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Sejam bem-vindos às "Conversas do Fim do Mundo". Estamos de regresso depois de uma retemperadora pausa e regressamos com um viajante que é geógrafo e que desenha os lugares por onde vai passando. Ele tem muitos caderninhos com muitos rabiscos. Começou a viajar tarde, já viveu em várias geografias, umas mais próximas e outras mais distantes. Já vamos saber quais. Miguel Antunes, bem-vindo às "Conversas do Fim do Mundo".
Obrigado por me receberem.
Ora essa, Miguel. Foram os mapas que te levaram às viagens?
Foram. Sempre viajei com a família, sul de Espanha, Portugal inteiro, mas só foi mesmo quando fui para o curso de Geografia, porque sempre tive interesse na Geografia, planeamento urbano, também no ambiente. Foi ali que me abriu os horizontes e a mente para viajar. Tinha certos professores que diziam: "Viajem o máximo e tentem." Nessa altura ainda não era muito barato viajar.
Tu eras aquele jovem que passava muitas horas a olhar para os mapas e a sonhar com grandes viagens.
Sim, se bem que não foi algo imediato. Fui aos poucos. Depois fiz uma viagem com um amigo, sozinho, foi a primeira grande e apanhei ali o bichinho, mas foi mesmo só depois do curso e do mestrado que nasceu este bichinho.
Das viagens?
Exatamente.
Muito bem. E então começaste por viajar para onde?
Até 2013 viajei pouco. Itália, Espanha, França, era tudo muito aqui à volta.
O mundo latino, europeu.
Exatamente. Muito semelhante ao português.
É o que é mais próximo também.
Sim, mais fácil. E menos assustador.
Assustador?
Sim, ir para lá, certos horizontes podia ser assustador. Nessa altura, 2007, 2010, não havia um conhecimento tão grande, generalizado, redes sociais, nem nada. Era tudo meio misterioso, o que era bom também. E foi quando fui para a Letónia, em 2013, acabei o mestrado em ambiente e não tinha feito o Erasmus e pensei: "Tens que fazer alguma coisa lá fora." E sempre quis fazer Erasmus, mas não foi possível. Depois comecei à procura de projetos europeus e encontrei o serviço de voluntariado europeu e podia escolher qualquer país da Europa.
Que luxo.
Mas depois queria algo mesmo impactante. E então vi a Letónia. Não sabia muito da Letónia, fui ao mapa e vi, é ali mesmo junto à Rússia, portanto, a ponta oposta da Europa, de Portugal, totalmente dois pontos opostos, e disse: "Por que não?" E fui em pouco tempo, não houve preparação, não houve nada, e fui à aventura.
Para a Letónia.
Exatamente.
Que país é que foste encontrar em 2013, Miguel?
Bem diferente de agora. Eu voltei no ano passado, ali viagens por uma agência. Em 2018 também fui lá, mas em 2013 ainda era muito soviético.
Ainda?
Só mesmo o centro histórico, a Old Town, é que tinha alguns negócios, aqueles coffee shops internacionais, mas também não era nada de Starbucks, era uma coisa mais pequena.
Quando dizes o centro histórico, é o centro histórico da capital, Riga.
Exatamente, Riga. Que não é muito grande, mas era mesmo ali concentrado. McDonald's e tudo, não sei se posso dizer marcas.
Podes.
Tudo à volta era fantástico, era desconhecido. Não assustador, porque eu gosto de aventuras. Morava numa zona, num bairro soviético, daqueles feios blocos comunistas, que os próprios locais diziam: "Estás ali"-
O famoso brutalismo soviético
Exatamente. Muito quentes, muito acolhedores, porque lá fora estavam -20, 27 graus. E dentro de casa andava de short e calções. Aquele clichê.
Mas existe.
Sim, e é tudo muito confortável lá.
Portanto, foste encontrar um país em 2013 ainda com uma forte herança soviética.
Sim, muito. Todo o Báltico.
Todo o Báltico, que era visível "só" na atmosfera e na arquitetura e no desenho das cidades ou também no cotidiano das pessoas, Miguel?
Sim, muito. Bastava sair da Old Town, ia-se para uma zona por trás da Estação Central, que se chamava mesmo a Moscova. Era mesmo uma zona soviética. Aí era um mundo totalmente à parte. Muito degradado, pessoas muito estranhas, muitos bêbados, muitos sem-abrigo, em situações que andavam sempre à bulha uns com os outros. Isso via-se, entravam nos trams. Mas para mim era tudo fascinante.
