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E hoje no Conversas de Fim de Tarde da Rádio Observador, Miguel Vieira, também estamos à conversa com o mágico Hélder Guimarães, que em junho recebeu um dos prêmios mais importantes do mundo da magia, o Allan Slater Award. Hélder, bem-vindo. Vou começar por perguntar pra quem não é da área e olhando este prêmio, qual é a importância dele? É como se fosse uma espécie de um Oscar da magia?

Olá, boa tarde. Obrigado pelo convite. É mais quase um Pulitzer.

Pronto.

Sim, porque isso tem a ver com os critérios de votação e com os critérios de voto. Há outro prêmio que também, por acaso, já venci há uns anos, que tem mais o formato de Oscar. Este é mais semelhante a um Pulitzer.

Ok, muito bem. Também é muito importante. Muitos parabéns, em primeiro lugar, por teres recebido este prêmio, Hélder. E eu começo já por te perguntar no que ele se vai traduzir. Em que achas que ele se vai traduzir? Em novas oportunidades, mais espetáculos de magia, visibilidade? Suponho que sim, mas como é que isso tudo se vai materializar? É bom pra ti? Obviamente, há de ser.

Sim, o reconhecimento na área em que eu trabalho é sempre algo positivo, seja porque abre portas pra novos projetos, seja pelo reconhecimento do trabalho feito. Neste caso, acaba por ser um bocadinho mais isso. E acho que também abre portas, neste caso em particular, até a artistas internacionais, porque é o primeiro ano que este prêmio foi atribuído a alguém que não é nativo de língua inglesa. Ou seja, todos os artistas que ganharam o prêmio antes de mim, ou são americanos ou são ingleses. Por isso, isso também é uma coisa que vai, obviamente, abrir portas pra outras pessoas. Mas ter o meu nome ao lado de nomes como Penn Tell ou Derren Brown é uma coisa que, obviamente, é o reconhecimento do trabalho feito até agora e não tenho dúvidas que abrirá portas para futuros projetos.

Hélder Guimarães, aqui em jeito de brincadeira, vamos dizer que és o grande mágico latino, por teres sido o único falante de uma língua latina a ganhar esse prêmio. Mas eu acho que o Miguel Vieira está aqui com uma cara muito curiosa pra te fazer uma pergunta, Miguel.

Não, é para perguntar, Hélder, boa tarde. O ano passado, imagino que tenha sido um ano especialmente desafiante pra ti. Acabou por dar a volta com o espetáculo "The Present". Como é que foi fazer um espetáculo deste tipo em casa? Foi preciso uma dose de magia a dobrar?

Eu diria que aquilo que mais posso dizer sobre o que se passou o ano passado, foi um tempo de descoberta e de reinvenção de todos nós. E o facto de eu ter conseguido, do conforto da minha casa, estar a fazer um espetáculo com uma componente até bastante teatral, com uma componente de interatividade, e ter conseguido estar em cena durante seis meses com esse espetáculo. E depois fizemos um assim chamado "The Future", que tivemos mais cinco meses em cena. Ou seja, eu em 11 meses, o ano passado, só pras pessoas terem um cadinho a ideia, fiz 405 espetáculos.

Uau!

Que é uma loucura.

E o cansaço, não circula, Hélder, entretanto? Acabas por iludir a ti próprio nos teus truques. É fácil? Qual é o grau de cansaço do mágico? Nós não temos bem noção disso. Um espetáculo de magia cansa, é exigente do ponto de vista de conseguir conceber os truques bem concebidos, também deve haver nervos misturados em tudo isto. A vida do mágico é estressante?

Eu diria, pra mim, não, porque eu gosto daquilo que faço e divirto-me e aprecio qualquer das partes do processo, seja a parte de criação, seja a parte de performance. Mas não nego que num ano tão cheio, obviamente, que férias sabem bem, não vou negar isso. E no meu caso não é diferente, mas existe obviamente uma tensão, que acho que as pessoas podem compreender, porque se uma rotina falha, se o momento falha, é um momento sempre embaraçoso, não só pra quem o faz, mas até pra o próprio público que está a ver. Não é algo assim muito agradável. Por isso, existe sempre alguma tensão, que é nisso. Mas eu divirto-me imenso a fazer e felizmente não houve nenhum falho maior durante os espetáculos. Aliás, as coisas que nós tivemos acabaram por ser episódios caricatos e muito mais até por causa da internet. Tivemos algumas falhas de tecnologia que não permitiram, por exemplo, que o espetáculo funcionasse fluidamente. Então eu tive que improvisar texto até a imagem ser recuperada por todas as pessoas que estavam a ver. Por isso, teve muito mais a ver com esses falhos do que com a magia em si e com o espetáculo. Mas há sempre uma adrenalina, seja ao vivo, seja em casa, que também tem a sua piada, sem isso também não tinha piada.

