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Bem-vindos às Conversas do Fim do Mundo. A viajante desta semana é a fotógrafa, e no início de 2018 chegou de uma longa viagem à Ásia, que durou precisamente 402 dias. Dormiu com ratos, foi abandonada numa fronteira, conheceu homens santos, mulheres guerreiras, fotografou homens, mulheres e crianças enquadradas por paletas de cor que só a Ásia pode proporcionar. Dessa viagem resultou um livro, premiado várias vezes, e que contém relatos de vários episódios e imagens magníficas. Chama-se "Outros Mundos: Um Ano, um Mês e uma Semana de Aventuras e Fotografias na Ásia". Ana Abrão, bem-vinda às Conversas do Fim do Mundo.

Olá, boa tarde, João. Muito obrigada pelo convite. Estou muito feliz de estar aqui hoje.

Ora essa. Ana, por que a Ásia para uma viagem de um ano, um mês e uma semana?

A escolha da Ásia foi uma consequência de outras viagens que eu já vinha a fazer. E pelo fato do asiático em geral, não só a Índia, que é sobretudo onde eu mais fotografo, ser muito dado às relações e às conexões com pessoas estranhas, e muito receptivo à fotografia. E isso é extremamente estimulante pra quem gosta de fotografia.

Portanto, pra ti é fácil apontar a máquina fotográfica e captar fotografias de outros na Ásia, é isso?

E não só. Quando eu digo fotografia, não falo só de retratos, não só a captura da imagem, mas as conexões, o fato de poder entrar na realidade da pessoa, o fato de poder ser bem recebido por pessoas estranhas, é o fato de andar na rua e de repente estar dentro da casa de pessoas estranhas e partilhar um chá e rir, ou de repente toda a organização da casa e a família recomeça no sentido de produzir uma refeição pra pessoa convidada. Isso mexe com quem viaja e com quem vem de um local menos acolhedor, que vem com outras referências.

Tu já ias com a ideia de viajar 400 dias quando partiste do Algarve rumo à Ásia, Ana?

Não, de forma nenhuma. Absolutamente. A minha ideia era mesmo fazer uma pausa um pouco mais longa. Eu gosto de viajar devagar e pra fazer essa conexão com pessoas locais, é preciso tempo. Mas o meu plano inicial era fazer uma pausa com liberdade. Então um dos meus objetivos principais era experimentar a liberdade de viajar. Sem bilhetes, sem marcações, sem coisas previamente planeadas.

Sem tempo contado.

Sim, sem tempo contado. Mas de forma alguma eu pensava que iria durar um ano, um mês e uma semana. Na minha fantasia, eu imaginava talvez quatro meses, cinco meses, seis. Mas a minha experiência foi tão rica, foi tão intensa, foi tão produtiva, que ela foi espontaneamente se alongando no tempo.

E durou então os tais 402 dias. Andaste pela Índia, pelo Nepal, Myanmar, Vietnã, Laos, Camboja, Tailândia, Cingapura, Malásia, Indonésia, foste ao Bornéu Malaio e também a uma região específica da Indonésia. Tens histórias fantásticas contadas no teu livro e duas que não contas, ou pelo menos abordas assim quase ao de leve. Dormiste com ratos uma semana na casa de uma família. Por que que tu te prestaste a essa experiência, Ana?

Essa foi uma experiência não planeada, obviamente. Ninguém faz planos de dormir com ratos. Nós quando viajamos, queremos e buscamos o conforto. Mas de fato, para eu conseguir aquilo que eu quero, o meu objetivo quando saí, e esse era muito concreto, era conhecer a Ásia genuína. Eu sou fotógrafa de pessoas e de cultura. E pra se conseguir fotografar a cultura e as tradições como elas foram originalmente, não vale a pena procurar estar só nos lugares turísticos, porque não é lá que se encontra isso. E os lugares não turísticos são difíceis de viajar, são menos acessíveis, têm menos transporte, não se encontra estadia, não há restaurante.

E é fácil na Ásia chegar a essa autenticidade, Ana?