E portanto, estiveste o ano passado na Letónia e sentiste já diferenças.
Sim. Em 2018 já senti, muitos negócios. Quando eu estive lá na Letónia, em 2013, era o último ano que eles tinham a moeda local.
Ok.
Que ninguém queria. Mudar para o euro, depois mudaram no ano seguinte. E não sei se foi também por isso, mas depois muitos negócios ocidentais abriram. E é uma coisa totalmente diferente. Qualquer capital do Báltico é uma capital-
Europeia
...semelhante. Sim, europeia, ocidental.
Ocidental. Muito bem. Quanto tempo viveste na Letónia?
Estive lá oito meses a fazer o voluntariado. E tentei ficar lá mais tempo.
Fizeste voluntariado em quê?
Estava numa organização educativa, mas o objetivo era falar da Europa, falar do euro O objetivo era mesmo falar das coisas boas do euro. Fui a umas conferências, comecei a falar da realidade portuguesa, e eles não gostaram muito do que aconteceu, da subida dos preços e tudo. Recebíamos uns e-mails.
Assustaste-os, foi?
Foi. E eles: "É melhor mudarem o discurso." E fui falar de Portugal. Para eles, Portugal era um fascínio.
Por quê?
Tipo: "Mas por que estão aqui? Por que estás aqui a viver na Letónia? E Portugal é sempre as praias, o calor, e parece que estão a falar da Nova Zelândia ou assim. É muito engraçado. Hoje já não, acho que hoje já viajam muito.
Pois, e é já aqui, na ponta sul do continente europeu. E depois da Letónia, continuaste a viajar?
Foi aí que apanhei o bichinho. Enquanto estive lá, a vantagem de estar em países muito pequeninos, em quatro horas estava em Tallinn, no norte, quatro horas estava em Vilnius, no sul, em 12, que fiz de autocarro, estávamos em Varsóvia. E também se podia ir à Rússia, era um pouco mais fácil, mas mesmo assim ainda era mais fácil ir à Bielo-Rússia.
Então foste?
Não fui por causa dos vistos. Era sempre difícil, tinha que seguir uma série de condições.
E tu não satisfazias essas condições.
Não, tinha que ser um hotel marcado, eu ia muito em couchsurfing, mas em modo voluntariado.
Olha, com que ideia ficaste dos Bálticos nesse ano de 2013, Miguel?
Já sentia ali alguma vontade, alguma mudança. Já se percebia que estavam a ir para a direção da Alemanha, Polónia. A Polónia já estava mais avançada. E sentia-se que havia ali mudanças, mas eles respeitam muito as tradições locais, mesmo letãs. No verão, apanhei o solstício de verão, que é sempre uma festa incrível, é o Līgo, como dizem na Letónia, o Jāņi, São Pedro. Eles aí vivem mesmo as tradições e são mesmo orgulhosos. E foi o que mais gostei, foi disso. Era ali um misto de quererem sair da sombra soviética. E via-se que estavam a desenvolver-se bastante. A Polónia, em 2013, já havia arranha-céus e uma modernidade fantástica.
É incrível. Perceber de onde eles vieram e onde eles estão agora.
Sim. Todos aqueles países estão-nos a ultrapassar a olhos vistos. Até a Albânia, onde estive há dois anos.
Albânia?
Albânia. Eram arranha-céus por todo lado. Percebe-se a constante evolução. De ano para ano, percebe-se que aquilo cresce.
Há um grande dinamismo.
É verdade.
Muito bem. E depois da Letónia e dos Balcãs, por onde andaste, Miguel?
Depois, fazia pequenas viagens na Europa. Voltei a Portugal, ainda estive na Inglaterra, explorei a Inglaterra uns tempos. Voltei a Portugal e depois fui para a República Checa. Em 2017.
Que agora se chama Chéquia.
Exatamente. Em 2017.
Foste para Timor.
Exato. Depois de Inglaterra, 2017, fui fazer um Inov Contacto, o programa de estágios da AICEP. Está a fazer 10 anos em que eu estava agora no processo de recrutamento e de seleção.
E quanto tempo estiveste em Timor?
Estive lá seis meses, é o Inov Contacto, e depois aproveitei para estar um mês de mochila às costas pelo Sudeste Asiático, que era o meu sonho, e foi fascinante.
