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Hoje a nossa convidada é a ilustradora Ana Gil. Ela que tem uma das páginas mais apetecíveis do Instagram. De churros a croissants, com sushi incluído e até ao tradicional galão, à bifana, a Ana desenha tudo. O convite é passar agora pelo Instagram, pelo Facebook também, enquanto conversamos, para espreitar o trabalho da Ana Gil. Basta escrever Ana Gil Illustrations. É assim, Ana. Bem-vinda, boa tarde.
Olá, boa tarde.
Olá, Ana. Viva.
Olá, boa tarde a todos os ouvintes e boa tarde a vocês. Obrigada por este convite. É isso mesmo. O meu dia a dia está na minha página do Instagram. É o meu convite a passearem comigo e também a degustarem comigo todas as coisas que eu desenho e todas as paisagens por onde eu passo. Portanto, todas as pessoas estão convidadas a passarem pela minha página e quiçá dar uma trinca num dos meus desenhos. Estão muito convidadas a fazê-lo.
Dá vontade.
Exato, estão à vontade.
Dá mesmo. Ana, mas como é que tudo isto começou? É um bom garfo, certo? Gosta de comer.
Bastante. Eu gosto de provar tudo um pouco, de todos os pontos geográficos do mundo. Eu tenho bastante interesse e curiosidade de o fazer. Isto tudo começou com a minha ida para São Paulo, para o Brasil, a trabalhar como arquiteta e em 2012, estando lá em São Paulo, eu vou abrir a minha conta. E a minha conta, curiosamente, creio que o meu primeiro post é exatamente isso, é um desenho de comida. Portanto, tudo começa nessa cidade e com um desenho da gastronomia local.
Ana, não sei se foi para São Paulo sozinha, mas isto foi uma forma também de estar acompanhada à mesa, estar a desenhar ao mesmo tempo enquanto comia?
É exatamente por causa disso. Eu em São Paulo, apesar de estar lá com família, o meu dia a dia normalmente era sozinha e era quase uma desculpa para poder acompanhar esta solidão. Não é bem esta a expressão, não era isto que eu sentia, mas era quase algo que me acompanhava. Era estar à mesa, mas não havia aquele mau estar de estar à espera. Havia sempre qualquer coisa para eu fazer. E comecei de uma maneira descomprometida e acabou por se tornar algo mais sério e até algo profissional.
Era isso ou pegar no telemóvel também, não era? Era a outra opção.
É.
Melhor assim.
Melhor assim, menos ecrã, menos aquele ecrã azul, que é um bocado incomodativo e acaba por ser uma maneira criativa e uma maneira também um pouco diferente de estar à mesa e é algo que eu gosto muito e tenho muito prazer.
A verdade é que se as fotografias de comida fazem imenso sucesso nas redes sociais, os desenhos também. A Ana estava à espera desta reação toda? Tem imensos seguidores. Há imensas reações e há empresas muito interessadas também no seu trabalho. E já lá vamos, porque essa também é uma parte interessante, mas estava à espera desta reação?
Eu acho que acabam sempre por ser olhares criativos, portanto, o olhar do fotógrafo é um olhar criativo, vai despertar atenção, sem dúvida. O olhar de um ilustrador, eu ou sendo outro ilustrador, acho que acaba por ser também outro olhar. É um olhar individual, um olhar que nos distingue e acaba por ser também um pouco a nossa expressão daquele momento e portanto, fico contente por ter esta aceitação das pessoas a gostarem realmente daquilo que eu faço e de abordarem-me na rua, abordarem-me nos restaurantes. E isso acaba por ser bastante engraçado e é algo que eu sempre gosto, falar com as pessoas que me seguem e que me acompanham nesta vida criativa.
Sendo que a Ana não desenha apenas comida, isso também é importante dizê-lo. Há também por lá muitas paisagens. Qual é a logística de tudo isto? Ana, estou aqui a olhar, é pena nós não termos imagem, mas a Ana anda sempre com um caderno atrás e com um estojo, não é?
É, isto é religioso. É algo que me acompanha sempre, mesmo que agora esteja a falar e não esteja propriamente a desenhar, é algo que me acompanha sempre. Eu ando sempre com cadernos e ando sempre com materiais que eu posso chamar materiais riscadores, sejam aguarelas, sejam canetas. Estes são os materiais que sempre que me virem algures, eles vão estar perto de mim. Por acaso o telemóvel não está aqui comigo, mas estes materiais são de facto essenciais no meu dia a dia e em qualquer sítio que eu vou.
