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Rádio Observador. Aconteça o que acontecer.

7h35min. Vamos à conversa de fim de tarde com o músico Pedro Mendes. E como vamos estar à conversa com o músico e que se estreia com uma música, é melhor começarmos por ela. Chama-se "Só te sei amar a ti", é o primeiro single do disco de estreia de Pedro Mendes, que há de sair durante este ano de 2021. Para além de músico, o Pedro é também professor do ensino especial. Pedro, bem-vindo à Rádio Observador e à conversa de fim de tarde.

Olá.

Boa tarde, Pedro. Viva. Pedro, este é o teu single de estreia. Está a nascer um cantor romântico em Portugal?

Acho que não. Não é tanto.

Já nasceu.

Não. O que eu queria dizer é que o cantor está a nascer, espero que sim, mas acho que não será apenas pela via do romance ou do romantismo.

Então?

Este álbum tem três músicas e, curiosamente, esta é uma balada e há uma ou outra. Acabou por ser esta a música a ser escolhida para single inicial, mas não resume o álbum em si. É um álbum que tem na sua base o pop e o rock, é bem animado, tem músicas bastante animadas. Esta é a mais calminha de todas.

Já agora, em relação a esta escolha para primeiro single, de quem partiu esta escolha? Foi uma coisa mais ou menos consensual?

Sim, foi uma coisa consensual. Basicamente, foi um trabalho coletivo entre mim e a agência que me representa, a Beware, de pensarmos bem na altura do ano em que ele iria ser lançado e também na altura em que estamos a atravessar. Esta situação do Covid, a pandemia, requer uma maior calma para as pessoas. E as pessoas nem sempre estão dispostas a muita animação ou àquilo que seria mais animado. Estamos a guardar essas para daqui a alguns dias. Será daqui a alguns dias que o álbum será lançado e nessa altura caberá a cada pessoa escolher aquela que quer ouvir ou aquelas que quer ouvir.

Já vamos falar das outras músicas e de ti enquanto profissional da educação. Sobre esta música em específico, o "Só te sei amar a ti", como é que foi criada esta música, Pedro?

Esta música já estava guardada há imenso tempo, mesmo há muito tempo. Não era sequer uma das músicas iniciais que estava escolhida quando comecei a trabalhar este álbum em estúdio. Surgiu porque, em conversa com o produtor, chegámos à conclusão que estava a fazer falta uma música mais calma. É um tema um pouco triste, baseada em situações vividas por mim. É uma história que assisti de perto, que se passou com familiares meus, que passaram uma vida inteira juntos. E quando se deu o fim da vida de um deles, estas seriam as palavras, ou estas foram as palavras que, ao transmitir para o papel, achei que seriam aquelas que seriam ditas. Basicamente, aqui sou apenas um contador de histórias.

Uma das perguntas que eu tinha aqui para te fazer era se esta música tinha sido escrita após uma experiência menos feliz no amor, um desgosto de amor. Aparentemente, não.

Felizmente não, porque esta música é triste.

Mas os desgostos de amor também são tristes. Quer dizer, não conheço nenhum feliz.

Estás a ver como já lá chegaste. Não há nenhum feliz. Mas não, essa história felizmente não foi vivida por mim. Não quer dizer que um dia não seja vivida, mas aqui assumo apenas o papel de um contador de histórias.

Mas há aqui músicas autobiográficas no meio destas composições que agora te preparas para apresentar?

Há várias, sim, sem dúvida. Há várias músicas que são autobiográficas. Por exemplo, neste momento, se vocês pesquisarem no YouTube ou na minha página do Facebook, apenas estão lançadas duas. Uma delas é "Miúda", que é um tema mais pop rock, mais animado. E essa tem a ver com a minha infância e com aquilo que eu vivi na minha infância, em Avis, na minha terra natal, e fala muito daquilo que foi uma vivência minha. Mas há outras mais. Outras como "O Tempo" e afins, que são situações minhas muito próprias.

Essa vida em Avis, no Alentejo, tem sido também uma inspiração para a música que tens composto e que pretendes também vir a fazer no futuro. Como é que é isso de ser um músico alentejano e de andar também por estes campos?

O Alentejo é uma das minhas maiores referências. Aquilo que mais pena tenho no meu dia a dia é de não poder viver a tempo inteiro, neste momento, na minha terra natal, por questões profissionais, porque não tive colocação ou não tenho colocação na minha terra. Neste momento, resido na zona da Grande Lisboa, mas sempre que posso, e infelizmente agora não com a frequência que queria, dada a situação do Covid e das limitações de circulação, não posso ir tanto ao Alentejo. Mas marcaram-me imenso. Muito sinceramente, eu acho que o Alentejo e os alentejanos em si têm uma forma muito específica de transmitir os sentimentos e aquilo que querem dizer aos outros. E foi uma das coisas que tentei ter em atenção, tanto eu como a equipe que trabalhou comigo, foi que as músicas que criávamos transmitissem mensagens que pudessem tocar as pessoas e com as quais as pessoas se pudessem identificar. Mas o meu Alentejo está sempre e estará sempre presente. E um dia irei lá voltar.