Muito bem, já vamos falar disso, mas falemos de Timor. Aproveitaste para conhecer esta antiga colónia portuguesa.
Sim, e bem, porque no fim de semana éramos muitos portugueses.
Havia uma grande colónia lá de portugueses em 2017, em Timor?
Sim. Há sempre muitos professores, há um grande volume de professores. Havia os Inov, penso que éramos 12. Íamos chegando. E depois havia muitos amigos da "Miss", a GNR já não estava lá, mas muita gente tinha ficado lá, já estava lá há 20 anos. Éramos muitos e todos os fins de semanas íamos a uma cascata, íamos a um município, íamos a um distrito, íamos a um sítio paradisíaco.
Os portugueses lá têm uma vida própria e à parte do resto dos timorenses.
Sim, todos os expats. Os portugueses são os que estão mais-
Vivem na sua bolha, é isso?
Uma pequena bolha. Dão-se com os timorenses, é verdade, mas há sempre uma diferença.
Muito bem.
Mas nada como os australianos ou os americanos. Eles é que vivem mesmo numa bolha.
Só deles. E bastante grande. E inchada.
Sim. Rica.
Boa, portanto aproveitaste para conhecer também Timor de uma ponta à outra.
Exatamente.
Viste lá em apuros, não foi?
Foi, exatamente.
Conta lá.
Para já, no dia a dia, não era em apuros, mas, por exemplo, ia muito ao fim do dia tomar um banho à Areia Branca, que é a zona na marginal, até ao Cristo Rei, que é mesmo a ponta de Díli, e onde íamos sempre todos tomar banho, ao fim de semana estávamos sempre lá. É onde se bebe a água de coco, ali a ver o pôr do sol, que são sempre épicos.
Em Timor, é isso?
Em Timor, em Díli, mesmo ali. E sempre que eu ia à água, no início ia à água despreocupadamente. Havia sempre uma barreira de timorenses e eu depois fui perguntando. E era uma barreira de proteção dos láfaecs, que são os crocodilos. Que por vezes aparecem. Em Díli não há muito, é mais no sul, mas de tempos a tempos, às vezes surgem e atacou duas vezes um português que estava lá E era sempre esse risco. O grande susto foi um dia que fomos a uma cascata.
Mas espera lá, na praia não tiveste nenhum encontro com nenhum crocodilo?
Não tive. Mas eu ouvia histórias que houve um português e outros que foram atacados. Havia alguns, mas não muitos ataques. Mas é sempre aquele medo de dar um mergulho.
Mergulhavas a medo, é isso?
Era. Sempre atrás dos timorenses.
Mas ias a contar.
Exato, houve um fim de semana que fomos, foi um 3 de maio. Lembro-me que o Benfica tinha sido campeão, o Salvador Sobral tinha ganho a Eurovisão e era Fátima. E fomos todos domingo de manhã para uma cascata, de jipe. Fomos todos, era comum, e éramos 15 ou 20, éramos vários grupos. Descemos até à cascata e já eram 17h e tudo a dar mergulhos, tudo a não querer voltar, mas o guia local dizia que era melhor voltarmos antes de escurecer, porque havia jiboias e animais. E eles não queriam, mas eu insisti e até conseguimos ir. Só que voltámos por um sítio totalmente diferente e eu achei estranho, mas ninguém perguntou. O caminho por onde tínhamos vindo estava marcado, e era uma descida ainda de uns bons quilómetros. Fomos de lado por caminhos que nunca ninguém tinha atravessado. E eu comecei a perguntar ao local, ao timorense: "Estamos bem, é seguro?" "Sim, não há estresse." Andámos por uma hora, hora e meia, até já não haver luz. Eu só tinha óculos de sol e já estava escuro. Estávamos todos de calções, havaianas e estava de óculos de sol e já não conseguia ver nada.
Ou seja, não tinhas os teus óculos de ver.
Exatamente. E comecei a entrar um pouco em pânico, mas confiei no local. Chega um ponto, uma hora e meia depois, chegamos a uma parede com 10 m de altura, seca, havia alguns ramos. Eu, na altura, não fazia escalada. Alguns conseguiram subir. O timorense saltou, parecia um local a saltar. E alguns de nós não conseguiram subir. Ficamos ali por uma hora parados, às escuras completas, não havia aldeias à volta. Chega o frio, estávamos todos de calções, molhados da cascata e começo a entrar em pânico. Estivemos uma hora e meia ali parados a tentar subir e não conseguíamos. E não há serviços de resgate, não há nada. Foi muito estressante.
