Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Acredito que em 2027 as pessoas já vão até quase querer pagar mais para ver pessoas à séria.

Exato.

Quando de repente a inteligência artificial já substituiu tudo, o ator ou artista ao vivo vai passar a ser o "Uau!" Vamos voltar.

Como será o teatro daqui a mil anos? Que temas abordará? Continuarão a haver palcos, plateias, camarins, cenários e bastidores? Continuará a haver atores e atrizes de carne e osso? Será que a inteligência artificial vai engolir a criatividade? Hoje trago não um, mas dois atores para debaterem este assunto. O reality show Os Raposos 2027 marca a primeira criação conjunta em palco da família, eu diria uma dinastia de atores, os manos Miguel e Ricardo e o pai José Raposo. O Miguel e o pai estão aqui comigo. Em cena no Variedades, ao Parque Mayer, até dia 16, o espetáculo propõe um jogo de espelhos entre a realidade, memória e ficção científica, revisitando o legado artístico e familiar dos atores, enquanto problematiza o teatro num presente saturado de informação-espetáculo. Todos eles viram e respiram teatro desde crianças e, por isso, falam desta peça que não é um musical, não é uma revista, não é uma comédia, nem é uma tragédia. É um bocadinho um mix disto tudo. Curiosos? Vamos a isso. Olá José e olá Miguel. Bem-hajam.

Olá, muito obrigado.

Por terem aceitado o meu convite.

Muito obrigado por nos receberes aqui.

Tu estiveste aqui, Zé, lembras-te, em 19 de janeiro de 23, já faz dois anos e meio. Foi há muito tempo.

Já há um tempinho.

Foi quando o Traíro e o Cuçara só começaram.

Exatamente.

Estava no auditório.

É exatamente.

Outro dia, o meu colega e amigo Fernando Alvim perguntou-te papéis icónicos que tenhas feito, onde é que eras mais lembrado. Eu lembrei-me de dois muito bons. Um é A Gaiola das Loucas. Ficou marcado para sempre. E depois Os Fantasmas. Os Fantasmas também era aquela coisa icónica que ficaste. Agora se calhar vai ficar na cabeça das pessoas o Rato Peixe.

Sim, agora está no ar.

Mas A Gaiola das Loucas, a tua figura ali, o violinista no telhado, dizendo coisas, é para a vida, de facto. Muito bom. Não te vou apresentar porque já tive um programa contigo, mas lembrar que passaste por tudo.

Já estou apresentado.

Estás mais que apresentado e toda a gente que nos conhece cai lá fora. Portanto, teatro infantil, passaste por isso, teatro musical, o teatro revista, televisão e cinema, passaste por tudo e mais alguma coisa. E agora estás em Casa do Artista e está a correr bem, não está?

Muito bem.

Outro dia acho que passou lá a ministra e safou-te de umas coisas.

É verdade.

Correu bem.

É verdade, correu, sim senhora. Nós temos tido, felizmente, em termos das entidades oficiais, digamos, temos tido um apoio, tanto da parte do Ministério da Cultura como a própria Câmara Municipal. Tem-nos corrido bem, felizmente, a coisa a nível do apoio.

Ainda bem. E também é curioso, na tua ação como ator, na tua prestação, que tens uma coisa que sempre me interessou. A primeira é a tua pontualidade. Eu lembro que quando estiveste cá há um ano e meio, aliás, há dois anos e meio, chegaste a correr e depois tiveste que lançar-te à porta do observador, que rasgou-se o pneu. Também já me aconteceu. Tu tiveste que parar logo, eu ainda não, porque é uma coisa de lado do carro, que é mais chato. Mas não ia falar da pontualidade, ia falar do ponto. Tu não estás para decorar o texto hoje em dia, tens o auricularzinho, é um sistema. A Simão ontem me disse que um dia usava isso. E portanto, quem lá saber, hoje em dia já há técnicas, não se vê, está inserido na orelha. E a tua amiga Carolina Ferraz.

Exatamente.

Que é assistente de encenação, encarrega-se de evitar para o ouvido.

É isso mesmo.

É muito prático.

É maravilhoso, porque não temos que estudar, basicamente é isso.

Decorar, como tu dizes.

Decorar, exatamente. É uma chatice.

Tu lembras-te, Miguel? Era teu tempo ver os pontos?

Sim, eu lembro-me.

Na boca do cena, uma pessoa.

Eu cresci a ver os meus pais a fazer teatro, lembro-me perfeitamente de ver o ponto. Um dos grandes pontos que eu acompanhei de perto da história da minha vida, da minha infância, era o Waldino.

O Waldino? A sério?

Que acompanhou. Foi um filme de infância que eu tive, que era uma pessoa muito curiosa.

Mas que era mesmo aquela pessoa que estava lá naquela conchinha à frente?

Não. Era de lado. Não, já não era lá no buraquinho, era de lado, mas a soprar o texto.

Atrás da cortina?

Exato. Nos bastidores. E tinham que estar a ver também, porque o ponto tem que estar a observar tudo, mas soprar, aquele soprar sussurrado. Que não é nada fácil. Nada fácil. Não é qualquer pessoa que consegue.

Também não pode dar a entoação nem nada, como tu explicaste isso.

Exatamente.