Tu falaste no público, como é que o público acolheu este espetáculo em casa? Notaste uma reação diferente, um feedback diferente dos espetáculos ao vivo?

Foi um feedback interessante, sobretudo pelo momento que vivíamos. Eu acho que não tanto a questão de estarem em casa, mas a questão de estarmos a viver um momento único na nossa existência. Esta pandemia, nunca ninguém tinha passado por uma coisa deste gênero. Sentiam-se, por um lado, com uma vontade enorme de conectar umas com as outras e isso notava-se no entusiasmo com que as pessoas se ligavam na chamada e que estavam a observar o espetáculo, mas depois havia um outro lado, que era o lado emocional da própria história que eu estava a contar, porque os meus espetáculos são sempre um misto entre magia, storytelling e humor. São espetáculos um bocadinho mais global e, nesse sentido, a história que eu contei tinha muito a ver com uma altura da minha vida, quando eu era criança, em que tive que passar um mês e meio em casa fechado, porque fui atropelado. Não interessa agora a história em grande detalhe, mas fui atropelado e enquanto estava a recuperar e iam-me fazendo exames, aconselharam-me a ficar em casa e eu contava essa história e aquilo que aprendi nesse momento. Isso relacionava-se muito com o momento que estamos a viver. Eu tive pessoas a chorar no final do espetáculo em frente ao ecrã, que eu pensei que era uma coisa que nunca iria acontecer. Tive pessoas a mandarem algumas das mensagens mais inacreditáveis, a dizer: "Tu não imaginas o quão isto significou para mim neste momento". Mas eu acho que isso teve tudo a ver muito mais com a questão da pandemia do que com a distância. Obviamente que as coisas acabam por estar um bocadinho ligadas, mas sem dúvida que foi uma reação muito diferente daquela que eu esperava e reconfortante, em certa medida, porque realmente a arte tem este poder de dar às pessoas algo que elas às vezes não sabem que precisam. Isso foi muito bonito.

E Helder Guimarães, tu há pouco falavas do teu processo criativo, gostavas de todas as fases do processo, desde a performance até à concepção do truque. E a minha curiosidade é precisamente essa, a concepção de um truque. Como é que se concebe? Qual é a ideia? De onde é que se parte? Há uma referência, temos que saber se queremos fazer com cartas, quais são os materiais. É muito mais complexo do que aquilo que parece, no final.

É muito mais complexo do que aquilo que parece. É muito mais aborrecido do que as pessoas se calhar imaginam que o processo criativo é, porque há sempre aquela ideia mítica de que as pessoas que trabalham, por exemplo, até na escrita criativa ou em processos que envolvem criatividade, que o dia é uma coisa maravilhosa. E não, às vezes é um dia cheio de frustração, porque não se consegue produzir nada, porque se olhou para uma página em branco e tentou-se escrever e não se consegue. Com a magia é exactamente a mesma coisa. Ou seja, existe uma base de conceitos, uma base de técnicas, que obviamente algumas delas são aplicadas a objetos específicos, como um baralho de cartas, no meu caso, grande parte do meu repertório é com baralho de cartas e por isso eu trabalho muito com esse objeto, mas não só. Existem técnicas específicas, conceitos específicos, depois coisas um bocadinho mais abrangentes, que já servem para vários objetos e para diferentes tipos de magia. E depois existe aquilo que nós, como artistas, queremos comunicar e queremos fazer o público sentir. Eu acho que aí o meu processo parte muito de eu perceber aquilo que quero falar, as histórias que quero contar e a partir daí a magia acaba por surgir. Eu acho que cada mágico terá uma resposta diferente em relação a isso, mas depois é muito mais um trabalho de tentativa e erro, até se conseguir chegar a algo que nos parece aceitável e então trabalhar o detalhe nessa construção. Mas é um trabalho muito extenso, só para as pessoas terem um bocadinho de noção. Para fazer um espetáculo de uma hora, normalmente, eu estou dois anos a trabalhar, não só sobre o espetáculo, com outras coisas pelo meio, como é óbvio.

