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Olá, eu sou José Manuel Fernandes. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM, 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta" e hoje, inevitavelmente, temos que falar das eleições americanas. Estamos na reta final. Já podemos dizer que quase todos os dados foram lançados. E não digo todos os dados foram lançados, porque até ao lavar dos cestos é vindima e, no caso das eleições americanas, faz campanha já com os eleitores a votar. Neste momento, todas as sondagens parecem indicar uma grande vantagem para Joe Biden. Visto também há quatro anos, parecia que Hillary Clinton também tinha uma grande vantagem. Desta vez, a vantagem nas sondagens de Joe Biden é bastante mais dilatada do que a vantagem que tinha Hillary Clinton. Os estados decisivos também mostram uma vantagem confortável para Biden, incluindo alguns estados que não estavam em jogo há quatro anos, como Arizona e Texas. Há a hipótese de Joe Biden surpreender, como a própria Geórgia, de Joe Biden poder surpreender aí o candidato republicano, o presidente Trump. Há, para além disso tudo, um ressurgimento da doença Covid, portanto, do coronavírus, que está a atacar particularmente o Midwest e os Apalaches, o que para a base de apoio do presidente Trump é uma má notícia. A boa notícia chegou pouco tempo antes do momento em que estamos a gravar este programa e são as notícias da economia. O terceiro trimestre da economia americana teve um crescimento absolutamente extraordinário. A economia americana teve números muitíssimo bons e de facto, se não fosse a pandemia, talvez a história fosse diferente no que respeita àquilo que seria um grande trunfo do presidente Trump. Mas mesmo esse crescimento económico e os números da economia poderão não ser suficientes nesta altura da corrida para virar por assim dizer, o tabuleiro. Jaime Gama, vê alguma hipótese de sermos surpreendidos como fomos há quatro anos na noite eleitoral?
À luz daqueles dados de que eu disponho, que são os dados das várias sondagens, dos vários institutos de opinião independentes e não mais colados a este ou aquele segmento do espectro americano, Biden tem uma vantagem. Tem uma vantagem que já vem desde o início deste ano. Essa vantagem, podemos dizer que é uma vantagem nas sondagens a nível nacional e é também uma vantagem naqueles estados decisivos para a eleição, porque são estados considerados que a influenciam, porque não estão vinculados nem a um nem a outro campo e fazem exercer o seu poder no sistema americano através da opção concreta em cada eleição. Portanto, de acordo com esses indicadores, pode dizer-se que Biden tem uma vantagem, que essa vantagem é superior à vantagem que Hillary Clinton tinha sobre Trump há quatro anos, mas daqui não se pode inferir em absoluto qual seja o resultado eleitoral, porque nas últimas semanas, nos últimos meses, estes dados têm também oscilado um pouco, não para retirar a maioria consolidada a Biden, mas para fazer reduzir ligeiramente a diferença, isto é, passar de 10 pontos para oito pontos, para fazer também mais competitiva a eleição nos swing states e também para fazer a eleição mais aberta àquilo que é o próprio debate da campanha eleitoral, com os candidatos a defender os seus argumentos, dar a sua linha de mensagens através das várias plataformas, não apenas da imprensa, mas também das redes. E também há ainda praticamente uma semana que falta para a eleição e numa semana é sempre possível acontecer algum facto ou a revelação de algum facto de grande impacto suscetível de intervir na própria campanha e nos seus resultados Os debates foram, em regra, debates que não prejudicaram Biden e, portanto, Biden ao aguentar-se nos debates fez uma prova de vida quanto à circunstância de ter uma idade um pouquinho mais avançada do que a de Trump. Biden também não tem preenchido aquele papel que lhe estava destinado na campanha Trump de exagerar o número de gafes que lhe é atribuído, isso não tem acontecido, e também tem recebido um apoio financeiro sólido pra campanha e pros últimos dias de campanha, por diferença com Trump. E sabe-se como isso também é importante nos Estados Unidos. A evolução da pandemia é, nos Estados Unidos, algo que pesa como fator eleitoral, na medida em que Trump aposta fortemente numa opção que é da negação dos Estados Unidos e da economia americana bloqueada pela pandemia, a indicação de que está a obter resultados de melhoria, o