Nós é que temos que interpretar o texto, eles só têm que dizer o texto.

Exatamente, neutro para nós depois processarmos a coisa.

É tão engraçado. Olha, e tenho que cortar agora isto: tu tens muito orgulho nos teus filhos?

Já que aí vivem eles sabem que sim, tenho orgulho, porque eles são muito bons.

São, de facto.

Enquanto artistas, são muito completos e muito bons.

E são bons como filhos?

São geniais, são fabulosos.

Tem ar disso, por acaso. Mas a gente não sabe tudo o que se passa dentro de casa.

O amor sempre esteve muito presente e com preponderância em relação a tudo, é evidente.

Isso passa para fora.

E depois, ainda por cima, como profissionais, seguiram as nossas pisadas, que é maravilhoso, porque se eu amo esta profissão, grande orgulho tenho que os meus filhos a tenham seguido.

E tão bem.

Tão bem.

Podia ser: "Não são tão bons como o pai." Há muito isso. A sequela nunca é tão boa.

Exatamente.

Por exemplo. Mas não, são extraordinários. Depois cantam e tocam música, entraram em bandas.

Tudo, compõem.

Escrevem.

Escrevem tudo, fazem tudo muito bem. É uma coisa maravilhosa.

Mas diferente, o que também é giro. Complementam-se muito.

Exatamente.

Isso é muito bom.

E complementam-se muito. Aliás, este espetáculo que fazemos é a prova disso, porque o Ricardo fez a música toda, o Miguel o texto. E eles complementam-se e têm uma grande cumplicidade

Sim.

Porque desde sempre.

Isso tem que se reparar. Para ser uma obra bem feita, tem que haver isso. Senão fica ali-

Embora nós tenhamos opiniões diferentes, ainda hoje estávamos a ensaiar outra peça.

Ao almoço, imagino, porque ele é só com almoços e jantares.

Exatamente.

É que é convencido, já ouvi dizer.

Conseguiu ensaiar.

"Não, pai, temos que ensaiar uma coisa." "Não, pai, venha cá almoçar. Fiz umas lulas, papai, exóticas." Estou mesmo a ver. "Mas agora, pai, leia isto." É que eu estou mesmo a ver. Bom garfo.

Já agora leia aqui este texto.

O que acha?

E foi mais ou menos, e foi assim.

Foi assim que aconteceu. Muitos ensaios foram em casa do Ricardo, com almocinhos e jantarinhos.

E já agora via os netos.

É isso mesmo, com os netinhos a mistura tudo.

Que, aliás, entram. Estavas a contar que eles-

Não. Entram também eles, porque começaram a tocar uma músicazinha ao piano e o Ricardo gravou. E quando o público está a sair, essa gravação é o que soa. Pai, sem concretamente dizermos às pessoas que é isso que vai acontecer. Portanto, participam também no espetáculo os meus netos. É muito engraçado isso. O Matias e o Noa. Mas estava a dizer que eu e o Miguel, por exemplo, ainda hoje estávamos a discutir sobre algo que temos ideias diferentes. Mas isso é maravilhoso, isso faz parte da criação.

Claro, a riqueza nasce daí. Se eu perguntasse agora isto: qual é a maior qualidade, Miguel, que tu vês no teu pai? Eu a si vou perguntar o defeito.

Eu acho que a maior qualidade que ele também, é difícil de estar a mencionar só uma, porque ele tem muitas qualidades. É um ser humano extraordinário e se tivesse que apontar uma, é complicado, mas penso que é-

Uma coisa que tu notas que de fato é bom e ao pé dos teus amigos, por exemplo: "Epá, os pais deles não são tão assim. O meu, tenho a sorte que o meu é".

Sim.

O que tu notas?

Acho que é a facilidade com que ele entrega carinho, diria. É muito complicado. Podemos falar em generosidade, em simplicidade também. Todas essas palavras são difíceis para definir, que é uma facilidade com que ele entrega carinho, cuidado e boa disposição a qualquer pessoa, no fundo.

E o que dirias, Zé, que é a maior qualidade que o teu filho Miguel terá?

É recíproco. O Miguel e o Ricardo, quando eu falo deles, isto é complicado, porque eles são tão completos em relação aos valores que têm. E o Miguel, além de ser exatamente um ser humano extraordinário, ele é muito perfeccionista e aí somos muito diferentes. Ele é organizado, é perfeccionista, ele procura o pormenor mais ínfimo para que a coisa fique perfeita. A trabalhar e mesmo na vida, ele procura isso. E depois é um miúdo, porque para mim é sempre um miúdo, está claro.

Sim, exato.

É um miúdo que se dá, sempre se deu, totalmente aos outros, em todos os sentidos. É super generoso. Aquela coisa simples, banal, que todos nós vemos na rua, sei lá, um pedinte, e temos a atitude ou de pôr a moeda. Ele é capaz de se sentar e perguntar: "Mas espera lá, já almoçou?" O Miguel é um pouco coisa assim.

Tão bom, o Miguel. Ele é um sujeito tão bom. E vindo do teu pai, ainda por cima.

É verdade.

Sou assim também porque tive pais que me mostraram esse caminho.

