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Seja bem-vindo. Dou aqui também as boas-vindas à convidada extra de hoje, Maria Mayer, uma historiadora de arte, que é conservadora da Casa-Museu da Fundação Medeiros e Almeida, um verdadeiro tesouro no coração de Lisboa, ainda tão desconhecido dos lisboetas e dos portugueses em geral. Fundada por António Medeiros e Almeida, empresário de sucesso, mecenas, benfeitor e colecionador de gosto requintado. Olá, Maria, bem-vinda ao Observador e muito obrigado por teres aceitado este nosso convite.
Olá, João Paulo. O prazer é meu e obrigada pela oportunidade também.
Muito obrigado. Tu estás num lugar fantástico como conservadora e como responsável por esta Casa-Museu, porque tu estudaste Turismo, estudaste História da Arte, és historiadora de arte, licenciaste-te nesta disciplina e fizeste o mestrado em Museologia, acabado, aliás, há três anos, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. E a tua tese era exatamente sobre Casa-Museu Medeiros e Almeida, o projeto de um homem de coleção privada a acervo público. Como é que tu conheceste e como é que nasceu o teu interesse por esta coleção?
Eu estou na Casa-Museu há cerca de 20 anos, onde entrei pra fazer inventário. A partir daí, trabalhar com o inventário tão fantástico, passa-se forçosamente pela figura do fundador da coleção, que injustamente é pouco conhecido. Daí que eu fui tentando conhecer, recorrendo à muita documentação que existe em casa. Infelizmente, não de mão própria, porque o senhor Medeiros de Almeida não escreveu, muito menos sobre a coleção, mas a gente vai auferindo sobre toda a documentação que temos.
Pois, que ele guardava tudo, as faturas, os artigos de jornais, onde ele consultava as peças que queria.
Exatamente.
Tomava notas, com certeza, nos catálogos das leiloeiras e do museu.
Exatamente, daquilo que comprava. Tudo isso são documentos preciosos. E fui pensando que, de facto, o que ainda não havia era uma vertente académica feita sobre o senhor Medeiros e Almeida, e então, justamente, fui fazer o mestrado pra poder que isso ficasse escrito.
Estás lá há quase 23 anos, já é bastante tempo, como conservadora, como técnica superior, e trabalhas normalmente na área do inventário, da investigação em arquivo, na publicação da coleção, nos catálogos que têm feito pra várias exposições que há lá, nas revistas da especialidade. E também, por exemplo, estás responsável pela cedência das peças do museu. Vocês têm, neste momento, umas poucas peças emprestadas em outras coleções, em outras exposições pelo mundo inteiro.
Isso é sempre um trabalho de equipe na Casa-Museu. Como somos poucos, acabamos todas fazer um pouco. Em relação à cedência de peças, é de facto uma área sensível, envolve sabermos o que estamos a fazer. Neste momento temos seis projetos, temos envolvidos em seis projetos.
Em curso, com peças da coleção.
Sim, da coleção, que se emprestam, tanto pra Portugal como pra o estrangeiro. E isso envolve, pra além de muita burocracia, uma logística grande e é isso, parte do trabalho que temos.
Há bocado, Maria, tu tiveste me explicar só a parte da embalagem e do envio, quando é de avião, como tudo aquilo é feito, como aquilo é embalado pra ser tudo muito bem acondicionado, com a trepidação e tudo. E às vezes vocês têm peças de porcelana chinesa com 500 anos, primeiras encomendas, coisas únicas, mudaram o estilo da porcelana na China. Quer dizer, é muito importante o carinho, o cuidado técnico que se envolve a fazer aquilo. Depois tens de ter a última pessoa a entrar no avião, a primeira a sair, pra ver como é que aquilo tudo vai, tens que acompanhar a peça até o museu pra onde ela vai ficar exposta. Portanto, é uma grande responsabilidade, que tiveste de dar conta disso. Só isso dava uma conversa incrível. Daqui a dois anos, a fundação faz 50 anos. Portanto, vocês já estão a preparar-se, bem me parece, e espero que sim.
Sim, claro.
Em 2022, faz 50 anos que existe esta fundação legada por este homem extraordinário. Fica já o convite que tenho que fazer. Quem não conhece ainda, de segunda a sábado, das 10:00 às 17:00, na Rua Rosa Araújo, bem ali no centro, no coração de Lisboa, perto da Sociedade Nacional de Belas Artes, por exemplo, conhecer este tesouro. Estamos a falar de um tesouro acumulado por um homem, este empresário, mecenas, António de Medeiros e Almeida, que era um dos maiores colecionadores de arte portugueses do século XX, homem de negócios, inveterado colecionador de arte. Eu falava mesmo no vício do colecionador. Ele diz que logo casou, começou com este vício, mas já aos 15 anos, diz ele: "Com 15 anos já comecei a gostar de antiguidades. Só não comprava porque não tinha dinheiro ainda".
Teve à espera de conseguir ter, mas desde muito cedo que ele começou a colecionar, motivado mesmo pelo gosto que já vinha de família, de estar rodeado de coisas.
O pai era médico, era um cirurgião, e empresário também, em Ponta Delgada. A família dele, os Medeiros, são mesmo dos Açores e tinha no círculo de amigos mais próximos o Miguel Ventura Terra, grande arquiteto, o Veloso Salgado, uma série de pessoas que os acompanharam.
Tinha mesmo uma tertúlia aqui em casa. Viviam em Lisboa, os pais.
Os pais, na rua do Salitre.
Sim, mudaram-se pra Lisboa e tinham uma tertúlia cultural e daí Medeiros e Almeida nasceu rodeado de arte, de cultura, de saber.
Ele chegou a estudar medicina, seguindo as pisadas do pai, mas depois desistiu no último ano e foi então pra Alemanha especializar-se em negócios internacionais. Tinha este faro. As pessoas realmente têm faro pra as coisas, pros negócios é muito preciso isso. Tinha este dedo. Apesar de pertencer à elite econômica do tempo do Estado Novo, ele nunca fez política, nem se aplicava. Pelo contrário, exigiam muito dele. O próprio Salazar, por exemplo, convidou pra ele ficar à frente da Fundação Salazar, se não me engano, ou o Mérito Marques, aliás, convidou pra fazer a Fundação Salazar, que fartaram-se de fazer casas pra famílias carenciadas. E ele ajudava muito, por exemplo, a colônia balnear infantil do "O Século", e tinha muitas obras meritórias e de apoio social. Quando ele casou, casou com esta senhora Margarida Rita de Jesus de Santíssima Trindade Castelo Branco Ferreira Pinto Basto Filha do dono da Vista Alegre, que é, por sua vez, bisneta do fundador. Há uma fotografia muito curiosa deles a sair do casamento de fato macaco, num Morris, porque foi a vida dele. Um Morris descapotável, na altura, porque ele era o representante da Morris cá.
Não ainda, na altura, porque eles casaram em 24.
Foi um negócio que ele depois quis trazer.
Que ele quis trazer. Ele já era um apaixonado pelos carros, fazia corridas de automóveis, e foi precisamente com os carros que ele começou a sua vida de empresário.
Empresário. Hoje diria-se empreendedor, era um grande empreendedor.
Exatamente, Raval Lalet.
Exatamente. Muito engraçado, porque ele chegou a ter uma exposição da Morris na Sociedade de Belas Artes, uma coisa ali perto, muito engraçado. Ele ganhou muito dinheiro com negócios onde se meteu. Só na Bensaúde, que era um negócio que era do pai.
Não, a Bensaúde era da família Bensaúde.
Pronto, e que ele geriu.
Exatamente. Durante uns anos, coincidindo com a Segunda Guerra Mundial, a família Bensaúde quis se retirar e passaram-lhe a gestão dos negócios, coisa que ele fez durante X anos e sendo depois devolvido devidamente.
Muito bem. E só nessa gestão que ele fez, só a Bensaúde, se não me engano, eram 21 empresas.
Ele criou essas ditas 21 empresas.
Entre banca, a Assuriana, seguradoras, uma série de terra nossa, de hotelaria.
Naviação, seguros.
Naviação.
Turismo.
Incrível, porque só aí fez muito dinheiro, que ele próprio dizia: "Eu sou responsável por 21 empresas, todas a dar lucro. Eu não procuro dinheiro, o dinheiro é que vem ter comigo". Ele tinha realmente esse faro, esse dedo especial. E então conheceu um dia o William Morris e ele foi lá a Londres falar com este Lord Nuffield.
