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Junta-se a nós o nosso convidado de hoje, a primeira de muitas visitas que teremos nós. José Cid, bem-vindo. Obrigada por estar conosco.

Muito obrigado pelo vosso convite.

Olá, viva.

Obrigado.

José Cid, não tenho de insistir num motivo especial para o convidar a estar conosco, mas vai receber um Grammy Latino já em novembro. O seu telefone já parou de tocar? Já acalmou? Foram dias agitados estes, imagino.

Foram muito agitados e ainda por cima numa altura em que eu estava numa digressão de agosto com oito concertos nos últimos 10 dias de agosto. Foi completamente infernal. Agora já comecei a responder às pessoas e já vou no fim da lista das respostas, o que é um certo alívio para mim, porque também não quero passar por mal-educado e ingrato. Foi um prémio que me é atribuído de repente. Repare, é um prémio muito interessante perdão, na medida em que eu não tenho nenhuma multinacional a apoiar-me, nem quero. Tenho um pequeno label que se chama Acid Records, que edita um álbum por ano meu e um álbum de um amigo meu ou de um grupo de meus amigos que eu veja com talento, e edito e ajudo-os. A Acid Records é uma coisa muito pequenina, mas tem uma promoção forte. Temos uma promotora bastante agressiva e que funciona muito bem, mas há uma enorme pressão das multinacionais para que este Grammy seja atribuído aos cantores que estão, entre aspas, "na sua equipe". São as grandes multinacionais portuguesas, claro, a pressionarem para que um nome, e o último seria da lista deles, o José Cid.

Isso torna ainda mais saborosa esta vitória?

É muito saborosa, porque eu sei que em Miami eles se debruçaram sobre a minha obra.

Miami, onde estão os escritórios.

Sim. Eles se debruçaram sobre a minha obra, debruçaram-se sobre o meu álbum "10 Mil Anos Depois de "Intrusions" em Marte", que está nomeado hoje pela Sputnik Music UK entre os melhores álbuns do mundo. Debruçaram-se sobre o meu álbum, que nem sequer saiu no mercado português, o da García Lorca, no centenário de nascimento de García Lorca, em 98. O que foi engraçado é que eles perceberam que eu estava completamente vivo e ativo, porque todos os meus concertos são transmitidos em direto. E temos normalmente entre 50 a 150 mil pessoas a seguirem, desde o Senegal ao Alasca, a todos os países do planeta. Normalmente, logicamente, com portugueses a ouvir. Mas uma vez, a Gabriela veio a sorrir para mim, tínhamos o James Taylor a seguir o meu concerto. Essas transmissões diretas, que são altamente ousadas e altamente arriscadas, porque hoje em dia quase toda gente faz samples, midi files, loops, voice tuners, essas coisas. Nós não temos nada disso, nem queremos. É a música pura e crua ali naquele instante.

Música orgânica.

Completamente. E sem nada ajudar.

É verdade que não prepara os seus concertos, é tudo muito espontâneo. Não há alinhamentos?

Para quem conhece os concertos do José Cid, há sempre uma grande dose de improviso e de adaptação, às vezes, ao local onde toca.

Mas ultimamente, como os nossos concertos são seguidos por um grande ecrã de LEDs por trás de nós. Não LEDs, como é que eu hei de dizer, pirilampos, luzinhas ou florinhas a caírem, essas coisas todas, mas são LEDs criativos, em que cada uma das minhas músicas são acompanhadas por um pequeno videoclipe feito pela equipe de LEDs para acompanhar essas canções. E isso é engraçado, porque faz uma ligação, a equipa é de Ana, ao meu concerto, sem o ser. E, por exemplo, eu achei piada vocês passarem há pouco aqui. "Os Mentirosos Estão de Cemitério Cheio". O tema evoluiu no tempo, agora chama-se "Ao Vivo". "De Ditadores Está o Cemitério Cheio". No ecrã de LEDs estão todos os grandes ditadores do planeta, desde Stalin a Hitler, a Mussolini, a Salazar, Franco, Pinochet. Passamos também por Trump, que é eleito num país que não é uma ditadura, mas que não anda longe por causa do temperamentozinho do seu presidente eleito. E desmascaramos muito, através de um tema muito mais roqueiro do que vocês passaram aqui. Desmascaramos muito os grandes ditadores que passaram pelo planeta e o público canta todo aos gritos, "de ditadores está o cemitério cheio". É engraçado.

