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Recebemos nesta tarde, em direto, o Alex Cassal. É encenador, dramaturgo, ator e até dia 15 pode ver no Teatro do Bairro Alto a peça "Morrer no Teatro", mas no próximo ano a agendas também já está bastante preenchida com trabalhos do Alex e que vamos também conversar sobre isso. Alex, bem-vindo ao "A Tarde em Direto". Obrigada pela disponibilidade.

Obrigado, Ana.

Olá, Alex, viva.

Olá, João.

Viva.

Alex estudou História e adora ler banda desenhada. Eu ia dizer que cresceu a ler banda desenhada, mas o Alex ainda hoje gosta muito de ler banda desenhada. Tudo isto também mudou a sua forma de ver o mundo, de a transmitir depois no teatro?

Sim, é meio inevitável. As referências, as imagens que formam aquilo que a gente pensa hoje, aquilo com que a gente sonha. Eu comecei a fazer teatro muito cedo, eu comecei a fazer teatro ainda no liceu. Eu fui fazer aula de teatro, porque podia escolher entre aula de música e de teatro, e eu odiava música. Eu sou muito desafinado, não conseguia acertar duas notas. Então eu pensei: "Olha, teatro não pode ser pior do que música, vou pro teatro". E gostei. Então segui fazendo teatro. Eu fui fazer umas oficinas num grupo da minha cidade, que é Porto Alegre, no sul do Brasil, uma cidade pequena, e comecei direto a trabalhar com esse grupo. Então eu muito cedo, 17 anos, já estava trabalhando como ator e era um grupo que todos faziam tudo: cenário, iluminação, decidir qual era o texto que ia ser montado, decidir como que ia ser encenado, eram criações coletivas. Então por uns quatro anos que eu trabalhei nesse grupo, serviu como uma espécie de formação geral pra mim em teatro.

Foi um grupo onde conseguiu ter todas as ferramentas para o trabalho futuro também?

Sim.

Que te deu noções sobre tudo, sobre o que existe no teatro?

Eu acho que sim, eu acho que me fez pensar que o trabalho de ator é também parte trabalho de encenador, trabalho de dramaturgo, de pensar o espetáculo pra fora de o que esse personagem tem que fazer, como ele anda, como ele fala, o que ele comeu antes de vir pra cá. Então acho que o caminho também serviu pra rapidamente eu me tornar encenador e dramaturgo, porque acabava pensando tudo muito junto. E nisso, eu comecei a trabalhar com teatro e não entrei na faculdade imediatamente. Então depois de alguns anos, quando eu resolvi fazer faculdade, eu já pensei: "Hum, o que eu poderia fazer que abrisse um pouco o meu horizonte, que não fosse exatamente o curso onde eu estou a trabalhar agora?" Então fui pra História, sem saber ainda muito bem, pensando: "Ah, um curso que me interessa, que pode aprofundar meus conhecimentos" e que eu adorei. Me ensinou muito, principalmente-

Mas chegou a exercer, chegou a ser, por exemplo, professor de História ou ficou sempre com o Teatro e pelas Artes?

Sempre no Teatro pelas Artes. Durante os três, quatro anos que eu estive na faculdade de História, eu escrevi artigos, participei de algumas conferências e até por algum tempo eu fiquei acariciando a ideia de ser historiador. Foi muito bom, porque eu fui artista de teatro a minha vida toda, mas esse período eu pensei: "Eu poderia ser feliz e realizado fazendo outras coisas". Eu me dei conta que talvez seja menos o teatro, mas um tipo de relação com o conhecimento, com a pesquisa, com o estudo, que é o que instiga a minha curiosidade, o que me prende a um determinado assunto.

É engraçado que fale desse conhecimento, dessa pesquisa. E há aqui uma peça, e já falando do próximo ano, já lá vamos falar também do "Morrer no Teatro", que está até dia 15 de dezembro no Teatro do Bairro Alto. Mas eu tenho muita curiosidade em relação a esta peça. Em março vai estar no Dona Maria II, "A Menor Língua do Mundo", e isto deu imenso trabalho, eu imagino, e imensa pesquisa também. Explique-nos um bocadinho o que é que se vai-

