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Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta". Vamos continuar no mundo dos livros. Na semana passada falámos aqui de um escritor francês, hoje vamos falar de um escritor português. Vamos falar de Raul Brandão, a propósito dos 100 anos daquele que é seguramente um dos seus livros mais conhecidos, "Os Pescadores". "Os Pescadores" saiu em 1923. É um trabalho que hoje em dia continua a ter a sua originalidade, porque Raul Brandão começou por fazer uma carreira militar, mas depois foi jornalista e escritor, e isto é algo que fica entre o jornalismo e a literatura. É uma reportagem, ao mesmo tempo, um testemunho, um retrato que era o país nessa época. Jaime Gama, que país era este de "Os Pescadores" e que homem era este Raul Brandão?

O país era o país de há 100 anos, era um país que estava numa fase política complexa, tinha atravessado a Primeira Guerra Mundial, estava numa transição de presidentes da República entre o António José de Almeida e depois o Teixeira Gomes. Tinha havido um certo apaziguamento com a Igreja na fase final do António José de Almeida. Houve, durante este período, o julgamento dos responsáveis da "leva da morte" e o país viveu muito essa contenda e esse caso, quer o julgamento dos responsáveis diretos, quer o julgamento daqueles que não tomaram as medidas por causa devidas. E houve até uma mudança política no quadro parlamentar e dos governos, porque a um governo de António Maria da Silva sucederam dois governos da direita da República, um primeiro governo de Ginestal Machado e um segundo governo de Álvaro de Castro. O que foi uma experiência interessante, porque a direita não afonsista conseguiu agrupar-se com a morte do António Granjo. Isso também provocou questões difíceis de liderança e leva os assassinatos da "leva da morte", mas houve um reagrupamento e houve esses governos que mostraram que havia também outra coisa que não apenas o afonsismo. Afonso Costa até foi nesse período convidado para formar governo, não foi capaz, e portanto, há essa mudança que tem algum significado. Mas continuava, naturalmente, a haver muitas greves, muita agitação social e continuava a haver, quando havia greves, também o respectivo acompanhamento por atentados bombistas. Era também um sistema inseguro e que procurava o seu caminho com algumas dificuldades. Raul Brandão é um homem saído desse mundo. Ele não é um militante político, ele nunca militou num partido político. Ele seria tendencialmente republicano. Era um jornalista de carreira militar, dizem que por influência da mãe, para a qual não tinha grande talento nem vocação, embora tivesse durante os 20 anos que esteve no exército, uma folha de serviços sem louvores nem sanções, desempenhando funções não muito nas áreas mais operacionais do exército, mas em outras tarefas, e depois acabou por sair do exército. Ele depois pediu para ser reintegrado mais tarde. Esteve como bibliotecário do Regimento de Infantaria n.º 18 de Guimarães para completar possivelmente o seu tempo de serviço. Mas ele faz toda a sua carreira ligado aos círculos intelectuais no início do Porto, porque ele tenta o Curso Superior de Letras no Porto, depois sai o jornalismo em Lisboa, um jornalismo muito ligado a uma atividade criadora na literatura, muito contacto com intelectuais em Lisboa e também no Norte, porque ele tinha ali umas referências fortes. Teixeira de Pascoaes era uma referência forte. Depois, em Lisboa, também o grupo que vai vir a fundar a "Siena Nova", chamado Grupo da Biblioteca Nacional. Nessas suas crônicas, ele é um misto ensaísta, de etnólogo, de jornalista, de dramaturgo. É alguém entre o romantismo e o modernismo, com extraordinário talento criador na sua prosa e tem este livro, "Os Pescadores", que é o seu livro mais célebre, lançado em 23, que é praticamente um livro em que ele percorre a costa portuguesa. É um livro que mistura várias coisas que ele escreveu Dois dos grandes textos, "A Morte do Arrais" e "A Pesca da Sardinha", até já tinham sido publicado antes como peças de jornalismo criativo e jornalismo literário, e tem grande sucesso. E ele via esta sua obra como a primeira peça de uma obra maior, era um projeto que ele tinha sobre a vida humilde do povo português, em que ele incluiria depois um livro sobre os lavradores, outro sobre os pastores, outro sobre os operários. Aliás, ele próprio refere que o seu convívio em Lisboa com sindicalistas e anarquistas, uma vez um anarquista lhe disse: "Olhe, você se quer ser um grande escritor, tem que falar sobre os pobres."