Depois de ter este anúncio, receber este Grammy, recebeu algum telefonema que o surpreendeu, alguma mensagem? Sente-se suficientemente acarinhado pelos portugueses?

Esse é o meu melhor Grammy, é verdade. A minha digressão, de há cinco anos a esta parte, de norte a sul do país, no mínimo com 10 mil pessoas à nossa frente, com duas horas de concerto que ninguém sai de lá. Isso é o melhor Grammy que eu poderia ganhar, porque eu devo ser um caso único no mundo. Não tens cantores com 78 anos a cantarem duas horas e depois em dias seguidos Não há. Eu não estou a sublevar as minhas performances, mas não há. Cá em Portugal não há. Muito menos de duas horas, duas horas e meia. Eu preservei muito a minha voz através de uma boa otorrino, que eu posso dizer, a Clara Capucho. Ela foi otorrino também da Whitney Houston e da Aretha Franklin nos Estados Unidos, onde estagiou, e que me deu uns conselhos fantásticos. Eu tenho, graças a Deus, as cordas vocais muito boas ainda, durmo muito. Aliás, esta minha voz assim meio ensonada é de-

Que hoje não dormiu, não é?

De uma sesta.

Dormiu a sesta à tarde.

Tudinha, dormi a sesta. É como se fosse 8 h agora pra mim. E isso é uma coisa que me ajuda muito. Tenho músicos extraordinários. Devo te dizer, por exemplo, o guitarrista e o saxofonista são músicos formados na Barclays School, com nota máxima. Temos um músico polivalente, que é o Medeiros Magalhães, que é para ela o maior músico da música popular portuguesa e que ainda é melhor que eles, se possível. É barrozão, tresmontano. Toca também com o Dulce Pontes. Mas como vocês devem imaginar, diverte-se muito mais comigo. E a verdade é que tenho uma secção rítmica muito jovem, funcional, com tempo muito bom, com balanço muito bom, um grande técnico à frente. Pronto, é isso que eu faço, esta é a minha vida, é como eu gosto de estar aqui em frente do micro, headphones na cabeça.

Sempre procurou, ao longo da sua carreira, rodear-se dos melhores, quer na sua banda, quer para o inspirar também a produzir trabalhos, a produzir discos?

Os melhores é muito relativo.

Os melhores pra si.

Porque, por exemplo, nas novas gerações há excelentes músicos, e que trabalham muito mais do que nós na nossa. Os músicos das novas gerações trabalham infinitamente mais do que nós trabalhávamos na nossa geração. Só que as coisas evoluíram numa direção que está tudo um bocadinho formatado, tipo, o que é que está a dar? O que está a dar é isto e vamos atrás daquilo que está a dar. Mas quando tu em música vais atrás daquilo que está a dar, já deu, porque esse que está a dar já passou. As coisas são muito efêmeras nas modas e nas formas de fazer músicas, é tudo muito efêmero. E ao passar esse lado efêmero-

Mas o José Cid nunca se deixou levar em modas? Ou ainda deixou, nalguma parte? Agora olhando pra trás.

Confesso que sim, às vezes. Por exemplo, noutro dia foi um rapper que está aí, agora não sei, que me disse que o primeiro tema rap que apareceu em Portugal fui eu que fiz em 1980, chamava-se "Portuguese Boys". E ele disse: "Não, o rap em Portugal começou com o José Cid a fazer um tema que se chama Portuguese Boys". E tinha um refrão: "Portuguese boys are the best lovers, Portuguese boys are the best". Depois contava a história de uma sueca que vinha passar férias a Portugal, mas era falado. E aí fui nas modas, mas depois rapidamente parei e comecei a fazer, particularmente nos anos 90, os álbuns que eu queria. Fiz "Oda a García Lorca", fiz o álbum "José Cid" com o Cais do Sodré, fiz pelos direitos humanos a favor de Timor-Leste, "Camões, as Descobertas e Nós", um álbum que passa pelo cotidiano de Camões através das descobertas. Desapareci nessa altura, nos anos 90, porque fiz muito os álbuns que eu queria fazer, que tinham muito sonho.

E sinto que esteve sempre a olhar pro futuro, sempre em vanguarda, a trabalhar nesse aspecto.

Já te respondo. Eu ia dizer que o sonho não vende. E como o sonho não vende, eu desapareci. Porque não vendia, desaparecia. Mas sim, pra já, olha, sou aquariano.