que contrasta com a realidade, e a expectativa de que poderá encontrar um caminho de solução. Aqui Biden é mais prudente e quando a campanha de Trump argumenta com coisas do gênero: "Biden quer nos meter todos fechados nas caves, economia fechada, rendeu a América aos médicos. Não queremos saber dos médicos, nem dos cientistas, queremos que o país prossiga." Isso depara, na realidade, com a situação de um país em que os mortos já são muitos e aumentam de dia para dia, porque a progressão acentua-se, não há uma estabilização. Portanto, a circunstância de a pandemia se ter constituído num assunto central da discussão, parece-me que, neste caso, vai favorecer mais quem argumenta racionalmente sobre os fatos e não quem procura impor aos fatos a sua vontade ou o seu desiderato próprio. Portanto, há aqui algo que tem que ser posto em evidência com essa dicotomia. Agora, o sistema eleitoral dos Estados Unidos não é um sistema de eleição direta, é um sistema de eleição indireta. Não há uma autoridade central eleitoral americana. Estas eleições têm eleitores que votam presencialmente de forma antecipada, têm eleitores que votam por correspondência antes ou depois da própria eleição, têm eleitores presenciais no dia da eleição e têm, sobretudo, legislações diferentes de Estado para Estado. Isso significa que o calendário eleitoral e sobretudo o resultado eleitoral pode sempre ser litigado e as instâncias de recurso não são únicas, porque em cada Estado há regras específicas que em última instância condicionam até a própria formulação de vontade pelos eleitores indiretos do colégio eleitoral. E estas eleições parecem ter a particularidade de ser umas eleições em que se mistura o voto popular com a forma de organização do sistema em colégio eleitoral e com as formas de recurso e litigação dentro de cada colégio eleitoral. O que significa que o resultado final da eleição é algo que é um agregado para o qual conta o voto popular, mas também todas essas outras vicissitudes em que o filtro dos Estados, quer na definição dos círculos eleitorais, quer na definição da forma como eleger os seus grandes eleitores, quer na forma de em última instância poder a própria formulação de vontade pelos grandes eleitores ser substituída por outros grandes eleitores designados de acordo com as normas de cada Estado, quer ainda com a maneira como tudo isso pode subir ao Congresso e ao Supremo Tribunal. Tudo isso é uma característica muito específica das eleições presidenciais nos Estados Unidos.
Seria, teríamos aí alguma-
Uma previsão final
É algo difícil de fazer, tendo em conta todos estes fatores em que funciona o sistema político norte-americano.
Já me garanto. Mas acha que pode haver uma surpresa? Estas eleições tiveram já muita gente a votar, já votaram um número recorde.
67 milhões, não é?
Não, penso que já passaram os 70 milhões. Ontem havia 71 milhões de americanos. O voto por correspondência está em níveis recordes, o que em parte pode ser explicado pela questão da pandemia, em parte por uma tendência natural que tem vindo a acentuar-se nos últimos anos. Esses votos podem vir a ser um dos objetos de controvérsia no pós-eleições. Mas, seja lá como for, essas pessoas, em princípio, serão menos influenciadas pelo que se passou durante a campanha, porque votaram antes de ver os debates, votaram antes de ver estes últimos desenvolvimentos, portanto já tomaram as suas decisões, serão eleitores menos indecisos do que aqueles que ainda podem estar a guardar a sua decisão para o último momento. Acha que ainda há alguma possibilidade de surpresa ou mesmo já não há?
Primeiro, tirando alguns casos, não se sabe esses votos. Por exemplo, no Texas, as informações que eu tenho valem o que valem, porque essas informações nestes aspetos tudo vale. Mas no Texas, por exemplo, a informação que eu tenho é que mesmo o voto pré e o voto por correio é bastante favorável ao Trump, o que aliás não é de admirar.
O Texas estava com uma diferença para o Trump muito menor do que era habitual.
Do que o costume. Aliás, na Flórida também, aqui há uma semana, de facto o Biden tinha uma vantagem de 400 mil, mas agora passou para 200 mil nesses tais votos que foram entrando. Curiosamente os institutos de opinião conservadores, nomeadamente Rasmussen e o Trafalgar, que davam há três semanas Biden à frente por 12 pontos, dão neste momento Biden à frente por dois pontos e pouco mais.
O Rasmussen chegou a dar uma sondagem com eles empatados.