Precisamente, foi assim mesmo que ele começou a sua vida de empresário, jovem rapaz, decidiu trazer para Portugal uma representação da Morris. E então foi ter essa reunião com o senhor Morris, em que lhe expôs que queria trazer a representação para Portugal, mas como não tinha dinheiro, tinha tido esta ideia de trazer os carros à consignação. O William Morris ouviu muito atentamente, mas no fim pergunta: "Sim, senhora, mas que garantias é que nós temos para o negócio?" E ele responde: "Então, a minha palavra". O William Morris, como bom inglês, gostou do empenho da palavra e deu-lhe um voto de confiança e portanto ele trouxe os primeiros carros à consignação. E foi assim que começou o negócio dos carros, que depois floresceu grandemente, sendo que ele só o passou nos anos 50.
Nos anos 50. Ele chegou a ter este stand uma série de anos na Rua da Escola Politécnica, ao pé do Rato. Há uma história giríssima que ele conta. Ele gostava muito de colecionar e tinha o vício do colecionador, diz ele, logo casou. E em 28, quatro anos depois de casar, diz que teve que suspender o vício, porque houve um problema enorme, um prejuízo, diz ele, um prejuízo de 1600 contos por causa do que os carros que importámos de Inglaterra não estão habituados às ruas de pedregalípedos que há em Lisboa, aos maus pisos. E por isso os carros partiam-se, diz ele, escreveu. E ele sentindo a obrigação de reparar e reforçar todos os carros vendidos à minha custa, e deu um grande prejuízo. Mas foi a Inglaterra convencer, argumentar. É incrível essa história. Foi argumentar, dizer: "Temos que fazer uns carros especiais para exportar. Vocês façam um Morris que aguente os maus pisos". E assim nasceu um modelo, o Morris Ten, que em seis anos ele recuperou aquele prejuízo que tinha feito e voltou, então, diz ele: "Voltei então a dar satisfação ao meu vício de colecionador". Incrível como o homem de negócios com atenção ao pormenor. Depois destas indústrias todas e esteve metido também na aviação comercial com esta Aeroportuguesa e a SATA, depois a TAP, a companhia de fiação e tecidos de Torres Novas. Fez uma série de dinheiro. Chegou a vice-presidente da Assembleia Geral do Banco de Portugal, ele era um empresário conhecido. Esteve naquele grupo de investidores que depois o Salazar sugeriu para fazerem o Hotel Ritz, por exemplo, muito importante também, projeto do Pardal Monteiro. E este senhor, que depois colecionou arte toda a vida, e é sobre isso que já vamos falar daqui a pouquinho, acabou por morrer depois com?
91.
91 anos? Em casa.
No ano que fazia 91, sim, em casa.
Em casa de um acidente cardiovascular e a Maria faz questão de lembrar que ele trabalhou até à véspera, quer dizer, trabalhou sempre e teve uma vida muito ativa e de empresário de sucesso. Deixou uma nota muito bonita a dizer: "Parto confiante". Não era?
"Porque aqueles que virão, farão tão bem ou melhor do que eu".
Uma nota muito bonita.
É muito emocionante ver a letra tremida e é o voto de confiança no futuro.
E que mal sabia ele que, com muita razão, a coisa correu muito bem e está de vento em popa, embora, é o nosso papel aqui divulgar um pouquinho mais esta casa-museu e esta fundação, que tem este trabalho fantástico e que infelizmente ainda muitos portugueses desconhecem. Esta casa foi transformada em casa-museu em 72, se não me engano.
Oficialmente.
Oficialmente. Ele chegou a ver esta fundação a nascer.
Ele fez.
Deixou tudo preparado.
Não, ele encarregou-se pessoalmente da obra que ele imaginou. Portanto, ele quando decidiu fazer a fundação, em finais dos anos 60, pensou que a casa em si já estava bem recheada e portanto faltava-lhe espaço. Então projetou uma obra criando uma nova ala sobre o jardim da casa e acrescentou mais 500 e tal metros quadrados à casa, que então começou a colecionar para rechear esta segunda ala.
Exatamente, essa nova ala, as novas alas.
A nova ala. Que até costumo fazer a diferença entre o colecionador privado, que enquanto ele estava a comprar para a sua casa, para usufruir ele e a sua família.
Para decorar e para encher.
Para decorar, exatamente, para utilizar as suas coisas. E a partir daí, quando ele começa a comprar para o museu, ele próprio na documentação vemos que ele argumenta que é para um museu e, portanto, as obras têm outro cariz, até são bem mais de aparato, porque ele já está a comprar para um museu.