É uma boa fonte de inspiração.

Sem dúvida.

Olha, e as tuas músicas versam sobre quê? Já percebemos, acabaste de dizer.

Não é só amor, não. Já me iam perguntar se era só amor. Não, olha, fala de tudo, desde vivências pessoais passadas. Fala de situações como, por exemplo, o tempo, no fator tempo, de como ele nos afeta a todos nós, na nossa fase de maturação enquanto pessoas. Fala também, por exemplo, de outras situações como os dissabores que a vida nos traz, das situações que encaramos, dos desafios que encaramos e que nem sempre nos correm bem, as nossas ilusões profissionais. Fala até de questões de dinheiro, vê bem. Até há uma canção, essa é em inglês, "Turn Up the Radio", que fala até nas despesas mensais. Há aqui margem para tudo.

Muito bem. Estamos a ouvir uma dessas músicas que vai sair no teu primeiro álbum, álbum de estreia, chama-se Miúda. Quem é esta miúda, Pedro?

Eu não vos vou dizer. Olha, esta miúda foi uma miúda que vivia na minha rua quando eu era garoto. E foi, se calhar, a grande primeira paixoneta que eu tive. E é bem verdade aquilo que eu digo nesta música, eu fiz tudo para que ela me desse um beijo, ainda levei uns bons ralhetes do pai dela. E ela foi-se embora e olha, não houve esse beijo. Teve de ser outra mais tarde a dar-me esse beijo.

Muito bem. Esta miúda ainda existe?

Claro que sim, felizmente ainda está viva.

Ok, muito bem. Bom, fantástico. Pedro, tu és professor do ensino especial. Utilizas a música como ferramenta de ensino?

Depende. Eu trabalho numa unidade de ensino estruturado. Para explicar um pouco o que é, nós trabalhamos com alunos com todos os tipos de necessidades educativas especiais, desde crianças com problemas mais ligeiros, como dislexias, discalculias e afins, até casos mais severos, como autismos, situações cognitivas muito complicadas. Com alguns, a música é terapêutica e sim, funciona. Obviamente, por exemplo, um tema como este que estivemos a ouvir, a "Miúda", não seria uma boa escolha, seria demasiada agitação, por exemplo, para um autista. Mas posso vos dizer, por exemplo, que uma das músicas deste álbum, que se chama "Lição", foi feita especificamente para os meus alunos. É aquilo que escrevi quando estava a trabalhar com eles, porque realmente era uma situação que me marca muito e que me preocupa imenso o futuro destas crianças daqui a amanhã. Espero muito sinceramente estar a contribuir para o seu futuro.

Mas cantas para os teus alunos habitualmente?

Quando posso, sim, canto. Há sempre momentos, ou seja, nós temos rotinas, e há rotinas e momentos que são dedicados à música, e nessa altura pega-se na guitarrita e faz-se ali uns acordes e canta-se um pouco com eles. Alguns gostam, outros nem tanto.

Claro, como tudo. E os que gostam, Pedro, o que é que eles dizem? Quais são os benefícios da música para crianças que têm necessidades diárias? Do ponto de vista cognitivo. Acalma?

A música, como você sabe, é terapêutica para qualquer pessoa.

É verdade.

Basta pensar em cada um de nós. Quando estamos menos bem, aquilo que fazemos é ligar o rádio ou ligar um outro qualquer dispositivo para ouvir música. E com as crianças, embora todas aquelas com quem eu trabalho tenham problemas severos, a música acalma. Ou quando estamos na situação inversa, em que estão menos bem, em que entram em estados mais depressivos, a música serve aqui como escape, ou seja, dá-lhes aquele ânimo que precisam. Funciona das duas formas.

Diz, diz, desculpa.

Funciona das duas formas, ou seja, pode acalmar, como pode animar. É a música ser música.

A música é aceite pela pedagogia como uma ferramenta ou fica à descrição dos pedagogos?