Como é que saíram daí?
Após muito trabalho, esforço, fazíamos cordas com as toalhas.
Ah, ultrapassaram a tal parede.
Conseguimos, foi dificílimo. E havia pessoas muito pouco preparadas e ficamos duas horas para tentar subir. E depois ainda estivemos por uma hora por mais caminhos travessos. E lá chegamos e estavam uns bombeiros à nossa espera, porque quem tinha ficado lá tinha ido pelo local seguro, estava em pânico, porque nós desaparecemos.
O grupo nunca mais aparecia.
Exatamente.
Grande susto. Foi o teu maior susto em viagem, Miguel?
Foi. Foi o maior. Depois tive pequenos, mas já viajei um bom bocado e por acaso não tenho tido muitos percalços.
Muito bem. Estamos aqui a chegar ao final da primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem. Miguel, guardas contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial?
Sim, tenho os cadernos todos de sketchbook, os diários gráficos.
Quantos cadernos tens?
Já tenho uns 30.
Uau!
Numa estante em que está tudo escrito. Está Timor, está Sudeste Asiático, está República Checa. E é giro às vezes ir lá e abrir e voltar. E trago aqui, que é um lenço Tais, que é um daqueles lenços típicos.
De Timor?
Exatamente, colorido. E é especial porque lembra todo aquele tempo. E é feito lá no mercado de Tais, que é mesmo ao redor de Dili. É uma das coisas que tenho.
Que tu guardas das tuas viagens.
Exatamente. E tenho o passaporte também, cheio de carimbos da altura. São os objetos.
Que ideia tu tinhas dos timorenses quando partiste e que ideia com que tu ficaste quando chegaste?
Sim, eu tinha uma ideia muito boa, boa gente.
Establece aqui uma relação quase sentimental com os timorenses. É?
Sim, muito da parte deles.
Depois de se viver em Timor.
Sim, exatamente. Eu sempre conheci timorenses, andei com vários na escola, porque ao lado da minha casa, no prédio ao lado, houve uma grande colônia de refugiados timorenses, talvez nos anos 90, e muitos viviam ali em Carnaxide, porque havia um campo de refugiados onde é agora o Jamor, onde são os campos de ténis. Lembro-me de Carnaxide ter muitos refugiados.
Muitos timorenses.
Sim. E fui encontrar uma timorense com quem jogava básquete.
Portanto, foste encontrar uma antiga vizinha em Timor.
Exato. Estava numa festa e ela: "Eá!" E eu olhei, já não nos víamos há 20 ou 30 anos. E foi incrível. Em Timor. Foi no meio, ela voltou para Timor. E os timorenses têm um apreço e uma gratidão aos portugueses incrível. Somos hiper bem respeitados e tratados lá. E se dizemos que somos professores, os meus amigos diziam que eram professores, é uma coisa. Até dá para fugir a alguns problemas, dizer que é professor e a polícia adora.
Facilita, é isso?
Sim, há uma grande gratidão.
Boa, muito bem. Estamos à conversa com o viajante Miguel Antunes. Vamos fazer aqui uma pausa nas conversas do Fim do Mundo esta semana. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Esta semana com o viajante Miguel Antunes, geógrafo, desenhador. Miguel, de onde é que surgiu esta paixão de desenhar os locais por onde vais viajando?
Sim, eu sempre desenhei quando era criança. Pegava em revistas e desenhava os contornos. Sempre estava ali, horas e horas sentado. Depois na escola era para ter ido para Arquitetura, mas não fui pela Matemática. E deixei completamente o desenho. E em 2013, na Letónia, por isso é que a Letónia é tão importante. Nessa altura, havia um viajante que estava a dar uma volta ao mundo de caderno em punho. E eu descobri, e foi nessa altura que também nasceu a comunidade Urban Sketchers internacional, portanto, conjugou-se tudo.
E tu pensaste: "Se calhar está na altura de eu voltar a desenhar." Foi?
Foi. E eu comecei, por acaso, só a escrever um diário escrito. Mas depois disse: "Se calhar podia desenhar inspirado em tudo o que estava a acontecer, mas sem qualquer pressão de ficar bom ou bonito." E depois fui vendo que aquilo era fantástico, era um meio de guardar memórias. E foi aí que nasceu o bichinho até agora.