Deu imenso trabalho. Esse é um projeto que foi proposto pra Paula Diogo, que é uma parceira muito frequente aqui em Portugal e pra mim, pela estrutura Materiais Diversos, a produtora que tem também um festival na região do Mindo. E a Elisabete, dos Materiais Diversos, nos procurou, a gente já se conhecia, e fez uma proposta: "Ah, eu queria que vocês criassem um espetáculo teatral a partir das línguas minoritárias portuguesas". O que me fez logo, no meio da conversa, pisar no freio e ter que pedir pra explicar: "Línguas minoritárias portuguesas? Do que se trata?" Então, o que eu vinha a saber, tenho vergonha de dizer que ainda não tinha ideia, que existiam outras línguas faladas em determinadas regiões, e começou um processo de tentar perceber como que se poderia falar sobre essas línguas. O projeto, depois de alguns debates, pesquisas iniciais, a gente resolveu centrar em três dessas línguas, que é o minderico, que se fala no Mindo, o barranquenho, em Barrancos, e o mirandês, Miranda do Douro, e organizamos uma equipa com Paula e eu somos os dois artistas de teatro, não somos linguistas ou antropólogos. Eu sou historiador, mas não um historiador praticante. Então as nossas ferramentas para aprofundar, para mergulhar nesse assunto, eram ferramentas do teatro, da nossa arte. Então o que a gente pensou foi criar uma equipa de pessoas diversas. Nós tínhamos três atrizes, a Zia Soares, que nasceu em Angola, vive cá, é do grupo Griot, a Silvia Filipe, atriz portuguesa, e a Gabriela Doria, uma atriz brasileira, pensando em três perspectivas diferentes para essa nossa mesma língua comum que é o português, e mais o músico, o João, mais uma realizadora de cinema, a Leonor, pensando com uma equipa que reunisse ferramentas suficientes para poder lidar com algo que a gente ainda não sabia o que seria. Essa era a grande questão. A gente não conhecia ainda essas regiões ou essa língua.

Por onde viajaram também, não é? Para conhecer.

Sim, em cada uma dessas regiões a gente fez uma residência, passou um período de tempo, fazendo entrevistas com pessoas, com falantes, com pessoas que viviam ligadas à cultura ou não, um padeiro ou um músico, o diretor de um centro cultural, ou só uma senhora pastora que lembrava de muitas coisas.

Pessoas que transmitissem língua e história.

Língua e história, e essa ideia de que a língua não é algo descolado da nossa relação com o mundo. A língua é justamente o que faz esse caminho entre o que a gente é e o mundo que está lá fora da gente, e ele entra e a gente sai e fica essa via de mão dupla. Então em cada residência a gente recolheu uma quantidade muito grande de materiais, de gravações de áudio, de gravações em filme. A gente gravou filmes em Super 8, que é uma bitola que praticamente não existe mais, é um formato que eu acho muito bonito, e a gente achou que podia ser interessante usar um formato de cinema em extinção para falar de línguas em extinção. E então reunimos todo esse material e teve um período final, cá em Lisboa, para ver que espetáculo faríamos disso. Esse espetáculo estreou agora há pouco tempo no Festival Materiais Diversos, em Alcanena, fomos ao Porto e agora em março vai ser aqui em Lisboa.

É isso mesmo, no Dona Maria II.

No Dona Maria.

No dia 15 de fevereiro, enfim, é até dia 15 de fevereiro que pode ver esta outra peça que lhe falei há pouco no Teatro do Bairro Alto.

15 de dezembro.

Dezembro. O que eu disse? Fevereiro, não foi, não. Dezembro, exatamente. A peça "Morrer no Teatro" e o que conta exatamente?

"Morrer no Teatro" tem uma história que está ligada à primeira vez que eu estive a trabalhar cá em Portugal.

Começou quase há 10 anos a trabalhar neste texto.

Há 10 anos. Por acaso fechou praticamente uma década, desde que essa ideia começou a ser trabalhada. Eu fui convidado por Thiago Rodrigues para um projeto que seria feito no Teatro Maria Matos, na época sob direção do Marc Deputter. O Thiago teve a ideia de reunir um grupo de artistas de teatro portugueses a um grupo de artistas de teatro brasileiros e juntos criarem três espetáculos em três semanas. Era um desafio de criar um espetáculo, quase como um salto sem paraquedas, que é pular e não ter tempo de, de fato-

De pensar, sequer.

Sequer pensar. Então viemos quatro artistas brasileiros. Eu não conhecia o Thiago, não conhecia nenhuma das pessoas que se tornaram depois parceiros frequentes, inclusive a Paula Diogo, o Thiago, a Cláudia Gaiolas, e estivemos cá por esse período muito curto. Então enquanto estivemos cá, a gente ficou praticamente a viver no Teatro Maria Matos. Ensaiávamos lá de manhã cedo até a tarde da noite, as refeições eram lá dentro. E foi um período, se eu não me engano, junho, julho, era um verão extremamente quente. Então em algum momento que eu estava no Maria Matos, eu imaginei essa sobreposição de estarmos trancados lá e quase em oposição a tanto calor, imaginei que começava a nevar fora do teatro. E pensei: "E se a gente ficar preso aqui? Nós éramos nove pessoas a criar esse espetáculo, se ficarmos presos, como que a gente vai viver cá?"

Mas era uma espécie de apocalipse no exterior, tudo acabava, era o fim dos dias e sobrava quem estava dentro dessa sala.

Apenas essas pessoas, que é a ideia comum, e aí voltamos à banda desenhada. A ideia comum é esse universo de apocalipse zumbi ou de um meteoro que vai cair sobre a Terra ou qualquer tipo de praga que extermina a grande maioria da humanidade e sobra aquele pequeno grupo de resistentes, sobreviventes, que tem que recriar Algum tipo de sociedade.

E demorou tanto tempo a conseguir construir o texto, porque esteve muito tempo também sem uma resposta para o que fazer com essas personagens. Foi mais ou menos isso que aconteceu?

Sim. Os textos também têm vidas engraçadas. Alguns ficam prontos muito rapidamente. Alguns, como "A Menor Língua do Mundo", é uma encomenda, com prazo pra ficar pronto. E essa foi uma ideia que eu tive durante esse primeiro projeto, há 10 anos, e que eventualmente, em períodos de liberdade, eu voltava e pensava: "Isso podia se tornar um espetáculo". E tentava escrever e abandonava, e começava a fazer outra coisa, e não chegava talvez ao formato que mais me interessasse. E acho que também isso serviu pra ir reduzindo, quase como na culinária, uma ideia que inicialmente eu pensava pra nove atores, o número de atores que éramos na época, e que acabou se tornando um monólogo. É feito cá, agora quando finalmente estreou, com o Marco Paiva, um ator com quem eu já trabalhei. Um único ator em cena contando a história, ele como porta-voz da história dessas pessoas que ficaram presas no teatro. E as pessoas que, no universo desse espetáculo, são os espectadores que iam assistir àquele espetáculo naquela noite. O salto de imaginação é pensar: se o mundo acaba enquanto estamos a assistir essa peça, o que aconteceria conosco dentro desse teatro?

É pra ver até dia 15 deste mês no Teatro do Bairro Alto. Alex, já está cá a viver em Portugal há cinco anos, mais coisa menos coisa, o que aqui o surpreende no nosso meio artístico, na nossa criação? É cá que se sente completo também?

Sim, eu sou duas vezes migrante. Eu vivi até os 20 e poucos anos na minha cidade natal e fui pro Rio de Janeiro, que talvez tenha sido um salto mais difícil do que vir do Brasil pra cá. É uma cidade muito grande, muito complexa, foi onde eu de fato senti o impacto de: eu não estou mais na minha terra, eu não sei mais como lidar com as coisas do dia a dia e tenho que aprender tudo de novo. Eu acho que a vinda pra Portugal já foi-

Mais natural.

Já foi mais natural, talvez mais velho, mais experiente. Isso foi uma vinda que se deu ao longo de 10 anos ou de cinco anos, quando finalmente eu de fato fiquei a viver cá. Então acho que foi mais tranquila. Mas ainda sou migrante, com um pé no Brasil e outro cá, feito de relações ainda lá, de relações mais recentes cá. E é difícil pra mim pensar o que é específico já de Portugal, nas relações de trabalho, nas relações afetivas, ou do Brasil. Um criador de teatro, o Eugenio Barba, italiano, tem uma imagem que eu acho muito bonita, que ele fala que o país dele é o país das ilhas flutuantes, de ilhas que flutuam pelos mares e que levam pessoas de todos os países. Então ele sente que a comunidade dele, a nação dele é feita por italianos, dinamarqueses e japoneses, e que são pessoas que criam ali alguma identidade, uma identidade afetiva, cultural, e eu tenho um pouco essa sensação. Esse primeiro espetáculo, que éramos quatro brasileiros e três portugueses, porque um dos portugueses ficou doente na época e não conseguiu fazer o espetáculo, nos sentíamos muito próximos, apesar das diferenças culturais, das diferenças todas inevitáveis. E acho que daí também veio essa sensação de que o meio que eu vivo cá em Portugal é o meio que são os meus conterrâneos.

Mas olhando para o Brasil, nós conversávamos também um bocadinho em off sobre isso. O Brasil mudou muito desde que veio pra cá. Sente-se artisticamente mais livre cá do que seria no Brasil nesta altura?

Sim, sem dúvida. Eu saí do Brasil antes da crise. E essa crise é uma que eu fui acompanhando à distância, eventualmente estando lá e participando de manifestações, de encontros e presenciando fatos políticos e sociais, mas já estando cá. E a sensação, de modo geral, é de estar a assistir a um filme apocalíptico. O quanto a sociedade e a política, em todos os níveis, em todas as camadas, mudou em cinco, quatro ou três anos. Desde o impeachment da presidente Dilma, após a eleição do Bolsonaro, todo o desmonte atual das conquistas sociais, das conquistas que tornavam possível a vida pras camadas mais desprotegidas da sociedade e que agora estão de novo sob ataque das forças mais impiedosas, eu acho. Então olhar pro Brasil agora, onde Tenho família, tenho amigos, colegas e afetos. É olhar pra um país onde eu não me reconheço. Não é o meu país nesse sentido.

Mas é um país ao qual pensa voltar em breve?

Não em breve, por uma série de razões. A situação política agora do Brasil é essa, é um país que está perseguindo artistas, que está perseguindo de forma programática artistas, pessoas de cultura, pessoas de esquerda. Para além disso, eu estou a viver cá há cinco anos, eu fiz essa passagem, já transpus as minhas raízes pra cá. Então é difícil eu pensar em, de novo, agora, dar o salto pro outro oceano.

Há pouco falava das ilhas flutuantes. Lisboa, neste caso, porque é a cidade onde está em Portugal, é uma cidade que sempre acolheu, mas que foi acolhendo cada vez mais pessoas que vêm de outros países. Sente que Lisboa é um bom sítio para criar esses laços com pessoas de todos os cantos do mundo?

Sim, certamente. Os amigos, os conhecidos de cá falam muito de um certo isolamento de Portugal em relação à Europa. Eu, como não sou de cá, sinto que Portugal está sendo atravessado não só pela Europa, mas pelo mundo todo, o tempo todo. Tanto em relação ao teatro, à arte, mas de pessoas, de migrantes ou passantes, turistas, pessoas que atravessam esse lugar, pessoas influências de outros lugares. Então é uma cidade, Lisboa, e é um país que eu acho que tem uma escala que ainda é muito humana pra mim, mas ao mesmo tempo está no centro de uma área de trânsito, de ideias, de questões, de políticas, que eu acho muito interessante.

Alex, não temos mais tempo, mas já pensando no próximo ano, já que falamos de peças que vão estar por aí no próximo ano, há alguma ideia que esteja a trabalhar neste momento e que nos possa contar?

Tem uma ideia que vai ser realizada em Coimbra, em julho, se eu não me engano, do ano que vem, no Festival Linhas de Fuga, um convite da Catarina Saraiva, a programadora do Linhas de Fuga, que é realmente uma ideia, mais um daqueles projetos que é uma ideia, que ainda quando chegar mais perto é que eu vou perceber como vai ser, e que é tentar realizar uma sessão de speed dating, que é aqueles encontros programados que um grupo de pessoas se reúne por um período de tempo muito curto, um minuto, três minutos, cinco minutos no máximo, cada pessoa fica diante da outra, conversam, trocam informações, toca um sinal sonoro, as pessoas rodam pra ver se no fim tem algum tipo de encontro ali, de encaixe. E tive essa ideia de realizar um speed dating entre artistas e espectadores. Então que o espetáculo que seja feito de encontros muito curtos entre espectador, um artista, um espectador, um artista, um espectador e um espectador, um artista e um artista, eventualmente, e ver o que fica depois desses pequenos encontros.

Interessante. Vamos ficar à espera para saber o resultado. Alex Casal foi o nosso convidado de hoje, encenador, dramaturgo e ator. Alex, obrigada, até à próxima.

Obrigado, Ana. Obrigado, gente.

Olá, eu sou Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM. Na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.