Não, absolutamente. Não é fácil. Essa informação não está nos blogs ou nos sites de viagens, não estão nos guias. E é preciso procurar por outras vias. E não é fácil. Eu praticamente só consegui saber sobre o local depois de lá estar. Como, por exemplo, quando nós fomos à Tailândia, ao Camboja, uma coisa que as pessoas gostam de ver e fotografar os mercados flutuantes, em que os vietnamitas vão em canoas muito estreitas, umas pirogas, praticamente. Levam as suas frutas, o seu produto pra comercializar. Mas a maioria das Dos mercados flutuantes que estão mais acessíveis, eles são muito turísticos. As pessoas estão lá esperando o turista pra ser fotografada e pra vender a fruta um pouco mais cara.

Estão a fazer cenário, é isso?

Sim, estão à espera do turista para ter uma melhor oportunidade de negócio.

Muito bem. Queres nos explicar agora como é que se deu essa semana em que tiveste que dormir com uma família na Índia, onde havia ratos por todo lado. Não tinhas alternativa, tinha que ser ali, Ana?

Pois, não havia hotéis, não havia praticamente nenhum tipo de acomodação nessa região, por quê? Porque é uma zona militarizada, e pra lá estar é preciso uma permissão do governo, até mesmo para os indianos. Isso fica a norte da Índia, quase na fronteira com o Paquistão. E na altura tivemos um guia e a alternativa que nós encontramos foi ficar na casa dos pais dele, que ainda vive lá. E é uma região muito rica em tradições. Há muitas comunidades de castas diferentes, de tradições diferentes e era mesmo aquilo que eu gostava de ver. E eu fiquei nessa casa. Eu não quero aqui colocar essa questão com falta de respeito, porque é uma pessoa que eu respeito muito, esse meu amigo.

Que via ratos por todo lado.

Mas a forma como o indiano lida com os animais.

Era muita miséria.

Nesse caso, os ratos, é completamente oposta ao ocidental. Ele não tinha a mínima noção de que eu sentia-me mal. Tanto que na Índia não há ratoeiras. No máximo, há armadilhas pra ratos. Então, se, por exemplo, um dono de um restaurante sabe que o ocidental não gosta de ratos no restaurante, ele põe armadilhas, prende o rato na armadilha, no final do dia põe no seu carro e vai com as armadilhas num terreno bem distante soltar os ratos em outro local, mas de forma alguma irá matar os ratos. São culturas, são conceitos diferentes dos nossos.

Claro, são culturas. Cultura que tu tiveste a oportunidade de presenciar algumas coisas até inusitadas, únicas. Conheceste homens santos, assististe a rituais sadhus. Há uma história num livro, ou há uma pessoa no teu livro, contas a história de um homem que prometeu viver 12 anos de pé. Isto é incrível, não é? Há quanto tempo é que ele vivia de pé quando tu o conheceste, Ana?

Nessa altura, isso foi uma comunidade sadhu, que eu tive muita sorte de conseguir aproximar. Nessa altura eu tinha conhecido uma fotógrafa brasileira, que tem um gosto, em termos estéticos e fotográficos, muito parecido com o meu. E nós fizemos esse pedinho da viagem juntas, e nós conhecemos uma comunidade sadhu fechada, e que com alguma perspicácia da nossa parte, conseguimos nos aproximar. O que é algo bastante fora do padrão, porque eles são...

Muito chatos.

Sim, e também tem aquela coisa de que o estrangeiro não é propriamente bem-vindo dentro da comunidade, e muito menos uma mulher. Então nós estávamos mesmo fora do padrão. Mas nós acabamos por conseguir conviver com eles durante vários dias, íamos pra lá várias vezes e tomávamos chá e conversávamos, às vezes almoçávamos junto com eles. E foi uma experiência muito rica. E um dos sujeitos que nós vimos, um dos sadhus, eu reparei que estava sempre de pé e havia qualquer coisa de estranha com esse sadhu, não só pelo fato de estar sempre de pé, mas ele tinha as pernas muito inchadas, desagradáveis de se ver mesmo, parecia que ele tinha algum problema de saúde.

Sim.

E um dia ele aproveitou-se da oportunidade de haver lá um indiano que foi fazer uma visita ao templo e que falava bem inglês, e ele pediu a ajuda desse indiano pra falar conosco, pra fazer a tradução. E contou-nos a história dele. Pra os que não sabem, os sadhus são pessoas que abdicam da vida em comunidade e abdicam-se de todos os bens materiais para viver em favor do seu próprio crescimento espiritual.