Mas nos actos em si.

Desde o momento em que tenho uma ideia até conseguir chegar a um produto final e esse trabalho muitas vezes é misterioso até para mim, que o faço, e muitas vezes não sei exatamente como é que ele se processa, mas demora bastante tempo.

Miguel Vilarinho.

Helder, tu vives em Los Angeles, nos Estados Unidos. Por que é que decidiste ir viver para o outro lado do Atlântico? Não havia oportunidades em Portugal?

Não, isso também é injusto dizer em relação a Portugal. Isso foi uma decisão até um bocadinho diferente dessa. Ou seja, a minha atividade profissional a 100% começa em 2006, em que eu ganhei um prêmio importante na altura, que é o Campeonato Mundial de Magia. Tornei-me campeão mundial de magia com cartas em 2006 e a partir daí eu vivia em Portugal, mas a minha atividade profissional começou a desenvolver-se muito mais a viajar.

Itinerante, mágico itinerante, a ideia também é sempre romântica.

Sim, e cheguei a passar 10 meses fora de Portugal durante um ano e por isso a dada altura começou a fazer sentido poder experimentar viver noutro lado e até tinha outros sítios que tinha pensado que podiam ser outras opções, mas Los Angeles acabou por ser o sítio onde eu fui, nessa altura, quase de aventura, porque tinha muitos amigos lá que tinha conhecido entretanto nas viagens que referi e que me estavam a dizer: "Isto aqui é interessante e tu tens qualquer coisa diferente, aqui o teu estilo pode realmente funcionar". E assim foi, no final de 2011, início de 2012, mudei-me para os Estados Unidos e de repente, realmente, há oportunidades que só estando lá é que acabamos por E isso aconteceu um bocadinho de estar no sítio certo à hora certa e rapidamente tive as portas abertas para fazer espetáculos em teatros lá conceituados que é aquilo que eu sempre quis fazer. É uma ideia muito romântica nesse aspecto, mas não há nada mais bonito do que alguém fazer um espetáculo e as pessoas estarem dispostas a pagar um bilhete para ir ver esse espetáculo. Eu acho que não há forma mais honesta de ganhar a vida. E felizmente tem sido isso que eu tenho feito durante os últimos oito, nove anos. Tem sido maioritariamente a partir daí que eu vivo e obviamente os Estados Unidos sendo um mercado muito maior e com o poder económico também mais elevado, acabam por providenciar oportunidades para eu criar coisas na escala que gosto de criar, que é situações íntimas, ou seja, espetáculos para 150 pessoas, bastante íntimos, mas que tenham um trabalhar cénico interessante, um trabalhar de luz interessante, de guião interessante, que obviamente implicam que o custo de bilhete também é muito superior àquilo que normalmente se pratica em Portugal. E para poder fazer as coisas como gosto, acabou por ser lá o meu sítio.

E Hélder Guimarães, olhando agora para o futuro e sendo que quando temos um espetáculo teu, agora vamos dizer que estamos a ver um espetáculo do vencedor do Alan Slate Award, quero mesmo saber quais é que são os próximos espetáculos, o próximo espetáculo, que coisas tens para nós?

Olha, neste momento as coisas estão um bocadinho indefinidas pela simples questão de que a pandemia ainda não está completamente travada e se as pessoas têm seguido as notícias, sobretudo nos Estados Unidos, esta questão da variante Delta tem levantado bastantes questões. Mas um dos planos que eu tenho num futuro relativamente próximo, será levar um espetáculo que eu fiz há dois anos em Los Angeles chamado "Invisible Tangle" para Nova York. Portanto, isso vai ser, sem dúvida, algo que vai acontecer nos próximos tempos. E há algumas coisas que eu neste momento ainda não estou capacitado para revelar, porque não sou o único envolvido nestes projetos, mas se as pessoas tiverem interesse em seguir o meu trabalho, podem me seguir nas redes sociais. Assim que a informação for pública, eu vou colocar lá para partilhar com toda a gente, mas há algumas coisas interessantes que vão acontecer no final deste ano.

E certamente vai ser magia. Hélder Guimarães, muito obrigado por te teres juntado a nós neste "Conversas Sintarte" da Rádio Observador.

Muito obrigado eu.

Rádio Observador. Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!