É verdade, o João também, incrível. É engraçado, Miguel, porque tu apesar de teres sido esquecido numa alcova no Pedro Leitões, que é uma história que também-

Isso é icónica

Icónica, sim. Os pais foram-se embora para o carro, estilo: "Mas aconteceu isso com Jesus Cristo e Nossa Senhora e São José." "Então ele não estava contigo?" "Não, não estava contigo." "Não." Então ficou. Volta pra trás. Aconteceu. Só que eles era em Jerusalém e vocês no Pedro Leitões. Mas é mais saboroso.

Mais saboroso.

Em vez de ao pé de um restaurante do falafel. Mas de fato, apesar disso, tu só te despertaste um bocadinho para este mundo. O teu irmão não. O Ricardo era sempre mais o palhacinho.

Sim, eu era mais tímido.

Tu eras sempre muito tímido.

Mais reservado.

Só já adulto, quase adulto, é que tu disseste: "Eu vou para aqui". E te propuseste fazer o teste de entrada para conservatório.

Foi maravilhoso. Ainda por cima tem audições e tudo, nada melhor do que fazer audições.

Os teus pais não suspeitavam.

Não, não suspeitavam de nada.

E foram a prova.

Não suspeitavam, porque foi só face à obrigatoriedade, de termos que escolher. Que é uma coisa um bocado chata, de nós chegarmos ali depois da escola e termos que escolher alguma coisa. Sabemos nós-

Qual é o seu futuro

...o que é que a pessoa quer fazer.

Há pessoas que já sabem muito, mas há outras que é um bocado a imaturidade para saber: "O resto da minha vida vai ser a fazer isso?" Isso não mudou bem.

Mesmo as que sabem, sabem naquela altura. Nós mudamos tanto, mas de fato eles tinham umas audições, então eu pensei: "Maravilha, assim são eles a escolher por mim. Eu vou lá, faço e vejo se estou enganado ou não."

Eles estavam a assistir?

Não.

Essa prova, não.

Essa história é que em nossa casa, antes de ele ir fazer o teste ao conservatório, é que nós lhe pedimos para ele fazer para nós, só ali. E ele primeiro recusou-se, claro, com muita vergonha.

Tão tímido que é, exato.

Então estes pais são atores uma vez. Mas depois lá, não sei se um dia depois ou dois, conseguimos convencê-lo e fez. Nós em 10 minutos percebemos que de fato estava ali muito talento.

Foi tal Monólogo do Woody Allen.

Exatamente.

Woody Allen pré-

Pré-escândalos.

E céptico, não foi o Woody Allen.

Exatamente.

Está bem. Mas o Woody Allen tem livros maravilhosos.

Ele é um escritor maravilhoso.

Maravilhoso. E o humor, tudo o que ele tem. É muito bom.

Sim.

Eu lembro sempre que ele dizia: "Então, qual é a sua opinião sobre a morte?" "Sou completamente contra."

Exato.

É genial. Só alguém que era um repentista assim por dizer uma coisa dessas. Incrível. Muito bem, então lá fizeste e entraste na tua carreira já mais tardiamente, não era um sonho de criança.

Não, não era de todo. Eu tive vários sonhos. Primeiro eu quis ser paleontólogo, depois quis ser jogador de basquetebol. Gostei muito de de videojogos desde sempre. É uma coisa que ainda hoje me leva a passar 10 horas no videojogos.

Falando do anime e do Dragon Ball, tens que dizer-se isto.

Também sou um grande apreciador dessa subcultura japonesa.

E conseguiu ir ao Japão, finalmente.

Finalmente consegui.

O meu filho conseguiu este ano e era a viagem do sonho dele. Amou.

É verdade. Desde sempre, a viagem.

Até ir ao Brasil, já sei, que tinhas gostado muito.

Sim, uma grande paixão.

Até que foste ao Japão.

Até que fui ao Japão.

Japão, o cilindro todo.

Sim, é maravilhoso.

É impressionante.

É um sítio de sonho e de encontro com a criança constante que há em mim também.

É importante continuares. O teu pai é outra pessoa que tem muita criança dentro dele ainda.

Sim.

Mas é importante isso. Ontem tive um convidado que falava nisso. A criança que há em nós, é tão importante.

Estarmos em contacto com ela.

O Welket Bungué, é um negro, que é ator, que esteve aqui ontem, o convidado de ontem, que dizia isso: a criança que há em nós, não deixar isto morrer. É tão importante na minha profissão, também ator, não sei se é arrasador, é essencial.

Para nós então é essencial.

E qualquer pessoa.

Em qualquer pessoa, mas a sociedade dos adultos muitas das vezes obriga-nos a camuflar ou ter vergonha. O que é um adulto com um brinquedo?

Exato.

Coisa estranhíssima. E não devia ser estranho, acho que é uma coisa belíssima.

Ele ontem dizia isso, a questão de que nós nascemos sem filtros, com essa imaginação total. E depois vamos crescendo e vamos cerceando e vamos limitando, vamos apertando os limites. É importante essa liberdade.

Sem dúvida, para esta nossa atividade, profissão, chamem-lhe o que quiserem, de atores, de artistas, em qualquer arte, é importante essa ingenuidade da criança, que não desapareça de nós, porque temos que estar disponíveis para tudo, para o mundo. E de facto as crianças, nós sabemos, estão muito mais disponíveis do que nós para tudo e mais alguma coisa.