Pois, e o Rasmussen agora, mesmo naquela questão do tracking que faz todos os dias — e aliás foram esses que acertaram em 2016 — também está indicando o mesmo. Além disso, há uma outra coisa que é muito importante e que vários analistas têm falado: há uma certa vergonha ou medo, há um voto escondido, uma preferência escondida em relação ao Trump. Quer dizer, o clima em relação ao Trump foi criado de tal maneira que há muita gente, ou um substancial número de eleitores, que não diz nos inquéritos telefónicos que vota no Trump, ou diz que vota no Biden, ou diz que não vota em coisa nenhuma, ou diz que está indeciso. E isso também é um fenómeno importante, não só no aspeto do receio, como às vezes no aspeto de como o Trump tem sido pintado como um bufão, um palhaço, etc. Algumas pessoas inibem-se. Para além disso, eu acho que apesar do silêncio que os media da linha central fizeram à volta disso, este escândalo da influência, não sabemos até que ponto isso está, mas é uma discussão que está aberta e que publicações sérias do establishment como o Wall Street Journal já pegaram, que é, de facto, essa utilização, esse comércio de influência que Biden terá utilizado a favor dos negócios do filho. Isso também penso eu que tocará sobretudo eleitores independentes. Portanto, acho que ainda há uma caixa de surpresas que só vamos saber no dia 3, se soubermos, porque como também há problemas de prolongamento de voto. E de facto, as diferenças neste momento, mesmo no consolidado, não são assim tão grandes como isso. Aliás, o Jean Gama também faz essa reserva. Ainda estamos longe de poder dar o resultado.
Sim, mas apesar de tudo, as previsões dão 11%, 15%, 17% de hipóteses para o Trump e mais de 80% de hipóteses para o Biden. São os cenários do Real Clear Politics e do FiveThirtyEight.
Sim, mas isso enganaram-se em 2016.
É um facto.
Portanto, eu acho que há esse fator que é muito forte, que é de facto uma pressão. Se me fosse agora perguntar: "Faça aí uma quantificação." Eu ainda, neste momento, daria, apesar de tudo, mais depressa uma vitória ao Biden, mas não seria de facto. Seria uma coisa tipo 55/45 ou 60/40. Não ia para mais que isso. Até porque, no fundo, o que vai decidir a eleição, como todos sabemos e temos falado repetidissimamente nisso, são oito ou 10 estados, porque os outros já estão de tal maneira cometidos para um lado ou para o outro Bem sei que nesses oito ou 10 estados, o Trump tem que ganhar em muitos mais do que o Biden. Isso é uma realidade. Mas aí também os institutos são muito diferentes, porque, por exemplo, o Trafalgar dá neste momento, a partir de ontem, já dava o Trump ligeiramente à frente do Biden na Pensilvânia. Se a gente contar com estes fatores todos que estão em jogo, ou seja, com a influência que pode ter, sobretudo nos votantes mais hesitantes, esta questão, este escândalo das ligações com a China. Isso é um ponto importante e que, apesar de tudo, as Fox News e o New York Post e agora o Wall Street Journal têm vindo a acentuar e através de gente bastante responsável que diz: "Ao menos o Biden dê uma explicação. Há e-mails ou não há e-mails?" Porque ele ainda não disse até hoje se havia e-mails ou se não havia e-mails. Diz que é uma coisa da Rússia. Quer dizer, há e-mails ou não há e-mails? Há uma série de dados e de fatos que merecem uma resposta mais completa. E eu não sei até que ponto tudo isso não influencia, no fundo, 70 milhões de eleitores são o quê? São 40%, são 35%, não sei. Não sei qual é o universo eleitoral, mas deve ser 180, 170 milhões, não sei qual é o universo eleitoral americano.
Nós vamos ter que interromper agora para o nosso habitual intervalo. Regressamos dentro de alguns minutos para continuar este debate sobre as eleições americanas, nossa conversa habitual. Estamos de regresso à nossa conversa e acho que vale a pena referirmos que na próxima terça-feira os americanos vão às urnas e não apenas para eleger o presidente, vão também eleger os membros do Congresso, a Câmara dos Representantes, onde não há grandes dúvidas que se renovará a maioria democrata, mas também para eleger os senadores, um terço do Senado, e aí há uma forte possibilidade de os democratas também ganharem a maioria no Senado. Se isso acontecer e se Biden for eleito, teremos um cenário em que os democratas terão a maioria do poder executivo, dominarão o poder executivo, a presidência, e terão a maioria nos dois órgãos legislativos, ficarão apenas com o Supremo Tribunal como sendo o contrapoder ou, se quisermos, o contrapeso ao seu poder. Sendo que aí coloca-se uma das questões que têm sido muito discutida nos últimos tempos, que é saber se os democratas estão ou não na disposição de aumentar o número de membros do Supremo Tribunal para também dominarem esse órgão. Numa sociedade tão polarizada como neste momento está a sociedade americana, o equilíbrio que vier a resultar do Congresso, Câmara dos Representantes, Senado, Presidência, Supremo Tribunal, é decisivo. Eu recordo que quando o Obama conquistou a presidência, os democratas na altura também ficaram com a Câmara dos Representantes e o Senado. E isso provocou uma onda legislativa muito rápida que de alguma forma provocou uma espécie de reviravolta logo a seguir com a emergência do Tea Party e uma mudança de maiorias na eleição seguinte. Jaime Gama, como é que vê esse cenário? Um maior equilíbrio não seria vantajoso numa altura em que há tanta divisão nos Estados Unidos?
Não está claro pra mim qual vai ser o resultado das eleições pro Senado.
Sim, não é claro, porque as sondagens são muito-
Sim, é um assunto em que a disputa será muito minuciosa, porque há diferença muito curta. Depois não se sabe se o vice-presidente será chamado a ter um voto de desempate. Portanto, é um ponto onde os democratas partiram mal, mas chegaram a uma posição satisfatória e agora têm vindo a perder um bocadito de terreno. E portanto, pra mim não está claro qual vai ser a composição do Senado. Depois, em relação ao Supremo Tribunal, é óbvio que embora dentro dos parâmetros constitucionais, esta nomeação da juíza tivesse ocorrido como ocorreu, é uma nomeação controversa, porque sobretudo contradita com o que foi a posição dos republicanos há muito pouco tempo.
Sim, em 2015. 2016.
Mas é sempre complexo mudar, modificar a composição do Supremo Tribunal
Eu faço notar que embora haja segmentos no campo democrático que peçam essa recomposição do tribunal, um pouco em reação a esta eleição, a proposta Biden é uma proposta em que o assunto é referido de uma forma bastante mais moderada e sensata, porque é a investigação, o apuramento de uma posição sobre esse tema a partir de uma comissão bipartisan. Portanto, Biden não se coloca do lado daqueles que querem: "Bom, agora se apanhamos maioria no Congresso, vamos rever o Supremo Tribunal para modificar a maioria do Supremo Tribunal." Esse assunto é um assunto recorrente na história política dos Estados Unidos. Não é a primeira vez que é colocado, porque também não é a primeira vez que presidentes usam o Supremo Tribunal para influenciar a sua composição, num certo sentido. Portanto, eu não vejo aí que vá haver uma viragem abrupta, como também acho que o Supremo Tribunal, seja qual for a sua maioria, tem um referencial de prestígio sobre as instituições que acaba por moldar um pouco a conduta de cada juiz individual face à sua origem, mesmo que ela tenha sido uma origem um pouco extremada. Portanto, é um assunto que devemos seguir, é um assunto importante na vida dos Estados Unidos e da sua Constituição, mas eu não vejo que seja em torno da questão do Supremo Tribunal que vai residir o principal problema dos Estados Unidos no futuro.
José Miguel Pinto, concordam com este ponto de vista? Aliás, se nós virmos bem, por exemplo, este é o chamado Tribunal Roberts, o tribunal presidido pelo juiz Roberts, e o juiz Roberts, que foi indicado por um presidente conservador, o presidente George Bush, já várias vezes votou, alinhou em algumas votações muito significativas, importantes, emblemáticas, com a chamada maioria progressista do tribunal.
Sim, eu acho que aliás, a nova juíza Barrett teve o cuidado no seu brevíssimo, mas muito interessante e decisivo discurso de posse, em sublinhar exatamente isso, que ela não era eleita politicamente e que, portanto, iria acima de tudo observar a Constituição. É evidente que há uma maioria conservadora, mas no passado, eu não acredito que mesmo no caso de uma vitória democrática na presidência e até no Senado, aliás, porque todos os inquéritos, mesmo de opinião, que se têm feito a isso, uma maioria para aí de dois terços dos inquiridos é contrária a isso, até porque os americanos têm sensibilidade suficiente para perceber que um dos fatores de equilíbrio é exatamente esses pesos e esses contrapesos e esses balanços que toda a Constituição pressupõe. Fazer o package, agora não agradavam a alguns democratas, não lhes agradava a composição, então metiam lá uma fornada de novos juízes. Houve no passado, na altura que o Supremo, nos tempos do New Deal fez uma oposição, penso que era o Warren Court neste tempo, fez uma oposição muito forte ao presidente Roosevelt, ele ameaçou exatamente com isso, mas depois houve negociações.
Por mais que uma vez, aliás, quer a nível federal, há uma história de quando o Supremo Tribunal de Nova York começou a opor-se, o Supremo Tribunal depois adaptou as suas posições, num tempo que tinha a ver com eixos sindicais. E depois mais tarde, o próprio Supremo Tribunal, no tempo de Roosevelt, foi moderando a sua oposição às leis de Roosevelt, porque os próprios juízes não estão numa posição partidária e, portanto, eles leem a sociedade. Eles leem a sociedade, leem qual é o sentido da sociedade e vão evoluindo as suas posições.
Eles levam isso a sério. Não é uma coisa fixista. Eu acho que embora o clima, devo dizer que pessoalmente acho que o clima na América entrou numa radicalização que é bastante inédita, aliás, com um problema grave de deslegitimação, de uma certa deslegitimação recíproca, que aliás se viu na própria conduta dos candidatos nos debates. Trump tratou mal Biden e Biden também tratou mal Trump. Biden praticamente ignorou. Portanto, todo aquele cerimonial que a gente até pode dizer que às vezes seja um bocadinho hipócrita das instituições, mas que é importante. Essas formas, de certo modo foram omitidas, os ataques cruzados e até uma certa linha de deslegitimação do outro lado e até mesmo este clima de uma certa radicalidade pode levar a tentações desse tipo. Enfim, espero que nesse aspeto as instituições, com todas as suas limitações e com todos os seus problemas, que não haja, de facto essa Que se vá sair do campo da discussão institucional, ou seja, que no pós-eleição não haja uma tentativa do que poderia ser uma espécie de golpe de Estado ou uma tentativa de deslegitimação do vencedor, seja ele quem for. Mas há riscos pela primeira vez, talvez. Pelo menos eu e o Jaime Gama somos da mesma geração, eu nunca vi, de facto, as coisas nos Estados Unidos tão radicalizadas a esse ponto como desta vez.
Jaime Gama, precisamente este aspecto. Acabo de estar a folhear a imprensa internacional e há notícias sobre, por exemplo, preocupações na União Europeia a propósito da possibilidade de o presidente Trump não aceitar o resultado das eleições. Acha que isso é exagero ou há razões para Bruxelas neste momento estar a tomar providências, estar preocupada com isso? Ou isto é ficção, é apenas construções de teorias da conspiração?
Sem dúvida, há da parte não só europeia, mas da comunidade internacional, uma certa preocupação sobre o que está a passar com esta eleição, o que se passa com os Estados Unidos e isso a partir de variadíssimos pontos de vista e interesses sobre o que deva ser a política exterior dos Estados Unidos. E também, às vezes, há um certo exagero que é o de colocar os Estados Unidos na posição de país pré-democrático.
Quase que mandarmos observadores da União Europeia e da União Africana.
Sim, ou a comissão de investigação sobre as eleições. Tem sido uma eleição muito competitiva e muito disputada. Tem sido uma eleição dura, tem sido uma eleição em que, por vezes, o apelo a esses grupos ativistas e militantes que nos Estados Unidos envolvem grupos violentos e envolvem grupos que têm culturas que passam muito por culturas do direito ao uso de armas, de legítima defesa e grupos ideologicamente muito vincados. Tudo isso é uma coisa que perpassa na vida dos Estados Unidos, mas eu não estou a ver que esses grupos, mesmo que seja dirigido a eles um apelo para perturbar o ato eleitoral, que eles tenham a capacidade para vencer as forças de segurança, as forças policiais dos estados e até o envolvimento da Guarda Nacional e depois o envolvimento das próprias Forças Armadas, que já deixaram muito claro que não se querem ver envolvidas partidariamente nesta disputa e não consentirão que isso aconteça. E os Estados Unidos têm o Congresso, têm liberdade de expressão, têm imprensa e têm também a oposição que, neste caso, faria valer os seus pontos de vista. E é uma eleição tão competitiva que cada estado está praticamente dividido. E, por toda parte, também o outro campo e há presidentes de câmara, toda a panóplia dos governos dos estados, das oposições dentro das Câmaras de Representantes e dos Senados dos estados. Enfim, há um enquadramento muito vasto e muito grande. Portanto, eu não estou a ver que a haver uma litigação sobre resultados eleitorais, essa litigação possa ser uma mistura de litigação jurídica com agitação pré-revolucionária. Não. Às vezes dá a impressão que isso possa acontecer, porque no exagero das palavras de ordem perante certo tipo de claques, há uma tentação de deixar cair uma ou outra frase que também imediatamente é magnificada pelo adversário político para criar um retrato-robô. Portanto, eu sobre isso acho que a sociedade americana, apesar desta grande polarização, tem a capacidade de contornar esse problema e de o debelar. E não vejo que destas eleições, da contestação do seu resultado por um perdedor, possa resultar uma nova guerra civil nos Estados Unidos. Isso sinceramente não vejo.
É também a sua opinião, Jaime Gama Pinto.
Sim, é a minha opinião. Tem havido violência, até curiosamente, a violência tem vindo mais dos chamados grupos antifas ou daqueles Black Power, Black Lives Matter.
Sim, mas são aquelas violências-
São violências, queimam coisas, saqueiam lojas. Quer dizer, não é a violência que houve, por exemplo, em 68, em que houve dezenas de mortes, não é bem esse tipo de violência. E é evidente que há aqueles grupos do lado contrário, também daqueles grupos que até agora praticamente também não têm entrado em grandes violências Eu não creio que nenhum responsável político vá apelar a essas violências. O que eu acho é que há um clima mais ideológico de deslegitimação. Esse clima mais ideológico de deslegitimação do adversário pode, não estou a dizer que vai, no caso de resultados, por exemplo, que andem por pequenas margens, que não sejam claros. E vai haver uma processualidade pós-eleitoral, com certeza, ligada não só aos grandes resultados da eleição presidencial, mas até às vezes a coisas locais. Aliás, já há uma série de contenciosos eleitorais a funcionar em alguns sítios, já há uma série de processos desse tipo. Portanto, esse tipo de conflitualidade jurídica será uma coisa. Até porque aí a maioria da população e mesmo as pessoas que estão mais cometidas politicamente pra um lado ou pro outro, não iriam de forma nenhuma embarcar nisso. Não vejo, portanto, esses riscos. E também não vejo por que se põe sempre unilateralmente o facto de ser apenas o Trump que iria não aceitar os resultados. Aliás, há uma coisa que ainda há dias aqui um cronista político, Luciano Amaral, escrevia no editorial, um ponto também importante. O Trump desde que foi eleito em 2016, praticamente desde o primeiro dia, uma parte dos democratas contestou essa eleição, primeiro dizendo que tinha sido a Rússia, depois avançando pra um impeachment que estava à partida condenado a não funcionar. Quer dizer, houve uma série de comportamentos também de ilegitimação desde o princípio, que também de certo modo contribuiu para criar. Ou seja, não é unicamente a verbosidade excessiva do presidente Trump que cria esse tipo de clima. É claro que ele muitas vezes responde e responde a dobrar, mas esse clima foi também criado pelos democratas. Foi também criado pelo Partido Democrata ou por alguns setores do Partido Democrata. Portanto, se vamos a essa questão do pôr em dúvida os resultados, eu francamente não vejo que isso vá sair. Agora, vai ser mais duro, vai ser mais difícil, vai ser mais crítico do que noutras eleições. Isso não tenho dúvida, porque acho que o clima neste momento é bastante mais tenso e mais dividido, mais radical do que foi em qualquer outra eleição de que eu me lembre.
Bem, isso é indiscutível. Vamos ter uma noite que se adivinha longa, mas também pode ficar decidida mais cedo. Há quatro anos ela deu-
Foi às 2h30 da manhã daqui, não foi? Mais ou menos.
Foi um pouquinho mais tarde.
Foi em Michigan.
Porque foram os estados ali dos apalaches.
Ali da banda do Rust Belt.
Do Rust Belt que acabaram por decidir a eleição e ela começou a surpreender nessa altura. Foi nessa altura, quando esses estados começaram a aparecer os resultados, que se percebeu que Trump podia vencer, podia ganhar, mas eu lembro-me que nessa noite só lá pras cinco ou seis da manhã é que eu percebi a eleição.
Não, foi mais cedo. Por acaso eu estava na TVI 24 e lembro-me que foi aí às 3h30 da manhã.
Mas este ano vamos ver qual é a diferença de votação. Se houver, de facto, uma surpresa, a noite será longa. Se não houver surpresa, ela pode ser mais curta, mas nós reencontrar-nos-emos aqui dentro de uma semana e saberemos até que ponto essa noite pela qual todos esperamos nos trará ou não uma América muito diferente daquela que temos hoje.