São uma espécie de monges, não é?

Sim, à indiana, com características específicas.

Claro. Então esse homem tinha um projeto de vida que era viver 12 anos de pé, inclusivamente dormir de pé, não era?

Exatamente.

Isso é extraordinário.

Há aqueles que abdicam da família, não formam família própria, não têm profissão Não têm bens materiais, dedicam-se à vida espiritual, aqueles que abdicam inclusive das próprias roupas e vivem nus durante todo o ano, inclusive no inverno. E há aqueles um pouco mais, não sei se extremista será a palavra certa a utilizar, mas é aqueles que tentam chamar a atenção do Shiva e não só, porque há mais de um deus no hinduísmo. E eles fazem promessas mais radicais com a intenção de ter o reconhecimento dos deuses, do seu esforço no sentido de dedicação à vida espiritual e com isso pedem que o ciclo de vida e morte seja terminado. É tudo o que um hindu deseja na vida, é terminar o ciclo da reencarnação e viver a sua vida espiritual em paz e não reencarnar.

Então era esse o objetivo de viver 12 anos em pé.

Fazer essas promessas. E há pessoas que prometem ficar X anos com um braço estendido ou coisas assim, ou ficar sobre um único pé. Isso é muito difícil de ver na internet. Há muitos casos inclusive de pessoas que ficam com o corpo deformado em função dessas promessas.

Pois. A espiritualidade ali tem muita força, não tem, naquele país?

Tem muito, sim.

E isso vê-se em todo lado, não é?

Sim, a todo momento. Há muita presença, muitos sinais hindus por onde passamos e pelas pessoas que nós encontramos. A começar pelo sinal na testa, que é um pequeno círculo entre as sobrancelhas que indica que a pessoa naquele dia já foi ao templo e já fez as adorações. Então o hinduísmo é muito presente na vida cotidiana.

Dos indianos. E também a desigualdade, aquilo é um país baseado em castas. Tu contas a história dos Dalits, que tiveste a oportunidade de fotografar. Quem é esta gente, os Dalits? São a casta mais inferior do sistema de castas indiano, não é? Pessoas que quase nem têm direitos. Fala-me deles, Ana.

Não têm direitos de todo. Embora o governo indiano já tenha abolido o sistema de castas no papel já há três décadas, o fato é que na prática, o sistema de castas continua na cabeça das pessoas. Então, todo o seu comportamento e a sua forma de agir, de pensar e de estar em sociedade é determinado em função desses preconceitos. A primeira coisa que um indiano faz quando conhece outro é perguntar o sobrenome. Pelo sobrenome ele sabe em que altura, ou melhor dizendo, em que nível o outro será tratado.

Incrível.

E há diferenças brutais.

E mediante isso adaptam as relações pessoais, é isso?

Exatamente. E os Dalits, infelizmente, não chegam a estar, não são considerados nem no nível um. Eles estão abaixo do nível um, é o nível lixo, nível zero.

Vivem fora das cidades, dão-lhes tarefas menores pra fazer, como limpar as latrinas, os esgotos e arar a terra. Preparar a terra para as plantações. Não é, Ana?

É, exatamente. E uma vez nascido numa casta, dificilmente muda-se de casta. Cada casta tem um conjunto de profissões que já está associado à comunidade e é difícil uma pessoa, mesmo que tenha um dom para se fazer uma atividade específica, se não estiver na casta correta.

Pois. Estes Dalit pareceram-te pessoas amarguradas, rancorosas ou aprenderam a aceitar que estão condenadas a viver numa posição inferior na sociedade indiana, Ana?

É difícil dar uma resposta concreta, porque a tendência é generalizar com base em poucos contatos. Então não posso dizer uma regra.

Mas os que conheceste.

No contato mais superficial, são pessoas super alegres, bem dispostas e carinhosas. E num segundo contato, como é o caso dessa família que eu tive a oportunidade de entrevistar e de falar muito mais perto, notei uma pontinha de amargura pela diferença de tratamento. E sendo mulher, sendo Dalit. Ser Dalit e ser mulher é duplamente penoso, que a sociedade já denigre a imagem da mulher. Então ser uma Dalit e uma mulher, não só tem toda a desvantagem da relação da sociedade indiana, como tem um fator extra que a coloca numa posição extremamente vulnerável e perigosa. É uma coisa triste de se ver.