Muito bem. Desenhaste também o Sudeste Asiático quando por lá andaste depois da tua experiência de seis meses em Timor.
Sim.
Para um europeu, quão estimulante é a Ásia, Miguel?
É fantástica. Ainda não estive no oposto, nas Américas.
Eu pergunto isto porque o continente asiático é-
Sim, é vibrante
...colorido, não é?
Sim. Os cheiros, a temperatura.
Colorido e polifórmico. Desculpem a expressão, mas tem muitas formas, não é?
Tem. São as comidas, os cheiros, a humidade, o calor. E é fascinante, porque tudo é vibrante. As ruas. Eu fui ao Vietname, lembro-me aquelas ruas, aqueles cruzamentos incríveis.
Que desafiam a vida e a morte, não é?
Sim. Se bem que há ali um sistema, um controlo, uma ordem, digamos.
Sim, a ordem no caos.
Sim, e não há acidentes.
É impressionante como é que eles se orientam todos.
Sim. E a pessoa vai descobrindo. Não há passadeiras. Então passa-se ali por entre as motas devagarinho e elas não chocam. É fascinante. E estar a desenhar na Ásia. No Vietname eu estava sentado e veio uma família de chineses atrás de mim, mas literalmente. Os asiáticos são muito crus, digamos, metem-se mesmo em cima. Os europeus estão afastados.
Respeitam o espaço.
Sim.
A bolha de cada um.
Sim, até se afastam quando percebem que nós estamos a observar.
Estavas a desenhar no Vietname, é isso?
Exatamente.
E uma família de chineses colou-se aos teus ombros, foi?
Exatamente. E no fim fiz o desenho e um deles pediu: "Can I take a picture with my child?" E eu: "Ok." Então meteu a filha, um pai com cinco anos, ao meu lado. E eu abri o caderno, tirou fotos e pronto. Era uma celebridade. Pediam-me para desenhar retratos das filhas e ofereciam-me as refeições e eu não tinha à vontade para desenhar pessoas, então recusava. Mas era tudo incrível. E muitos também às vezes juntavam-se com cadernos e com lápis a desenhar.
Ao teu lado.
Sim, é todo um mundo. Saíam das lojas e os filhos vinham desenhar. É mesmo um estimulante.
Muito bem. O que é que gostas mais de desenhar, Miguel?
Gosto de arquitetura, comida também. É assim os dois subjects. E eventos também.
No mundo ou pelos países por onde tens andado também a viajar e a desenhar, qual foi o local mais fascinante, mais estimulante, Miguel?
Eu penso que foi o Laos. O Laos foi a minha primeira paragem naquele mochilão que eu fiz, depois de Timor. E o Laos é incrível. Eu não fui à capital, estive na segunda cidade, em Luang Prabang, e é fantástico porque tem tudo. Tem ali o Mekong que passa.
O rio Mekong.
Tem comunidades piscatórias, tem provas de canoagem, que estão 10 pessoas numa canoa ali a competir. Depois tem uma comunidade de monges budistas, imensos templos. Tanto que de madrugada, é uma coisa um pouco turística, mas há o alms giving, estar ali nas ruas, os turistas e os locais vão com comida e estão todos sentados no passeio e estão ali a dar comida aos monges que vêm com a sua taça, que recolhem comida. Tudo a questão do carma e do budismo, e é tudo essa profusão de cores. E a cidade em si é colonial francesa, portanto é concentrado, é incrível. Acho que eu fui sido mais curioso. Depois também fui a Angkor Wat, no Camboja, que também é superinteressante. Um pouco massificado. Mas o Laos é fantástico.
É qual massificado, Miguel?
É por causa do templo de Angkor Wat e a cidade, que é a cidade-base.
Mas ao ponto de não te deixar ter uma perceção do conjunto arquitetónico, das monumentalidades?
Exatamente. O complexo é enorme. Mas o percurso é todo para aquele templo mais famoso. Centenas de pessoas ali a passar e estão ali a tirar fotos. É muito instagramável. Mas depois basta sair um bocadinho e ir pro complexo, que é enorme. E a cidade-base, Siem Reap, acho que foi a cidade mais-- mesmo o Vietnã era caótico, era local, é verdade. Mas Siem Reap, que é uma cidade tão pequena, era uma loucura de bares, parecia um bocado Albufeira. Tuck-tucks, o sítio onde eu fui mais incomodado com tuck-tucks. Era a cada segundo.