Muito bem. Nós fizemos aqui uma pequena pausa e já voltamos à conversa com Maria Mayer. Voltamos à conversa com a Maria Mayer, que é conservadora desta Casa-Museu da Fundação António Medeiros e Almeida, aqui bem no coração de Lisboa. Este tesouro ainda tão desconhecido dos lisboetas e dos portugueses em geral, e vamos ver se damos uma ajuda e se pomos isto no conhecimento de mais gente pra poderem visitar e usufruir desta coleção espantosa, que tem espantado o mundo inteiro. Maria, é engraçado, porque vocês recebem visitantes agora e sempre. Há cartas de pessoas que, ainda no tempo dele e que ele mostrou, ficavam encantados com as visitas guiadas que ele fazia, de horas, à coleção dele e a dizer que realmente é uma coisa única.
E à boa maneira antiga, essas pessoas escreviam a agradecer.
Claro.
Portanto, temos aí uma fonte de conhecimento, até da maneira como ele fazia as visitas, porque as pessoas dizem o conhecimento que mostrou, o amor com que contou as histórias, que falou das peças. Mas, de facto, vieram pessoas, desde coleccionadores privados aos grandes, os antiquários, os leiloeiros e grandes historiadores, colegas de museus, enfim, todo esse tipo de pessoas vieram visitar a coleção, que ele mostrava com muito orgulho.
Estávamos a falar há bocado desta coleção e desta casa, que era muito frequentada por este círculo próximo de amigos dele, que incluía os Palmelas, incluíam ministros, o embaixador inglês, incluía gente importante e amiga e também outros coleccionadores importantes. O Francisco Sá Carneiro, tio do fundador do PSD, que também era um grande coleccionador de arte. O Abel de Cerdeira, por exemplo, que fundou depois o Museu do Caramulo. E também estavas a falar há pouco dos jantares. Por exemplo, ele deu este jantar onde estava Grace de Mônaco e o príncipe Rainier, que foi em 64.
E era em 64, exatamente. Um dos sobrinhos da sua dona Margarida era o cônsul de Mônaco em Portugal e, portanto, os príncipes foram convidados pra jantar lá em casa. Sendo que o senhor Medeiros e Almeida convidou até a Amália pra vir cantar, fazia parte, e ela teve que cantar nos salões. Não sei se posso contar a história toda, mas parece que o príncipe Rainier estava cansado.
E pronto, digamos que passou pelas brasas.
Passou pelas brasas.
Durante os fados. E a princesa ia acordando em pequenos palpetezinhos.
Ia acordando, fazendo o possível pra acordá-lo. Isso.
O marido. Pronto. Mas de qualquer maneira, era apenas uma visita daquelas muitas visitas, com certeza, que eles receberam. Esta casa deles foi depois ampliada. Ele, pra isso, contou com o Alberto Cruz, arquiteto, e depois o próprio Sommer Ribeiro, que era da Gulbenkian, também ajudou nesta ampliação pra este projeto museológico.
E principalmente na museografia.
Exato.
Que foi o responsável pela museografia.
No entanto, ele deixou a obra pronta em 74, mas a fundação só abriria em 2001. Portanto, inaugurou em 1 de junho, já cá não estava nem ele nem a mulher. A mulher tinha morrido em 71, se não me engano.
72.
72. E ficaram com 27 salas, com um total de 2 mil obras expostas, nacionais e estrangeiras. Algumas salas são próprias, a sala dos relógios, a sala dos leques, elas próprias têm as suas coleções. Mas é preciso dizer que esta coleção é uma coleção extraordinária, que ele foi reunindo ao longo de 60 anos, sobretudo artes decorativas. E como eles não tiveram filhos, depois acalentaram sempre esta ideia de doar ao Estado. Existe, portanto, esta doação, este testamento, a área não que ele se propôs tudo.
Sim, trata-se de uma fundação, que oficialmente foi criada em 72, e como fundação que é, tem um objetivo. O objetivo é doar ao país uma casa-museu, escrito por ele.
E que casa-museu, que coleção, uma coisa extraordinária. Este homem, Maria, estávamos a conversar isso há bocado, ele uniu estas duas coisas, que é o muito dinheiro que ele tinha e o bom gosto, que nem sempre se junta. Pessoas muito ricas não têm gosto nenhum e pessoas com grande gosto, mas não têm meios nenhuns.
Não podem.
Ele uniu estas duas coisas e, por isso, como tu uma vez escreveste, todas as coleções vão acontecendo. E assim foi com esta também. Ele escreveu uma vez que desde os meus 20 anos, isto é, desde 1915, comecei a interessar-me por antiguidades, que passei a adquirir a partir dos 30, quando os meus posses o permitiam. É fantástico.
Claro.
E então ele ganhou este vício do colecionador, que comprou muita coisa cá, mas também ia muito lá fora ou assinava revistas. Ele era informado.
Sim, ia muito ao estrangeiro, principalmente quando ele comprou a casa, esta da Casa-Museu. Em 46, mudou-se pra lá. E 46 coincide com o final da Segunda Guerra Mundial, coincide também com o mercado de arte a florescer.
Dá um grande boom.
E ele está com dinheiro e, portanto, comprou. Foi aí que ele começou a ir ao mercado estrangeiro.
Ia muito a Londres e Paris.
Paris, e depois a Suíça pra os relógios. E é aí que ele começa a fazer as grandes compras pra sua casa.
As compras, ele tinha sempre um critério, muito valor estético, valores artísticos, valores históricos, alguns autores que ele gostava muito, coisas colecionáveis, também era uma coisa muito típica da altura. Neste inventário que tu trabalhaste, há o registro de quase 9 mil peças.
Quase lá.
Uma coisa impressionante. Do século II ao século XX, dos quais expostos há uma fração, há um quarto?
Cerca de 2 mil.
Cerca de 2 mil.
A nata da nata está exposta.
Tudo o resto em arrecadações?
Tá em reservas, como se diz.
Nas reservas, exatamente.
Sendo que usamos as exposições temporárias pra poder mostrar parte do espólio que está em reservas.
Só, por exemplo, na cerâmica, é talvez o maior conjunto, de 2500 peças, algo assim?
Será, pois, sim.
Tem aquela coisa mais importante, talvez seja um bidé, que é uma coisa muito curiosa na altura, por ser antigo e por ser de quem é.
Claro, é um bidé em porcelana da China, que tem como característica que tem as armas reais francesas.
Quer dizer que andou num rei, um lixo, qualquer coisa.
Exatamente. Pensa-se que foi uma encomenda do regente entre o Luís XIV e o Luís XV, que encomendou o tradicional serviço de mesa, mas também existiam serviços de toalete, e o bidé faz parte do serviço de toalete.
Muito bem. Tem outra jarra espantosa e muito rara, que é aquela dos europeus
Ou dos europeus. Essa, por exemplo, estava em reservas e foi fruto do estudo para uma peça do mês que demos atenção à peça. E essa peça-
Que é muito rara
...é muito rara, é raríssima, é uma peça imperial.
Tem toda uma simbologia budista.
Budista, portanto, uma simbologia auspiciosa e, como tal, dedicada ao imperador. A peça está marcada também com o símbolo imperial. E no fundo, são dois europeus, duas figuras de europeus de joelhos, que oferecem uma jarra que é o dobro do tamanho dos europeus. Ou seja, perante o imperador, os europeus ajoelham-se e são insignificantes. Só assim uma peça imperial tem a figuração de europeus. É interessantíssimo.
Incrível. E não conheço muito mais exemplos.
Não se conhece. Existia uma peça na coleção de Ricardo Espírito Santo, na sua coleção privada, que é metade de um barril, que tem três figuras exatamente iguais a esta.
De europeus também.
Sabemos que foi vendida para os Estados Unidos. Infelizmente, não ficou na coleção da Freires, mas é a única figuração tal e qual dos mesmos europeus. A jarra. Existem jarras com a mesma decoração, mas sem os europeus. Essa peça foi agora emprestada para a coleção que está no Museu de São Roque. Podem os nossos ouvintes ir ver ao Museu de São Roque. É, de facto, uma das grandes peças da casa.
Outra grande coleção que tem a tua casa museu é esta dos relógios. Tem 657 relógios contabilizados, portanto, é a maior coleção, talvez a sua grande paixão, quero dizer, que ele tinha pelos relógios, incluindo aquela história extraordinária. Há cerca de 200. Ele comprava também aos lotes. Uma vez comprou um lote de 150 relógios. Só na sala dos relógios dá cerca de 200, à volta disso. E tem aquele relógio maravilhoso, aquele relógio de bolso com uma história maravilhosa do Junot.