Depois, Miguel, não vou falar do Teatro do Azeite, a Casa Conveniente, passaste por estes sítios todos e mais alguns, de vez em quando. Quando ensinaste a primeira vez há 15 anos. Tu és um miúdo, que és filho do José Raposo e da Maria João, acho sempre que és miúdo que tem 20 e poucos. Depois eu convivo com o Ricardo, tem menos seis anos que tu. Dá uma certa diferença, é engraçado.

É muita diferença, não se nota hoje.

Nada, vocês são iguais. Até achava que ele era mais velho, imagina. E o que tens passado nos teatros. E as bandas, a música é muito importante pra ti, como foi pro teu irmão também. Tiveram bandas os dois e depois a mesma.

Muito importante mesmo pra mim. Aliás, ainda hoje não passa uma semana.

Tu és mais guitarra.

Sim, mas sobretudo a composição, é uma coisa que eu não se passa uma semana em que eu, em casa, guardo algum tempo pra mim. Neste momento, feliz ou infelizmente, trabalho enquanto ator, assoberba-me completamente e não dá, neste momento, pra ter bandas, mas é uma coisa que eu quero voltar. Mas em casa eu reservo sempre algum tempo pra música, pra criação e pra composição.

Como é que tu compões? É com a guitarra ou vais ao piano?

Muitas das vezes na guitarra.

Porque o piano e bateria é mais do teu irmão.

É mais do meu irmão.

Mas como tu compões, escreves?

Às vezes recorro também aos teclados, que é uma coisa que eu gosto muito, e aos sons dos sintetizadores com os quais eu cresci. Sintetizadores dos anos 80, como eu e meu irmão costumamos dizer.

Cresceu Pet Shop Boys, aqueles anos?

Sim, também. Eu e meu irmão também crescemos muito numa discoteca dos anos 70, 80 e 90. Nós já só apanhamos no início dos 90 dos nossos avós, os pais da minha mãe, que tinham uma discoteca. Então crescemos muito com essa sonoridade e a mim, de facto, tocavam-me sempre muito os sintetizadores filhos dos 80. Vieram antes, mas os dos 80, sobretudo, que tinham uma sonoridade muito específica. Então é um instrumento a que eu recorro muito. Mas sim, a guitarra é a base pra mim e muitas das vezes a palavra também. A maior parte das vezes surge a música e depois a palavra.

Portanto, és um triste também. Fazes também as letras.

Sim.

Este espetáculo tem músicas tuas. Eu vi-te a tocar, eu estive lá e vi. Mas também tem letras tuas.

As letras, sim. Ou seja, o texto é todo meu, a música é do Ricardo. A música é toda do Ricardo e foi fundamental pra criação deste espetáculo.

Composição, os arranjos, tudo.

Sim, composição, arranjo, tem algumas revisitações de outras músicas, ou seja, no fundo, ressignificamos algumas músicas muito antigas. Pegamos também nesta coisa do quando é que as músicas entraram em domínio público, sendo que estamos em 3027.

Exato. Já temos os direitos, já estão libertos.

Os direitos estão, há mais de 1000 anos que estão, então vamos pegar em coisas mesmo antigas.

1002 anos depois.

Exatamente.

Vocês encontram-se muito na vida real ou as agendas não permitem? Ou têm, por exemplo, o almoço semanal, alguma coisa assim?

Não, não temos e não é muito fácil. Feliz ou infelizmente, nós trabalhamos muito.

Por um lado, é um sinal.

É ótimo sinal. Então este espetáculo é uma grande desculpa para estarmos mais juntos.

Há mais de 10 anos que vocês não estavam em palco os três.

Exatamente.

Depois eu vejo no "Sonho Noite de Verão" e no "Chicago".

Lá está, o "Chicago" fiz com o meu pai, o Zé, o "Sonho de uma Noite de Verão" fiz com o meu irmão, nós os três juntos. Há muito tempo que não estávamos e numa criação nossa, então é mesmo a primeira vez.

Havia esse desejo?

Sempre houve.

E tu tinhas aquela peça, aquele karaokê, aquele texto, tu tinhas já na gaveta e tal, inacabado.

Estava a fazê-lo pro Ricardo e pro meu pai, até que de repente o Ricardo afinal não pode.

Pra ele representar, filho de sobrinho.

Exatamente. Era pra eles os dois, até que de repente ele não pode, o Ricardo, e depois era pra ser eu, mas penso: "Não, mas isto era escrito é pro Ricardo, pra mim e pro meu pai eu vou fazer outra coisa". De repente podemos os três, então ok, vamos falar sobre teatro, vamos abrir aqui um espaço de reality show futurista, onde uma família fala sobre teatro, ensaia sobre teatro, expõe as suas questões, como é que estas famílias viveram o teatro e passados 1000 anos, então, como é que olham pro legado.

Exato. E o que o Zé Raposo fez em 2600.

Exatamente.

É extraordinário.

E de repente, ok, podemos também pôr este karaokê que está inacabado, vamos pô-lo aqui dentro também deste espetáculo.

E começa assim.

