiu a seguir a isso. Aliás, é uma regra muito interessante deste tipo de sistemas e o Ismail Kadare, o escritor albanês, tem uma coisa muito interessante chamada "O Sucessor", que é um livro que eu aconselharia, até acho que foi traduzido, não sei, mas que é um livro que eu aconselharia, porque é exatamente o problema que tem aquele que se candidata ou que aparece como sucessor neste tipo de regimes, porque passa a ser o bode expiatório de tudo o que corre mal, passa a ser o objeto de guerra de todos os outros que acham que foram postos de lado, etc. João Lourenço, na altura, se não estou em erro, foi nomeado segundo vice-presidente da Assembleia Nacional, que passar de secretário-geral de partido para isso, foi de certo modo uma despromoção e teve, de fato, ali um período de desgraça. Desgraça, enfim, foi de apagamento. Mas quando José Eduardo dos Santos está a preparar, de facto, a sua sucessão, como se lembrarão todos, fala-se muito tempo do sucessor poder ser Manuel Vicente.

Manuel Vicente era o homem da Sonangol.

E era um homem que tinha afinidades, de certo modo, não pela linha do sangue, mas pela linha da proximidade familiar, tinha afinidades, estava muito próximo de José Eduardo dos Santos. E José Eduardo dos Santos percebeu que ter alguém que, na sua preocupação, que eu penso que era uma das preocupações que José Eduardo dos Santos tinha, que era de defender e proteger a sua família quando ele desaparecesse, os filhos, nomeadamente, e os interesses deles Pensou exatamente que alguém que viria da mesma área não poderia eficazmente fazer essa proteção. E que João Lourenço, como estava de certo modo relativamente antagonizado, vamos pôr as coisas assim, que poderia exatamente ser uma opção interessante. E ele tira o João Lourenço dessa área mais sombria ou mais subalterna em que estava, digamos, mais escondida, segundo vice-presidente, acho eu, da Assembleia Nacional, e traz para Ministro da Defesa. E João Lourenço, portanto, faz. Ora bem, João Lourenço era uma pessoa que conhecia muito bem o aparelho do partido, o aparelho da segurança do Estado e também o aparelho militar. Portanto, elementos essenciais e fundamentais do poder. É evidente que quando sucede a José Eduardo dos Santos, ele tem um problema complicado, quer dizer, que é, por um lado, como vem com aquele discurso e com a expectativa de que irá fazer correções que o seu antecessor já não podia fazer. E uma delas, de facto, era o problema da corrupção, da cleptocracia, tudo isso. E, portanto, eu penso que há aí uma ofensiva que atinge, por um lado, exatamente alguns familiares do presidente, que também estavam expostos a isso, exatamente pelos lugares e pelos interesses que representavam, e atinge depois pessoas próximas, até porque normalmente há esta tentativa sempre de exemplaridade. Portanto, eu acho que José Eduardo dos Santos, não direi que ele se enganou, direi que ele correu um risco, que de certo modo tinha que correr. Quando se está neste tipo de posições em que se concentra de tal modo o poder e que era quase como se fosse uma monarquia, mas não é uma monarquia, quer dizer, era uma monarquia antiga de poder absoluto, mas não é.

Na prática, ele tinha uma corte.

Sim, é isso. E claro que aí há sempre um desconhecido, e esse desconhecido ou pode ser o sistema aqui do Salazar, que de certo modo, como a gente entende hoje em dia, enquanto estava, sabia que era assim, depois já não o preocupava, ele achava que depois já não tinha mão nenhuma nisso, ou então o sistema de Franco. Franco, apesar de tudo, não se importou de criar um sistema que ele sabia muito bem que, na substância, não ia corresponder àquilo que ele queria, mas deixou um sistema. Pronto. José Eduardo dos Santos, de facto, o que é que se faz quando se está numa posição destas? O que é que ele fazia? Ele também podia fazer como alguns. Em África, deu-se em vários casos, em África e noutros sítios, puseram os próprios filhos a suceder, mas ali era muito difícil, conhecendo o MPLA e a mentalidade das pessoas, era muito difícil uma sucessão desse tipo. Era muito difícil, porque também não é, só para acabar, há um ponto aqui que é importante. José Eduardo dos Santos não era temido fisicamente, não era uma figura sanguinária, portanto, não havia aquele medo físico. Portanto, ele também tinha que negociar e é evidente que correu riscos. E foi o que aconteceu.