Não, de forma alguma. A música é aceita e é inclusive incluída em várias correntes pedagógicas, digamos assim. E no que diz respeito, por exemplo, a crianças com necessidades executivas especiais, há inclusive conjuntos de atividades que são mesmo baseadas em música. Há mesmo terapias baseadas em música. Por exemplo, os meus alunos, todas as semanas, e felizmente, porque o meu agrupamento está inserido numa câmara que tem um conservatório de música, a Câmara de Loures, e que Proporciona mesmo aos alunos contacto com a música, com instrumentos musicais, com voz e com tudo o resto, porque realmente é um fator de desenvolvimento a nível psicológico e não só.

Ou seja, neste momento, a música, e no seguimento daquilo que perguntava o João Miguel Santos, já é encarada como uma ferramenta muito útil também, neste caso, para o ensino especial e para estas crianças que precisam de uma atenção especial também no momento da aprendizagem. A música pode fazer a diferença neste campo?

Sim, bastante. Vou dar-vos um exemplo. Não sei se vocês estão muito a par do que é a vida ou o trabalho com crianças autistas. Nós temos uma sala, ou costumamos ter uma sala, que é chamada de sala snoezelen, onde para além dos efeitos visuais, há estímulos visuais, de luzes e não só, está sempre a acompanhar uma música de fundo, porque funciona como um estimulante para aquelas crianças. E é realmente mais do que aceito, acho que por toda a comunidade científica dedicada à educação, que a música é essencial, não só para estas crianças de ensino especial, como para as outras. A música faz parte do programa hoje em dia. Infelizmente, não tem a carga que deveria ter a nível curricular, porque outras áreas se sobrepõem e o Estado português acha que assim tem que ser. Mas acho que cada vez mais percebemos que há outras áreas importantes e que são fundamentais. A música, o desporto e não só, outro tipo de artes motoras.

Pedro Mendes, não sei se entretanto já abordamos muito esse passo, mas como é que se dá esse passo em frente de querer ser músico profissional? Como é que se despertou também esse artista que aí vivia, querer mostrar a música a todos, ir um pouco além também desta atividade letiva? Como é que tudo começou? Era um sonho de há muito tempo?

Era um sonho de há muito tempo. Desde garoto que eu me dedico à música. Fui participando em projetos de covers, em back vocals para outros artistas e fui sempre levando na cabeça de quem me é mais próximo, por que não arriscava e por que não começava eu mesmo a trabalhar nas minhas músicas? Havia imensas já escritas e quando havia aqueles momentos de reuniões de amigos e afins, eu partilhava essas músicas e eles diziam: "Por que não? Por que não partilhas essas músicas?" Até que 2020, apesar de ser um ano muito atípico, foi o ano em que foi como um grito Ipiranga: é agora. Não tinha que ser antes, não tem que ser depois. Este é o momento certo, é o momento de arriscar e de lutar por mim e de tentar alcançar algo, neste mundo da música, meu.

Mas lá em Avis tinhas bandas, era isso?

Em Avis, não. Eu vou explicar. A minha terra natal continua a ser Avis, mas em Avis não há ensino secundário. E eu, aos 13 anos, tive que sair de Avis, da casa dos meus pais, e fui para Portalegre, para uma residência de estudantes. E aí contactas com jovens de todo o distrito, mas não só, vinham pessoas de Lisboa e de vários outros pontos do país. E nessa altura foi um contacto com muitos géneros musicais que até então não tinha. E foi aí que começaram a surgir as primeiras bandas de covers e brincadeiras com amigos, depois mais tarde na faculdade também, e hoje ainda mantenho um ou outro projeto de covers.

Mas fala-me então dessa experiência de sair de Avis aos 13 anos para ir estudar para Portalegre. Interessa-me. Estudaste num superagrupamento, não é? E acabaste por ficar a dormir de segunda a sexta na cidade de Portalegre.

É. Segunda a sexta, às vezes ficava também aos fins de semana.

Castigo? Não. Não era castigo.

Não era castigo, era porque depois havia estas situações da música e assim. E então tinha que ficar também aos fins de semana em casa de amigos, porque a residência ao fim de semana, por norma, fechava.

Mas sentiste que te emancipaste aos 13 anos ou não?

Sem dúvida.

Sem dúvida?

Eu costumo dizer que era a criança mais ingênua que havia naquela terra, até porque eu entrei mais cedo para a escola. Eu entrei um ano mais cedo para a escola porque a minha educadora de infância achou que eu já tinha as competências necessárias para o primeiro ano. E foi um erro, porque eu era muito imaturo. E lembro-me de ser sempre muito imaturo em relação aos meus colegas, que eram mais velhos que eu, ingênuo até. E eu sair de casa, da asa dos pais e daquela proteção dos avós e por aí afora, com 13 anos, foi um despertar, foi conhecer outro mundo, foi conhecer outras pessoas. Como a minha mãe costuma dizer, foi partir a cantareira toda.