Portanto, não para, está sempre a pensar.

Estou sempre a pensar em termos de futuro. Se eu te disser que, e coincido, tenho já um álbum novo, que vai sair já, que eu terei o prazer de vos entregar. Tenho um álbum já gravado de rock sinfônico, o meu último e final álbum de rock sinfônico, chama "Vozes do Além". E alguém me pergunta sempre: "E o que tem a ver com '10 Mil Anos?'". Eu digo: "Rigorosamente não tem a ver nada", porque pra já poeticamente é muito superior. Eu agarrei em 15 poetas, que eu respeito, hoje estão mortos, mas hoje estão vivos.

Portugueses e estrangeiros?

Sim, mais portugueses. E pedi-lhes para terem uma opinião muito concreta e poética sobre a vida depois da morte e o regresso à vida depois da morte. E o álbum "Vozes do Além" é todo, poeticamente, cada faixa, uma opinião muito diversificada de cada uma das pessoas que escreve. E depois eu fui com músicos de rock sinfônico musicar aquilo tudo. Mas não tem muito a ver, pra já não conta uma história com princípio, meio e fim, como "10 Mil Anos". E depois, poeticamente, é superior, francamente superior. Temos poesia de Federico García Lorca, temos poesia de Natália Correia, grande amiga minha, temos poesia de Sophia de Mello Breyner, temos poesia de Maria Luísa Baptista, que fez um poema brutal, que se chama "É esta a alma que eu tenho". Brutal. Entretanto, ela estava terminal na sua vida e deixou um poema emocionante, que eu e o marido dela já chorámos os dois abraçados, porque tem um refrão que dirá: "É esta a alma que eu tenho, é esta a alma que eu tinha, da qual nem sei o tamanho, se será grande ou pequenina". E por aí fora. É muito emocionante. E todo o álbum, poeticamente, é superior a "10 Mil Anos". Instrumentalmente, o pessoal dirá. Mas não venham contar com "10 Mil Anos" outra vez. Isso já está datado e graças a Deus está Está de boa saúde.

E o José Cid enquanto andar por cá vai continuar sempre, até ter forças, a fazer discos, a ocupar-se da música, a fazer disso a sua vida ou há um tempo para parar?

Não, não há um tempo para parar nenhum.

E não há tempo também para deixar discos na gaveta. Tudo o que tiver feito vai ser publicado ou vai deixar algo na surpresa?

Para já, eu sou muito rigoroso, quando eu não gosto ou não acho piada, não edito. Sim, há coisas minhas na gaveta, mas basicamente as coisas que vão aparecer ou já estão feitas ou serão feitas ainda.

É uma questão de prazos.

Um rapaz da minha idade que aguenta 2h30 a abrir, tenho as minhas cordas vocais completamente-

E para continuar?

Enquanto eu tiver saúde física, porque saúde vocal eu tenho muita. E como durmo imenso, durmo a sesta também. Nós, portugueses, não temos muito esse hábito, os espanhóis têm. Deve ser também a única coisa boa que os espanhóis têm. Quando eu falo disso, estou a criticar, por exemplo, Almaraz. Vê bem onde é que eles vieram pôr Almaraz. A 50 km da nossa fronteira. Nunca puseram Almaraz para o lado de lá.

Mas devíamos ter ido buscar a sesta, de facto.

A sesta era uma coisa boa que se podia ir buscar aos espanhóis.

Teve muito sucesso em Espanha, José Cid?

Nenhum.

Nenhum?

Não, é assim, eu tentei há dois anos um álbum no mercado espanhol, porque eu tenho uma irmãzinha mais velha que me diz: "Menino, tu cantas muito bem em português, mas em espanhol cantas muito melhor". E eu resolvi, como tenho temas em espanhol ou em castelhano, resolvi gravar. E fui a Madrid a um grande estúdio, em que eles me diziam: "No estudio, repara, José, aquí nadie canta como tú, tú cantas increíble. A nosotros só nos parece que tienes una voz única". "Sí, muchas gracias". E fomos para aí fora, eles iam fazendo comparações com cantores espanhóis e eu dizia: "Não, eso no, ellos cantam muchísimo más". Sim, efetivamente, o que aconteceu é que eu investi tudo o que tinha no mercado espanhol, paguei rádios, inclusivamente, e nada aconteceu.

