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Apesar do mau tempo, do trânsito muito complicado, a nossa convidada de hoje já está conosco. É a cantora Maria Mendes. Tem um novo trabalho, chama-se "Close to Me". Maria, obrigada pela disponibilidade, por este esforço para chegar aos nossos estúdios. Bem-vinda!
Muito obrigada. Obrigada por me receberem.
Maria, já aqui dissemos, já aqui ouvimos também um bocadinho da sua versão do "Barco Negro", da Amália Rodrigues. Portanto, eu gostava que me explicasse por que o fado, por que decidir pegar no fado pra fazer este novo trabalho?
Há uma resposta muito prática: por que não? Mas eu estou radicada na Holanda já por 12 anos e há uma coisa muito interessante: para o público não português, o público estrangeiro, ser-se português implica se faz música, então é fado. E não é. Mas com isto eu quero dizer que nos meus discos anteriores, a minha linguagem é majoritariamente jazz, temas autorais, mas também muitos standards, e vários trabalhos feitos em duas línguas, ou melhor, três línguas, se considerarmos o scat e a improvisação como uma língua sem letra, uma língua universal. Mas vi realmente e senti durante os meus últimos trabalhos que havia sempre aquela coisa dos discos pedidos no final dos concertos de: "Ai, mas não vai cantar um fado?" E ficou, foi ficando e comecei a pensar: "O que eu posso fazer dentro da minha leitura tão pessoal e da forma como eu escuto música, que já é muito no processo criativo de desconstrução e de criar alguma coisa nova e mais pessoal." Comecei realmente a pensar, eu acho que isto poderia ser um caminho muito interessante e um desafio, porque o fado tem uma estrutura muito santificada por todos nós. É muito portuguesa, nós estamos muito habituados a uma determinada sonoridade e comecei a achar que seria um desafio enorme.
Isso faz recear, de alguma forma, um artista mais ligado ao jazz, por exemplo, em pegar nalguns trabalhos do fado. O fado é uma matéria complicada e pela qual é preciso ter muito respeito, por exemplo?
Sim, lá está, o tal santificado. Aquela entidade santa que não mexe. Claro que sim, foi e acho que vai continuar a ser, se eu quiser cantar alguns fados mais e querer fazer alguma coisa, é sempre um desafio, mas foi feito muito com respeito e com coração e mente aberta. E a coisa mais interessante neste projeto é que estamos a falar de um disco de 11 canções cantado só em português, em que eu não me foquei só nos fados, mas também me foquei, por exemplo, no trabalho de Carlos Paredes e compus alguns temas, também de certa forma inspirados pelo Carlos Paredes. E com isto eu quero dizer que o público internacional é um público que recebe este trabalho de uma forma inexplicável. Tive agora uma turnê na Holanda, de oito concertos nas melhores salas, salas esgotadas e público a vir ter comigo no final a dizer: "Eu chorei na primeira canção", que era o "Barco Negro", eu inicio sempre com o "Barco Negro", "eu queria aplaudir de pé, só que era a primeira canção e não podia fazer isso. E não percebi nada do que canta, mas é tão lindo, é tão forte, é tão emocionante." Quer dizer, é material que não é meu, de certa forma. É material nosso, português, e que tem uma força tão grande. E que, falando em estrutura e falando naquilo que o João estava a dizer, o fado pode ser quase considerado como blues. Tem uma forma harmônica muito específica e aprendendo a tocá-lo, toca-se todos os fados possíveis e imaginários. Então se é também próximo do blues, o blues permite uma releitura e uma improvisação grande. Portanto, foi dentro desse desafio um pouquinho mais intelectual, mas que mesmo assim eu respeitei a canção, a letra está lá.
Que referências é que tinha maiores no fado? Quer sejam referências de agora, quer sejam referências que tinha quando era criança, o que é que ouvia? O que a motivava no fado, também?
Ora bem, desde criança não havia muito. Pra mim, o crescer musicalmente foi sempre com música clássica, e essa é minha escola. E depois o jazz. Eu iniciei estudos musicais a partir dos 12 anos e mantive-me até os 17, quando depois fiz uma direção pra o jazz. O fado veio mais tarde, veio muito da curiosidade de ser jovem e de querer também perceber melhor o que o fado era, especialmente após os 20 anos, em que começou a haver uma abertura de um fado mais moderno, com a Mariza, a Madalena Faustino, até mesmo com a Cristina Branco. Aquele fado que não parece fado ou que tem uma leitura-
Uma abordagem diferente.