Mas a ideia, Ana, passa por desenhar aquilo que vai tendo à mesa ou vai usando também a imaginação para desenhar aquilo que gostava de ter na mesa, mesmo que por acaso não vai comer daí a cinco minutos?
Isso pode acontecer, mas o meu objetivo principal é desenhar o meu dia a dia. Esse é o mote, desenhar diariamente, nem que seja para treinar aquilo que eu profissionalmente faço também. Eu até chamo os meus desenhos uma espécie de ginásio diário, em que eu treino quase de um modo obsessivo, aquilo que tenho à minha frente, seja comida, seja uma paisagem. É desse modo que eu encaro os meus desenhos. Relativamente ao lado mais imaginativo, quando eu retrato algo que está à minha frente e poder daí extrapolar algo mais imaginativo e mais criativo. Isso às vezes acontece. Por acaso até aconteceu um trabalho muito curioso. Uma vez pediram para desenhar comida, mas comida que eu detestasse realmente. Esse foi um trabalho imaginativo que eu fiz com algumas comidas que eu gosto, mas que tinha que as transformar em algo que eu realmente detestava. Até acabou por ser algo bastante engraçado, foram umas pizzas com umas chamuças em cima. Esse lado imaginativo também acontece.
E que despertou aqui interesse de muitas empresas. Já fez ilustração para restaurantes, para publicações, incluído para "O Observador” também.
Verdade.
Já o fez. Acabou por correr também muitíssimo bem. Esse reconhecimento também é importante, claro.
Sim, acaba por ser as pessoas que também permitem que o meu sonho continue. Porque apesar de haver esta coisa muito criativa e muito espontânea, que sou eu a desenhar à mesa ou eu a desenhar uma paisagem, é sempre bom que alguém nos remunere por isso. E então estas marcas, as várias com que eu já trabalhei, eu gosto de pensar nelas como estas pessoas que permitem que o meu sonho continue. E é graças a elas que eu também posso continuar a desenhar e a continuar a comprar os meus materiais, porque apesar de tudo, este lado mais artístico às vezes é um pouco pesado a nível monetário. E são essas marcas que realmente permitem que eu continue a fazer estas coisas que eu adoro.
Mas as próprias marcas estão atentas, porque muitas vezes uma marca pode ganhar um impulso completamente diferente se tiver uma boa imagem.
É, também é verdade. Relativamente ao Instagram, não é muito comum eu fazer desenhos remunerados. Relativamente a restaurantes, isso não acontece. Vai ser muito comum na minha página haver até tascas, coisas que parece não há nenhum valor associado e não há, de facto. Quando eu exponho algo no meu Instagram, à partida é porque realmente gostei. Não estou a ver agora nenhuma marca que eu tenha feito uma proposta orçamentada. Eu gosto de dar esse cunho pessoal. Não há nada ali que eu queira destacar por dinheiro. Até agora tem sido sempre eu que realmente destaco, nem que seja a batata frita caseira, nem que seja o churro, nem que seja a laranja. Gosto de dar esse cunho pessoal e também o meu lado mais pessoal para as pessoas que me acompanham.
Ana, a tempo inteiro dedica-se apenas a isto ou não?
Neste momento, sim. Eu acredito que enquanto estas marcas e estes colaboradores com quem eu faço os meus trabalhos me permitirem sonhar, vou continuar com isto a tempo inteiro, sim, sem dúvida.
Continuar a fazê-lo. Estamos à conversa com a Ana Gil, a ilustradora, portanto eu reforço aqui este convite. Se nos está a ouvir, passe pelas redes sociais para conheceres o trabalho da Ana. É muito mais interessante estarmos a falar do seu trabalho, Ana, e as pessoas que nos estão a acompanhar estarem também a vê-lo. Sempre desenhou. É aquele clichê típico de eu desenhava sempre e então depois decidi que este era o meu caminho, ou não?
Há uma coisa muito engraçada que eu tenho estado a fazer ultimamente, que é na minha página do Facebook. Eu agora estou a partilhar alguns desenhos de infância.
Eu vi um do Natal, não foi?
Isso é muito giro, que é: quem é aquela pessoa que desenhou aquele desenho tão... Tem uma carga muito infantil, mas também tem uma carga muito honesta. Aquilo era realmente aquilo que eu queria desenhar e todos os traços são feitos de uma maneira muito espontânea. E eu gosto e guardo isso com bastante felicidade, que é permitirem às crianças desenhar de uma maneira espontânea, não castrar logo aquela ideia de: "Isso não está muito parecido" ou "tu não desenhas muito bem". E eu não tive este enquadramento. Eu tive um enquadramento muito mais positivo.