É triste de se ver. Estamos a chegar ao final da primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem. Ana, qual é o objeto que guardas em casa e pelo qual guardas um especial carinho?

João, eu tenho aqui uma roda de oração, é uma miniatura que eu trouxe do Nepal. Eu carrego-a pendurada no espelho do meu carro. Eu gosto do conceito que está associado a esse pequeno objeto, que na verdade tem um cabo de cerca de 20 centímetros e no topo tem um cilindro. Esse cilindro gira e é todo cheio de pequenos buracos, onde no interior os budistas colocam miniaturas de orações. E essas orações são mensagens de desejos de boa saúde, de boa sorte, de bem-estar na vida, de sucesso como pessoa, de sucesso profissional. São mensagens positivas introduzidas lá dentro e quando ele vai ao templo e anda à volta do templo, que tem um formato circular, ele gira a roda e, na teoria, no conceito, ele espalha essas mensagens de bem-estar pra toda gente que passa à sua volta. E eu acho esse conceito muito curioso e é mesmo o oposto daquilo que nós vivemos no Ocidente. Uma lição do Oriente ao Ocidente, porque nós aqui somos cada vez mais individualistas e pedimos coisas pra nós mesmos e para o nosso bem-estar, para o nosso sucesso. Então gosto. Esse é o objeto que eu carrego com carinho.

Muito bem, um cilindro de oração que veio do Nepal. Chegamos ao final da primeira parte, fazemos aqui uma curta pausa, regressamos já a seguir. Segunda parte das Conversas do Fim do Mundo, esta semana com a fotógrafa Ana Abrão. A Ana realizou uma viagem de 402 dias pela Ásia e foi sobre essa viagem que conversamos na primeira parte. Vamos continuar a falar sobre ela, porque resultou um livro com histórias onde tu contas o que viveste durante um ano, um mês e uma semana de aventuras lá no continente asiático. Ana, uma das coisas que tu fizeste nessa viagem foi tirar fotografias de pessoas, imprimi-las numa impressora portátil e entregar as fotografias às pessoas. Isso deve ter sido uma experiência espetacular. Tiveste bom feedback?

Pois, isso foi uma coisa que aconteceu de forma não muito propositada e desintencionada. Era somente uma forma de retribuir estadias ao chá, um convite qualquer. Era uma forma simbólica de retribuir algum gesto. A ideia inicial era essa, porque eu não pago por fotografias. Isso é uma coisa que os fotógrafos têm mesmo que repensar, porque isso está a estragar o turismo.

Há quem pague para fotografar, é isso?

Há quem pague, sim, por todo lado.

Muito bem. Então foram pagas e tiravas fotografias e imprimiste algumas nessa tal impressora portátil e entregaste às pessoas. Muitas das pessoas, provavelmente, que tu fotografaste, nunca se tinham visto na imagem, pois não?

Pois, há alguns casos, sim, em locais mais isolados. Ou de pessoas muito velhotas que já ninguém se preocupa em tirar um retrato e que depois veem a sua própria cara e desatam a rir. Coisas assim bastante curiosas. E acabou por resultar muito bem em termos estéticos, que eu por acaso tirei, talvez terá sido a primeira fotografia que eu fotografei e imprimi, que é a que eu utilizo na capa do livro agora, "Outros Mundos". E eu aproximei a câmera e tirei a fotografia do retrato da pessoa, que eu acabei de oferecer, na mão dela. E ela tem a mão demasiado sofrida, desgastada pelo tempo, pelo trabalho. E aquele contraste chamou minha atenção e eu fiz um close-up e resultou bem. A partir daquele momento, eu comecei a fazer várias vezes e resultou numa série, num portfólio alongado.

Mas dirias, a reação maioritária das pessoas que recebiam fotografias em papel, feitas naquele instante por ti, a maior parte das pessoas reagia como? Com riso?

Com curiosidade, talvez.

Como? Curiosidade.

É, pelo fato de eles saberem que eu estou a usar uma câmera e de repente o retrato sai via wireless numa impressora miniatura. Então as pessoas ficam um pouco estáticas a tentar compreender como é que a fotografia voou da máquina pra impressora. Então a primeira reação é de surpresa.