Sim, mais de percussão e tudo mais. Pronto, e referências pra este disco. Acreditem ou não, foi dois anos de pesquisa. Eu quis ter a certeza absoluta de que primeiro conseguia ouvir o máximo de fado possível, desde o fado merceneiro até os tempos atuais. E também quis ter a certeza de que aquilo que eu quis fazer com o "Close to Me", este disco, meu terceiro disco, que foi gravado com a Metropolitan Orchestra, que é a maior orquestra de jazz sinfônico do mundo.
Já vou querer saber essa experiência.
E também com um produtor fantástico, que trabalha após Oscars e faz produção pra Diane Reeves. Portanto, eu quis ter a certeza que fazendo uma coisa bem feita, que seria também uma coisa única, que nunca tinha sido feita da forma que comecei a visualizar e a querer transformar estes fados numa leitura diferente. Portanto Estou tão feliz. Este disco é muito novinho, dois meses e dois anos de trabalho, portanto, tudo serviu de inspiração. Eu ouvi os Fados todos, ouvi muita coisa que não gostei, ouvi coisas que me inspiraram imenso e ficaram muitos Fados que eu ainda não consegui incluir neste disco.
E Maria, como é que foi trabalhar com a maior Orquestra Sinfônica de Jazz do mundo?
Foi um sonho, eu ainda não acredito. Gravaram com Quincy Jones, Ella Fitzgerald e continuam a fazer trabalhos com heróis. E primeira vez que gravaram com uma portuguesa e que gravaram um disco em português. É surreal, eu me sinto muito afortunada. E foi uma honra e é uma cooperação fantástica. Nós vamos ter concertos na Benelux em 2021. Este projeto é de tal forma tão forte que eu tenho outras orquestras no mundo interessadas em trabalhar também comigo e com o John Beasley, o produtor, orquestrador e arranjador deste disco. Isto é um sonho, e é um sonho, acima de tudo, correr o mundo a cantar em português, a swingar em português, a swingar no Fado. É uma maravilha.
Nós não temos a imagem na rádio, mas nota-se muito no brilho do seu olhar que este é um trabalho muito especial. John Beasley, fale-nos dele, porque esta colaboração foi muito orgânica, acabou por ser muito orgânica pra ele também. Ele que é muitíssimo conhecido, tem imensos prêmios, já ganhou Grammys, tudo e mais alguma coisa. Como é que foi esta colaboração?
Foi fascinante. Neste momento, eu tenho a graça de o chamar de amigo. Este é um projeto muito emocionante em contexto musical. É um projeto que independentemente das pessoas não perceberem, ou melhor, os músicos integrantes, estamos a falar que eu sou a única portuguesa neste projeto. Somos 50 músicos, portanto 49 são holandeses e um é americano. É uma coisa muito interessante, fazendo e já tocando tanta música, e especialmente o John Beasley, tendo feito tanto, tendo tocado com o Miles Davis e fazendo também música pros Oscars, ele faz também uma cena musical não só jazzista. Mas com isto eu quero dizer que é fascinante perceber que o Fado, mesmo revestido a jazz, é tão forte e tão emotivo que estas pessoas abraçaram como se isto fosse um bebê, como se fosse a música deles. E foi muito orgânico, foi mesmo uma fonte de amor e continua a sê-lo em palco. É fascinante ver a força que esta música tem. É incrível.
Vamos continuar a falar com a cantora Maria Mendes, que se junta hoje a nós. Vamos falar um pouquinho também do seu percurso, Maria, da sua carreira. Está a viver na Holanda também, vamos querer falar sobre isso, porque nesta altura faltam 15 minutos pras 08:00 da noite. Atualizamos a informação que está a marcar este final de tarde de quinta-feira com o João Alexandre.