Pois, era isso que eu ia perguntar. Houve muitos disparates ou não?

Bastantes. Isto não era bonito se dizer em rádio, eu não devia estar a dizer estas coisas.

Não, mas diz.

Não puxem por mim, porque eu sou um desbocado. Olha, eu nunca tinha dado uma falta, nunca tinha ido para a rua, acho eu, até ao nono ano de escolaridade. E logo na primeira semana que cheguei a Portalegre, isso aconteceu. E antes de chegar ao final do primeiro período, a minha mãe recebeu em casa uma carta por causa de faltas. E levei uns bons ralhetes da dona Fátima, que era a senhora responsável pela residência, por alguns disparates que fiz, que não me arrependo, porque os fiz na altura que tinham que ser feitos e que contribuíram para a pessoa que sou hoje em dia.

São, portanto, disparates feitos na altura certa e ralhetes que podem ter ajudado a que depois surgisse mais tarde um músico.

É claro que sim, tudo faz parte. Eu acho que todas as vivências da nossa vida nos levam àquilo que somos atualmente. E sou muito grato a tudo aquilo que vivi no passado, às coisas boas e às menos boas, porque se não tivessem havido coisas menos boas, não seria quem sou hoje em dia. E não guardo rancor de nada, nem a ninguém. Tudo faz parte. E Portalegre foi, sem dúvida, um patamar fantástico na minha vida. Castelo Branco também, depois para o ensino superior, aí então foi o partir da cantareira toda.

Imagino. Mas há no fundo aqui também um louvor ao interior.

Sem dúvida, sabes que eu sou um rapaz do interior e sempre que posso, e volto a dizer isto Faço questão de falar da minha terra, porque tenho um orgulho imenso da minha terra, Évora.

Muito bem.

No meu distrito. Acho que é um distrito muito abandonado, infelizmente, hoje em dia. Acho que devia haver maior atenção às pessoas, a quem lá está e a tudo aquilo que lá se faz. Mas sim, o interior sempre foi muito presente pra mim. Aliás, eu só saí do interior mesmo por questões profissionais, porque no interior não havia trabalho pra mim e por isso vim pra Lisboa.

É a deixa perfeita pra nossa última pergunta. Quando eu e o João Alexandre formos a Évora, o que é que não podemos falhar?

Vocês não podem falhar comida. Pronto, isso é certo. Tem muitos restaurantes e bons em Évora, bastantes mesmo. Se quiserem, depois deixo-vos a dica de uns quantos que podem experimentar. Não deixem de ir ao Clube Náutico, porque o Clube Náutico tem um espelho d'água fantástico, que é a Barragem do Maranhão. Tem ótimos hotéis hoje em dia, hostels, hospedarias e por aí afora. Muito bom, as pensões. As pessoas são fantásticas em Évora, sabem receber muito bem. Já pra não falar que é uma vila lindíssima, com um patrimônio histórico fantástico, bem preservado, e passam-se muitos bons momentos. Tem desde lazer desportivo a lazer histórico. Meus caros amigos, quando o confinamento passar, marquem na vossa agenda ir até Évora, vale bem a pena. Digam que vão da parte do Pedro, pode ser que consigam desconto em alguma pensão.

Fica o convite e foi um bom postal falado.

Muito bem, é isso, exatamente. Pedro Mendes, foi um prazer estar à conversa contigo. Eu só falo pela Câmara de Évora. Estou a brincar. É mentira, não é verdade. Não tenho contacto com a Câmara de Évora, é uma piada. Pronto, uma piada mal escolhida.

Não, também não vinha mal ao mundo. Pedro Mendes, foi-

Foi apenas uma homenagem às pessoas da minha terra e à minha terra, do qual me orgulho imenso.

Muito bem, Pedro Mendes, foi um gosto estar à conversa contigo nesta emissão da tarde em direto. Pedro Mendes, que acaba de lançar o seu primeiro single, que faz parte do seu primeiro álbum, que há de sair dentro de semanas. É isso, Pedro?

Sim, eu creio. Neste momento, está dependente da editora, mas creio que mais duas, três semanas no máximo, ele estará disponível em todas as plataformas digitais, pela Farol, que é a minha editora. E espero que todos vocês possam ouvir e rever-se nas músicas. E depois deixem o vosso feedback. E já agora, apelo a todos os vossos ouvintes, se puderem, que acompanhem nas redes sociais e que vão deixando os vossos comentários e o vosso feedback, porque é sempre uma forma de melhorarmos aquilo que é o nosso trabalho.

Muito bem, Pedro Mendes, até à próxima e muito obrigado.

Obrigado pelo vosso convite, fiquem bem.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.