Esse relógio é um relógio, para além da história maravilhosa, principalmente, é de um relojoeiro maravilhoso, se posso dizer assim, que é do Abraham Louis Breguet.
Breguet. De Zurique, se não me engano?
Sim, ele é de Neuchâtel, mas trabalha em Paris.
Ok, relojoeiro fantástico.
E é considerado o maior relojoeiro de todos os tempos. Tecnicamente, todas as patentes, praticamente, que há hoje foram dele. Ainda hoje se trabalha sobre as patentes dele.
Atenção que só o António Medeiros de Almeida tem uma coleção com 26 relógios da casa Breguet. Portanto, é das poucas, talvez das maiores coleções privadas, se é senão da casa mãe, que existem fora de lá.
Exatamente.
E este relógio, é que é que tem de famoso?
Neste caso, deste relógio, para além de ter 10 complicações, o que é uma coisa fantástica tecnicamente num relógio, ele tem um historial fantástico enquanto à sua proveniência, porque sabemos, segundo os registos da Casa Breguet, que ele foi feito em 1807 para o general Junot, que entretanto, após o desaire de Junot nas batalhas napoleónicas e o regresso à França, o Junot mata-se.
Matou-se.
E então a mulher volta à casa Breguet para vender o relógio de volta. Entretanto, a peça fica na Breguet e é vendida em 1816 a um lorde inglês, que o leva para Inglaterra. Entretanto, dá a um primo, que por sua vez é companheiro de armas do Duque de Wellington, e então oferece ao General Wellington o relógio que era do Junot.
O relógio que era do Junot acabou por parar nas mãos do primeiro Duque de Wellington, que à frente das tropas Anglo-Lusas, tinha batido nas invasões francesas, venceu o Junot aqui na Batalha do Vimeiro em 1808. Portanto, divididos pela história, eles acabaram unidos pelo relógio, e esse relógio está aqui na coleção. É uma história incrível.
É incrível.
Além de outro relógio também fantástico, que é aquele relógio de mesa gigante austríaco, talvez o maior relógio que lá têm, da Áustria, de grandes dimensões, também com estrutura em prata e depois com cristal de rocha e depois com esmaltes vienenses e pedras preciosas. Um grande relógio com a marca do Imperador da Baviera, do Luís II, e que é assim também uma peça de-
É uma peça que inclusivamente o senhor Medeiros de Almeida pôs ao centro da sala e ela vale, de facto, pela monumentalidade.
Uma coisa gigante.
É gigante. Pertence a um grupo de peças conhecidas como os esmaltes vienenses, que são feitas em meados para o fim do século XIX em Viena, da Áustria, usando os materiais que estavam disponíveis no Império Austro-Húngaro, a prata da Transilvânia, o cristal de rocha, todos esses materiais, e que produzem uma série destes trabalhos que são vendidos ali nos boulevards de Viena. Mas esta peça, vemos que é uma peça chamada erudita, ou seja, alguém a encomendou. Pela dimensão que tem, pela riqueza dos materiais. E o que sabemos dela é que, provavelmente, porque ela é encimada, ela é uma estrutura arquitetônica e é encimada por um pavão branco. E, portanto, o que sabemos dela é que provavelmente foi uma encomenda de Luís da Baviera.
Porque era o símbolo dele, era com o que usava muito.
Era um dos símbolos dele, exatamente.
Também tem, já agora, este relógio de noite, que foi da Dona Catarina de Bragança, pensa-se.
Exatamente. Lá está, por exemplo, o trabalho da Casa Museu. Fizemos uma grande investigação em relação a este relógio, que é um relógio de noite, que é uma peça fantástica.
O que quer dizer ser um relógio de noite, Maria?
Quer dizer que tinha uma candeia de azeite embaixo e a candeia de azeite alumiava por trás o mostrador, que tem vidro pintado, os números são em vidro pintado e, portanto, dá as horas durante a noite. Pode-se ver as horas durante a noite.
Incrível.
Neste caso, ele vinha com essa proveniência e está publicado em muitos livros com essa proveniência, só que contratamos um senhor, um inglês, um investigador inglês, para fazer essa pesquisa e chegamos à conclusão, por pormenores técnicos, que há uma impossibilidade técnica. O relógio estará datado de 1670 e não de 1664, que era quando havia a referência no diário de Samuel Pepys, que diz, o cronista da época, que vai aos apartamentos da Rainha de Bragança e descreve lá um relógio de noite. Portanto, especificamente este não podia lá ter estado, porque datamo-lo agora de 70 e não de 64.
Porque é posterior. É importante este trabalho de castar os conservadores e a investigadora, que é o teu trabalho também.
Muito importante, exatamente.
Muito bem. Além de todo este salão dos relógios, tem também muita pintura, incluindo dois pretensos Rembrandt, que depois sabe-se que não são, mas que ele comprou como Rembrandts.
Comprou.
E é engraçado, guardou as faturas e tudo, pagou 12 milhões de, não sei do que é que era, de francos franceses nessa altura, para uma coleção da baronesa Castle von Dor Que tinha a fatura e tudo. Há Enriques Medinas, há Velo Salgado, esses eram amigos da família também. Há o casal, por exemplo, o casal está pintado pelo Henrique Medina, o Carlos Botelho, uma série de obras. Dentro da ourivesaria também tem o serviço de chá e café do Napoleão.
É um serviço de prata português.
Prata portuguesa.
Do António Firmo da Costa.
Que o levou para o exílio, em 1800.
Exatamente. O navio que passou na Madeira, no Funchal, levando o imperador deposto para a ilha de Santa Helena, adquiriu este serviço, que por alguma razão estaria à venda no Funchal, e nessa ocasião terão mandado gravar o "N" de Napoleão com a coroa de louros no bojo das peças do serviço. Portanto, após a morte de Napoleão, houve vários leilões, um deles temos a documentação toda de quem comprou e depois posteriormente a família vendeu.
Acabou por ir parar às mãos de António Medeiros e Almeida.
Exato.
Em boa hora. E assim é conservado e pode ser visitado por toda a gente. E também queria só destacar esta peça, esta taza, esta salva de pé, no fundo renascentista, italiana, dos imperadores. É um conjunto que há de 12 que há no mundo, com o imperadorzinho em estátua no meio, e depois é uma salva redonda, que normalmente a salva tem umas histórias, tem cenas da vida dele ou cenas notáveis da vida dele, e no meio tem o imperador. E há 12 no mundo e nós temos uma, mas que está trocada. O imperador não corresponde às cenas que estão embaixo. Até qualquer dia, porque isso vai deixar de acontecer, não é?
Parece que sim. Existem, de facto, estas 12 taças espalhadas em museus e coleções particulares pelo mundo, mas entretanto foi feita uma exposição que as reuniu e as estudou, e chegamos então à conclusão que temos exatamente o contrário. Nós temos a figura do Galba e o prato com a vida do Calígula e temos exatamente o contrário da peça de um colecionador.
Inglês.
Exato.
Que tem o contrário. Tem as cenas da vida do Galba e o Calígula na estátua. E ele aceitou trocar.
Aceitou trocar, aceitamos todos, em primeiríssima mão estamos aqui a revelar isso.
Boa.
E isso então vai ser feito.
Depois desta exposição em boa hora que aconteceu no Metropolitan.
No Metropolitan, sendo que já sete peças estão trocadas. Portanto, isto é um caminho que os museus e os colecionadores estão a fazer de modo a repor a verdade histórica das peças.
O nosso, pra já, teve sucesso.
Há que dizer que o Museu de Arte Antiga tem um prato pertencente a esta coleção.
Sem o imperador?
Sem o imperador. É a única peça que está desmontada, sendo assim, há um colecionador que tem a peça montada com um prato já do século XIX, de imitação, e o prato verdadeiro está aqui no Museu de Arte Antiga.
Muito bem, dos 12 no mundo, não é mau. Temos o rasto de duas. E depois a joalharia, escultura, também as tapeçarias, a coleção não tem fim de coisas boas, dos vidros, das caixas, das gravuras, dos instrumentos de precisão. Este barômetro que falávamos há bocado, de pé de marfim do século XVIII, uma peça que já foi a peça do mês também, muito bonito. Os leques, as harpas, as decorações, as fotografias, muita coisa que tem esta coleção grande desta casa e que chegou a ganhar um prêmio recentemente, um grande prêmio da relojoaria, por ser a mais valiosa coleção de relojoaria do país, estar aqui na casa onde tu trabalhas. E eu queria aproveitar esses minutos finais, Maria, para que me falasse um bocadinho das várias iniciativas que a casa tem, por exemplo, além da pausa do mês. Todos os meses há um dia que escolhem?
A pausa do mês é a peça do mês, a peça que está em destaque no mês, que nós destacamos, em que desenvolvemos um estudo sobre a peça e, pra além de publicar no nosso site, duas vezes por mês, às segundas, quartas e quintas-feiras do mês, fazemos uma visita à hora do almoço sobre a peça especificamente. É suposto ser uma visita para quem por ali trabalha ou pra quem tem disponibilidade. Uma visita rápida, curta, uma meia hora sobre a peça, mas é dedicada exclusivamente à peça.
Àquela peça. Portanto, passa-se às segundas, quartas e quintas-feiras do mês, por volta de 13h30.
13h30.
Pronto. E depois tem exposições temporárias, que acontecem de vez em quando.
Exposições temporárias, que se fazem no sentido de cativar novos públicos e de dar ao público uma razão de voltarem à Casa-Museu.
Tem visitas livres. As visitas são livres e individuais, mas aos sábados de manhã?
Aos sábados de manhã, a entrada é gratuita e no primeiro e terceiro sábado do mês existe uma visita guiada gratuita.
Que vale a pena.
Que começa ao meio-dia e dura cerca de uma hora, onde se dá uma volta pela casa e se fala dos destaques. Isto porque as visitas guiadas à Casa-Museu são pagas e, portanto, queremos dar a oportunidade que toda a gente possa ter uma visita guiada. Claro que as dos sábados serão um pouco mais concisas do que as durante a semana, que são pagas.
Exatamente. Tem também uma nova loja?
Temos uma nova loja acabadinha de inaugurar, linda de morrer.
M Art.
É da M Art, é uma parceria que fizemos com a M Art, que produz merchandising e então aproveitamos para poder ter merchandising a partir dos nossos produtos, portanto, peças únicas, exclusivas, à venda na nossa loja.
Muito bem. Nesta casa também se passam muitos lançamentos e muitas conferências, cursos, eventos. Eu lembro, por exemplo, que havia coisas sobre o chá e sobre a história do chá, por exemplo, uma coisa que já lá aconteceu também uma vez.
Há muitos eventos. Temos a Sala do Lago, que é um espaço de excelência.
Muito bonito, tudo em mármore, com uma fonte no meio, lembro, com os azulejos à volta. E também o teto em caixotões, também é muito bonito. Há alguma história curiosa daquele teto ou não?
O teto é um teto português pintado, século XVII, início do XVIII.
Muito bonita essa sala.
Sim, que representa os quatro continentes, uma representação típica desta época e que dá à sala uma acústica fantástica. E, portanto, fazem-se ali eventos de toda a natureza.
Lançamentos, livros.
Nossos eventos próprios.
E cursos também. Dão cursos, ou não?
Sim, damos cursos. Gostamos muito de ter cursos no âmbito da nossa coleção de ourivesaria, de relojoaria.
Esta coisa, por exemplo, dos chás, que já lá aconteceu, eu estive lá uma vez. Não sei se é uma coisa com continuidade ou não, mas é muito curioso porque aquela casa também conserva imensos serviços disto, serviços daquilo. Portanto, é giro, tem um pouquinho a ver com a vivência daqueles tempos e daquelas coleções que ele fazia, António Medeiros e Almeida. Portanto, é muito curioso este gênero de cursos e de conferências haverem naquele espaço.
Claro, tentamos criar coisas diferentes que possam atrair público, porque são cursos que se passam ao fim da tarde e, portanto, queremos cativar o público pra que ao fim de dia de trabalho ainda possa lá chegar e ir mais um bocadinho ali à Casa-Museu aprender coisas novas.
Exatamente. Fica aqui o convite, reforço a todos este convite também especial pra irem a esta Casa-Museu da Fundação Medeiros e Almeida, de segunda a sábado, das 10h às 17h, ali na Rua Rosa Araújo, ali bem no centro de Lisboa, perto da Sociedade Nacional de Belas Artes, a Cinemateca, naquela zona toda que ali pertinho há tanta coisa importante pra ver e tanta gente ainda não conhece. Não temos tempo pra mais, infelizmente. Maria, queria te agradecer, mais uma vez, obrigado por teres aceitado este nosso convite.
De nada, querido.
Pra nos falar deste português notável e deste verdadeiro tesouro no coração de Lisboa, que é esta Casa-Museu da Fundação que ele nos legou. Fica o convite aqui pra todos poderem visitar. Já vos disse, mais uma vez, de segunda a sábado, das 10h às 17h.
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.