Mais do que em Lisboa.
Lisboa está a começar. Mas depois também era a dizer que dava pra regatear preços, então é preciso também perceber como é que eles funcionam. Mas sim, Laos foi o mais interessante.
Ok, visualmente, não é?
Sim.
Portanto, esse mochilão foi Vietnã, Laos-
Foi Laos, Vietnã, Camboja, e depois Malásia e Cingapura. Acabei. E durante Timor fui a Cingapura, fui a Bali, fui a vários sítios. Kuala Lumpur. Então esse mochilão eu tinha 22 dias. Podia ter feito 30 países, quase.
É muito barato viajar no Sudeste Asiático.
E há muita gente que tenta fazer 10 países em quase 10 dias. E eu não, preferi estar quatro dias em Luang Prabang, estar outros quatro ali, aqui, Vietnã, fazer o comboio.
E viajar com algum tempo.
Exatamente.
Não foste à Índia, por quê?
Não. Já fiz escala na Índia, mas não posso dizer que se calhar as pessoas dizem: "Ah, fui à Índia." Como a Tailândia, também fiz lá escala, meti o pé fora do aeroporto. Há quem considere que está visto, mas eu não. Tem que ser com meaning.
É uma viagem a realizar.
Exatamente.
Mas com mais tempo.
Sim. À Índia, fiz lá escala, é verdade, mas quero lá ir, sim. Quero até fazer mais o oeste, portanto Goa, ir onde os portugueses passaram. Mas ir a Goa, descer e depois saltar pro Sri Lanka. Isso é um dois em um que gostava de fazer. Eu penso que é mais calmo o ocidente, porque aquelas grandes cidades acho que é-- mas é uma experiência, toda a Índia. Um dia.
Um dia. Alguma razão especial pra fazeres essa costa ocidental da Índia? Por causa da presença portuguesa ou porque é mais-
Sim, um pouco. Se bem que já não se deve perceber. É como Timor, as pessoas pensam: "Vou a Timor e há imensos vestígios portugueses." Em Dili, quase não há nada, porque foi tudo incendiado pelos indonésios quando saíram de Timor, tocaram fogo.
Após o referendo.
Exatamente. Onde há mais é em Baucau, que é a segunda cidade, é quatro horas. Tem um mercado, tem a pousada, uma pousada linda. Não é muito pela presença portuguesa, mas há os fortes. Mas acho que é muito mais calmo. É uma Índia mais calma, mais interessante pra mim. E Goa, porque também li agora um livro do Nobel, o Orhan Pamuk, que é giro porque ele desenha também. Então nos cadernos onde ele ia desenhando e escrevendo memórias e ideias pros romances, ele desenhava. E então o livro comprei-o pra isso. Comprei pra ver os desenhos que ele fazia e descobri um pouco a obra dele. E ele passa muito tempo em Goa e parecia-me superidílico.
Boa.
É um pouco por isso.
Muito bem. Olha, tiveste um bric-a-brac em Cingapura.
Cingapura não é um sítio onde se possa fazer-
Pisar o risco.
Exatamente. Houve agora um francês-
E tu pisaste, foi?
Foi, mas sem saber. Lá porque é muito restritivo.
Que diatribes fizeste em Cingapura, Miguel?
Quando saí de Timor, levei a minha grande mala, e pus lá alguns objetos e até minha irmã me tinha pedido: "Olha, traz-me aí isso", que aqui é mais caro e aí é muito mais barato. E algumas bebidas e algum material, alguns produtos timorenses, sem selo, sem nada. Muito local, dos mercados. E quando chego ao raio-X, tive que tirar a minha mochilona, a minha grande mala, porque eu ia fazer o mochilão. E o que acontece é que há muitos portugueses que enviam diretamente a mala pra Portugal e, portanto, não há grandes revistas, não há raio-X. E eu tive que sair pra esta zona de segurança, tive que fazer o processo outra vez e quando eles me dizem: "Open your suitcase, you have contraband." E eu aí fiquei branco. Fiquei branco, porque contrabando em Cingapura pode ser arriscado.
Contraband, meaning prison.