Mas foi dinheiro que caiu em saco roto, mais ou menos.

Mas toda a gente dizia: "Que grande álbum, que bonitas músicas em castelhano que tu aqui tens".

E alguma vez sentiu que Portugal era um país demasiado pequeno para o seu talento?

Não, isso não. Eu nunca pensei que o meu país, onde eu nasci, fosse pequeno para o meu talento, porque eu tenho o talento que tenho e o país é o país que é. Agora, efetivamente, em mercados mais abrangentes, reparem, o mercado espanhol tem um mercado de 400 milhões de pessoas. O mercado brasileiro tem um mercado para 400 milhões de pessoas. Nós, coitaditos, estamos aqui, metade do nosso país, que somos 10 milhões, metade não gosta dessa música. Gosta daquela música que se ouve aos domingos à tarde, nos programas de televisão, que nós perguntamos em que país é que estamos. E portanto, temos um mercado muito pequeno, mas temos grandes valores.

Mas nem por isso a Academia do Grammy Latino se esqueceu de nós.

Não, porque eu quero dizer uma coisa e é importante. Eu senti que isto é também um prémio para 10 colegas meus da minha geração e mais 10 da nova geração, que são talentosíssimos. Grandes poemas, grandes vozes.

Aliás, quando soubemos da notícia, nós ligámos aqui no Observador para o José Cid, que entrou em direto conosco ao telefone, estava até a ir para um concerto algures no país. Estava no carro e fez questão também de sublinhar isso mesmo, que sentia-se quase um representante de muitos outros músicos com um belo trabalho e que poderiam também ter vencido já um prémio internacional.

Particularmente os que escrevem poesia e cantam. Eu estou a citar, por exemplo, o Jorge Palma, estou a citar Paulo de Carvalho, Sérgio Godinho, Vitorino, que é um génio. Tudo aquilo que escreve a sua própria poesia e que a canta, tem outro valor. Depois há músicos excelentes, mas Rui Reininho. O GNR tem uma obra poética genial. A Mafalda Veiga é, e eu sublinho por baixo, uma das três maiores poetisas femininas do mundo inteiro. Tu traduzes Mafalda Veiga para inglês e é absolutamente genial. E por acaso foi das primeiras pessoas a dar-me os parabéns e ligaram. Agora, eu sinto-me representante de um grupo de pessoas da minha geração e de um grupo de pessoas mais jovens que são talentosíssimos, que escrevem a sua poesia, que a musicam, que tocam, são protagonistas da sua própria obra e se calhar até produzem os seus próprios álbuns, e isso é de um valor imenso. Os espanhóis fecharam-nos as portas completamente a esse nível e os brasileiros não, porque esta não é minha, é do Paulo de Carvalho. Tem uma permuta muito interessante conosco. Eles mandam os artistas, nós mandamos o dinheiro. É uma permuta cultural muito interessante. Não há ninguém em Portugal que se firme no Brasil, porque eles não querem, nem deixam.

O que é que lhe falta fazer ainda? Sei que está sempre a pensar, já nos disse, no futuro. O que é que está aí guardado?

Tenho que fazer, e eu se puder, vou continuar. Tu não imaginas o prazer que dá a uma pessoa ou escrever um poema, que vai fabricando de manhã, à tarde e à noite, a pouco e pouco, ou ir buscar um poema já de poetas consagrados e começar a pôr música por cima desse poema e depois em estúdio, porque eu tenho um pequeno estúdio analógico em casa, eu só gravo analógico, não gravo em computadores, e a pouco e pouco ir compondo as coisas, escrevendo as coisas, e depois chamar os músicos certos para tocar as músicas certas que eu já fiz a base. Isso é um prazer, é uma alegria, um estado de espírito tão ansioso. "Amanhã tenho que me levantar cedo, porque vou continuar a fazer aquilo". Terminei ontem às 3 h da manhã. É que é tão ansioso, é tão bom, é uma panaceia tão grande pra nossa alma e pra nosso espírito, que eu não vou deixar de fazer isso.

Ainda continua a criar com o mesmo vigor?

Não.

E dá a mesma importância àquilo que cria, a mesma importância que dava quando tinha 19 anos?

Não. Eu quando tinha 20 anos escrevia uma música todos os dias. E agora é mais despacito, é mais devagar.

E tem a sua melhor ouvinte também consigo, não é? A Gabriela vai dando os toques.