Este livro, "Os Pescadores", devia ser o primeiro de um projeto.

Sim. Que ele não acabou por completar, era esta tal vida humilde do povo português.

Porque ele tem um livro.

Teria vários capítulos e várias abordagens. Os pobres? Sim, tem vários. Este seu livro podemos incluir mais numa temática geográfica. Ele tem três livros dedicados a essa temática geográfica: este "Os Pescadores", "As Ilhas Desconhecidas", sobre os Açores e a Madeira.

Esse é o seu preferido? Não sei se será o seu preferido, mas deve estar perto de si, com certeza.

E "O Portugal Pequenino", que é publicado em 1930. É muito engraçado. Aliás, é o meu primeiro contato com Rál Brandão, quando eu tinha 13 anos, no terceiro ano do liceu, um grande professor, Ilídio Sardoeira, que era professor de Ciências Naturais, recomendava muito ler a maravilhosa viagem do Nils Olsson e este "O Portugal Pequenino", que é a viagem sobre Portugal numa andorinha. É um livrinho que ele escreve com a mulher, com Maria Angelina, e que é inspirado dessa maravilhosa viagem do Nils Olsson e também do "Pássaro Azul" de Maeterlinck. É um livro muito interessante, porque é Portugal visto do ar, numa andorinha. É muito interessante. E, portanto, é essa abordagem geográfica a Portugal, que nele não é uma mera abordagem. Portanto, "Os Pescadores" não é uma descrição turística. Não podemos considerar um livro de viagens.

Não, não é de forma nenhuma.

Não. Mas é um livro em que a paisagem, a cor.

"As Ilhas Desconhecidas", em muitos aspectos, não é um livro apenas sobre a paisagem das ilhas. Ele está muito tempo nos Açores, nomeadamente, e há uma descrição também da forma de vida das populações açorianas.

Sim, e da natureza, e sobretudo, há um certo panteísmo cósmico que ele realça muito nesse livro, "As Ilhas Desconhecidas", que é, aliás, depois um livro que é a matriz de vários outros, porque Vitorino Martins escreve "O Corsário das Ilhas", Pedro da Silveira, "Os Sereis Sinais do Oeste". Depois, até Vicente Jorge Silva fez um filme muito interessante. E agora até também esse tema tem vindo a ser usado por escritores mais contemporâneos, Onésimo Almeida e Nuno Costa Santos. Onésimo Teotónio Almeida, João de Melo, isto é, há depois uma recuperação das ilhas desconhecidas por autores mais contemporâneos. Mas "Os Pescadores" são um livro fundamental para quem gosta da costa portuguesa, da vida do mar, porque é um livro na fronteira de um certo impressionismo visual, com uma tentativa de captar a alma do povo através de figuras expoentes, quase heróicos, que lidam na costa com a rudeza do mar, na pesca, e também com o próprio curso português, porque é interessante. Costuma resumir-se este livro dizendo: "Vai de Caminha até Sagres." Não, vai de Caminha ao Algarve. Não. O livro começa no Porto, Portus Cale. Sobe para a costa.

Porque ele nasceu na Foz, não é?

Desce ao Algarve, mas acaba em Sagres. Ou seja, é um livro que tem um certo enquadramento. E a vivência dele do mar é a vivência da Foz do Douro, do Cabedelo, da Afurada, de toda aquela vida marítima e de agitação em que o mar e o rio com grande bravura se encontram. E é aí que ele tem a sua matriz humana de aprendizagem das coisas marítimas e também no Porto, a matriz humana da sua aprendizagem da literatura, da novela russa, porque ele é o grande introdutor também no teatro e de Dostoiévski e Tchekhov, que teriam sido introduzidos em Portugal por um literato, Jayme Magalhães Lima, que teria publicado um grande ensaio divulgatório do que se estava a passar na literatura russa e que ele absorve e de quem é um discípulo, nitidamente. Mas um grande escritor Um jornalista que foi um grande literato. E sabe, José Manuel Fernandes, o que ele dizia do jornalista? Ele foi chefe de redação de vários jornais em Lisboa. Ele dizia: "Um grande jornal é sempre obra de bons jornalistas anônimos e um bom chefe de redação, e é sempre destruído por um diretor, sobretudo quando ele é um político."