E começamos por esta notícia de que o mau tempo fez um morto em Setúbal. No Montijo, uma árvore caiu sobre um veículo pesado de mercadorias. O condutor acabou por não resistir. Uma informação confirmada pelo Observador. Até perto das 17:00, havia cerca de 3 mil ocorrências um pouco por todo o país, quedas de árvores, inundações e também quedas de várias estruturas. Os voos para o aeroporto de Lisboa estão a ser desviados para Faro. Já vários aviões que tinham como destino a cidade do Porto, estão neste momento a ser desviados para Madrid. Uma informação que já foi avançada também à Rádio Observador pela NAV Portugal. Há também vários voos cancelados por parte da companhia aérea açoriana SATA. Quatro ligações interilhas e quatro do arquipélago com o exterior. Para já, são estes os números que vão sendo avançados por esta companhia aérea. No que diz respeito a ligações ferroviárias, há também problemas, por exemplo, na Linha do Norte, com a circulação alternada de comboios entre Santarém e Entroncamento. No distrito do Porto, na região Norte do país, há registro de algumas inundações, por exemplo, em Matosinhos, num dos bairros da cidade de Matosinhos, onde está neste momento a repórter do Observador, Maria Martinho. Já deu conta também que há neste momento algumas habitações inundadas nesse bairro de Carcavelos. Está também neste momento em Lisboa. Situação muito complicada no que diz respeito à circulação de trânsito automóvel. E está também interdita, por esta altura, a circulação a motos e veículos pesados com lonas na Ponte 25 de Abril e ainda na Ponte Vasco da Gama. Estão também interrompidas as travessias entre as duas margens do rio Tejo, quer seja através de barco, quer também através de comboio, neste caso, a ligação ferroviária entre as duas margens do Tejo está também a ser feita de forma alternada. Já no centro da cidade de Lisboa, vão se registando algumas quedas de árvores e também, como disse, essa situação de trânsito muito complicado no coração da cidade de Lisboa. Há também várias preocupações por parte de várias autarquias com a subida das águas dos rios Tâmega, Mondego, Águeda, Douro e Lima. Esta é uma situação que também estamos a acompanhar ao final desta tarde. Há também uma outra informação de última hora Uma pessoa morreu em Castro Daire, uma confirmação que já foi feita por parte da Guarda Nacional Republicana de Viseu. Uma pessoa que morreu soterrada, também na sequência do mau tempo que se faz sentir nesta zona do país. Sobe para dois o número de mortos por causa do mau tempo. Além dessa situação em Castro Daire, também esta situação sobre a qual já falamos, de um condutor de um pesado que morreu no Montijo depois da queda de uma árvore. Apenas um olhar também, nesta altura, para o desporto nacional e para a Taça de Portugal. O Futebol Clube do Porto está a receber, por esta hora, no Estádio do Dragão, a equipa do Santa Clara, equipa dos Açores. Um jogo para decidir a passagem aos quartos de final da Taça de Portugal. E a esta hora, com 28 minutos da primeira parte, o Futebol Clube do Porto coloca-se em vantagem. A equipa azul e branca coloca-se na frente do marcador neste encontro, frente à equipa do Santa Clara. Este é um jogo que vamos continuar a acompanhar nesta tarde informativa aqui na Rádio Observador. Para já, com 29 minutos de jogo, Futebol Clube do Porto 1, Santa Clara 0. Quem marcou o único gol até o momento foi o japonês Nakajima.
As notícias com o João Alexandre. Uma nova atualização às 08h00. Este é um dia muito complicado na estrada por causa do mau tempo. Damos conta de um acidente no Alto da Barra. O trânsito está cortado nos dois sentidos na Marginal. A Ponte Vasco da Gama, lentidão no sentido Lisboa-Montijo, devido ao mau tempo. O limite de velocidade é de 80 km/h. Circule com precaução. Já no Porto, na VCI, há um acidente no sentido Arrábida-Freixo, junto a Campo Alegre. A Avenida Dom Carlos I, na Foz, está cortada ao trânsito. Deve ficar assim também até sexta-feira de manhã. Há também um acidente em Vermoim, no sentido Alfena-Maia, há fila desde a A3. O mau tempo vai continuar amanhã. Muita chuva, vento forte, agitação marítima. O Porto terá máxima de 16 graus, Lisboa chega aos 18 e Faro aos 19.
Rádio Observador. 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Aconteça o que acontecer.
E continuamos a conversa com a nossa convidada de hoje. Recebemos a cantora Maria Mendes. Está por cá a falar-nos também desse disco, o terceiro, "Close to Me", que apresenta aqui uma nova abordagem, adaptações de fados para jazz, uma abordagem jazzística e sinfônica ao fado. Maria, falávamos há pouco, está na Holanda já há algum tempo, já há 12 anos.
Exato, 12 anos.
Algum tempo.
Vai passando.
Exatamente, vai passando. 12 anos.
É uma vida inteira.
Não.
Quase.
Mas passa muito depressa.
Então estás a me chamar de muito nova. Graças a Deus, sim, ainda sou nova.
Mas, Maria, o seu interesse pela música, já há pouco falamos também um bocadinho disso, sempre foi música clássica. Aos três anos queria ser cantora de ópera?
É verdade. E fui sempre alimentando essa paixão. A minha família apoiou-me sempre 100% incondicionalmente. Comecei os estudos musicais aos 12 na área lírica, portanto a fazer conservatório, a estudar piano. A seguir à escola, lá ia eu. Tinha cinco disciplinas na escola de música, no conservatório. E quando tinha 17, 18 anos, a paixão do jazz veio. Veio por amizades e veio também por uma descoberta de encontrar discos perdidos em casa, do Frank Sinatra, Nat King Cole. Quando decidi que não era mais a ópera que queria e que queria experimentar o jazz, os meus pais ficaram um bocadinho desanimados.