Perplexidade. Surpresa, e muita perplexidade.

Sim.

As crianças, imagino. É um deleite. Muito bem. Olha, Ana, ainda bem que falas em perplexidade, porque queria pegar nessa palavra para te perguntar: qual foi o país, desta viagem de 400 dias pela Ásia, que te provocou maior perplexidade? Onde é que sentiste maior espanto? E te sentiste perplexa com o que vias. Consegues eleger um?

Sem dúvida alguma. Acho que sempre será a Índia. Apesar de ter conhecido e ter passado por situações das mais diversas por todos os países, a Índia sempre vai nos surpreender, porque a Índia sempre será a Índia. Não adianta uma pessoa tentar preparar-se para as coisas inusitadas, porque sempre vai haver mais qualquer coisa inusitada e que vai nos deixar perplexos só de olhar.

Era um país onde tu querias viver? Não.

A viver, provavelmente não.

Não. Mas a visitar muitas vezes, sim.

Muitas vezes. É o meu destino de eleição, isso não tenho dúvida alguma. Porque ali o choque cultural é a tal nível extremo, eu tenho grande capacidade de adaptação e flexibilidade para compreender as diferenças e as culturas. Outra coisa bastante diferente é viver, adaptar-se, integrar-se e aceitar. São duas coisas diferentes.

Muito bem. Olha, como eu dizia no início desta introdução, nesta viagem de um ano, um mês e uma semana, também aconteceu ter sido abandonada numa fronteira. Queres contar-nos essa história, Ana? O que aconteceu concretamente?

Épa, incrível. Por um momento eu já tinha esquecido dessa história. Épa.

É uma história grande, já percebi, mas tens que resumir, Ana. Onde é que foi, antes de mais?

Isso foi na fronteira do Camboja, do Laos pro Camboja.

Laos para Camboja.

É. Normalmente eu vou de avião, mas esse eu resolvi fazer por terra e atravessar fronteiras por terra é sempre delicado. E aconteceu que eu caí num golpe que eu já sabia, que eu já tinha lido nos guias de viagem, mas o condutor do autocarro deixou os passageiros no balcão para pegar o carimbo do visto no passaporte e demorou-se cinco, 10 minutos e saiu. Quem entrou no autocarro, entrou. Quem não entrou, azar.

Sim.

E isso é simplesmente porque alguns do autocarro recusam-se a pagar ao condutor para que seja ele a pegar os carimbos com o privilégio na fila, e pretendem ser eles mesmos a pegar o visto. E eu entrei na casa de banho, nem foi dois, três minutos, quando saí, estava lá sozinha, sem mala, sem passaporte e sem tudo o que era meu.

Então como é que resolveste isso? Foste correr atrás do autocarro?

Não, apareceu do nada um condutor de uma moto, que ofereceu uma corrida paga.

Sim.

Para levar-me até o local onde estaria supostamente o autocarro numa paragem para o almoço.

E isso aconteceu?

Sim. E quando cheguei lá, fui direto ao condutor. Falei tudo que eu tinha de dizer, em português mesmo.

Ele não percebeu nada, não é?

Não, porque eu comecei a falar em inglês e ele fingiu não compreender.

Aí percebeu. Ah, pois. Mas olha, percebeste que aquilo era um esquema já montado. Ah, portanto, não foi má fé do motorista, mas não calhou. Já estava aquilo montado, já estava o outro com a moto à espreita, não é?

Exatamente.

Sentiste que foi um esquema?

Exato. São coisas, esse é o lado mau das viagens, mas que nós temos vivências tão boas, que essas acabam por ficar em segundo plano e não têm grande peso na viagem.

Muito bem. Então vamos falar das boas. Nesta viagem de mais de um ano, um mês e uma semana, qual foi a melhor experiência que viveste na Ásia, Ana?

Opa, não posso escolher uma, sinceramente, não.

Então, foram muitas, é isso?

Foram muitas, foram fabulosas.

Foram 400 dias muito intensos ou houve momentos de quebra?

