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E a convidada de fim de tarde de hoje é uma mulher particular, é autora do blog "Dia da Liberdade" e fundadora do site Boas Leituras, site dedicado aos livros. É mãe a tempo inteiro e na casa da Silvia vivem quatro filhos, um marido, uma cadela e um gato. Silvia Reis, welcome, ou em alemão, willkommen. Disse bem?
Danke schön. Sehr gut. Muito bem.
Bem-vinda, Silvia Reis. Eu vou dizer apenas em português: bem-vinda.
Obrigada.
Não me quero aventurar. Bem-vinda, Silvia Reis, à Rádio Observador. Silvia, tem saudades dos tempos em que era professora de inglês e alemão?
Tenho algumas. Tenho muitas saudades da sala de aula, dos alunos, da animação. Isso tenho sempre. Mas também há aqui muita animação por casa e muita gente a entrar e a sair. Agora menos, infelizmente, com o Covid.
Silvia, por que deixou de ser professora e dedicar-se ao fato de ser mãe a tempo inteiro? O que a levou a tomar esta decisão?
Lisboa. Lisboa levou-me a tomar esta decisão. Para enquadrar talvez a nossa decisão em termos familiares, foi porque o meu marido também é professor e depois de muitos anos a dar aulas, finalmente ficou colocado em quadro de agrupamento, o que fez com que nós mudássemos. Vivíamos na zona de Gouveia para Lisboa. Ao virmos para Lisboa, mudarmos todos de armas e bagagens, fizemos as contas e percebemos que para ele ficar próximo, porque era necessário haver alguém próximo para tomar conta dos filhos, teria que arranjar um emprego que me desse à volta de 900 € por mês. E muitas vezes esses empregos que eu poderia arranjar como professora cá, seria na hora em que os filhos estariam também a precisar de mim. E então tivemos que equacionar entre arranjar um emprego que me pagasse o suficiente e entre ficar com eles e eles terem alguém disponível para eles sempre, acabei por optar por ficar em casa com eles.
Essa decisão foi tomada quando, Silvia? Há quanto tempo?
Esta decisão foi tomada quando viemos para cá, sete anos atrás. Entretanto, quando o mais novinho finalmente foi para a escola, consegui dar algumas explicações, mas só nos horários em que eles não estavam. E agora que nasceu a bebê, voltei para casa a tempo inteiro.
A Silvia tem imensos projetos, já vamos falar deles. Gostava só de ter aqui neste momento em que a vida da vossa família mudou, na altura em que se mudaram de Gouveia para Lisboa. É muito diferente a vida num território de baixa densidade, como hoje se diz, da vida na capital?
Se sou sincera, não achei assim tão diferente, porque nós vivíamos longe também das escolas e do trabalho, que exigia também à volta de 20 minutos, meia hora. Agora estamos relativamente mais próximos. E para mim, que gosto muito da parte cultural e da parte social, aqui acaba por ser mais interessante. Claro que sinto muitas saudades da natureza e de estar em contacto com a natureza. Por outro lado, aqui tenho praia, que é uma coisa que eu gosto muito e de Gouveia à praia demorava um bocadinho mais. Portanto, para mim não houve essa diferença tão grande. Para os meus filhos, sim, porque tinham muito mais espaço, tinham muito mais por onde explorar, havia mais segurança. Aí a vida para eles, se calhar, é um bocadinho diferente.
A Silvia é a fundadora do site Boas Leituras, dedicado aos livros. Como é que surge este site? Surge porque a Silvia precisava algo mais do que ser apenas e só, e este apenas e só leva muitas aspas, apenas e só mãe a tempo inteiro. Porque é uma atividade inesgotável, não é?
É. Eu sou sincera, não tenho tanto tempo como gostaria para me dedicar ao site do Boas Leituras. Felizmente, tenho o meu marido e uma amiga, a Ana Rute Trigo, que também já está nesta questão da vida na internet há muito tempo, e eles são os meus braços direitos e são eles muitas vezes que tratam mais dessa parte. Eu sou mais uma mulher de Instagram.
Mas para quem não conhece esse espaço das Boas Leituras, vamos lá a uma breve explicação. O que é afinal isto?
Pronto, é isso. O Boas Leituras surgiu porque eu queria um sítio onde as pessoas que gostam de ler, como eu, pudessem espreitar as novidades. Na altura, quando pensei no site, a ideia era, por exemplo, verem onde é que são eventos literários, poderem encontrar clubes de leitura, porque os clubes de leituras são ótimos locais para conhecer pessoas como nós, que gostam de ler, e fazer uma coisa que eu chamo de inveja livrólica, que é olhar para o que os outros estão a ler e ficarmos com vontade de ler também. O site surgiu muito nessa questão. Infelizmente, com a questão do Covid, também os clubes de leitura neste momento são todos online. E a ideia era mais essa, podermos partilhar as opiniões dos livros que lemos, vermos as novidades, estarmos atentos ao que vem. E continua, vai devagarinho, porque isto é um trabalho quase a tempo inteiro. Seria um trabalho a tempo inteiro e não há ninguém que possa fazê-lo a tempo inteiro, mas tem corrido bem. Só o tempo que tenho que estar com ela acaba por quase ocupar 24 horas. Neste momento, ela está ali com o pai um bocadinho para eu poder estar na entrevista, mas realmente é um trabalho que é muito absorvente. São quatro meninos, mais a mãe e o pai De adubar, vamos pensar, a roupa, a louça, a logística do dia a dia. Tudo que eles precisam e depois a questão da atenção, que eu gosto de ter tempo para fazer coisas giras com cada um deles. Não é só a questão de casa, escola.