José Miguel Gama. José Eduardo dos Santos, diz José Miguel Pinheiro, não é uma figura sanguinária, mas exerceu o poder com mão de ferro durante décadas e décadas. Enfim, em parte com a influência que foi comparando, mas sem tirar para Angola o partido das condições excepcionais que Angola podia ter tirado proveito, nomeadamente os recursos naturais.

Uma coisa que eu teria imensa curiosidade é saber se José Eduardo dos Santos escrevia ou não um diário. E se deixou ou não memórias escritas, porque ele não era de muitas falas, não era um doutrinador no sentido ideológico da definição de um sistema político, nem sequer um teorizador sobre relações internacionais, mas era alguém que se dedicava bastante à preservação do seu próprio poder. Isso não é fácil em democracia e não é fácil no contexto em que ele o exerceu. Portanto, esse talento do poder é algo que até beneficiaria imenso em termos de estudo e de conhecimento, se tivesse algum suporte. O presidente Aristides Pereira escreveu, o presidente Chissano escreveu. Seria interessante saber se há isso ou se não há para apurarmos melhor as coisas. Agora, tanto quanto me é dado ver, José Eduardo dos Santos tinha um sucessor escolhido definitivo, e esse sucessor era sempre José Eduardo dos Santos. Portanto, aí ele não vacilava. E vinha entretendo uns candidatos a sucessores e tudo, e depois, no final, quando isso também já não era possível preservar de forma intacta, inventou aquela solução: "Bom, então vai Lourenço para presidente da República e José Eduardo dos Santos fica presidente do MPLA". E a primeira reunião do grupo político do MPLA deve ser algo que não agradou muito a João Lourenço, quando viu num púlpito, ao meio, num Uma plataforma, uma cadeira mais alta de José Eduardo dos Santos e o Presidente da República ao lado, numa cadeira mais baixa. A partir daí, há uma disputa que se estabelece e que tem muito de comparativo com o Xi Jinping na China, que é uma disputa em que a temática da corrupção e dos negócios envolvendo o Estado avança como dossiê com aquele contorno que nós sabemos. E depois é também algo que corta muito à volta de José Eduardo dos Santos, na família, no círculo de amigos, mas vai também sempre deixando incólume a figura de José Eduardo dos Santos, a qual agora até é objeto de exéquias nacionais de celebração e de veneração, e portanto fazendo modelo de alguém cuja maior detração é feita pela Procuradoria angolana atuando às ordens do atual presidente de Angola. Portanto, há esse contexto, que é um contexto dramático e que é um contexto que também deve merecer de todos nós um estudo desapaixonado, um acompanhamento, um seguimento, porque a modernidade às vezes eliminou estes contextos de luta e disputa pelo poder e o regresso a um cenário shakespeariano mais direto da tematização do próprio poder ganha na reflexão sobre este caso bastantes elementos de informação e ajuda a formar uma teoria política que tem sempre destes exemplos da antropologia política profunda, quadros fabulosos para o nosso próprio enriquecimento, como leitura, como interpretação e como estudo.

Sim. Bem, vamos ficar à espera ver se há algum diário. Eu suspeitaria que não, mas seja lá como for, nós vamos ter que regressar a Angola numa das próximas semanas, porque vamos ter eleições agora em agosto. Umas eleições interessantes, decisivas, com a UNITA com alguma ambição, mas falaremos disso mais adiante e entretanto talvez possamos compreender como é que vai acabar esta disputa entre a família e o governo. Regressamos para a semana com um novo tema no "Conversas à Quinta".