Sem dúvida é muito original. Este campo tudo. E é muito engraçado, que era o que dizias há bocado, não é nem revista, nem drama. É um coquetel de coisas, de emoções e de tudo. E revisitar realmente não só o passado, como depois para ver o futuro. É muito engraçado e nós divertimo-nos muito. Eu tenho pena, este país não tem muito espaço para as opções e criações culturais, ou então é tudo muito instituído e há muita gente que tem com certeza muitas ideias maravilhosas e não tem esse espaço. O Miguel escreveu isto, basta irem ver para ver que é muito interessante, é extraordinário. E eu estou sempre a dizer: "Tu devias ter projetos a toda hora, se fosse num país normal". É verdade.

Tens toda a razão.

Portanto, é muito bom. Quem decide, que se puder, vá até lá e perceba.

Exatamente. O que é possível fazer. Eu acho que é isso, porque foge de todo o teatro normal que estás habituado a ver.

Sim, de facto, não há espaço para toda a gente. Existe muita gente talentosa e ainda assim eu sinto que tenho um privilégio gigante. Já é maravilhoso poder estar neste momento num espaço como estamos durante um mês a mostrar isto às pessoas. Claro que se queria fazer mais, claro que queria fazer mais e poder fazer mais.

Isso não depende só de ti.

Mas não depende só de mim.

Eu vejo colegas teus que vêm aqui e que lutam imenso, feito qualquer um que é na vida. Estão seis meses felizes e estão seis meses a sofrer com contas todos os meses.

Sabes que o Miguel tem um sonho, que é ter um espaço no interior do país, portanto numa região. Ele adorava aquela zona do Cartaxo.

Onde asseguraram.

E darem-lhe um espaço para ele poder ali criar, estar com as pessoas que ele conhece.

Sim, amava trabalhar com a comunidade também.

A comunidade é de lá mesmo.

Haver, de facto, um movimento de descentralização cultural.

Há coisas curiosas que se fazem nesse campo, nesse sentido.

A descentralização cultural tem que acontecer e acho que é uma das respostas para as grandes crises ideológicas que vêm aí.

E mais agora, Miguel, em que vemos o mundo infelizmente a fechar-se tanto. Tantos cancelamentos, tantos wokeismos e populismos.

Eu acredito que a educação e a cultura são o que vão salvar o mundo sempre.

As pessoas a embrutecer.

Sim.

Isso falamos também de reality shows, que eu sei que é uma coisa que embrutece um bocadinho, estupidifica. Eu também sou dessa opinião. Eu vi o primeiro, que aconteceu, que era um furor em 2000. E depois acho que estamos a fazer apologia de pessoas que não interessa o que elas pensam. É horrível dizer isto assim, mas o que se ganha com isto? Quando podíamos estar a dar espaço a-

Claro. Mas este reality show é exatamente o contrário.

Exato. Este dá espaço a outro tipo de pensamento.

É uma coisa que eu gostei muito neste vosso reality show, que é desde a comoção, que eu não me via comovido imenso, mas imagino vocês, e estão de costas ainda bem, a ver as imagens todas das férias com a mãe. É sempre muito bonito de viver isso, reviver isso e lembrar isso. Mas também questionam imensas coisas, fazem pensar imensas pessoas, divertem-nos, as roupas dele, é só rir. Mas ao mesmo tempo, tem momentos do mais variado que há, que isto mete a teatro e vai meter com vocês, está com problema de som e arranjam. Eu achei aquilo maravilhoso, porque é o teatro a olhar para o teatro e a questionar o mundo, a nossa vida, o nosso passado, o nosso futuro. É muito giro, cabe tudo ali.

É engraçada a crítica política e social que o Miguel faz daquele texto maravilhoso, que ele diz, é ele que o diz no fim. Tens tudo ali. Uma crítica com uma certa agressividade e certíssima, maravilhosa, em relação ao que nos afeta nos dias de hoje, mas depois com um bocado ali de punk rock ao misturo.

Pois é. De facto, criticas também o capitalismo, que leva tudo atrás.

Claro que sim. Para mim, reality show deveria ser isso também. Um verdadeiro reality show que mostrasse não só a verdade, porque estamos a mostrar a verdade, as pessoas a viverem o seu cotidiano. E claro, as pessoas também estrelam ovos, mas as pessoas também sofrem de não poderem comprar ovos por outras coisas. Então essa também é uma realidade de um reality show. Se calhar podemos ir mais fundo nessa realidade que queremos mostrar nua e crua e também ir buscar os porquês e de como é que isso está a acontecer e como mudar ou como tentar mudar.

Faz pensar o que é giro. Abana-te também. Ris, mas depois também ficas assim: "Caralho, ele até tem razão nisto, é verdade". Quando te mostraram, Zé, esta mamadisse saudável, como tu dizes, num almoço, aposto que a tua primeira reação foi: "Não, eu não consigo fazer isto".

Não.

Ficaste muito a ver isto logo?

Sim, porque isso vem para já em relação ao tal karaokê que o Miguel já tinha escrito. Eu já tinha uma noção, um bocado deste arranque. Mas depois, quando ele fez esta miscelânea maravilhosa, eu só dizia: "Mas como é que se faz isto? Tu achas que isto é fazível? Tu achas que eu posso me entrancar com esta coisa? Achas que eu consigo uma coisa dessas?" Porque tem muito a ver conosco, tudo isto.

Está a escrever por dentro.

É óbvio que está a escrever por dentro.

Tu escreveste muito os textos para cada um, não foi? E tu sabes o que aquele poderia dizer, o que é que ficaria bem ele a dizer.

Claro, nunca havia sequer a ideia de: "Estou a escrever para a personagem." Não, não existem personagens aqui. Ou o Zé Raposo a brincar, que mete uma peruca ou que mete um chapéu. Mas é sempre o Zé Raposo. Então, conhecendo as qualidades e as ferramentas de cada um, se torna muito mais fácil o trabalho do autor.

Tiveste essa parte facilitada nesse aspeto. Mas divertiste imenso a escrever isto?

Muito Muito especial.

Eu imagino depois os ensaios nos tais almoços. Imagino os vossos ensaios. Ensaio à mesa.

Sim.

E ensaiamos também na Casa do Artista. Por acaso é importante dizer, porque houve um apoio da Casa do Artista maravilhoso, eles foram fantásticos. E eu lembro-me na parte científica, porque o Miguel, basta ver esse espetáculo, ama a ficção científica.

Aquele no 2001, "Odisseia no Espaço".

Exatamente.

Está giríssimo aquele cenário e aquilo a passar.

E o Ricardo na nave.

E Supernova a explodir.

E depois é muito engraçado também cenograficamente os vídeos da Cristina Piedade.

Sim, exatamente.

Que também estão muito bem feitos. Aquilo está tudo muito bem engendrado.

É um espetáculo muito intenso em todos os sentidos, da música, da letra, dos sons, das luzes, dos hologramas ali falsos. Aquilo é extraordinário.

Exatamente.

Há muita coisa ali metida, não é um teatro simples.

E de repente ele põe aquilo.

Jantar de idiotas. Quer fazer à mesa? Fechou, está feito.

Claro, exatamente. Aquela coisa de eu me sentar ali no proscênio e de repente dizer aquele texto, ele lembrou-se de um texto.

Do Peter Handke. Sim, "O Retrato do Artista Enquanto Velho".

E adaptou aquilo em relação ao futurismo, à história.

Sim, como é que um ator mais velho diria isto em 3027.

Tudo isso é inesperado. Eu acho que o espetáculo é isso mesmo, é inesperado, é surpreendente.

Exatamente. E é engraçada esta questão do teatro daqui a mil anos. Pensaste um bocadinho nisso, Miguel, tu que criaste este texto?

Sim, falando aqui na questão do Minetti, do Peter Handke, que fala sobre como ele já na altura, como é que um ator velho se sente ultrapassado agora.

É uma peça fabulosa com o mais novo, e eu vi com o Vítor Silva.

Exatamente. Como é que um ator mais velho se sentirá ultrapassado em 3027? Em que provavelmente esta questão da inteligência artificial já estará muito mais presente. Já estamos hoje a ver os efeitos imediatos. Eu faço muitas dobragens, isso já está a acontecer. Já há muita dobragem que é feita com inteligência artificial, muito cinema que é feito com inteligência artificial. A música é um desastre total, o que está a acontecer neste momento na indústria musical.

Porque tu já podes ordenar esta generativa: "Quer uma sinfonia? Há Beethoven com estas três notas". E compõe aquela coisa.

E ele faz. Eles fazem.

E os atores em Hollywood fizeram um bocado de protesto contra isso.

Claro que sim.

E os guionistas também.

Sim.

Não deixaram usar a imagem deles rejuvenescida não sei quantos anos.

E tem que acontecer, sim, essa luta.

Senão vai haver essa luta.

Mas até quando, Miguel? Até quando é que eles vão conseguir fazer isso?

Eu acho que até ao ponto em que democraticamente o consumidor perceber que isso não é bom para ninguém. E, em última análise, para o próprio consumidor. Por isso é que as artes do espetáculo vão, em teoria, ser as últimas a ser substituídas. A menos que um dia nós cheguemos ao ponto de afinar de tal maneira os hologramas, que já não precisamos de atores, porque nós achamos que estamos a ver atores e é um holograma.

Como faz o concerto Zaba.

O concerto Zaba aconteceu.

Não há dúvida que eu acho que a coisa é fantástica.

Claro que sim. Dependendo do contexto. Claro que sim. Não no contexto capitalista de substituir os trabalhadores para podermos...

Sai mais barato.

Sai mais barato, mas o objeto artístico sai pobre. E é isso que eu vejo acontecer na música, para mim, declaradamente.

De uma forma mais simplista, digamos assim, sabes como é que eu faço uma comparaçãozinha? Os espetáculos regionais com as pessoas dos locais. É impossível eles verem o avô, o polícia da terra, o presidente da junta, estar a ser substituído por não sei o quê, porque aquilo é tudo tão na terrinha, como se costuma dizer, no interior, é tudo mais verdadeiro. E conhecem-se toda a gente, são muito mais próximos.

É mais pele ao pele.

Por isso é que eu faço aqui um paralelismo em relação à revista à portuguesa. A revista, que é aquela coisa, morreu? Não morreu, nem nunca morrerá, porque começa logo por aí. Todas as terrinhas têm uma revista lá do sítio sobre os costumes locais, sobre a política edilar. Portanto, isso é uma coisa que nunca vai morrer, essa verdade. E, portanto, nesse sentido, acho que vai sempre necessário fazer-se teatro ao vivo. Nem que seja em casa de cada um.

Eu acredito que sim, as artes do espetáculo, nem que seja porque acredito que em 2027 as pessoas já vão até quase querer pagar mais para ver pessoas à séria. Quando de repente a inteligência artificial já substituiu tudo, o ator ou artista ao vivo vai passar a ser o auge. Vamos voltar. As coisas são cíclicas. De repente: não, aquilo tem falha, tem emoção, ele engana-se, ele pode se enganar. E não há nada mais rico do que isso.

Em tempo real. Exatamente. Na continuação disso, acho que já estás a responder a isso, mas ia te perguntar isso, Miguel, já perguntei ao teu pai, qual é para ti a magia do teatro? O que o teatro tem que outras artes, o cinema, o livro, a literatura, a dança, não têm?

A possibilidade de, para mim, no teatro, é concretamente a possibilidade da falha. Ou seja, que o cinema e a televisão não têm. A música também tem muito isso.

Se for ao vivo, exato.

Mas é a possibilidade, de facto, da falha e da falha no melhor dos sentidos, porque muitas das vezes não é só o engano, é a transformação, que é possibilitada pelo simples facto de estarmos a dar algo muito concreto a pessoas que nos estão a ver. É uma sinergia brutal. Eu não sou uma pessoa hiper religiosa, mas há efetivamente aqui um lado energético e uma Uma generosidade de uma partilha que acontece sempre entre o artista nas artes do espetáculo e o público, que para mim é o que possibilita essa transformação constante. Eu nunca vou dizer um texto igual todos os dias, nunca vou tocar uma guitarra de maneira igual todos os dias.

É bonito isso.

Se estiver vivo.

Todos os dias são diferentes porque é ao vivo.

Exatamente.

Essa é a magia do teatro.

Se estiver vivo em cima de um palco.

E o meu colega até dizia: "Nós estamos ali sem rede, ao vivo."

Sim.

E as pessoas pagaram bilhete para ir assistir e foram de casa deles para ali, para ver aquilo.

Aquele texto final do Miguel, outro dia houve uma senhora que teve uma intervenção no meio do texto dele.

Foi, estava a falar do Parque Mayer, da maneira como os teatros foram morrendo e como houve um sistema que desapropriou a cultura popular. E estava a falar que este deixou-se morrer, aquele foi deitado abaixo, e há uma senhora que grita: "E o ABC, que eu lembro do ABC."

E o Miguel respondeu: "Tem toda a razão, o ABC, claro."

É uma crítica que vocês fazem também a recuperação destes teatros. Vocês não deixam passar isso, e é verdade. Há uma crítica grande também na vossa peça à revitalização do parque. Estes espaços culturais não só estarem a ser desmantelados e vendidos a favor deste capitalismo, deste capital em geral, mas que este teatro Variedades concretamente, que você está muito ligado também, que encerrou nos anos 90, esteve 30 anos fechado, e agora reabriu, se calhar não nos melhores moldes. Tu dizias: "É melhor haver do que não haver". Pronto. Mas posto isto, podia ser de outra maneira, podia ser mais como era. Não deixar morrer isso. É totalmente uma caixa nova que apareceu ali.

Sem dúvida. Porque não houve uma preocupação em integrar as pessoas do teatro na feitura do teatro.

Entregou-se a outras pessoas.

Exato, foram pessoas que muito tecnicamente fizeram um teatro, muito artisticamente, digamos assim, porque é uma peça arquitetónica bonita, tem o seu valor original, mas não houve em atenção uma série de particularidades funcionais acima de tudo. Interior, ou seja, o palco tem muitas falhas.

Essa não sabia. É a vossa parte, podem falar.

Falhas no sentido técnico, porque os camarins têm que ir de elevador e descer. Só há um camarim lá ao fundo. O próprio palco não tem uma profundidade desejável.

Altereou-se assim tanto essa estrutura também?

Sim, alterou-se completamente.

Começa por eram 800 lugares, passou para 300.

Estão a deixar a casca de fora. Essa não sabia, que era mais do dobro.

E eu como trabalhei lá.

De facto há pouco tempo que está ali, isso eu noto.

Enfim, não está com as devidas condições que um teatro merecia ter.

Ou tinha tido, já antigamente.

Pronto, tenho pena porque se vai fazer uma coisa de novo, que eu não percebo por quê, porque eu acho que era só restaurar o antigo, tinha-se que restaurar, porque era, para mim, um excelente teatro. Percebes? Em condições de pouco público.

Com ótimas memórias que tens lá.

Memórias fabulosas. Para já tinha uns 30 camarins. Agora tem quantos? Dois ou três?

É tão bonito o teu texto, Miguel, aquele texto que ele escreveu.

Maravilhoso.

A minha vida foi passada no Adereia. Eu bebi foro russo e era não sei quantas oficinas, não sei o quê. Estamos à conversa. Desde o teu irmão Ricardo, ao qual usei a Viana no Grande Noite, no Réveillon, há 30 e tal anos. Essas memórias.

É maravilhoso fazer-se novos teatros, mas que se façam noutros sítios, porque Lisboa é uma das capitais europeias que menos teatros tem, ofertas culturais. A verdade é só esta. Basta ir aqui a Espanha. Claro que a dimensão é outra, mas em Madrid.