Desapontados.
A minha mãe, especialmente, mas agora já está tudo recuperado.
Já está rendida também.
São os meus maiores fãs, sim. E já tem sido um percurso no jazz de mais de 15 anos. Dez discográficos, mas cerca de 15 já na parte acadêmica, depois eu formei-me também na Esmae, eu sou natural do Porto. E depois fui pra Holanda fazer o meu mestrado e fui ficando e muita coisa aconteceu. Ganhei muitos concursos internacionais de cantor de jazz e isso também cimentou muito a minha carreira lá fora. E fui ficando e gosto de lá estar.
Mas voltar não está nos planos.
Eu volto sempre a Portugal, claro. Em concertos, pra família. Agora, de questão de querer ficar cá, viver em Portugal e criar a minha música, não é necessário, como também não lhe posso dizer vou ficar pra sempre na Holanda. Eu acho que a inspiração é a coisa principal e ela vem quando nós nos sentimos bem. E a verdade é que eu costumo a sentir muito bem nestes últimos 10 anos na Holanda, fui criando raízes. É um país que tem uma forma diferente de se viver o dia a dia, e as coisas correm muito bem. Sinto saudades de casa, de Portugal, claro, e tenho uma sorte que viagem de avião são duas horas e meia e já cá estou.
Acaba por ser pertinho mesmo assim, não é?
Exato.
Mas vai viajando também muito, vai levando sempre a sua música também a muitos-
Graças a Deus.
A muitos sítios e com muitas reações também muito bonitas, que a marcam muito?
Muito mesmo. Não este disco só, mas o disco anterior, que foi cada vez mais pessoal. Já tive reações muito bonitas, especialmente de canções cantadas em português, que é aquele pensamento de por causa ser português, o estrangeiro não se sente tão próximo. Não, a música é poderosa, a música é uma língua universal e a música une. Com este disco, tem sido fora de série. É um disco de dois meses de nascença. Um disco, geralmente, na carreira de um músico, permite três anos de turnê. Como este é um disco tão grande, potencializa agora, neste momento, uma turnê em quarteto ou em quinteto e depois, daqui a dois anos, será com orquestra e talvez durará um período de quatro anos. Mas a verdade é que aquilo que me tem acontecido agora é ter realmente as pessoas, no final dos concertos, virem ter comigo e dizer: "Eu chorei na primeira canção, eu chorei naquela, mas não diga nada, mas é tão lindo. Me dê cá um abraço, isso é tão importante, é tão bonito. Não percebi nada do que canta, mas é maravilhoso, é uma viagem musical exímia e cheia de emoção". Isso é muito importante.
E com a agenda muito preenchida já para o próximo ano, Maria.
Também, sim.
Para onde é que vai essa viagem agora?
Esta viagem vai para a Holanda, já 4 de janeiro. E se tudo der certo, irei ao Brasil, Estados Unidos, Canadá, Bélgica, possivelmente Suíça. Vamos a ver. É maioritariamente um itinerário de festivais de jazz de verão, que será mais feito. Estava me a esquecer, Lituânia. Tenho agora, com uma orquestra, três concertos já em março. Vai acontecendo, graças a Deus. Portugal há de acontecer em breve também, assim espero.
Mas alguns desses destinos, que dizia serem destinos de eleição também do jazz, de alguns festivais, são também alguns destinos com fortes comunidades portuguesas. Portanto, é provável que possa encontrar também por lá muitos portugueses.
Sempre, em todos os meus concertos há sempre um português. Eu, por acaso, não faço muito aquela coisa de perguntar: "Há portugueses no público?" Não faço isso.
Porque já tem quase a certeza.
Pronto, nem mais. Mas é muito normal, eu vejo muitos concertos, mesmo na Holanda, onde estou radicada, e especialmente quando são fadistas ou artistas portugueses, eu tenho muita curiosidade de ver. E todo artista português pergunta: "Há algum português no público?" Depois gostam sempre daquele momento de falar. Eu não tenho essa necessidade. Por enquanto, não. Possivelmente poderei vir a ter, mas com toda a certeza eu sei que há sempre ou um cabo-verdiano ou um português ou um brasileiro, e todos eles, a certo momento, gostam de mostrar que estão lá.
Vamos terminar esta entrevista com "Barco Negro", é a música com que costuma começar também os concertos, não é?
Exatamente.
Que emociona muita gente que fala português, que não fala português também. Está neste disco, "Close to Me", que hoje ficamos a conhecer. A nossa convidada foi a Maria Mendes. Maria, muito obrigada, boa sorte.
Obrigada eu.
Bom ano, já agora.
Obrigada, boas festas.
Obrigado, Maria.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre compartilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos on-line, mas também no FM. Na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!