E é muito importante também imprimir uma maior dinâmica familiar com atividades. Isto também foi necessário agora nesta altura da pandemia. Esse lado com as famílias muito tempo em casa, dentro de quatro paredes, às vezes também habitações mais pequenas do que aquilo que seria também essencial para que houvesse ali uma outra ideia de liberdade por parte dos pais, dos filhos. Foi também difícil este momento e pergunto também por essa importância de tentar criar novos mundos, às vezes, dentro de quatro paredes.
Foi um bocadinho complicado no início. No início não, porque para eles foi férias e eles até agradeceram. Estamos a falar do início em 2020 ainda. A questão é que depois quanto mais tempo ficam fechados em casa, mais complicado se torna. A questão do exercício físico para nós foi crucial. Acabamos por comprar uma bicicletazinha daquelas para estarmos aqui em casa a fazer um bocadinho de exercício e cada um deles também poder fazer, porque as pessoas têm que fazer algum tipo de exercício, até em termos pessoais, para acalmar. Nós costumávamos fazer muitas caminhadas e passear, e para eles as quatro paredes começaram a tornar a casa ainda mais pequena do que aquilo que é. Foi necessário. Fizemos aqui coisas muito engraçadas, desde colar fita cola preta no chão para fazermos atividades de exercício físico, de jogos, de brincadeiras. Esta casa passou a ser tudo: ginásio, restaurante, tudo e mais alguma coisa.
Imagino, porque o marido da Silvia também é professor.
Também.
Portanto, também entraram muitas crianças, ainda que pelo ecrã do computador do seu marido, muitas crianças entraram em casa.
Sim, aliás, teve que arranjar um cantinho para ele. Aliás, tivemos que arranjar um cantinho para cada um, porque havia dias e horas em que estavam todos ao mesmo tempo em aulas online. E em termos de barulho, para tentarmos que ninguém prejudicasse ninguém, foi um jogo engraçado. O pai acabou por arranjar uma espécie de um escritório, porque não temos, para poder estar com os alunos com mais calma e mais reservado.
Silvia, já aflorou mais ou menos a questão da condição feminina versus o fato de ser mãe a tempo inteiro. A pergunta que lhe queria fazer agora é: uma mãe a tempo inteiro tem tempo para ser mulher para além de ser mãe?
Tem que ter. Esta mãe e este pai têm um acordo. O pai gosta muito de correr. Portanto, há horas em que o pai vai correr e há horas em que a mãe, neste momento, infelizmente, não pode muito ir aos clubes de leitura. E isto não é a parte de ser mulher, mas é para mim, a minha parte de ser eu, em que eu ia ter com os amigos e íamos discutir livros, isso era muito importante. Fora disso, a mãe gosta de ir passear, gosta de ir conversar com amigas e tem de ter esse espaço e o pai arranja esse espaço para mim também. Porque nós depois temos uma coisa: acabamos por estar habituados sempre, desde que nos casamos, a fazer esta questão da dicotomia. Hoje vais tu, amanhã vou eu. Os nossos filhos normalmente nunca ficam com outras pessoas. Por isso temos muito esta equipa, este trabalho em equipe.
Sempre em compromisso.
Sim. Faz parte.
E as crianças entendem isso, Silvia? Vão entendendo.
Vão, e também porque é assim, por exemplo, o mais velho já tem 18 anos e acaba por ganhar com isto, porque às vezes eu apetece-me ir ao cinema. Pego nele, vamos ao cinema, hoje fica o pai cá em casa. E acabam também por ganhar um bocado com esta dicotomia, com esta atividade dos dois pais.
Silvia, eu e o João temos aqui uma última pergunta para si, uma vez que se dedica e muito, e bem, à leitura, e uma vez que dinamiza o site Boas Leituras. Que livro é que nos sugeriria para nós lermos agora que o verão está aí à porta, para lermos nas nossas varandas lá de casa?
Olha, eu por acaso estou a ler um que agora não me lembro do nome, que eu sou terrível com nomes.
Ninguém se lembra nunca dos títulos dos livros que anda a ler.
Eu estou a gostar muito. Que chatice. Já sei onde é que eu vou. Vou aqui ao Goodreads, que tenho sempre isso tudo escritinho. Eu penso que se chama História de Família, que é sobre o Rui Naveiro, e um dos meus filhos que me está a ouvir foi muito querido e já o foi buscar. É Almoço de Domingo, desculpa. José Luís Peixoto, e estou a adorar.
Muito bem.
Estou mesmo a gostar muito, acho que está muito bem escrito.
O que é que tem esse livro que a cative tanto, Silvia?
Para já, está muito bem escrito. A linguagem é ótima. Eu gosto muito de histórias de família, histórias que contem algo do passado e estou encantada. Eu já conhecia José Luís Peixoto. Não gostei tanto dos outros que li como estou a gostar deste. Este está mesmo a prender bastante a atenção. Além disso, tem a história do Rui Naveiro, que é uma pessoa que eu também queria conhecer melhor. Acho que tem feito um trabalho muito grande no Alentejo e gostava mesmo de saber mais sobre ele. Portanto, consegui unir aqui o prazer da leitura e o prazer da descoberta num livro só.
Muito bem. Almoço de Domingo é a sugestão da Silvia Reis, livro de José Luís Peixoto. Silvia Reis foi a nossa convidada de fim de tarde de hoje. Silvia, muito obrigado por ter vindo à Rádio Observador.
Muito obrigada eu pelo convite.
E bom feriado.
Obrigada, igualmente. Bom feriado.
Até à próxima.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.