Sim, mas à proporção, existem imensos.

Mesmo à proporção, nós temos muito pouco, porque vamos destruindo e não se constrói teatro.

Construímos hotéis.

Pois, hotéis e hosteis, e não sei o quê. E é sempre bom falar nisto, porque foi agora há pouco tempo, quando fomos ali ao Nhaca comer nas portas de Santo Antão.

Analista dos restaurantes do teu pai. Aparece.

O Miguel também vai muito com os seus amigos. Ali nas portas de Santo Antão, aliás, há vários restaurantes muito interessantes.

Ao pé do Salão dos Produtos.

Claro, tudo. E estávamos lá e o percurso a pé que se faz. O Éden é o quê? Era o cine-teatro. O Condes é agora o Hard Rock. O Olímpia, que dava para o Politécnico, na parte de trás. Aliás, a última fase foi dos Ciné-fotográficos, mas fisicamente era um cinema.

E acho que era bonito.

Era, o Olímpia era muito engraçado.

O Politama é o único que continua, porque o Lafena pegou nele.

Senão já era um hotel ou uma coisa qualquer. O Odeon ali no canto agora é um hotel de apartamentos de luxo ou um hotel de chá, uma coisa assim, uma coisa do gênero. Pronto, o Politama felizmente está lá, o Eliseu felizmente existe. Agora imaginemos todos estes teatros e cine-teatros aqui há 60 anos funcionavam como uma espécie de, costuma-se dizer o Parque Mayer é a Broadway à portuguesa. Mas se formos à Broadway ou West End, são ruas com aqueles teatros todos, não é um sítio fechado. Que era o que acontecia realmente ali.

São avenidas.

São avenidas. Que era o que acontecia ali na Baixa. Exatamente, na Avenida Bernardo. Temos o São Jorge, sim senhor, felizmente ainda funciona e muito bem. Mas chega-se ao Parque Mayer e aquilo era um sítio fechado com quatro teatros e depois com uma série de restaurantes. E tinha um barbeiro.

Salões de jogos.

Salões de jogos. O Miguel e o Ricardo ainda frequentaram isso miúdos. Enquanto nós estávamos no teatro, eles andavam ali a brincar com os filhos dos senhores dos cafés, toda a gente se conhecia, era uma comunidade.

Depois ficavam até tarde para poder receber os atores que acabavam os teatros e se juntavam, sabes? Todas as coyas.

Aliás, ali era um polo cultural extraordinário, porque se juntavam ali jornalistas, atores, escritores, jogadores de futebol.

E depois divertiam-se muito e ao mesmo tempo havia muita crítica política. Era vigiadíssimo.

Vigiadíssimo. Havia ali uns ayuntamientos, percebes? Políticos, sim, das pessoas contra o regime, juntavam-se em determinados sítios lá no Parque Mayer também, os surrealistas.

E este vosso reality show também para mim é um espetáculo altamente político. Para mim também corre. Nós estamos a terminar, nunca irá em digressão? Não pode? É difícil?

Bem, é difícil.

Porque eu sei que é uma coisa que vocês gostam. O teu pai eu sei.

Eu amo.

Pensámos sobre isso, mas de facto, primeiro lugar começaram logo a surgir outros projetos que nos levaram o 2026 já todo pela frente e nós lá está mais uma vez, felizmente.

Mas agora a moda está a voltar. "O Sonho de Uma Noite de Verão" voltou.

Exatamente.

Quando as coisas são muito boas, voltam.

Nunca se sabe. Teria que ser adaptado para isso.

É porque eu não gosto que estas temporadas são muito curtas, acho péssimo.

Eu percebo, eu gostava mesmo de levar, lá está, isto Para toda a gente ver, para as pessoas de Portugal e não só para um nicho elitista lisboeta. Gostava mesmo de o levar, mas não é fácil.

Pois, acredito que não.

Não é fácil em termos de produção.

E há uma ligação muito forte com o próprio Teatro de Variedades. Fala-se muito da ligação ao próprio Variedades e fora dali teria que ser adaptado, pelo Miguel, obviamente.

Mas de facto é muito bom.

Há vontade, mas não sei se vai acontecer.

Dou os parabéns por toda esta imaginação que ali mostram. Zé, o teu texto.

Miguel.

Miguel, o teu texto, a prestação do Zé, a tua também e do teu irmão, do Ricardo. De facto, é extraordinária e variada esta peça. Fica aqui este convite. Já sabe, até domingo, dia 16, no Teatro de Variedades, no Parque Mayer, em Lisboa, quarta a sábado, às 21h e domingo, às 16h. As sessões com audiodescrição são hoje, dia 7, sexta-feira, e depois domingo, dia 9. O reconhecimento do palco é feito uma hora antes. Não perca e decore bem isto. E já sabe, Variedades. Não perder este reality show dos repostos no ano de 3027. Faltam 1002 anos, mas não sei se vai estar tanto tempo em digressão. Agora deve ser muita merda, não sei se devia dizer.

Claro que é, é verdade. É isso mesmo.

Agradeço muito a vossa disponibilidade. Obrigado aos dois.

Nós é que agradecemos muito. Obrigado.