Exatamente. E às vezes pior, porque em Cingapura quando se chega, eles carimbam logo o passaporte e dizem que há pena de morte pra o traficante de droga. Quando eu ouvi contrabando, pensei: "Meteram-me droga na mala ou assim." Comecei a ficar branco. "Venha aqui a esta sala." E eu comecei a fazer logo filmes de presos no estrangeiro. E chego a uma sala, um armazém gigante, só tabaco. Era tabaco e bebidas. E eu achei aquilo, ok, não é uma cela, não é prisão, não é nada. E então diz: "Você abra." E eu abri e tinha lá alguns Material, bebidas e estes lenços. E eles disseram: "Você não pagou imposto aqui em Cingapura, você está fazendo contrabando, traz de outro país, tem que nos pagar." Primeiro, isto é uma fine, uma multa de acho que era 200 dólares por cada objeto, e eu tinha 40. Comecei a fazer as contas, olhava pro mochilão, e eu comecei a ficar branco, quase a chorar. "Epá, não, eu sou estudante e vou fazer um mochilão e estou com pouco dinheiro." E eles: "É a primeira vez?" Eu: "É." "Então ok, pode deixar aqui tudo." Eu: "Posso?" "Pode, fica aí com isso. Pague então 15 dólares de multa."
Olha que sorte. Olha que sorte, Miguel. Não se brinca.
Ásia, Indonésia também é bastante difícil, restritivo, e há uns quantos viajantes que têm problemas.
Sim.
Portanto, foi um sobressaltito.
Muito bem. Olha, que viagens tens planeadas agora, Miguel?
Eu ainda estou a planear, sempre há para planear muitas.
Sim.
Mas penso que irei à Geórgia e Arménia. Que já no ano passado queria ter feito, não consegui, e ainda está na minha lista, porque eu adoro os Balcãs, é a região da Europa, a minha favorita.
É? Por quê?
Os Balcãs é incrível, porque não é Europa. É um bocadinho de Europa, mas tem influência otomana e Médio Oriente, e a comida é toda pouco europeia. E é fantástica. E quando fui à Bósnia, comecei na Croácia, depois passei pra Bósnia. Sarajevo é impressionante, é um choque. Então apercebi-me um bocado por aquela região.
Por que é um choque?
Eu tinha vindo de Mostar, que é uma cidade supermodelo, que foi bombardeada, mas depois reconstruída, e está toda novinha em folha, perfeitinha.
Mostar que é no sul da Bósnia-Herzegóvina.
É, duas horas de Dubrovnik. E quando chego, era Bósnia, e quando chego a Sarajevo, penso que era algo semelhante. E sabia o que tinha acontecido. Pensei que tivesse havido-
A guerra civil dos anos 90, sim
...mas não houve reconstrução quase nenhuma, porque eles querem mesmo manter a memória.
Como cidade mártir.
Sim. E os edifícios ainda têm muitos com buracos de balas e depois imensos cemitérios, e as cruzes todas com 94, 95. E depois vi uma galeria em que mostravam todo o massacre de uma vila lá perto, com a fronteira com a Sérvia.
Mas é uma cidade muito vibrante, não é?
Sim, exatamente. E isso também me surpreendeu.
Tem uma vida noturna alucinante.
Sim. E é uma cidade nova, saiu da guerra.
Sim.
E fantástica. Mas é pesada, muito pesada. Mas pra mim é a melhor descoberta das que eu visitei na Europa.
Sarajevo. Muito bem. Miguel, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer check-out. Então vou pedir-te para completares as habituais frases. Então, na minha mala vai sempre...
Um diário gráfico e o material todo de desenho.
Não tiras fotografias?
Tiro algumas. Muitas até dos desenhos e da paisagem. Mas como sei que os desenhos durarão mais e as fotografias desaparecem ao fim de alguns anos, prefiro ter sempre o meu caderno.
Fixar tudo em papel, os teus desenhos. Muito bem. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje, qual foi?
Eu posso dizer o Nepal. Nepal, vai há dois anos, fui lá e a primeira semana fantástica, Kathmandu, adoro, muito boa. E quando chego a Pokhara, que é a segunda cidade, torci um pé. Não foi nada grave, mas fiquei meio coxo. Depois ainda consegui ir às montanhas e subir. Mas depois, quando desci, apanhei uma gastroenterite, ali já quase perto, talvez cinco dias do fim. Estive cinco dias na guest house.
Em agonia.
Em agonia, exatamente.
Oh, pobre!
Depois o regresso. Ah, e depois pra lá tive uns percalços com o visto, na Arábia Saudita. Tinha o visto certo, e obrigaram-me a sair do aeroporto e a voltar a entrar, apesar de eu ter o visto de trânsito. Eu e outros turistas estávamos ali a fazer um bocado de barulho. Depois, Nepal, tudo o que aconteceu. Depois o regresso, com a gastroenterite, estava a cair de fraqueza. Ia pela Índia, ia fazer um voo de escala doméstico, e por causa disso não tinha o visto doméstico, e portanto não me deixaram embarcar. Então tive que comprar um novo voo, ia cair pro lado, sozinho. E então tive que comprar um voo para Dubai, que era a única forma de sair de lá.
Foi duro e foi cheio de peripécias. O carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter?
Sim, foi um sítio que não fui, por ser difícil. A Rússia, na altura, São Petersburgo, era muito popular.
Quando vivias na Letónia.
Exatamente.
Estavas ali ao lado.
Exatamente.
Para aí o quê? Duas horas de carro? Não.
Não, tinha que sair à Estónia, a Tallinn, e depois ir de autocarro até São Petersburgo. Só que tinha que ser um hotel, uma carta de convite, o visto também esta não era muito barato, e eu estava numa low cost. Queria explorar também ali à volta. Então foi difícil.
A recordação de viagem mais cara, qual foi?
Talvez no Nepal, todos os vistos, os carimbos no Nepal. Sim, a mais cara Sim, eu não sou muito de trazer coisas.
Não?
Não, sou mais de trazer memórias. É um cliché. Mas trazer tudo.
Viver a experiência, viver o dia a dia.
Exatamente.
A refeição mais estranha?
Foi Aço.
O que é isso?
Basicamente, sem eu saber, mas é cão. E foi em Timor. Há imensas celebrações, festas, por tudo e por nada. E eu ia a muitas. E houve um dia que me deram uma carne aos cubos. Até parecia uma carne normal. E eu comecei a comer e era um pouco estranha de mastigar. Comi, até era algo saboroso, cheio de condimentos. E no fim: "O que é isto?" "É Aço." E eu: "Ok". E depois perguntei aos portugueses e eles: "Isso é cão". Porque os cães desaparecem muito, andam lá e desaparecem. E baratas. Baratas não, insetos.
Insetos na Ásia. No Camboja.
No Camboja. Fui a um restaurante, mas lá as crianças comem, vão ao supermercado comprar sacos de insetos fritos e é como se fosse uma batata frita. E sabe a batata frita. É supernormal, mas a parte mental é mais difícil.
É difícil ultrapassar isso. Olha, gostava de viajar com?
Com Anthony Bourdain. Eu sou um fã dele, que escreveu o livro que o catapultou, o "Kitchen Confidential". Ainda tenho dicas de restaurantes. Agora mudou um pouco.
És boa boca, Miguel.
Sou, gosto bastante.
Gostas de provar tudo?
Tudo.
E comes de tudo?
Tudo. Tanto que os insetos fui eu que fui a um sítio. Mas o Bourdain seria fantástico tê-lo, nem que fosse uma hora só, numa rua vietnamita, que era o sítio onde foi morto. E é um tipo superfascinante.
É, senhor. Destemido.
Sim. E é um exemplo de viajar não por viajar, mas com sentido.
Muito bem. Olha, chegamos ao fim. Miguel, qual foi a música que escolheste para fechar a conversa do fim do mundo esta semana?
Sim, esta é uma música que ainda não estive lá, mas sempre que a ouço sinto-me transportado e o filme é incrível. Para mim é um dos filmes. É engraçado que já vi em vários sítios. Na Autónoma vi o filme, tinha no computador, agora recentemente também e quando estava no Nepal, combalido, era uma música, e quando houve a questão em Timor da cascata e da parede, era uma música que me vinha à cabeça e que me transporta, basicamente. E acalmava, é uma música que acalma.
E o filme é?
"África Minha".
Muito bem. Um clássico para quem gosta de geografia.
Sim. Aquela cena do avião.
Ou de geografias, exato.
Ainda não fui lá.
Muito bem. Portanto, é a música-tema do "África Minha", é isso?
Tinha uma quinta. I Had a Farm.
I Had a Farm in Africa. Fantástico. Boa escolha, Miguel. Foi um gosto.
Obrigado.
"I Had a Farm", "África Minha", a fechar a conversa do fim do mundo esta semana. Estamos de regresso de hoje a oito dias. Sejam bons e boas viagens.