A Gabriela é muito rigorosa. Aliás, neste álbum, que eu agora gravei, que se chama "Fados, Fandangos, Malhões e uma Valsinha". Na valsinha, eu digo exatamente quando ela acaba de pintar no ateliê dela os seus óleos de raiva e de amor, porque a Gabriela foi uma guerrilheira, dar em punho e em timor, a lutar pela independência. Ela depois pede pra descer as escadas pra ver o que eu estou a compor no andar de cima. Isso é a letra dessa canção, que se chama "O Tempo Feliz". O tempo feliz é agora, eu tenho 78 anos, ela tem 70. Temos pouco tempo pra ser felizes, mas somos. Muito. E isso é muito bom. É o fato de eu continuar a compor e escrever sempre com novas ideias. E quando eu não tenho ideias, vou à poesia dos outros. Eu agora estou menos poético.

Importa-se que outros vão também às suas palavras e às suas músicas tirar alguma coisa? Temos aquele caso do Kanye West, que aproveitou esse sample pra um disco.

Do Jay-Z, não é?

O Jay-Z, exato. Mas importa-se que façam isso com a sua música ou lida bem com quem vai buscar uma coisa ou outra?

Não, o tema é meu e do Tozé Brito. Quando o Tozé Brito chegou ao Quarteto 1111 em 1970, vinha com ideias anglófonas.

Desde que lhe peçam, não há problema.

Acabou a música em inglês. Toma aqui um poema, que era de Gil Vicente, "Todo o Mundo é Ninguém". Começa a fazer música com isso e eu depois ajudo. E ele, ainda muito novito, com 18, 19 anos, começou a fazer as coisitas e de repente mostrou-me aquilo. Eu disse: "Isto está muito bom. Daqui vamos fazer um refrão e vamos seguir". 60 anos depois, o Jay-Z agarra num poema de Gil Vicente, sem eu perceber. O Jay-Z nem sonha que Gil Vicente é mais interessante que Shakespeare, porque é muito mais atual. Gil Vicente é muito mais atual que Shakespeare, mas muito mais. É muito mais contundente, é muito mais social, é muito mais perverso até. Aquilo que ele fez é genial. E o Jay-Z nem percebeu nada daquilo que estava a fazer. Aquilo é uma espécie de um vírus que está no meio da música dele. Eu já me ri à brava com o Tozé. Esta é a opinião dele, o Tozé: "Aquilo é um vírus", claro está. Mas nós estamos lá os dois a cantar, isso nota-se. E depois foi bom porque vieram uns dinheiritos pra sepulta do disco dele. O Jay-Z vende milhões. Musicalmente eu não achei piada nenhuma. Porque ele não percebeu o que estava a fazer. Aquilo era mais um som que lhe agradou.

Que o inspirou.

Mais um som sem perceber que estava a atropelar um poema de Gil Vicente. Mas pronto, ele está perdoado.

Isto passou absolutamente a correr, José Cid, não temos mais tempo, mas temos a agenda pra setembro.

E temos só aqui também uma outra nota, porque houve outra distinção, também nas últimas horas, por parte da Junta de Freguesia da Carregueira, no Conselho da Chamusca. Aprovou por unanimidade e aclamação um voto de louvor ao músico José Cid. Também tem muita importância pra si, não tem?

E nomearam já o Barão da Carregueira, o Marquês dos Carrapiteiros. Vai ser fantástico. É um grande amigo meu, o Chico Velez.

E vai receber o medalhão da Freguesia da Carregueira.

Exato, que tocou naquele grupo Aleimar e que agarrou com os Amigalhaços e vai até à Anadia. Na terça-feira vamos lá comer um leitão e celebrar. É mais o gesto. Isto é tão importante pra mim como um Grammy lá fora. É a população de Portugal comigo, é um sonho de menino que eu tinha, mas que é a realidade. São as pessoas comigo, isso é fantástico.

José Cid, obrigada por ter estado conosco. Até a próxima.

Beijinhos. Não sei qual é a vossa área musical, o meu álbum "Fados, Fandangos, Malhões e uma Valsinha" vai ser piada porque vocês vão ter que escolher, eu vou vos entregar o álbum no todo e depois vocês logo verão se querem passar alguma ou não.

Combinado.

Mas eu gosto muito do álbum.

Obrigado, José.

Obrigada, até a próxima.