Está bem visto.

É muito verdadeiro nesses tempos, porque houve muitos jornais. Mas os jornais também nasciam quase políticos.

É verdade.

Um bocado distintos. Jaime Nogueira Pinto, este livro começa precisamente e tem algumas das suas passagens mais significativas, como por exemplo, a morte do Arrais, que se passam precisamente lá no seu Porto, no seu Douro.

O meu Porto, exatamente. Eu conheço bastante bem estas zonas todas, sobretudo o Porto, a Foz. Durante muitos anos, ia para a praia da Foz, que era o Castelo do Queijo. O Castelo do Queijo era uma praia que ficava entre a ida para sul, para a Foz. E para o lado direito eram as praias que iam até Matosinhos, Ileça, etc. Eu sou do tempo que íamos para a praia de carro elétrico, era o 17 comboio. O carro elétrico era o 17 para a Foz e o 16 para Matosinhos. E portanto, o Castelo do Queijo, como ficava ao meio, qualquer um deles dava para sair. Essas idas para a praia eram marcantes. Depois conheço bem a Foz, tenho lá muitos amigos.

Mas esta Foz aqui da Cantareira era um pouco diferente.

Pois, é um pouco diferente.

Porque nós hoje conhecemos a Foz como um sítio da alta sociedade chique. Mas há uma zona da Foz, uma zona antiga da Foz que não é isso.

Ainda lá está.

Ainda lá está, essas ruas ainda existem e com esse lado popular.

Mesmo essa Foz chique levou agora uma grande volta nos últimos 30 anos, porque muitas casas foram transformadas em hotéis. Houve, de fato, ali umas mudanças. Mas nesse tempo, estou a falar dos anos 50, o ritual das praias era curiosíssimo, porque nós íamos de manhã muito cedo, porque de manhã é que havia uma espécie de guerra ao estar ao sol. Não eram essas obsessões de agora. O sol era perigoso a partir do meio-dia. Chegávamos normalmente às 9 h da manhã, ia-se para aquelas poças pequeninas apanhar caranguejos e peixes pequenos, etc. Tudo aquilo era reguladíssimo. Depois havia uma hora para almoçar e ficávamos três horas a fazer a digestão e às 17 h é que se podia ir para o banho. Agora estive a reler "Os Pescadores", não reli todo, mas estive a reler sobretudo até essa primeira parte. E é muito bem escrito. Tem esse lado, primeiro, tem uma evocação fabulosa das paisagens, do mar. Exatamente essa Foz velha, depois aquela ida também lá em cima, também conheço relativamente bem aquela ida, ali a zona toda, mais Vila do Conde. Vila do Conde, Póvoa, depois Caminha, tudo isso, todo esse norte onde normalmente se ia para a praia de camisola muitas vezes, porque dá vento e está frio.

Até o fim da tarde.

Exato. E depois há aquela volta do verão, que é muito interessante, que é mais ou menos por volta do 20 de agosto, que chega o outono. Também chegava cá embaixo. Mas, de facto, é curioso porque ele faz todo esse itinerário, como o Jaime Nogueira estava a dizer, intercalando as descrições e até muitas vezes em primeira pessoa, as idas ao mar, etc., acompanhando os pescadores. Ele tem, por exemplo, uma linguagem que eu confesso que tive alguma dificuldade de estar a ver os nomes diferentes dos instrumentos da pesca, o que serve para apanhar as sardinhas e o que serve para apanhar os atuns. É muito interessante isso. E depois lembrou-me também um bocadinho, aqui por este tipo de itinerários, do Ramalho das praias de Portugal.

Mas é um texto muito diferente.

É um texto muito diferente.

Muito diferente, é muito mais balnear, não tem nada a ver.

São pessoas completamente diferentes, mas ocupam-se, de certo modo, da mesma zona geográfica, digamos assim, da mesma costa portuguesa. Eu devo dizer que eu conheço muito bem e ajudou-me muito quando escrevi o livro sobre a Primeira República, é o Vale de José Afonso. São as memórias, que depois, aliás, aqui há uns anos voltaram a ser republicadas por Imprensa Nacional, se não me estranharem, em três volumes. O Vale de José Afonso são, para mim, as memórias mais interessantes, porque são memórias de coisas que ele viu, não são propriamente memórias da vida dele. E é um documento humano fabuloso sobre todo aquele pessoal dos últimos anos da monarquia E da República. Com coisas notabilíssimas sobretudo através da qual a gente vê a personalidade da maior parte dos protagonistas desse período. Eu tenho muito aquela ideia, não sei se vocês partilham, que os portugueses não somos grandes memorialistas, até porque temos uma inibição enorme de escrever coisas, porque conhecemos sempre alguém, a sociedade é muito pequena. Se a pessoa já morreu, estão vivos os filhos e os netos, e portanto, coisas desagradáveis não se dizem, não se tocam. Nisso somos completamente opostos, por exemplo, dos ingleses, que têm memórias de uma brutalidade e de uma sinceridade espantosa nessas coisas.

Um grande pudor, não é? Um grande pudor em falar. Não sei, talvez uma cidade pequena.

É uma cidade pequena, portanto, toda a gente se conhece. Por exemplo, eu estou-me a lembrar daquelas memórias daquele ministro, o Alan, que foi ministro da defesa da Thatcher. Eu que aliás ainda o conhecia muito bem, ele tem também uns livros muito interessantes sobre a Segunda Guerra Mundial, sobre a invasão da Rússia. E ele, por exemplo, conta a sua vida pessoal e com a mulher ainda viva, ele contava que tinha uma senhora, uma secretária, com quem tinha uma relação e fala disso no livro. Quer sobre a vida dele, quer uma contundência enorme em relação a personagens que ele não gosta. Nós aqui, de uma maneira geral, as memórias são coisas muito formais, às vezes são uma espécie de coisas de defesa, de justificação. E nesse aspecto, as memórias do Raul Brandão, o tal Vale de Josafá, que eu julgo que aliás só foi publicado postumamente, mas é um documento interessantíssimo, sem ter também grandes ofensas nesse aspecto, mas tem coisas com muita graça. Eu lembro-me de uma que ele diz: "Encontrei o Mariano de Carvalho. Só fala dos netos. Mau sinal." Dá um certo intimismo. Ele nesse aspecto é uma fonte extraordinária para o período do fim da monarquia, a Primeira República. É muito interessante.

José Gama, há alguns relatos do país que nós percebemos pelos pescadores. A vida destes homens, o risco de vida, as condições em que trabalhavam, as condições em que viviam. Ele vai passando por sítios, tem algumas descrições particularmente vivas, sei lá, da praia de Mira, de como é que eram aquelas palhotas em cima de estacas, ou aquela descrição cheia de sangue do coupejo do atum em Sagres, precisamente perto de Sagres. Ele não faz essa descrição mais perto de Tavira, onde também havia instalações para a apanha do atum. Há as saídas, há a pesca da sardinha, há a morte do arrais. Este mundo é um mundo que, felizmente, em boa parte já desapareceu. Até que ponto é que o nosso próprio imaginário português está ligado a esta... Porque nós temos um imaginário de grandes navegantes, mas se calhar fomos mais pescadores em muitos aspectos.

Sim, mas isso penso que é o papel fundamental do livro "Os Pescadores". O livro "Os Pescadores" desempenha uma função fulcral na criação de uma ideia de Portugal. E os portugueses hoje que gostam de literatura e que são cultos, não podem deixar de responder a esse desafio. É por isso que o livro continua a ter interesse e continua a ser lido. Porque apesar de ter havido grande modernização em todas essas áreas, você vai à Figueira da Foz ou vai a Sesimbra, ou vai ao Olhão ou a Tavira, e você senta-se, abre o livro, lê, fala com pessoas, e aquilo que é de há 100 anos continua a estar presente, porque existe na memória dos contemporâneos. Aliás, em muitos locais a imprensa regional tem vindo a reabilitar entrevistas com aqueles que sobrevivem desses tempos antigos, das armações da pesca do atum, da pesca com risco enorme, da pesca a partir da costa com as redes.

Sim, a pesca que eles descrevem em Mira, a pesca do rasto para costa, com os bois.

Sim, que continua.

Sim, hoje em dia não é feita com bois, é feita com tratores, mas continua.

Sim, e até com pessoas voluntárias que gostam de se juntar para fazer isso. Já as próprias armações não são tanto armações para finalidade económica, são mais quase desportivas, um pouco uma caça à baleia que subsiste nos Açores E isso é muito interessante. Esse livro tem uma descrição fabulosa e até se quiser, do ponto de vista gastronômico, a otimização da espécie e das variedades de peixe e de marisco e a forma de as cozinhar, tem um registro extraordinário e de grande atualidade. É óbvio que este livro se completa com o que são livros de geografia, de geologia, com monografias interessantes e até com escritores de incidência mais regional, que se especializaram em certas zonas da nossa orla costeira e da nossa atividade marítima. Este livro vai muito ao encontro do livro do Jaime Cortesão "Portugal, a Terra e o Homem", que depois foi completado por Vitorino Nemésio e por David Mourão-Ferreira e Alzira Seixo. Também muito do que foi aquela "Antologia da Terra Portuguesa", de Luís Fugaz Trigueiro, vários volumes, vários autores, editada pela Bertrand.

E não acha que, de alguma forma, também influencia aquele livro "As Meninas do Meu País", da Maria Lamas?

Porventura.

Se bem que essa aí é uma componente mais social, não é?

Mais social e, porventura, também mais terra. Porque é muito interessante.

Claro. Isso é mais terra.

Uma vez o José Manuel Fernandes disse: "O Raul Brandão é muito precursor dos neorrealistas." Não. Aliás, estive a verificar como não era, porque se observar o "Cânon da História da Literatura Portuguesa" de António José Saraiva e Óscar Lopes, faz uma barreira a Raul Brandão.

Eu nunca lhe disse isso.

Que investia muito na temática de um certo pauperismo.

Isso sim.

Sim, que porventura estaria aí uma origem do neorrealismo. Não, porque esta visão que ele tem é mais uma visão espiritualista e quase uma visão cristã-anarquista, se se quiser. Não é tanto uma visão de fisiologia social.

Enquinhada.

E Óscar Lopes e António José Saraiva são muito claros em dizer: "Este homem está mais do lado do decadentismo, embora trate com temática da vida dos pobres, do que do lado do projeto social libertador." Sabendo nós o que isto significa nessa terminologia autocontrolada.

Claro.

E também é interessante ver como no "Cânon" que saiu da literatura portuguesa, não passa no exame Raul Brandão, por exemplo, em relação às memórias, que o Jaime Galhote Pinto falou. Miguel Taman é muito crítico em relação às memórias, dizendo: "Ele não faz as memórias do que viu, ele põe na boca dos mortos e dos boatos coisas que não estão comprovadas". Ou seja, as memórias são uma grande ficção do fantástico, que têm um grande interesse e uma grande pujança, mas não são um documento do qual se possa extrair verdadeiramente uma análise objetiva da sociedade naquele tempo. Ou seja, queria aqui concluir. Exato! São os mortos que ressuscitam, são fantasmas. Há mais mortos do que vivos nas peças do Raul Brandão. São invocações. É quase um espiritismo de ir buscar almas do outro mundo, para através delas querer significar alguma coisa. Agora, o que é interessante, e isto eu gostava também de acrescentar ao que disse o José Manuel Fernandes, é que o nosso neorrealismo foi mais fluvial do que marítimo.

Exatamente.

E mais terrestre do que propriamente atlântico. E até foi mais rural do que citadino.

Sem dúvida. Isso sem dúvida. O Alves Redol, o Floriano Pereira Gomes, o próprio Fernando Namora, todos eles são mais rurais e fluvial, como diz.

Exato, e fluvial, sim. Portanto, é muito interessante uma proximidade maior do Raul Brandão com o Teixeira de Pascoaes, até com o Junqueiro, com o António Nobre.

Sim.

Do que propriamente, e nada a ver com o Júlio Dinis, um naturalista mais clássico. Portanto, há aqui um outro caminho, uma outra perspectiva, que eu acho que estava situada no romance, na novela russa e no teatro russo. Portanto, Dostoiévski e Tchekhov estão aqui mais presentes.

Uma certa nostalgia também de tragédia.

Sim. A vida do homem. E até uma vivência com o cristianismo à Tolstói.

Sim.

Com uma grande razão estruturada.

"O Gêlio e a Sombra", não é?

Sim.

"O Gêlio e a Sombra", que é uma coisa assim, tudo isso, até o título.

Agora, quem quiser conhecer bem Portugal, tem nestes "Os Pescadores", de Raul Brandão, uma oportunidade extraordinária. Comparem com Lawrence Darrel, por exemplo, que é um grande escritor de paisagens, ou com Paul Theroux, ou com outros, Bruce Chatwin.

Bruce Chatwin.

Mas aqui não é uma literatura de viagens.

Não é.

Em que nos encontramos na viagem.

Isto é muito espiritual, é muito uma viagem interior também, não é?

Sim.

Com uma certa nostalgia também.

É um livro que define muito bem a pátria portuguesa.

Exatamente.

O que quer dizer conhece exatamente, Jaime Nogueira Pinto?

Estava a ver há bocadinho, que estávamos a falar da reflexão dele sobre Sagres. Quando ele diz que naquele mundo perdido, como ele descreve Sagres. Ele, aliás, tem uma passagem, eu estou agora até aqui a olhar para ela: "Grande sítio para ser devorado por uma ideia. Isto devia chamar-se Sagres ou a ideia fixa, só agora entrevejo o vulto do infante". Portanto, eu acho que há aqui uma recriação que é muito russa também. O romance russo, eu acho que naquela eterna comparação, que nós aqui em Portugal fazemos aquele eterno debate e a comparação do Eça com o Camilo. Os russos fazem muito o Dostoiévski com o Tolstói. E o Nabokov, que além de ser um grande escritor, também tinha muita crítica e tinha, sobretudo, opiniões, às vezes, quase literariamente incorretas sobre grandes autores dos seus compatriotas. Sobre o Dostoiévski, lembro-me que ele tem uma observação muito interessante, que ele diz que no Dostoiévski nunca se sabe como é que as pessoas estão vestidas, nem que tempo faz. Enquanto no Tolstói, a gente está sempre a ter permanentemente uma noção exatamente de como é que estão vestidos, o que é que o tempo faz. O Raul Brandão, no fundo, é como que se interiorizasse estas paisagens. No fundo, a gente vai ver, por exemplo, as primeiras descrições do Porto. Ele fica muitas vezes obcecado pelo sol, pela luz. Ele fala muito, por exemplo, do Algarve, ele fala muito da luz do Algarve. Ele diz que é aquela luz que é criadora. No norte também, ali no Porto, os fins de dia, o sol nos barcos, o sol no mar, tudo isso. Mas depois também parte e sugere-nos uma fortíssima marca interior, quer dizer, isso tudo, no fundo, vem para dentro dele e através dele chega para os leitores. Depois, de facto, tem um privilégio que é escrever muito bem. Tem páginas, de facto, fabulosas. É uma escrita muito dele. Estava a tentar agora aqui lembrar-me no gênero de quê? De quem? Não sei, é um estilo muito próprio. Confesso que há muito que não estava a ver, agora reli por causa do nosso programa de hoje, estive a reler, de facto, "Os Pescadores", e estava surpreendido, porque como nos acontece sempre quando lemos as coisas cedo, muitas vezes não ligamos tanto à qualidade da escrita.

Ele tem um mestre português, que é Fião d'Almeida.

Sim, tens razão, Jaime.

O mestre português é Fião d'Almeida.

Mas o Fião tem um lado sardónico.

Ele não é o Eça de Queiroz.

Não é? O Fião tem depois um lado mais próximo.

Ele não teve que se preocupar tanto com a necessidade de se justificar por ser um humilde casado com uma mulher rica. E, portanto, ele nesse aspecto foi mais independente e mais sereno. Mais tranquilo. Assim como também a circunstância de ter ido para a escola do exército para agradar à mãe, que gostava de o ver fardado, não se transformou nele num literato de ruptura com a instituição militar, nem quis deixar o seu testemunho como escritor apenas com base nessa dissincronia. E, portanto, foi mais livre. E até os próprios temas que ele escolheu como literato historiador, porque ele escreveu "El-Rei Junot", sobre as invasões francesas, a questão do Gomes Freire de Andrade, e depois também ajudou a traduzir, prefaciou e editou um livro de um oficial inglês, o Major Owen.

Owen que continuou a história do cerco do Porto.

Durante a guerra civil.

Exatamente, que acabou a história do cerco do Porto

Do Owen. Ele é que edita, traduz e faz a prefácio. E esse livro é fundamental para perceber a Guerra Civil.

Exatamente.

E ele quis dar também o seu contributo.

Mas lendo estes "Pescadores", o Jaime Miguel disse que ele se situava num momento particular, um momento um bocado crítico do país. Saiu em 1923, simplesmente tem textos que começam a ser escritos, ele tem lá as datas, 1920. Portanto, há ali um período em que ele vai tomando notas e vai escrevendo. Enfim, não sei se com a ideia de se publicar o livro tal e qual assim. Quer dizer, podia ser noutro período político.

Eu não quero fazer uma correlação, porque não sou um historiador da literatura, sou apenas uma pessoa que gosta de ler e de conversar convosco sobre estes temas. Eu acho que 1923 é também um ano em que vem muito ao de cima uma polêmica de relações internacionais, que são as sucessivas invasões de frota pesqueira espanhola sobre as águas portuguesas.

Não sabia isso.

E os conflitos que isso gera e as reações que isso levou a adotar no plano até da frente diplomática. E eu não sei também se esta publicação dos "Pescadores" não está informada por trás por esse contexto. Mas, na verdade, se não estava, bem podia estar, porque o tema esteve em grande discussão em Portugal e houve muitos protestos em localidades e houve na imprensa uma grande discussão sobre isto. E eu acho que o livro vem, no fundo, também dar uma resposta e organizar uma opinião nacional sobre essa questão.

Há pouco estava a falar do outro livro que leu, muito brevemente, e que o ajudou a fazer o seu livro sobre a República, que é um livro de memórias, é o terceiro volume das memórias de Valdo Josafá. Esta crítica que lhe é feita pelo Miguel Tamen, na sua perspetiva, faz sentido? Ele não ser assim tão historicamente rigoroso.

Mas ele também não pretende. Quer dizer, vamos lá ver. Ele pela sua própria maneira de enunciar as histórias, que no fundo aquilo são uma coleção de encontros. Ele pelo seu próprio modo de apresentar as coisas, também não se pretende, digamos, como um historiador rigoroso, factualista, etc. Ele diz: "Disse-me o não sei quê, encontrei na livraria, na Bertrand, o não sei quantos que me disse que não sei o quê. Encontrei o..." Ou seja, ele próprio não tem essa pretensão. Se nós formos exigir aos memorialistas esse rigor, quer dizer, as memórias vão todas ao ar, mesmo as do Saint-Simon e mesmo aquelas memórias mais tradicionais, mais conhecidas, mais tudo isso. As memórias são um bocado apresentadas exatamente como uma perceção pessoal. Aliás, as dele são assim, ele não está ali a jurar. Passou-se isto. Não é propriamente um "fact-finding".

Já Miguel, diga lá, só para telegraficamente.

Ele nos três livros das memórias capta muito bem o final da monarquia.

Sim, aquele espírito das pessoas.

A instabilidade, as disputas da República e a decadência da República até o 28 de Maio.

Exatamente.

Portanto, ele perpassa por tudo isso. E eu acho que o clima, ele encena as memórias como se estivessem para lá das memórias, como se fossem também um corpo vivo que sai do próprio contexto objetivo da cronologia e que quase parece uma prosa romanceada no seu conjunto. Portanto, é uma peça literária, tem que ser entendida como tal.

Tal é uma belíssima peça literária, também.

Sem dúvida.

Bem, espero que pelo menos tenhamos encontrado mais leitores para "Os Pescadores". Já seria bom. Reencontramo-nos dentro de uma semana.