Não houve momentos de quebra, mas se eu olhar para o ano inteiro, acho que fui muito feliz nas minhas oportunidades, que eu tive oportunidades mesmo fora da caixa. Mas olha, se tiver de pegar uma, eu pegaria o fato de ter tido uma oportunidade não planeada de integrar um cortejo de sadhus nus no dia que é o dia mais importante para o hindu, que é chamada Noite de Shiva, que há uma durante o ano.

Noite de Shiva, sim.

Sim, e eu estava lá.

Eles cantam, dançam, não é? Espetacular. Dão imagens bonitas no teu livro, há várias lá.

É, e a experiência foi-

Foi um momento intenso. Já agora, deixa-me perguntar: não é constrangedor para uma mulher estar ali à noite, no meio de uma festividade onde só há homens nus, Ana?

Eu acho que provavelmente para a maioria das mulheres, talvez, mas não para mim.

Para ti, não. Até porque eu perguntei isso porque tu contas no livro que alguns até foram bastante exuberantes. Namoraram a câmera, pousaram e faziam questão de se mostrar.

Sim, porque eles estavam à vontade comigo.

Chega uma altura que tu já nem olhas.

Isso aconteceu porque eu vinha conviver com eles no recinto, tipo um local, feira fatacil, um recinto onde estão todos reunidos com tendas e tudo mais. E eu todos os dias passava por lá e mexia com eles e dizia olá, ou com alguns eu tomava o chá, ou fotografava. Então eles já me conheciam, por isso eles estavam à vontade com a minha câmera. Isso foi surpreendente para mim, porque eu não conhecia todos, mas eles todos se conheciam, porque eu sou diferente, eles são todos iguais.

Pois.

E isso resultou bem por essa razão. Eles não me mandaram sair, aceitaram, não sendo sadu e não sendo homem e não estando nua, e aceitaram no cortejo, durante todo o trajeto. E não só aceitaram, como também colaboraram com o meu objetivo, que era fotografá-los. Essa experiência foi muito boa.

Muito boa, espetacular. Olha, Ana, vamos falar um pouquinho de ti. Já se percebeu pelo sotaque que és brasileira, vives há 20 anos em Portugal, certo?

Sim, luso-brasileira.

Luso-brasileira, boa. Por onde tens andado a viajar? Maioritariamente no continente asiático ou tens outros destinos para onde viajas com regularidade?

Não, com regularidade é para a Ásia.

Sempre para a Ásia.

É, mas já estive em vários continentes, em vários países e ilhas e um bocado por todo lado, que é uma paixão. Viajar é uma paixão.

Mas a Ásia é o teu destino de eleição, é isso?

De momento, sim. Eu espero descobrir muitos outros.

Sim. Oxalá. Olha, porque é o mais colorido ou porque é o mais espiritual?

Não, não é por ser o mais colorido, porque sendo fotógrafa de pessoas e culturas, eu vou encontrar a cor, sempre vou encontrar a cor, quase sempre vou encontrar a cor nas culturas e nas tradições de vários países, em vários continentes. Mas o continente asiático, o que cativa é, sobretudo, a conexão com as pessoas, que é imediata e que é simples, que é calorosa.

Dizias isso na primeira parte do programa, que é fácil conectares com os outros no continente asiático. Olha, Ana, estamos a caminhar para o fim do nosso programa.

Com muita pena minha.

Estamos a ficar com pouco tempo. Obrigado. Também minha. Vamos fazer checkout. Vamos lá. Então vou pedir-te para completares as seguintes frases: na minha mala vai sempre?

Opa, meus oito quilos de equipamento fotográfico não falta.

Oito quilos?

Pois, que remédio.

Viajas com muitas máquinas e muitas lentes ou és uma fotógrafa minimalista?

Não, sou minimalista, mas vai a reboque carregadores, computador e impressora. Isso no final dá nisso. E outra coisa que sempre entra na mala é um funil de plástico.

Sim. Já percebi.

Que é utilizado-

Para satisfazer necessidades prementes, não é?

Sim.

É isso? Ok.

Em locais com menos condições de higiene, uma mulher pode ter essa opção para fazer xixi de pé, sem problema algum. É isso.

É verdade. A vida é mais difícil para as mulheres nesse aspecto, não é?

Sem dúvida.

Sem dúvida. Olha, a viagem com mais peripécias, qual foi?