Até porque desenhar bem é algo relativamente subjetivo, por vezes.
É muito subjetivo. Eu gosto de pensar que toda a gente tem o seu cunho pessoal e a sua individualidade e que toda a gente sabe desenhar. Desenhar pode ser visto como uma disciplina, do tal modo como nós aprendemos português ou matemática ou outra disciplina, nós aprendemos a desenhar. O problema vem exatamente quando nós temos uma série de preconceitos que normalmente estão relacionados com não está parecido, logo, isto não está bem feito, logo, isto não é um desenho bonito e não é bom e eu não tenho jeito e já não treino mais e já não faço mais nada.
Escondemos, à partida, um talento que pode ali existir.
Completamente.
E quando a Ana fala dessa questão de olhar para o desenho diário como se fosse um ginásio, é porque a Ana cultiva essa ideia de a prática fazer a perfeição, é por isso ou é mais pelo gosto?
Acho que não é bem a prática pela perfeição, mas é a prática pelo facto de isso me ajudar a fazer os outros desenhos. É visto mesmo quase como uma questão do ginásio, quase como se nós treinássemos. Nós começamos a desenhar, como se corrêssemos o primeiro quilómetro, amanhã já corremos dois, depois cinco, depois 10. E à medida que treinamos esse desenho, essa mão, ela já fica bastante exercitada para desenhar aquilo que nós quisermos. E isso acaba por ser bastante positivo no nosso dia a dia, porque eu gosto muito de dizer que a ilustração tem uma coisa fantástica, que é: eu tenho um orçamento infinito, portanto eu posso desenhar mil vezes 100 maçãs e eu não comprei nenhuma maçã. E a ilustração tem esse poder, enquanto que, se calhar, por exemplo, um fotógrafo tem que comprar a maçã, no dia seguinte tem que comprar outra maçã para fotografar, etc. O ilustrador pode fazer com a maçã que desenha aquilo que quiser. Pode deitá-la ao chão, pode mandá-la para o ar, pode pôr uma minhoca dentro, pode tirar a minhoca e portanto essa ginástica é fantástica e não há limites, de facto.
Ana, mas como é que este interesse, enfim, foi uma coisa desde a infância praticada ou houve ali um clique qualquer no seu percurso, porque tirou o curso de arquitetura. Como é que começou de repente a dedicar-se só e apenas à ilustração?
É assim, eu começo a desenhar desde pequena, o interesse pelas artes é logo muito inicial. Eu entro no agrupamento de artes, portanto eu sigo essa parte artística. Sigo então para arquitetura e chego a exercer então arquitetura. O clique dá-se realmente em São Paulo, quando devido a motivos vários, a vida de arquiteta era um pouco difícil e a vida de estar fora do país também era particular. E o que acontece é que eu acabo por me despedir do local onde estava a trabalhar e começo a desenhar dias e dias a fio.
Como uma terapia ou não?
Era muito terapêutico, mas era uma maneira também daquela cidade fazer parte de mim. São Paulo é uma cidade muito particular, é a cidade do concreto, é uma cidade às vezes agressiva, é particular. E até existe uma música do Caetano Veloso em que ele retrata bem essa dureza, que é a música Sampa. E portanto, essa dureza, eu consegui apropriar-me da cidade através do desenho. Então foi a desenhar a cidade todos os dias depois de eu ter abandonado o trabalho, que eu quase senti que: "Ok, isto é o que eu gostaria de fazer dos meus dias, é assim que eu quero absorver as coisas, é desenhando-as e tornando-as minhas, e levar tudo aquilo que eu retrato, levar pra casa ao final do dia". Então foi aí que eu acho que deu o clique.
E materiais de eleição. Falávamos há pouco do telemóvel à mesa, mas o desenho digital é também algo que a Ana agora também anda a explorar, não é?
Sem dúvida, o desenho digital é algo que está aí, portanto, acho que o futuro passa muito também pelo lado digital, é algo que eu quero muito desenvolver e que faço hoje em dia. No meu Instagram estão vários desenhos feitos no telemóvel. Mas os materiais plásticos, manuais, acabam sempre por me acompanhar também. Esta plasticidade e esta manualidade das coisas interessam-me bastante. E eu vou andar sempre com aguarelas, é algo que aprecio bastante pela delicadeza da água com os pigmentos. Este modo sublime das coisas se misturarem é algo que me fascina bastante e uma caneta, um caderno, são os meus materiais de eleição, também com uns bons pincéis acaba sempre por ser a cereja no topo do bolo destes materiais.
