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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta quarta-feira. Depois, para entrar em direto para nos dar a sua opinião, só tem que ligar 91 002 41 85, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. O número é sempre o mesmo: 91 002 41 85. Carla. SpaceX, a empresa de foguetões e de satélites de comunicações de Elon Musk, entrou na bolsa no final da semana passada com tanto estrondo que fez, pelo menos no papel, o seu criador e principal acionista, Elon Musk, o primeiro trilionário da história. Estamos a falar de uma fortuna que pode corresponder a três ou quatro vezes o PIB português. É um valor difícil de imaginar. Como foi possível e faz sentido? E o que faz de Musk uma espécie de Midas moderno, que transforma em ouro tudo aquilo em que toca? A estas e outras questões vamos tentar responder no Contracorrente de hoje. Bom dia, José Manuel.

Bom dia.

O que pode significar ser assim tão rico?

No caso de Elon Musk, eu acho que isso é muito significativo, significa que o dinheiro multiplica-se, e multiplica-se porque ele reinveste permanentemente. Repara, Elon Musk era um miúdo pobre que nasceu na África do Sul, que foi vítima de bullying na escola, que tinha um pai violento e quando tinha apenas 12 anos, esteve 67 horas seguidas a programar um jogo de computador, que depois vendeu por $500. Foi o primeiro dinheiro que fez. E a partir daí nunca mais parou, por assim dizer. Ele viajou primeiro pro Canadá, depois para os Estados Unidos e quando recebeu um convite para se tornar professor e fazer o doutoramento, disse: "Não, eu vou é pra Califórnia, vou pra Silicon Valley, está a acontecer uma coisa nova, que é a internet, e eu acho que ali há muito futuro." Ele fez isto com o irmão, alugou um pequeno escritório, achou que havia uma oportunidade no mercado dos anúncios classificados, a Craigslist, uma coisa que veio roubar a empresa tradicional. E, em princípio, ele e o irmão dormiam no chão do escritório. Quando tinham encontros com investidores e com banqueiros, enfim, com quem podia investir na empresa, iam tomar banho a uns banhos públicos que havia ali perto, para vestir um fato e ir pedir financiamento. E ao fim de poucos anos, três anos, tinha ele apenas 26 ou 27 anos, vendeu essa empresa e fez $22 milhões, a sua primeira fortuna. E pegou nos $22 milhões, em vez de ir comprar casas, fazer aquilo que muitas pessoas fazem, já não precisava trabalhar mais no resto da vida, reinvestiu tudo numa empresa chamada PayPal. Isso aí já toda a gente conhece, a PayPal. E passado mais meia dúzia de anos, vendeu a PayPal por $180 milhões. Pegou nos $180 milhões e foi comprar uma empresa de automóveis, uma empresa que existia, que estava a tentar fazer carros elétricos, não se via bem como é que havia de fazê-los, que era a Tesla, e criou uma outra empresa chamada X, ou melhor, essa já existia. Achou que o caminho era o espaço. Entre outras razões, porque foi ao site da NASA e viu que a NASA não tinha nada dedicado a Marte. Ele achava e acha que o futuro está em Marte, ele tem o sonho de morrer em Marte e não é por cair lá ou quando fosse chegar a Marte, ter um acidente. Não, é viver lá e morrer lá. E iniciou a SpaceX. Quando ele iniciou a SpaceX, toda gente dizia: "É louco. O espaço é um tema para o Estado, o Estado é que consegue fazer isso, é muito dinheiro, é muita coisa". E ao fim de pouco tempo, ele criou uma constelação, criou uma coisa que não é apenas uma empresa de foguetões. Os Estados Unidos, na altura, tinham perdido a capacidade de colocar o que quer que seja no espaço, os vai e véns estavam em crise. Durante décadas, os Estados Unidos dependeram de foguetões russos para colocar pessoas em órbita, em estações espaciais. E agora é o contrário. Ele tem o quase monopólio das idas pro espaço. E ele em boa parte faz isso porque o miúdo que programava é o miúdo que sabe os detalhes de tudo. E esta empresa tem aquele valor absolutamente estratosférico, porque não é propriamente só uma empresa de foguetões, como eu estava a dizer. É uma empresa que tem os foguetões, é uma empresa que tem uma rede de satélites de que dependem cada vez mais as comunicações. Estamos a falar de 10 mil satélites. E é uma empresa que planeia colocar em órbita aquilo que ninguém quer na Terra, que são centros de dados. Para quê? Porque ele acha que esses centros de dados alimentados por painéis solares vão ser muito mais rentáveis, muito mais eficientes. E ele fala em colocar em órbita 1 milhão de satélites. É sempre uma coisa absolutamente descomunal. Toda gente diz que ele é louco, mas ao fim de pouco tempo, ele foi um visionário. E tem repetido isto várias vezes. Às vezes agora, quando ele se tornou trilionário, diziam assim: uma senadora americana: "Isto é não sei quantos milhares de anos de vida de uma família normal americana." Não é verdade. Porque verdadeiramente, a riqueza que ele criou não existia antes. Ele não roubou nada a ninguém, não foi roubar os satélites a ninguém, não foi roubar os foguetões a ninguém, não foi roubar os Teslas a ninguém. Criou! E isso é algo que temos que perceber como é que acontece e como é possível que de repente surjam figuras destas. Ele não é o único caso neste domínio, há vários, foi antecedido por outros, talvez tenha levado isto pra uma nova dimensão. Mas enfim, agora há quem fale no Muskismo como sendo o capitalismo do século XXI, como o fordismo foi o capitalismo do século XX. Mas no fundo, isto é uma capacidade de inventar, criar, transformar, que nos toca a todos. De repente, nós estamos a fazer coisas que nem imaginávamos possíveis, porque pessoas como Musk e como outros antes de Musk, transformaram completamente a vida de todo mundo, de toda gente. Porque se hoje andamos com o computador no bolso, isso também se deve, por exemplo, ao Steve Jobs, que é de alguma forma alguém que tem outras características, mas também muitas coisas, diria, comuns. É evidente que a parte da sua personalidade também é muito interessante de ver. E há outra coisa que é muito interessante de ver: por que as pessoas compram ações que aparentemente desafiam a racionalidade e desafiam os números. Quando nós olhamos pra comparação desta empresa com outras empresas, como é que isto pode valer tanto? Vamos falar um pouco disso tudo. Acho que é bastante entusiasmante.

É, até já, José Manuel. 91 002 41 85 para entrar em direto no Contracorrente. Também nos pode enviar a sua mensagem de voz através do WhatsApp ou então deixar os seus comentários nas nossas redes sociais ou no site do Observador.