É sempre na Índia.

É tudo imprevisível.

É tudo imprevisível. Tanto se pode ter que entrar num comboio pela janela ou sair, ter que saltar com o comboio em movimento, ou entramos no autocarro sozinhos e quando acordamos de uma soneca, aquilo está com uma centena de pessoas no interior e sacos de cereais no corredor e galinhas e porcos e tudo mais no teto do autocarro. Então não tenho dúvida.

É incrível.

Quer viver peripécias? Voilà, vai à Índia.

Vai à Índia. E eles nem se importam, olham para ti, ignoram-te. E a vida continua. Ninguém faz cerimônia.

Não.

Nada.

A vida continua.

Olha, a recordação de viagem mais cara?

Mais cara. Já agora.

Onde é que perdeste a cabeça, Ana?

Epa, no sentido de gastos, eu diria, não ia por aí. A associação mais imediata que eu faço é de ter sido roubada enquanto dormia.

Na Índia?

Não, isso foi no Bangladesh. Saiu-me cara.

No Bangladesh.

É a recordação mais cara porque saiu 1000 € Que eu carrego escondido no bolso interior do corpo para emergências. Já houve situações em que eu tive emergência, porque o governo mudou a moeda de uma noite para outra.

Isso aconteceu quando e onde?

A coisa aconteceu na Índia e foi um problema que durou um mês e meio, que tornou a vida de toda a população e de todos os turistas um verdadeiro inferno.

Portanto, roubaram-te € 1.000.

Até hoje não sei como.

No Bangladesh.

E eu tenho muito cuidado. A bolsa do interior está sempre no meu corpo e quando não está no meu corpo, está debaixo do travesseiro. Portanto, olha, foi cara, mas passou.

Foi caro. Já passou, não é? Ficou lá para trás. Olha, Ana, a refeição mais estranha, qual foi até hoje a que comeste?

Eu acho que terá sido um petisco que eu fiz com um guia, parou numa tasca no Vietname e serviu-me grilo frito com Imperial.

E é bom?

É bom.

É um bom snack?

Eu não reclamei. Eu sou aberta a experimentar sabores novos, mas confesso que também já experimentei ovas de formiga, umas ovas brancas, assim muito grandes e cruas.

Sim. E é bom também ou não? Aconselhas?

Sim, é bom.

É bom. Muito bem. Olha, gostavas de viajar com?

Se eu tivesse que levar só um, é difícil. Eu gostava de viajar com o Steve McCurry, que é um monstro na fotografia. É uma referência forte em termos de fotografia de viagens.

Vai expor em Portugal em setembro, não é?

É, fantástico.

Vai expor em setembro em Portugal.

Se eu tivesse que viajar por períodos mais longos, então eu escolhia Sebastião Salgado, porque é um fotógrafo monstro na fotografia de viagens, não só pelas imagens que faz, mas pelos projetos que implementa. Ele vive com a comunidade que vai fotografar, conhece-a muito bem, convive com ela, aprende tudo sobre a cultura, implementa projetos em benefício da comunidade. Eu acho isso fabuloso. E eu não hesitaria. Viajaria com Sebastião Salgado.

Muito bem. Boa escolha. Ainda para mais, teu conterrâneo brasileiro.

Exatamente.

Tinham muito para falar. Olha, Ana.

É verdade.

Nós é que já não temos mais tempo. Estamos a chegar ao final do nosso programa. Que música trouxeste para fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana?

Olha, por acaso não é uma música indiana, mas é uma música brasileira e chama-se "Rosa Morena", do João Gilberto.

"Rosa Morena".

E eu não conhecia essa música até há pouco tempo. É uma vergonha dizer isso, porque eu adoro música brasileira, mas ela foi utilizada pelo realizador do programa "Photobox", que eu gravei recentemente. Não recentemente, tem um ano. E caiu super bem, toda a gente adorou. E essa é a minha escolha, "Rosa Morena".

Muito bem. "Rosa Morena" de João Gilberto a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Ana Abrão, foi um gosto, obrigado.

Muito obrigada, João. Adorei estar aqui convosco. Força.

Obrigado, eu é que agradeço. Regressamos na próxima semana, neste horário, até de hoje há oito dias e já sabem, sejam bons e boas viagens.