E o que faz com tantos cadernos? Quantos é que já preencheu? Eu nem imagino.
Neste momento, sim, cadernos e cadernos.
Acho que a questão foi muito bem. São muitos.
Sim. Neste momento eles estão guardadinhos nuns caixotes fantásticos que eu tenho em casa, mas são imensos mesmo. Eu não consigo, sei lá, uns 300, 500 que sejam.
E agora a Ana vai começar também a desenhar os caixotes onde estão guardados os cadernos.
Isto é, desenho caixotes, depois é as paredes, depois é o que tiver que ser. Há uma grande liberdade de o fazer em casa e o desenho é uma coisa bastante viciante e obsessiva.
E objetivos para este novo ano, Ana, também na ilustração. O que ainda não desenhou que gostava muito de desenhar, por exemplo?
Eu tenho tido a sorte de trabalhar com marcas que eu adoro. Muitas vezes as pessoas me contactam e eu não sei de onde é que esse contacto aparece. E é uma coisa que eu acabo por agradecer, não sei ao que, mas é uma coisa muito engraçada. Eu continuo atualmente a trabalhar com marcas que gosto muito. Em 2020 vão surgir umas surpresas muito boas. Assim, um foco de desejos que eu gostaria de trabalhar, pra além das empresas nacionais, que eu dou muito valor a trabalhar com empresas que são do nosso país, isso é assim pra mim, é algo muito importante, mas gostava de começar a trabalhar um pouco mais com empresas lá fora. Eu já trabalho regularmente com uma revista de Londres, mas quero se calhar trabalhar um pouco mais com empresas lá fora, acho que pode ser uma mensagem boa daquilo que de Portugal eu posso levar para o mundo.
E o que ainda falta pra fazer essa ponte?
Essa ponte. Eu acho que as pessoas acabam por me contactar quando conhecem de algum modo o meu trabalho. É dar a conhecer talvez o meu trabalho. Talvez contactar algumas pessoas com quem eu gostasse de trabalhar de uma maneira muito objetiva. Por que eu quero trabalhar com determinada marca, mostrar que quero trabalhar com aquela revista ou com aquela pessoa. Acho que falta isso. Pelo menos eu daqui de Portugal mostrar o que eu estou a fazer.
E aquilo que a Ana faz a partir de Portugal, tem conhecimento que esteja também a ser feito, ainda que noutros moldes, em muitas outras partes do mundo, vai também tecendo esse conhecimento, vai partilhando alguma experiência também com outras pessoas que estão mais ou menos no mesmo comprimento de onda?
É assim, eu tenho uma história muito engraçada. Através destas questões das redes sociais, há muitas coisas más que se dizem, mas há coisas maravilhosas que acontecem. Eu no Instagram, mantenho uma relação de escrita muito interessante com uma rapariga da Coreia do Sul, por exemplo, e nós trocamos montes de materiais de arte e ilustrações. E é gira esta troca de uma pessoa que é portuguesa e outra pessoa que eu digo que é a minha amiga do futuro, eles já estão no dia seguinte, ela está no meu futuro e eu muitas vezes até lhe pergunto como é que foi o teu dia hoje, que é pra saber como é que vai ser o meu dia. E estas relações com pessoas através das redes sociais.
E referências muito diferentes, não é?
Completamente, muito diferentes mesmo. Há várias curiosidades que eu tenho, que é se ela celebra o Natal, se ela não celebra o Natal, como é que o desenho é visto, o que ela faz. Por exemplo, ela gosta muito de desenhar, mas o trabalho dela é ser fotógrafa. E eu gosto muito de falar com esta minha amiga, que é a Gowoon. É gira esta relação às vezes lá fora e mostrar o que se faz aqui em Portugal e ela mostrar o que se faz na Coreia do Sul e haver esta troca de palavras, eu no passado, ela no futuro.
Ana, qual é a forma mais fácil de quem nos está a ouvir conhecer o seu trabalho?
Eu acho que através da minha página de trabalhos, eu tenho uma página de trabalhos de portfólio que é www.anagillustrations.com e através da minha página do Instagram, acho que é uma maneira muito boa de conhecer tanto o meu lado profissional através do site, mas também o meu lado mais diário através do Instagram.
O convite está feito para seguir o trabalho da nossa convidada de hoje, a ilustradora Ana Gi. Ana, muito obrigada, até à próxima e muito sucesso pra 2020.
Obrigada, eu. Experimentem desenhar, fica aqui a deixa.
Obrigada.
Obrigada.
Rádio Observador. 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Aconteça o que acontecer.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada