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Muito bom dia. A empresa de foguetões e de satélites de comunicações de Elon Musk, a SpaceX, entrou na bolsa no final da semana passada com tanto estrondo que fez de Musk o primeiro trilionário da história. Estamos a falar de uma fortuna que pode corresponder a três ou quatro vezes o PIB português, um valor difícil de imaginar. Como foi possível? Faz sentido que uma só pessoa seja tão ou mais rica que vários milhões? E o que faz de Musk uma espécie de Midas moderno, que transforma em ouro tudo aquilo em que toca? A estas e a outras questões, vamos tentar responder no Contracorrente de hoje. José Manuel, bom dia.

Bom dia.

Elon Musk vale mais que muitos países. O que significa ser assim tão rico? Consegues imaginar?

É engraçado termos este debate, mas este debate está um pouquinho inquinado, porque aquilo que é uma riqueza contabilizada em valorizações bolsistas e a riqueza de um país contabilizada em produto, em produção, são coisas completamente diferentes. São coisas completamente diferentes. Inclusive, quando nós falamos de bolsa, nem sequer estamos a falar de propriedades, de ranchos.

Património.

Património. Estamos a falar de uma coisa que é diferente, substancialmente diferente, portanto, muito mais volátil. E sobretudo no caso concreto de Elon Musk, a forma como ele tem usado os muitos milhões que foi gerando ao longo dos anos é absolutamente extraordinário, porque está muito fora daquilo que é o nosso padrão habitual. Aliás, Musk está fora de tudo, em muitos aspectos. É uma pessoa que já era muito conhecida antes de se envolver mais politicamente. Até porque ele mudou um bocadinho politicamente, ele estava mais ligado aos democratas, depois ligou-se ao Trump, depois desligou-se do Trump. Mas independentemente disso, o que é importante quando nós vemos o que está a passar, é tentar perceber o que significa. Musk não é o único, é talvez o mais conhecido, aquele que foi em muitos aspectos mais ousado e mais disruptivo, mas há outras figuras, outras pessoas, outros nomes no universo desta nova economia. Havia um bocadinho essa maneira simples de tentar explicar coisas novas que estavam a acontecer e que, de facto, não há dúvida, é completamente novo. Vamos ver algumas coisas aqui que são novas. Primeiro, se nós seguirmos a lógica habitual da valorização de uma empresa e da valorização bolsista, isto está fora de tudo.

Está fora de tudo por causa do valor ou do modelo?

Por causa do valor. Estamos a falar de uma empresa que valeu em bolsa 96 vezes as suas receitas anuais. Habitualmente, muitas vezes quando se valoriza uma empresa é assim 10 vezes o EBITDA. O EBITDA é o resultado líquido. Estamos a falar de uma empresa que tem, neste momento, lucros, portanto, resultado líquido, mas o resultado líquido é uma parte.

A SpaceX não tem lucros.

Já teve. A SpaceX, se contares com a parte das telecomunicações.

Sim. A SpaceX, no seu conjunto, não tem lucros, teve prejuízos este ano e teve prejuízos no primeiro trimestre também.

Sim, mas estás a falar da SpaceX, estás a falar de prejuízo ou estás a falar de resultado líquido?

Não, EBITDA não, EBITDA teve.

EBITDA teve, mas eu estava a falar de EBITDA. EBITDA é o resultado líquido quando falamos de resultado global, em que entras outros fatores.

Entre os encargos financeiros.

Os encargos financeiros, essas coisas todas. Os investimentos são calculados de outra forma.

É que isto ainda torna a questão mais absurda, aquilo que tu referiste.

Absurda, não, mais surpreendente. Eu não sei se é absurdo.

Como eu já vi o colapso das dotcom, como tu também viste, uma pessoa fica de pé atrás.

A grande questão é que nem todas colapsaram. As dotcom nem todas colapsaram.

Mas desvalorizaram, não é?

Quando nós olhamos para empresas que de alguma forma derivam das dotcom, como a Google ou como a Apple, não podemos dizer isso. O problema é, as que triunfaram, não desvalorizaram. As que não triunfaram, desapareceram. Não precisaram desvalorizar. Algumas desapareceram mesmo, morreram. Ou matas ou morres. Foi um bocadinho isso. Isto é um bocadinho diferente, de facto. Quando estamos a falar 96 vezes aquilo que é as receitas do exercício, é algo de alucinante. Isto deveria valer uma pequeníssima fração. Se fosse uma empresa consolidada, tradicional, valeria 100 vezes menos, se calhar, ou 200 vezes menos, ou 300 vezes menos.

Desculpa interromper-te mais uma vez. A NVIDIA, que é neste momento a empresa mais valiosa do mundo, para quem não está familiarizado com isto, é uma empresa de chips, daquelas coisas que fazem funcionar os computadores e os telemóveis. É a empresa mais valiosa do mundo, o máximo que chegou foi a 27 vezes a receita.

Vinte e sete vezes. Isto é muito fora do comum. Já vamos tentar perceber como é que isto chegou aqui. Vamos tentar perceber como é que isto chegou aqui. Porque há mais coisas. Por exemplo, a Tesla sozinha, eu não me queria enganar, mas a Tesla sozinha vale mais do que a Toyota, a Ford, a General Motors, a Volkswagen, a Mercedes-Benz e a BMW, todas somadas. As pessoas dizem assim: "Mas como é que é possível?" O exemplo da Tesla é, de alguma forma, um bom exemplo, porque a Tesla é uma empresa que, se tu vires bem, toda a gente copiou a Tesla. Todos os carros elétricos que estão agora no mercado, inclusive os chineses, que já vendem mais que a Tesla, pegaram no Tesla, desmontaram em bocadinhos e tentaram fazer igual ou melhor. E curiosamente, e este aspeto também é interessante, as pessoas dizem: "Mas agora a Tesla está tramada, porque o Musk foi olhar para o Doge, para a política americana, descurou a Tesla e, portanto, a Tesla já foi ultrapassada pela BYD, a Tesla teve menos resultados do que se esperava. Há mercados onde a Tesla está a perder quota de vendas". O que é que essas pessoas estão a esquecer-se? É que a aposta, neste momento, de Musk já é um passo à frente. São os carros automáticos.

Carros autónomos?

Carros autónomos, quer dizer, não automáticos, autónomos, carros que andam sem condutor, já existem da Google, mas quando chegar o do Musk, o conceito é completamente outro. Estamos noutro planeta, noutra dimensão. Portanto, aquilo que ele tem conseguido fazer ao longo da vida, e desse ponto de vista, o aspecto psíquico também é muito interessante, é sair completamente da norma. E há uma coisa que é muito engraçada quando se ouve ele a prestar declarações, é que quando ele sente uma dificuldade, quando alguém lhe diz: "Não é possível", ele diz: "Explica-me porque não é possível. Diz-me lá porque não é possível. E se a gente fizer assim? E se a gente fizer assado? E se a gente fizer de outra maneira?" E vai rompendo aquilo que são padrões. E desse ponto de vista, ele é uma pessoa que quando se olha para a vida dele, se procuram encontrar as explicações de como é que ele está onde está, tudo ali é fora do comum. Primeiro, ele é sul-africano, não é americano. Ele nasceu na África do Sul, numa África do Sul ainda do apartheid, uma África do Sul onde ele teve uma infância infelicíssima. O pai era um bruto, batia na mãe, era violência doméstica. Era um miúdo que não jogava futebol e, portanto, gozavam com ele na escola. Foi vítima de bullying, como dizemos. E, no entanto, desde o princípio, ele tinha coisas completamente fora do comum. Aos 12 anos, ele fecha-se durante 67 horas, sem dormir, para programar um jogo de vídeo no computador. Estamos a falar de uma coisa ainda nos anos 80. E faz o seu primeiro dinheiro, 500 dólares. Com 12 anos. Quando acaba o que nós chamamos aqui de secundário, muda-se para o Canadá. O Canadá era pequeno para ele, muda-se para uma das grandes universidades americanas, que é a Penn, da Pensilvânia. Repare, ele faz isto sem dinheiro, ele tem que pedir empréstimos. E quando chega ao fim do curso, é convidado para continuar, fazer o doutoramento. Ele disse: "Não, eu vou agora para..." Quer dizer, onde tinha uma carreira mais ou menos garantida, onde faria as coisas by the book. Diz: "Não, eu vou para a Califórnia, vou para Silicon Valley". Estamos a falar em 94, 95. Em 94, 95, quem é que já tinha ouvido falar da internet? A primeira internet em Portugal foi em 95.

Estava.

Foi em 95. Ele muda-se para lá porque está a aparecer uma coisa nova e a primeira ideia que tem é logo entrar em concorrência connosco, em mídias tradicionais, que é classificados. E ele faz uma aplicação, um site, faz classificados. E faz isso com o irmão. Ao princípio, e isto é uma coisa que se vai verificar ainda hoje, que é ele mete as mãos na massa, ele não é apenas a pessoa que mete dinheiro. E, portanto, ele e o irmão dormiam no escritório, que era um escritório mínimo, tinha espaço para duas secretárias, dormiam no chão, no escritório. Quando tinham que se encontrar com investidores, iam tomar banho a uns banhos públicos que havia ali perto e vestiam um casaco, porque eles nem sequer tinham onde tomar banho. Quer dizer, tudo isto é muito relativo ao tipo de mentalidade.

É muito sonho americano.

É muito sonho americano. E passado três anos, ele vende a empresa e empocha 22 milhões de dólares. O que é que a maior parte das pessoas neste mundo fariam empochando, com menos de 30 anos, 22 milhões de dólares? Compravam uma casa, punham a render e íamos para Acapulco ou para as Caraíbas viver o resto da vida. Não, ele pega nos 22 milhões de dólares e mete-os todos num novo investimento. Nessa altura, ele vai se juntar a outra pessoa deste mundo, que também é uma figura bastante extraordinária e muito polêmica, talvez ainda mais polêmico que ele, que é o Peter Thiel, e vão criar a PayPal. Quer dizer, aquilo é um pouquinho mais complicado, mas no fundo, o resultado daquilo é a PayPal. PayPal hoje é um dos meios de pagamento mais vulgares do mundo. Devo dizer que nem sabia que ele tinha passado pela PayPal antes de começar.

Que a empresa era dele. Que tinha sido dele.

Que tinha sido dele, eu não fazia ideia. Eu uso PayPal há muitos anos, que é de facto muito confortável, muito prático, muito fiável, muito seguro. E passado mais de meia dúzia de anos, 160 milhões de dólares.

Venda PayPal.

Venda PayPal, 160 milhões de dólares. O que é que ele faz? Agora que não era necessário. Ele mete o dinheiro todo para comprar uma empresa que já existia, que era a Tesla, mas que não se percebia bem para onde é que aquilo podia ir, e para apostar na aventura espacial Ele achava que o futuro era para aí. Primeiro que nós tínhamos que ir para Marte, ele tem a obsessão de Marte há muito tempo. Ele diz que gostaria de morrer em Marte, não morrer em Marte quando chegasse lá e o foguetão cair. Morrer em Marte, ir para lá viver e morrer lá. Ficar lá sepultado. E aqui há uma coisa muito interessante, que é logo no princípio, ele tinha 32 anos nesta altura, ele é ouvido no Congresso dos Estados Unidos, onde o Congresso está preocupado, porque a América parece estar definitivamente a perder a corrida espacial. O programa Apollo é passado a calendas gregas, o programa dos Space Shuttles estava em grande crise, dois tinham explodido, 14 astronautas mortos. O que fazemos? E o que é que fazemos era sem resposta, porque durante uns tempos, os astronautas americanos para irem para o espaço, dependeram de foguetões russos. E será que vamos ficar dependentes dos russos? E aquele miúdo de 32 anos, chega lá e começa logo por fazer protestos. Diz que a NASA fez um contrato sem concurso, sem nada, não estimulou concorrência, deu a um cliente. Os senadores mandaram o calar e ele disse que não pode continuar assim. Nós não podemos continuar a trabalhar desta forma, o Estado não consegue resolver isso, tem que haver concorrência, tem que haver outros operadores. Vou vos dar um exemplo. Há um sítio de lançamento, onde são lançados foguetões. Cada vez que é lançado um foguetão, tem que haver uma espécie de estudo de impacto ambiental, para saber se umas focas que vivem ali perto são ou não são atingidas pelo lançamento do foguetão. Cada estudo desses são $10.000. Enfim, $10.000 nisso não é nada. Mas eu devo dizer, desde que começaram a lançar foguetões, a população de focas cresceu 30%, portanto os foguetões quando muito são afrodisíacos. Os senadores riram-se, mas não ligaram nenhuma, que ele era um deslocado, que vinha para ali dizer que o futuro estava no espaço. Nunca iria haver voos espaciais, foguetões, operações espaciais privadas capazes de gerar. Mas ele vai fazer isso, e está a fazer isso neste momento. Repare, ele começou por construir foguetões mais baratos, reutilizáveis, e construiu-os discutindo com os engenheiros peça a peça. Ele em algumas alturas críticas da história da SpaceX, mudou-se para uma roulotte ao pé da fábrica. O mesmo que tinha acontecido já na Tesla, quando a Tesla, por exemplo, começou a atrasar a produção do Série 3.

É obsessivo.

Ele dormia no chão da fábrica. Ele conhece a fábrica no seu detalhe.

A outra característica do grupo dele, da SpaceX, que também é invulgar, que é uma enorme integração vertical. Eles produzem quase 80%, ou mais de 80% do material que integram no Falcon, nomeadamente no Falcon 9.

Repare, isso é uma coisa que ele tem os foguetões. Aquilo não é só uma empresa de foguetões. Neste momento é uma empresa de foguetões, é uma empresa de satélites. Agora não é este telemóvel, é a rede do Musk de satélites de telecomunicações, Starlink. Já tem, sabes quantos satélites?

Não sei.

10 mil.

10 mil satélites?

10 mil satélites. É a única empresa do mundo, não há nenhum Estado que consiga fazer isso, que sabe gerir constelações de satélites. Porque aquilo é uma constelação de satélites. Porque os satélites do GPS ou do Galileo são constelações, não sei quantos satélites terão, mas são umas dezenas. Quando muito umas centenas, não são 10 mil. O que ele agora quer fazer? E isso é o que ele está a apresentar. É muito interessante ver as entrevistas que ele dá, porque ele explica isto. Às vezes, se ele contasse a toda a altura, nós não conseguimos acompanhar.

É ficção científica.

Não é só ficção científica, é tecnicamente. Ele fala dos pormenores técnicos, da dificuldade da técnica. No outro dia tive a ver uma com ele e o chefe do programa espacial. O chefe do programa espacial parece um hippie saído de uma curtição à noite. Mas é um génio. Ele está ali a discutir aquilo e a explicar como é que aquelas coisas vão acontecer. E ele diz que uma das coisas importantes vai ser claramente a inteligência artificial. E na inteligência artificial, a questão dos dados. Dos dados, dos centros de dados, essas coisas todas. E o plano é claro da energia, e o limite é a energia dele. É completamente um pensamento fora da caixa.

Ficamos maravilhados.

É um pensamento fora da caixa. As contas que ele faz. É a energia do sol. É a energia do sol global. E diz: "O nosso problema na Terra é que nós não devíamos chamar Terra, devíamos chamar mar, porque 70% é mar e a gente no mar não consegue pôr painéis. Portanto, vamos pôr os painéis no espaço." E no espaço os seus painéis e aquilo que ninguém quer agora no seu backyard, no seu quintal, que são os centros de dados. E aí ele fala em 1 milhão de satélites. E diz que são mais simples que estes da Starlink. Os satélites da Starlink são mais complicados. Estes para ter os centros de dados são satélites mais simples. Eu ouvo vender este sonho, porque tem um lado de sonho. Pode ser um sonho visionário, mas tem um lado de sonho.

É o sonho que está a ser vendido.

É este o sonho que ele está a ser vendido, e é por isso que se justifica aquele valor informal. E por isso quando, por exemplo, uma senadora americana, a senhora Warren, diz que é um escândalo trilionário, isto é a vida inteira de 11 mil famílias americanas Isto é um pouquinho inesperado. Por que é um pouquinho inesperado? Vamos lá ver. Nada dessas coisas que ele criou ele roubou alguém. Ele não roubou a Tesla a ninguém. Esta constelação de satélites, não foi buscar a ninguém. A única coisa que ele fez, ele comprou foguetões. Ou tentou comprar, não consegui perceber se ele conseguiu chegar a fazer o negócio. Mas quando começou a entrar no negócio de foguetões, foi à Rússia tentar comprar os ICBM, os mísseis intercontinentais russos, porque eles iam destruí-los. E ele disse: "Eu fico com dois, quero ver como é que eles são." Os russos são bons nisso. Ou pelo menos eram bons nisso. Agora imagina assim, quem é que lhe passa pela cabeça, de repente, meter-se num avião, aterrar em Moscou e dizer: "Eu quero comprar dois mísseis balísticos. A parte nuclear não quero, as cabeças, as armas atômicas que levam eu não quero, quero o resto, quero ver o resto." Mas isto pra ele é muito importante, porque ele precisa perceber como é que funciona tudo. Porque, por exemplo, tudo aqui é novo, são os novos materiais, são os novos combustíveis, a mistura de combustíveis, tudo é novo, tudo é completamente novo e obviamente é disruptivo. E desse ponto de vista, há quem fala agora de uma coisa que é o Muskismo. Muskismo é uma espécie de fordismo. O Muskismo é a forma de inovar e de mudar a economia, mudar a maneira de funcionar do século XXI. O fordismo, pra quem não se recorda, Henry Ford, fundador das fábricas da Ford, primeira produção em massa, em pertencimento, fazer chegar o carro de primeira linha de montagem, essas coisas todas. E agora há uma maneira de trabalhar que será o Muskismo. Já há livros sobre isso, mas é difícil, não sabemos se vai triunfar ou se não, logo veremos.

Ele é muito um homem. O fordismo foi um processo.

Sim, está bem. Mas repare, é muito um homem, mas quando nós vemos, por exemplo, a história de muitas das pessoas que o rodeiam, alguns zangaram-se, outros continuam, outros saem, aquilo é um pouquinho diferente. Por exemplo, nesta história da SpaceX, houve milhares de funcionários da SpaceX que de repente ficaram literalmente milionários. E quando falamos de funcionários, é operários de chão de fábrica, não é apenas o quadro superior.

Quer dizer, milionários teoricamente.

Não, se venderem. Se venderem nestes dias.

Têm títulos que se venderem, vão realizar dinheiro.

Se alguns seguramente já os venderam, porque o número de ações trocadas, os títulos trocados nos últimos dias da SpaceX bateu o record anterior, que era a Meta. A Meta é Google, que era o anterior record, que vinha de 2012. A negociação e a valorização nas primeiras 24 a 48 horas. Agora, o homem é de fato destravado, mete-se na política, comprou o X, o Twitter agora chama X, anda metido com o Trump. Toda mundo já sabe que ele já sangou com o Trump, mas uma das entrevistas que vi nos últimos dias sobre ele, tem uma certa altura, nem é a pergunta que estão a fazer, mas ele quer falar sobre isso, e então dá uma explicação para ele ter saído do Dodge, daquela coisa. Ele dizia assim: "Aquilo é como se eu estivesse numa praia a apanhar agulhas e lixo pra recolher, pra tirar de lá, pra ficar a praia limpinha. E de repente reparava que vinha aí um tsunami, como uma onda de 100 metros, que é a inteligência artificial. O que eu estou a fazer na praia? Tenho é que ir pro tsunami." E ele é das pessoas que mais têm falado sobre inteligência artificial. Evidente que tudo isso de inteligência artificial levanta, e já falamos isso algumas vezes, levanta N interrogações, mas quando o vemos falar, ele anuncia-nos um mundo completamente diferente. Vai ser assim, vai materializar-se assim. Ele acha que no final do século vai haver pra aí 10 vezes mais robôs do que seres humanos. Robôs humanoides do que seres humanos. Será que isso vai acontecer? Se calhar vai. Quem é que diria há 15 anos que de repente nós andávamos com um supercomputador no bolso, como hoje andamos todos. E andamos todos não é nos países ricos, andamos todos daqui até os confins da África. As coisas de repente são totalmente diferentes e há aqui um lado de otimismo tecnológico que, pra mim, pessoalmente, não deixa de fascinar, até porque eu muitas vezes não consigo antevê-lo e tendo mais às vezes a ser pessimista do que ter este otimismo tecnológico, que de resto eu às vezes encontro em engenheiros, amigos meus engenheiros, quando eu digo: "Isso não vamos lá." "A tecnologia vai resolver, a gente dá a volta." E é um pouquinho a história dele. Por isso acho que quando nós olhamos pro Musk, temos que perceber que talvez como empresário, ele é sobretudo uma pessoa que toma riscos que ninguém normalmente tomaria. Como gestor, eu encontro nele alguns paralelos com gestores de primeira geração, não é apenas aqueles que fizeram tudo, que fizeram o seu mundo, mas aqueles que sabem tudo desde o chão de fábrica até o topo. Eu trabalhei com um, quer dizer, trabalhei longe, mas trabalhei com um, que era o engenheiro Barbosa e Silva.

E tem outras parecenças, é interessante lembrares disso.

É, porque eu estava ao mesmo tempo a ouvir e dizer assim: há aqui coisas que eu vi, enfim, numa escala diferente.

Até do ponto de vista da engenharia financeira.

É, porque agora isto é um IPO. As pessoas dizem: o que é um IPO? Um IPO é o que nós aqui em Portugal chamamos OPVs, oferta pública de venda, e as OPVs da Sundai ficaram famosas nos anos 80, está lá há muito tempo atrás. E também foi um milagre financeiro que ele ali fez.

Vamos perceber se esta operação é viável ou não, porque temos o presidente da Agência Espacial, não é?

Sim, e vamos ter também ao longo do programa a Alexandra Machado, que é editora de economia do Observador, que nos vai explicar como é que se monta uma operação desta envergadura. Mas sim, temos aí em linha o Ricardo Conte, que é presidente da Agência Espacial Portuguesa. Bom dia

Olá, bom dia.

Bom dia. Vamos pegar nesta ideia defendida por Elon Musk, criar uma espécie de data center flutuante pelo espaço. Ele diz que é a única forma de se conseguir escala. É mesmo assim, Ricardo Conde?

Nós não sabemos se é bem assim, até porque estamos numa fase ainda de perceber se, de fato, é assim. Mas deixe-me só dizer aqui alguns aspectos que penso que são extremamente importantes. A valorização da SpaceX, enfim, tudo que o Elon Musk toca parece que vira ouro.

Exato.

E agora nós vimos isso.

É o toque de Midas.

Eu estou agora num conselho da Agência Espacial Europeia, aqui em Paris, e estamos exatamente a tentar perceber como é que a Europa pode, de alguma forma, preencher estes gaps que nós vemos cada dia ser maiores, que vêm da outra parte do Atlântico. E nós falamos aqui naquilo que se chama o Musk Effect. Ou seja, na realidade, esta onda já tem uma denominação, que é o Musk Effect, e de alguma forma molda os comportamentos e faz o push. Repare que toda a geopolítica hoje é influenciada pelo technology driven, ou seja, é o push tecnológico que, de alguma forma, dá aquilo que é o alinhamento geopolítico. E repare, hoje, esta empresa está a vender o futuro, a valorização desta empresa pela venda das capacidades que ainda não existem.

Pois é.

Vocês há bocadinho estavam a falar sobre a questão de Marte. Não me ponham a falar sobre Marte, porque hoje é impossível ir a Marte, não significa que a nossa ida a Marte seja na capacidade humana. Quer dizer, pode ser e vai ser a nível robótico preparado pelo menos a primeira parte.

Ricardo, mas deixe-me só interrompê-lo um minuto, sou Helena Garrido, para tentar perceber se este sonho, que na prática é isso que está a ser vendido, é o sonho do futuro, que passa muito pelo Starship.

Sim, eu ia falar sobre isso.

Em que estado é? Quais é que são os bloqueios que existem neste modelo de negócio que ele promete para o SpaceX?

Olha, Helena, repare, há uma expressão que diz assim: "quem dominar o espaço ou quem dominar o acesso ao espaço, domina exatamente aquilo que se passa na Terra e depois aquilo que se chama o New Space Economy", mas agora já não estamos nessa fase, estamos no Next Space Economy. Já estamos num nível completamente diferente. E o que está a ser feito neste momento, em termos muito pragmáticos, obviamente, a SpaceX domina mais de 50% do mercado de acesso ao espaço. Só pra ter uma ideia, a SpaceX no ano passado fez, penso que mais de 160 voos, dá uma média de duas em duas semanas os lançamentos. A Arianespace, onde eu estou aqui agora, em particular, aqui na parte de Paris, fez seis voos. Portanto, está a ver a dimensão. E nós estamos a falar de uma empresa. Agora, repare, o grande problema neste momento, o bottleneck, aquilo que se chama o estrangulamento, é o custo de acesso ao espaço. Neste momento, o custo do Falcon 9, uma missão anda na ordem dos U$2.5 mil por quilo. O grande objetivo para a Starship, e atenção que nós já estamos na terceira ou quarta versão do Starship, isso vai ser uma realidade daqui a dois meses, isso é o que se fala aqui nos corredores, vai ser com que no futuro, e o futuro estamos a falar em dois anos, que o custo por quilo ande na ordem dos menos de U$100.

Exatamente.

Agora, nós estamos a falar de ordens de grandeza que permitem aquilo que ele quer fazer.

Exatamente.

O que é que ele quer fazer? É pôr massa.

Toneladas. Toneladas e toneladas.

Exato.

Toneladas, e a pergunta é muito concreta, que nós estamos a falar dos sistemas de storage, AI computing no espaço. Obviamente que isso tem a ver com a capacidade de transportar toda a fabricação e a integração destas capacidades no espaço.

Com isto conseguimos fazer fábricas no espaço, não é?

É esse o ponto. Mas mais, não se esqueçam aqui também de um pormenor. E vocês falaram sobre isso. Quer dizer, as empresas do Elon Musk neste momento não são ainda rentáveis.

Exato, não. Quer dizer, o Starlink é o negócio mais rentável. No fundo, o outro come dinheiro. Acho que o Starship é uns U$4 milhões por dia.

Mas não é só essa a questão, Helena, aqui outra questão que é, por exemplo, esta estrutura, a mega infraestrutura que tem neste momento a xAI, a empresa de inteligência artificial, está na capacidade de alugar aos grandes operadores. Repare que-

Já está a alugar, à Amazon e à Google.

A Google e a Amazon. Repare que só as três têm à volta de quase U$3 bilhões por mês nesta capacidade.

Mas, Ricardo, a minha questão aqui é: estamos perto de concretizar este sonho ou, como disse um professor de Finanças americano, o prospecto da oferta pública de venda é uma alucinação?

Repare, é tanta alucinação como foi a alucinação quando ele foi ao Congresso.

Claro.

Nós hoje estamos aqui a falar não é dos modelos tradicionais de negócio, em que nós analisamos à luz daquilo que são os princípios da economia, a valorização. Nós estamos aqui a olhar pra uma empresa que vai definir o futuro. Repare uma coisa, o Departamento de Defesa, agora o Departamento da Guerra, dos Estados Unidos, colocou Um contrato na SpaceX.

Sim, que foi o que salvou da falência.

Não.

Está falando do recente.

Estou dizendo do passado da NASA. Estou a dizer agora. Um contrato para aquilo que se chama o Space Domain Awareness, que é ter uma rede de satélites que tem vários milhares, centenas de milhares, aliás, com a perspectiva inclusive de incluir aquilo que é a perspectiva de mais de 1 milhão de satélites para a rede de AI, que é para monitorizar cada centímetro quadrado da Terra nesta questão de lançamentos e atividades a nível daquilo que é a nova economia militar do espaço, o domínio militar, chamado o quinto domínio. Ou seja, na realidade, tudo está a convergir para colocar os grandes contratos nesta perspectiva de futuro. Repare, departamento de guerra. Se nós olharmos para a história da SpaceX, a NASA, a partir do quarto lançamento, foi onde conseguiu, a SpaceX, um contrato, penso que na altura 1.5, 1.6 bilhões de dólares, para desmistificar aquilo que a NASA sempre disse que é: "Failure is not an option." E o Elon Musk veio dizer que: "Failure is an option because we need to innovate." Nós temos que falhar para inovar. E neste momento, a grande questão do Elon Musk e todas as empresas é a integração completa para o acesso ao espaço, a construção em órbita, a parte do processamento em órbita, grande parte dos problemas de energia vão ser absolutamente controlados com esta capacidade.

Mas aqui, deixe-me só interrompê-lo, que é: aparentemente há aqui desafios tecnológicos. Primeiro, para baixar o preço significativamente do Starship, é preciso garantir a reutilização, mas ele conseguiu a reutilização com o Falcon. Pode não ser um problema.

Também parecia impossível. É um desafio que parecia impossível à partida.

Claro.

Exatamente.

Eu digo-lhe uma coisa, nós andamos na Europa com o A36, que foi operacional a partir do ano passado, estamos 10 anos atrasados. Estamos agora a tentar perceber como é que nós vamos fazer os sistemas reutilizáveis.

Foguetões reutilizáveis, só para simplificarmos. Mas depois há especialistas que consideram que há um desafio em matéria de escudo térmico reutilizável também e depois também de hardware resistente à radiação espacial.

Sim, isso é verdade, mas isso sempre foi verdade naquilo que foi a conquista espacial. Repare que hoje nós temos-

Mas estamos mais perto de resolver esses problemas, porque o sucesso do Starship e da própria SpaceX e a concretização deste sonho depende muito da solução técnica para dois ou três problemas.

Mas isso sempre foi a grande motivação para a conquista. Isto é um problema de engenharia, repare.

Exato. E estamos perto de resolver esse problema de engenharia.

Aliás, é o pulso tecnológico para aquilo que é a fronteira do mais complexo. A questão da radiação, obviamente, é um problema. Aliás, há outros problemas, por exemplo, como é que se faz reparação em órbita? Mas isso faz parte do processo. Repare, a lógica do Starlink é uma lógica de low cost, que é os satélites terem que ter uma capacidade de perda de around 10% a 20%, mas faz parte do business plan. Por quê? Porque há problemas que acontecem, ninguém pode ir lá cima resolver os problemas. Ou então faz parte do problema. Como é que se faz a substituição dos GPUs, as unidades de processamento, por exemplo, nos sistemas de processamento em órbita? Olhe, é a questão robótica.

Depois usam a lógica para resolver esse problema.

Sim, neste momento, repare, nós temos que desmistificar aqui uma ideia que é importante. Atenção que tudo e estas capacidades, o edge da tecnologia, vai ser feita primeiramente com a capacidade robótica. Por essa razão é que há uma linha daquilo que é o chapéu de integração de todas estas business units. A robótica é uma das componentes mais importantes. Portanto, não vai ver lá canalizadores e eletricistas em órbita, isso não é assim.

É humanoides, robots humanoides.

Não são isso, são sistemas que propriamente se autorreparam. Por exemplo, a questão do lixo espacial é um problema. Sabe como é que a Starlink está a resolver a questão do lixo espacial? Muito simples. Coloca uma órbita mais baixa para naturalmente não terem custos para reposicionar os satélites. Naturalmente, os satélites entram na atmosfera e são incinerados. Ou seja, há sempre uma questão tecnológica.

Ou seja, são programados para reentrar na atmosfera quando morrem.

Ele fala de 1 milhão de satélites.

Uma órbita mais baixa. Põe uma órbita de 380 km, por exemplo, em que já há atrito atmosférico, em que os satélites reentram em dois anos.

Sim, mas ele fala para estes satélites de uma órbita de around 700, 800 km e de 1 milhão de satélites, mas diz que há muito espaço. Há muito espaço para pôr isto tudo, que os satélites são grandes. O protótipo do satélite para o centro de dados tem duas antenas de 70 metros de painéis solares. Mas ele diz que no espaço há espaço para tudo.

Sim, quando estamos a falar em órbita superior, as órbitas podem ser definidas como órbitas LEO, que são Low, baixas, e que vão até sensivelmente aos 800 quilômetros. A maior parte dos nossos satélites, a constelação Starlink anda na ordem dos 400, 500 quilômetros. Depois temos a constelação de navegação, que anda na ordem dos GPS dos 16 mil, 20 mil, e depois temos os GEO, que são aqueles de comunicação que estão a 36 mil quilômetros. Ou seja, na realidade, nessa perspectiva, o espaço é quase infinito. O que não é infinito é o espaço utilizável mais próximo, LEO.

Sim, mas existem já negócios que estão a gerir os satélites. Até há uma empresa portuguesa que já faz isso, que está a gerir no sentido de eles não chocarem uns com os outros, porque o que faz a impressão é isso.

Sim, mas repare: nós quando temos um satélite em órbita, um ou dois, nós temos a tradicional ground station, uma estação terra, que está lá uma pessoa sentada a ver o que eles fazem. Quando nós temos mais que 10, 20, 30, 100 mil, 1 milhão, todo o processo de navegação, chamado controle de atitude e navegação dos satélites, é feito automaticamente, não há capacidade humana que nos olhe.

Exatamente.

Aliás, eu sei que você estava a falar da Neurospace.

A Neurospace, exatamente, não me lembrava do nome. Ela faz exatamente isso. Faz a gestão dos satélites e emite alertas quando há risco de colisão.

Exato, é collision avoidance. A questão não é só emitir alertas, os alertas eram para alguém aqui embaixo fazer a manobra. Agora, neste momento, os alertas são autônomos para, de alguma forma, ativar a navegação para os satélites se posicionarem. E depois nós estamos a falar em vários posicionamentos orbitais, atenção. Não será esse propriamente o problema.

Ricardo, deixa eu só perguntar-lhe o seguinte: comprava as ações da SpaceX?

Deixa eu dizer uma coisa. Eu agora saí da sala do conselho para entrar aqui com vocês e estava exatamente naquele ponto. Estamos a discutir a parte europeia, a componente europeia para a exploração espacial. Ou seja, nós temos estas capacidades, estamos aqui a falar nessa nossa conversa, mas também como é que a Europa pode abordar isto. Posso lhe dizer já agora que a grande perspectiva é ter um investimento até 2035 na ordem dos cinco, 10 mil milhões de euros.

O problema da Europa não é falta de dinheiro, é falta de visão e concretização.

Eu diria de outra forma. Nem é falta de visão, eu penso que é falta de organização e a fragmentação, e depois os interesses individuais dos países.

Ricardo, você está a falar do projeto Iris 2, é isso?

Não. Iris 2 é um sistema de comunicações de parte. Deixa eu só falar sobre o Iris 2. O Iris 2 é um projeto da União Europeia para providenciar, em termos de autonomia nas comunicações da Europa. Como tem o Starlink, é criar um gênero.

Uma constelação de satélites que garante a autonomia das comunicações na Europa.

Agora, repare, se me perguntar assim: nós temos um equivalente ao Starlink na Europa? Na realidade, temos. Nós temos a Intelsat One Web, tem penso que agora 600 satélites, que dá uma cobertura global. Atenção, 600 satélites dá uma cobertura global. A Starlink tem penso que 10 mil neste momento e que dá, obviamente, uma cobertura global. Repare, a Intelsat One Web, neste momento, e eu já assisti, estive aqui em Paris há dois dias, assisti uma demonstração, já faz a transmissão de vídeo em 4K. É uma coisa muito superior, inclusive à própria Starlink. Qual é o problema? O problema é aquela abordagem muito comercial. E eu vou dar um exemplo. Quando foram as catástrofes em Portugal, quando foi da Marinha Grande, a tempestade, as comunicações ficaram ruim. Abatou-se a questão dos SIRESP. Ficamos sem comunicações. As operadoras foram todas a correr. Aquelas base stations caíram, que eram os chamados pontos de presença. Tinham que arranjar alternativas por satélites. Então a primeira coisa que fizeram, algumas eu conheço e tive essa conversa com algumas delas, foi recorrer à técnica europeia. Com a burocracia que estava por trás para fazer com que os terminais da Eutelsat, do One Web, estivessem disponíveis no terreno. Sabe o que fizeram? De um dia para o outro, agora não vou dizer nomes, senão os ponho, mas fizeram um acordo com a Starlink para comprar centenas, mas centenas de Starlink que colocaram de um dia para o outro. E sabe como é que configura-se no Starlink? Compra-se o equipamento, tem lá um númerozinho, vamos a uma página de internet, associamos o número, tem um cartão de crédito e está a funcionar. Ora, a burocracia na Europa é um nightmare.

É um pesadelo.

É um pesadelo. É isso, é a coordenação.

Se calhar, mais do que anunciar dinheiro, era anunciar simplificações de procedimentos.

Mas mais que isso, Helena, sabe qual é a questão? É que está alguém disponível para prescindir um pouquinho da sua soberania para termos uma soberania europeia?

Tem toda a razão.

Exatamente.

Já falamos disso entre a semana passada e esta, duas vezes aqui no programa.

Olha, eu vejo tanto isto aqui. Nós estamos neste momento aqui a falar sobre exatamente a questão da reutilização do próximo. Nós lançarmos as torgadas para a órbita. Repare, nós não temos uma perspectiva de termos uma estação internacional, ou seja, a Europa ter uma estação nossa. E quando eu digo nossa, estendida àquelas nações que nos estão agora mais próximas. O Japão e o próprio Canadá Não temos. A perspectiva é: vamos tentar falar com os Estados-membros para financiarem. Bom, não temos. A questão do transporte dos astronautas. Nós temos o Orion VI, mas não temos a capacidade de transportar os astronautas. No passado, nós confiávamos em Baikonur e na Roscosmos, na Agência Espacial Russa, e obviamente o corpo dos astronautas da ESA está dependente do Falcon 9, ou seja, da cápsula Dragon.

Da cápsula do Elon Musk.

Daqui a uns tempos também vamos ter o Bezos, se calhar.

Não, repara, isto leva-nos a outras conversas, nomeadamente a soberania digital a todos os níveis. Repare, as comunicações, o lançamento dos astronautas. Agora no conselho estávamos a aprovar que uma das missões que nós temos aqui na Agência Espacial Europeia seja lançada com a SpaceX.

Temos que fazer um programa só sobre o espaço e a economia do espaço.

Como conseguiu Elon Musk tornar-se trilionário? Como, Helena Garrido?

Eu vou fazer uma abordagem um bocadinho diferente do Zé Manuel, complementar, que é: é muito interessante quando fazemos o exercício "siga o dinheiro", perceber de onde é que vem este dinheiro. O Zé Manuel na primeira parte referiu que ele foi acumulando recursos com os seus negócios.

Ganhando e reinvestindo.

E reinvestindo, numa lógica de ir chegando àquilo que ele queria.

Põe o dinheiro onde põe a boca, como dizem os americanos.

Exatamente. Mas depois, a partir de determinada altura, a dimensão do sonho dele é de tal ordem, que nós temos aqui envolvido dinheiro público e dinheiro de investidores. O que é interessante aqui, sem juízo de valor, é que de facto a SpaceX esteve à beira da falência e ele, numa das entrevistas que dá, diz que estava a dias da falência, quando ele recebe um telefonema da NASA, e ele próprio confessa que nem conseguia segurar o telefone, a anunciar que ele tinha ganho um contrato com a NASA e que ele termina o telefonema a dizer: "Thank you, guys." Isto salvou a SpaceX. A partir daqui, ele consegue, porque ele tinha feito uma série de lançamentos, portanto o grande modelo de negócio dele no início, e como é agora com o Starship, é preciso reutilizar os foguetões para reduzir o custo de transporte de material para o espaço. Ele falha uma série de lançamentos e exatamente quando acerta no lançamento, que é bem-sucedido, o que acontece é que a empresa estava quase falida.

Aliás, acontece quase o mesmo com a Tesla, que está sempre em borda limite. Ele é um jogador, uma pessoa que corre riscos brutais. Portanto, ele leva sempre tudo até ao limite.

E foi salvo em cima do precipício. A NASA é salva quase em cima do precipício. As estimativas que existem, nomeadamente de trabalhos de investigação do Washington Post, apontam que a NASA terá já tido contratos com a SpaceX de 22 mil milhões de dólares. Obviamente que isto não quer dizer nada.

Não quer dizer nada, porque senão tinha com os russos.

Exatamente. É que se não fosse isto, a NASA e os Estados Unidos não tinham a afirmação que hoje têm em matéria de espaço. Esse é o primeiro ponto. A segunda controvérsia, e isto liga com aquilo que eu há pouco disse, que eu ao ler isto também me lembrou o Belmiro de Azevedo, que é um bocadinho a magia financeira de ir aumentando o dinheiro que vai para os bolsos dele, embora não vá para os bolsos dele, vai para reinvestir. Ele faz uma venda, só para simplificar, o Twitter, que não é Twitter, é o X. Aquilo, como se sabe, foi um negócio ruinoso, que era dele, e ele o que faz é que vende aquilo à SpaceX, ou seja, na prática vai buscar dinheiro dos investidores e usa dinheiro dos investidores para resolver um problema, que era um problema dele. Deste ponto de vista, ele consegue transformar dinheiro. Cá está o toque de Midas, ele consegue transformar, alavancar e criar dinheiro através do seu negócio.

Mas com uma audácia brutal. Por exemplo, neste IPO, aquilo que é habitual é quando se vai começar a falar com os bancos e com os investidores, dizer: "Eu quero lançar isto entre 100 e 150", por exemplo, por hipótese. E ele disse: "Não, é 135, ponto final, parágrafo."

Sim, isso foi no IPO.

No IPO, que é uma coisa que não é nada habitual, ninguém faz isto, ninguém tem esta audácia, ou ousadia, ou arrogância, o que tu quiseres.

Para concluir esta leitura, deixa-me só dizer o seguinte: a Space foi salva quando nenhum investidor privado queria lá pôr dinheiro. Quem lá pôs dinheiro e correu riscos foi o Estado. Isto mostra que o Estado é muito importante para criar massa crítica Até determinada altura, porque é ele que tem condições, os Estados soberanos, são eles que têm condições para correr riscos bastante elevados. Mostra qual é o desempenho que o Estado pode ter. É certo que o Estado assumir os riscos não quer dizer, ele prestou um serviço, ele não meteu lá subsídios. O Estado americano não pôs lá um subsídio, comprou serviços. Esta pode ser uma lógica muito mais interessante do que a lógica europeia, que é subsidiar.

Uma atividade.

Aqui, para criar massa crítica, comprou o serviço e a empresa foi sendo bem-sucedida e, de alguma forma, se tu quiseres, ele é trilionário também graças ao Estado americano e graças à NASA. E esta nova aposta dele, que é, no fundo, um sonho, e que o tal professor americano de finanças disse que aquele prospeto era uma alucinação. É uma alucinação, podemos dizer, no sentido daquilo que ele diz que pode vir a ser o futuro, e ele, de facto, enfrenta aqui um conjunto de desafios tecnológicos, como também vimos na primeira parte, que podem não ser assim tão difíceis de ultrapassar.

Repara, algumas das figuras que têm feito esta nova economia, digamos assim, quase todas elas, num momento qualquer das suas vidas, tiveram à beira da catástrofe. O Steve Jobs foi despedido da Apple.

Exatamente.

E depois criou uma empresa que foi um fiasco. E depois voltou à Apple e ao voltar, transformou tudo.

O estigma do fracasso nos Estados Unidos é bastante diferente.

Claro, mas isso é uma das coisas fascinantes nos Estados Unidos.

Temos de aprender.

É que uma pessoa aposta, perde e a seguir levanta-se novamente e dão-lhe mais dinheiro ainda. Mais dinheiro do que tinham dado antes. Porque em princípio ela aprendeu, já não vai cair outra vez.

Não vai cometer o mesmo erro.

Muito bem. Alexandra Machado, editora de economia do Observador. Bom dia.

Olá.

Alexandra, ajude-nos a perceber, pelo menos a mim e aos ouvintes, como é que se monta uma operação bolsista desta envergadura e o que justifica estes valores.

Primeiro, monta-se com muitos bancos juntos numa coordenação de colocação da oferta. Estavam praticamente todos os grandes bancos nesta colocação.

Ganharam muito dinheiro.

E ganharam muito dinheiro. Elon Musk conseguiu juntar aqui todos os bancos que colocam. São os bancos que depois ajudam a colocar as ações junto do público institucional, que são os grandes fundos de investimento, e público particular, o que nós chamamos a venda a retalho. Esta operação, esta oferta pública inicial, teve várias normas que fugiram um bocadinho às regras, não são regras escritas, mas à normalidade destas colocações. Em primeiro lugar, Elon Musk quis colocar uma fatia da oferta que foi colocada em bolsa ou que foi vendida. Elon Musk quis que cerca de, creio que 20% desse bolo, fosse para investidores de retalho. Não costuma ser uma percentagem tão elevada colocada junto do público particular. E isto só significa, para já, que ele tem a carinha, digamos assim. Ele em tempos disse que era fã dos investidores particulares, precisamente porque são eles que lhe dão alguma visibilidade e seguem a sua onda, digamos que vão no seu hype. E esta oferta teve essa particularidade de ter uma tranche maior reservada ao público de retalho, maior do que é normal nestas operações.

É inteligente porque torna também o consumidor acionista da empresa.

Sim, o retalho é isso mesmo.

Mais fácil de manipular .

Não queria ser eu a dizê-lo .

E não é tão exigente. Uma grande parte dos acionistas não vão às assembleias gerais, embora a participação nas assembleias gerais nos Estados Unidos seja maior do que na Europa, mas tipicamente o investidor particular não levanta tantas ondas, nomeadamente em questões de governo corporativo, que a SpaceX tem alguns problemas a nível de governação, porque dá muito poder a Elon Musk. Elon Musk tem 40 e tal por cento da empresa, dá ações da empresa, mas tem 80% de direitos de voto. Portanto, é dono e senhor da SpaceX, mesmo sendo uma empresa cotada. O investidor particular normalmente não levanta tantas ondas.

Se calhar até aprecia. Provavelmente até aprecia. Há uma coisa que eu acho muito interessante, desculpa, lá. Não tem a ver diretamente com isto. Uma das coisas que eu fui notando ao longo da minha vida foi que há uma enorme diferença entre figuras com gosto pelo risco e que são, regra geral, os grandes investidores, patrões, o que quiseres, as pessoas que fazem a disrupção. E às vezes pessoas que são, nomeadamente aqui na Europa, é muito comum encontrar isso, que ganham às vezes até mais dinheiro, mas que são os gestores. Os gestores às vezes são risco. E os investidores apreciam o risco. É uma lógica e a maneira de funcionar, de pensar e de reagir a uma proposta de negócio é radicalmente diferente É radicalmente diferente à nossa escala pequenina de Portugal, já me cruzei com ambos os gêneros de pessoas e não tem nada a ver uma coisa com a outra.

Sim, o Belmiro de Azevedo era um empreendedor, depois os gestores. Depois há gestores que são empreendedores.

Há gestores que se transformam em empreendedores, claro. Mas o gosto pelo risco é aqui muito importante. Mas isso é uma coisa que nós temos muita falta, até pela população que temos. O risco é uma coisa boa para quem tem 20, 30 anos. Foi quando eu começou.

Os descobrimentos foram feitos por empreendedores.

Nesta operação até se falou, a determinada altura, que poderia ser um pouquinho o referendo a Elon Musk. E se foi um referendo, já está completamente referendado e está eleito. Mas deixa-me só concretizar. Sobre esta operação, há mais dois pontos diferentes. Normalmente, é fixado o intervalo de preço para a colocação e depois os bancos vão, junto ao mercado, saber dos grandes investidores e dos fundos de investimento, vão tentar perceber qual é o preço ideal de colocação. Nesta operação foi fixado $135 inicialmente, Elon Musk fez as suas apresentações ao mercado e manteve o valor de 135. Não houve esse intervalo, nem houve essa consulta ao mercado. Portanto, Elon Musk já partiu também com a segurança de que iria conseguir colocar a este valor. Terceiro fator, que é bastante importante, as regras do Nasdaq para integrar o índice do Nasdaq. O Nasdaq é a bolsa americana tecnológica, mas depois as empresas integram o índice e as regras alteraram em benefício da SpaceX. Vou dizer as duas alterações que concretizaram e porque é que ajudam a SpaceX. As duas alterações foram: a primeira, deixou de haver um limite de 10% de colocação mínima de ações para integrar o índice. A SpaceX foi para o mercado com 4%, e portanto não chega aos 10% de dispersão em bolsa, mas pode integrar o índice. Foi alterada essa regra. A outra regra que foi alterada é a permanência mínima cotada. Normalmente era um ano, que era preciso uma empresa estar cotada durante um ano para poder integrar um índice, o Nasdaq agora alterou para 15 dias. Ou seja, dentro de 15 dias a SpaceX pode integrar um índice Nasdaq. E o que é que isto beneficia a cotação da empresa? É que há muitos fundos que replicam o índice.

Aumenta a procura de ações.

Ao replicar o índice, ter um fundo de investimento indexado a um índice, tem que ter a percentagem de empresas que compõem esse índice. E o que isso significa? Que daqui a 15 dias, quando a SpaceX integrar o Nasdaq, há muitos fundos que vão ter que ter ações da SpaceX para replicarem o índice, o que vai aumentar a procura de ações da SpaceX, e aumentando a procura, aumenta o preço. Aumenta o preço, porque a oferta não aumenta, e essa é a outra componente desta oferta.

Portanto, vai ganhar ainda mais dinheiro.

Exato. Vai valorizar.

Vai valorizar. Pois sim, porque há esta questão. Estamos a falar de valor.

Exato.

Ele só ganha dinheiro se vender as ações.

Se vender as ações em massa, elas vão desvalorizar.

Claro.

Este valor é sempre um valor indicativo. Isto é válido para ele, para o Bezos, para o Mark Zuckerberg. Se eles puserem a vender as ações que têm na bolsa.

Sim, desbaratam o preço e aquilo não vale nada.

Essa é outra componente, a questão da oferta. Só 4% é que foi colocado em bolsa.

Só 4% da empresa.

Da empresa é que foi colocada em bolsa. Mas a outra percentagem, pode dizer: "Então, mas os outros acionistas podem vender as suas ações." Não. Têm períodos de inibição, os chamados períodos de inibição de venda de ações. Na gíria técnica é o lockup period, mas têm tempo de inibição de colocarem as suas ações em bolsa. Até os trabalhadores, que vão ficar, muitos deles, ricos com esta colocação em bolsa, só o poderão fazer seis meses. Mas têm um período em que não podem vender ações. Para quê? Para não haver um despejar de ações grandes no mercado, o que faria pressão no sentido da baixa do preço da ação. Portanto, isto foi tudo bem planeado.

Portanto, com risco muito bem calculado.

Sim. Agora, quando acabar esse período de inibição é que vai ser o verdadeiro teste da SpaceX no mercado. Porque quando os investidores particulares, os investidores institucionais, os atuais acionistas, porque Elon Musk não é o único acionista, já houve muitos. A SpaceX foi sendo financiada ao longo destes anos, não em mercado.

Para todos os efeitos, tinha 40% de uma empresa que não estava na bolsa. As pessoas que estavam lá eram financiadores.

Eram os financiadores destes anos todos.

Os trabalhadores e antigos gestores têm também uma parte muito grande da empresa.

Trabalhadores e extrabalhadores e fundos de investimento que foram financiando a empresa ao longo destes anos. A empresa tem 20 anos.

Isto depois também replica, por exemplo, uns antigos quadros da SpaceX estão agora a tentar construir o primeiro míssil hipersônico americano a sério, porque perceberam que os russos e os chineses já têm e, portanto, mais uma área em que os americanos estão atrasados. Quem é que vai pegar nisso? Pessoas que estavam na SpaceX e foram criar uma empresa para criar o míssil hipersônico, que é cinco vezes a velocidade da luz. É uma coisa complexa até em termos de materiais, os materiais que não derretem.

Mas esta questão que a Alexandra acabou de descrever também revela como Se os Estados não forem amigos das empresas, tudo se torna muito mais difícil. Aqui toda a oferta é desenhada, os Estados e o ambiente à volta. Toda a oferta foi desenhada e está desenhada para criar procura. E por isso é que a oferta é de $135, por isso é que é 90 vezes a receita, atingindo valores estratosféricos, que os analistas referem que este tipo de 90 e tal vezes a receita, até mais, é típico de startups, que têm receitas muito baixas e qualquer valorização leva a valores muito altos.

Mas este é recorde, apesar de tudo.

Mas não é típico de grandes empresas. Ou seja, nós temos uma valorização típica de startup numa grande empresa. E este é um dos grandes desafios também que esta empresa tem daqui pra frente, que é: ele agora não tem de gerir só a empresa operacionalmente, ele também tem de gerir a expectativa, e por isso é que ele durante muito tempo não quis ser cotado em bolsa, tem de gerir também a capacidade de satisfazer a ambição que as pessoas têm em relação à empresa.

Uma das coisas que também é reveladora. Uma coisa que as pessoas dizem é que a governança fica prejudicada por ele mandar na empresa. Mas se ele não mandar na empresa, a mentalidade do investidor é o trimestre seguinte, é o resultado do trimestre seguinte, pelo menos de muitos investidores bolsistas. E ele, de facto, toda a vida dele não foi passada no trimestre seguinte.

Isso sendo verdade, correspondendo à realidade, que o próprio Trump tentou resolver isso impondo resultados trimestrais. Lembras-te, Alexandra?

A comunicação?

A comunicação.

A divulgação dos resultados.

É uma das coisas que há muitas pessoas que pensam sobre o capitalismo, que dizem que é um dos problemas do capitalismo hoje, é a obsessão com o trimestre. Com o que se vai gerir para o trimestre seguinte.

Aliás, uma das razões que ele também dizia que não queria ser cotado em bolsa, mas arranjou aqui uma maneira de ser cotada em bolsa e continuar a mandar nas empresas.

Que é típico das tecnológicas também, diga-se de passagem. Esta coisa da classe dual de ações, nos Estados Unidos existe a classe A e a classe B, a classe dual de ações que lhes permite ter ações com mais direitos de voto do que a norma ordinária, é típico das tecnológicas.

Há aqui um outro aspecto a propósito da governação, que também revela que ele desafia Wall Street e a comunicação tradicional, é que ele, tanto quanto sei, disse que vai comunicar através do Twitter e através do site, e não através dos meios de comunicação tradicionais que as empresas cotadas têm. Alexandra, nós sabemos que neste momento também estão a preparar-se outras grandes ofertas.

É, a Anthropic e a OpenAI.

Exato.

Para ir no alcance destes.

E que são coisas também gigantescas e amplas, que têm a ver com algo que nós sabemos que vai mudar o mundo, mas não sabemos exatamente como.

Mas é curioso que a SpaceX, a primeira compra que faz depois de ser cotada, é o quê? É uma empresa de programação.

Exato.

Através da programação de inteligência artificial. Portanto, o próprio Elon Musk está aqui a agarrar a onda da inteligência artificial.

Sim, ele está obcecado com isso. Quando se vê as entrevistas dele, vê-se que a inteligência artificial é uma das três áreas e porventura será aquela em que a SpaceX tem mais para provar, digamos assim. O Grok não está assim tão bem como as outras.

O Grok é a inteligência artificial do X. Mas por isso é que ele agora vai, não sei se não vai, mas pelo menos já começou a comprar coisas.

A velocidade é tão grande que, de repente, as empresas que nós considerávamos intocáveis também estão a ser postas em causa. A Siri, que é aquela coisa de voz dos iPhones, dos iPhones, o assistente, eles desistiram e meteram lá o Gemini, que é da Google, que é o concorrente, os Android. Portanto, isto é uma corrida a uma velocidade alucinante. Quer dizer, aqui há uns tempos parecia que o ChatGPT ia dominar tudo e, de repente, é a Anthropic com o seu Cloud que está a ir a uma velocidade. Nós não sabemos no fim desta bolha da bolha, o que é que vai dar, e até que ponto é que é bolha. Não sabemos. Mas, Alexandra, ias falar das outras duas. Poderá atingir estes valores estratosféricos ou é difícil?

Eu não fixo preços. Diria que não, mas não fixo preços.

As comparações vão ser inevitáveis.

Vai estar condicionado para o bem e para o mal.

Ontem a SpaceX já vale mais que a Amazon.

Sim, que a Amazon passou.

A Amazon é um gigante absoluto.

A Amazon passou, mas momentaneamente passou ali a Microsoft e depois voltou a cair. Mas o potencial de valorização de uma empresa que entra a $135 é muito menor do que uma que vá entrar a um valor muito mais baixo. E só pra termos aqui uma noção de dimensões, a SpaceX, mesmo com o valor que atingiu, precisa duplicar o seu valor em bolsa para atingir os níveis da NVIDIA. Portanto, estamos aqui a falar, de facto, de valores muito grandes.

Mas os valores são alucinantes, porque aquilo que esteve em causa foi Todo o index 100, a capitalização bolsista das 100 maiores empresas inglesas. Ou melhor, da Bolsa de Londres. A Bolsa de Londres é a segunda bolsa do mundo. Portanto, tudo isto é de uma dimensão muito difícil de imaginar.

Números estratosféricos.

Só para concluir sobre as duas, a Anthropic e a OpenAI. Para o bem e para o mal, vão ser influenciadas pela SpaceX. Para o mal, obviamente, que esta valorização da SpaceX coloca-lhes um patamar de observação muito acima.

Que as comparações vão ser inevitáveis também.

Inevitáveis, sim. E se calhar já fugiu alguma procura.

Para a SpaceX.

Algum dos potenciais investidores já fugiram.

O que está a ser negociado são 4% deste monte imenso de ações.

O apetite por este tipo de títulos é muito grande, realmente. E foi isso também que o aproveitou.

E há dinheiro.

Nos Estados Unidos, Wall Street tem muito dinheiro. Nos últimos anos foram entregues muitos dividendos a acionistas, foram feitas muitas compras de ações próprias, portanto, há muito dinheiro disponível para investimentos.

Para investimentos. E quem sabe também de dinheiro e de investimentos é o Stefan Morais, Managing General Partner da Indico Capital. Bom dia, Stefan.

Bom dia.

Bom dia. O que é que esta operação bolsista da SpaceX nos diz sobre o ambiente que estamos a viver nesta altura no mercado de capitais? Está muito animado, não está?

Bom, diz-nos várias coisas. Número um, como estavam agora a comentar, que existe muita liquidez. Realmente, a performance da bolsa e dos índices americanos na última década e meia, desde a grande crise financeira, tem sido inacreditável. Aliás, é a razão pela qual os Estados Unidos são, neste momento, 50% mais ricos do que a Europa, é porque a performance dos índices bolsistas e o investimento que os americanos, todos os comuns, fazem através dos seus fundos de pensões privados na bolsa, tem os tornado muito mais ricos. Mas também diz que estamos realmente no topo de um ciclo gigante, um bull market gigante, em que as empresas americanas têm distribuído realmente muitos dividendos e têm sido os campeões mundiais da performance. E isso leva a que, em conjugação com uma concentração muito grande de riqueza e de poder em algumas empresas, se produzam fenómenos como estes IPOs, que têm números absolutamente estratosféricos, comparados com o que seria normal há uns anos atrás.

Há vários investidores, a Alexandra dava conta precisamente disso, fundos de investimento, também os investidores privados. Conhecendo o mercado, qual é a expectativa, dependendo dos investidores, de obtenção de retorno do seu investimento? Isto é um investimento a longo prazo, muito longo prazo, Stefan Morais.

Ou altamente arriscado, não é, Stefan?

Tem que ser sempre muito a longo prazo. Repare, o pricing do IPO foi feito a quase 100 vezes o valor das vendas da SpaceX.

96 vezes, se não me falha nada.

96 vezes. E entretanto já subiu bastante por um conjunto de fatores, mas essencialmente tem a ver com todo o hype que foi criado e a própria personalidade do Elon Musk, o seu mediatismo, mas também as perspectivas da empresa, porque essencialmente estamos a falar de três linhas de negócio. A SpaceX é conhecida pelos foguetões, que estacionam de volta nas plataformas flutuantes, que é uma coisa que parece ficção científica, mas é a realidade. E hoje em dia esse negócio tem quase um monopólio global de lançamento de satélites para o espaço. Inclusivamente, uma das nossas empresas utiliza a SpaceX para colocar os nossos satélites em órbita. Esse é um negócio grande, que dá ainda muito prejuízo, mas que se vai tornar maior. Depois existe a cash cow da SpaceX, que é o Starlink. Que basicamente é o negócio rentável, mas que tem um potencial de crescimento enorme, nomeadamente no que toca a eventualmente termos a capacidade direta vinda dos satélites para os nossos telemóveis em termos de banda larga. E há um negócio ainda muito grande por crescer e já é rentável. E depois, o grande motor de crescimento potencial da SpaceX, que tem a ver com a área de inteligência artificial. A SpaceX adquiriu a xAI, que é o dono do Grok, que por sua vez é o dono do X, que é o Twitter, portanto, é uma espécie de matrioska de empresas que estão dentro umas das outras. É aí que se vai considerar também uma grande parte do investimento deste IPO, desta captação de capital que foi feita e que continuará seguramente a ter outras fases, que se trata de transformar o Grok e a inteligência artificial do grupo SpaceX num modelo de fronteira, que possa ombrear com a OpenAI e com o Claude. E também uma segunda parte, que está prevista começar, na melhor das hipóteses, em 2028, mas provavelmente vai derrapar, que é a instalação de centros de dados no espaço. Que parece uma coisa também de ficção científica, e eu acho que vai derrapar seguramente muitos anos, mas a verdade é que se conseguirmos colocar centros de dados no espaço, onde o ambiente é frio, como nós sabemos, os custos energéticos são muito mais baixos e tornam-se centros de dados muitíssimo competitivos. E há aqui uma espécie de efeito de bola de neve. Se a SpaceX conseguir colocar satélites Mais baratos no espaço. De conseguir que parte desses satellites sejam centros de dados muito mais baratos e com isso vender modelos de inteligência artificial às empresas e também capacidade de telecomunicação às pessoas e às empresas, obviamente que pode vir a faturar os tais trilhões de dólares que contam vir a faturar e aí justificar as avaliações. Mas isto é tudo, obviamente, futurologia e que vamos ver se a capacidade de execução está lá. Portanto, é um investimento arriscado, mas que com todo o hype e alguma mudança de regras no Nasdaq, que permitiu que ao fim de 15 dias a SpaceX passe a integrar o index oficial, portanto, levar a que todos os ETFs, todos os institucionais tenham que invariavelmente, sejam obrigados a incluir na sua carteira, com que tenha-se gerado um hype tal que as ações subiram dos 130 para os 230 e se não me engano, o último preço era $200. Houve uma valorização significativa. Agora os próximos quarters e anos dirão se isto é sustentável, consoante a execução que venha a ser conseguida pela gestão da SpaceX de executar toda esta business plan, que é muito ambiciosa.

E haveria algum benefício de integrar a Tesla na SpaceX, como já alguns analistas começam a apontar o caminho?

O benefício, aliás, a estratégia que o Elon Musk tem vindo a seguir nestes anos todos é comprar com ações de empresas mais valorizadas que ele tenha, comprar outras que estejam em maiores dificuldades. Isso começou há muitos anos atrás com o SolarCity, foi fazendo estratégias dessa, o que eu chamo a matrioska, de colocar umas dentro das outras, usando preços de ações que estão mais altos para comprar outras empresas, trocando por ações. É uma estratégia interessante para os acionistas da SpaceX, nomeadamente o Elon Musk, e a Tesla não tem estado propriamente a bater recordes, porque tem hoje em dia muito mais concorrência do que tinha, nomeadamente os produtores chineses. Portanto, eu imagino que isso possa ser um movimento que se venha a fazer, que financeiramente faça sentido integrar. Se isso faz sentido para os acionistas, digamos, em geral, que venham a entrar ou que tenham interesse na IPO, já é mais debatível.

Stefan, e agora a perspetiva que se coloca da Anthropic e da OpenAI, de também se lançarem para um IPO. Que perspetivas é que tem sobre o que pode vir a acontecer?

Essa realmente é uma pergunta que vai muito para lá do OpenAI e da Anthropic, porque basicamente há uma série de IPOs, estamos a falar de umas dezenas ou centenas de empresas que são meros unicórnios hoje em dia, que valem 3 mil milhões, 5 mil milhões, 10 mil milhões. Aliás, nós na Índico temos várias dessas em carteira que investimos, que estamos a aguardar que façam os IPOs, porque na realidade a Índico acaba por, neste momento, dessas empresas já ser um pequeno acionista, porque essas empresas são hoje em dia dominadas por grandes fundos norte-americanos, a Andreessen Horowitz, a Sequoia, até a Goldman Sachs, a General Atlantic e outros, a KKR, que hoje em dia dominam esses boards e que não estão a decidir avançar para IPO, porque está toda a gente à espera de ver qual é a performance da SpaceX, qual é a liquidez que sobra para fazer depois os outros grandes, que são a Anthropic e a OpenAI, que seguramente ficam a acontecer. E depois, qual é a liquidez que sobra para os pequeninos unicórnios, que são gigantes na mesma, mas que à escala, comparado com empresas de trilhões de dólares, começam a ser, o que para a Índico, se calhar, são 500 mil euros ou 1 milhão de euros, para eles são empresas de vários bilhões.

Exato.

E portanto, todo o mundo está com a respiração contida, à espera de ver o que é que vai acontecer, com a esperança que isto tudo não se desmorone como um castelo de cartas, porque, na verdade, existe liquidez, os resultados das empresas são bons, apesar de toda a instabilidade geopolítica causada por nós sabemos quem. Mas a verdade é que os resultados das empresas americanas continuam a ser bons e, portanto, não há também um efeito ainda igual ao de 1999, em que não existia nada. Ou seja, agora existem realmente resultados, mas estamos a falar de uma concentração de capital tão grande em tão poucos fundos e em tão poucas empresas, que a dependência desses movimentos gigantescos tem efeitos mundiais e colaterais que são um pouco imprevisíveis. E, portanto, o que toda a gente espera é que isto continue-

A correr bem

...a justificar, a correr bem.

Porque se correr mal, corre muito mal, é isso.

Corre muito mal.

Se correr mal, corre muito mal.

Pode correr muito mal e infelizmente não está nas mãos de nenhum de nós. Está nas mãos de poucas entidades financeiras americanas e de poucos governos.

Stefan Morais, vivemos tempos muito conturbados devido à situação geopolítica, mas isso não parece estar a afetar os mercados, pois não?

Não, precisamente. Eu acho que, número um, há um alinhamento de interesses para que isto corra bem para toda a gente. Portanto, nós podemos duvidar dos fundamentais dessas empresas, mas quando há um alinhamento de interesses e até de mecanismos para que as coisas continuem a subir, elas vão continuar a subir, e ainda bem. Portanto, não convém a ninguém, apesar de todos nós às vezes termos dúvidas de: "Será que isto faz sentido?" Eu espero que faça, porque tem mesmo que correr bem. E aí o alinhamento de interesses, digamos, do capitalismo está a funcionar Portanto, é bom que o Elon Musk se saia bem nesta história e que o presidente Trump também, para todos nós beneficiarmos, a população comum. Eu acho que o que está a acontecer é que a economia americana, com todos os seus defeitos e o chefe de dívida, continua a produzir produtividade e resultados realmente muito superiores ao resto da economia mundial, nomeadamente em comparação com a Europa, que é a comparação possível. A China é um caso à parte. Isso tem que continuar a correr bem e nós temos que garantir que não há uma catástrofe qualquer que exista. Já foram tentadas muitas nesta administração, várias guerras, etc. E tudo isso tem sido ultrapassado com resultados inacreditáveis, resultados reais, de que as empresas, apesar da inflação, apesar dos preços de petróleo, apesar das guerras, o consumidor americano e a economia mundial continua a mostrar sinais de robustez. Agora, se justifica as avaliações atuais, enfim, não sei, mas esperemos que sim, para bem de todos nós, inclusivamente.

O que eu estou a ver é o Stephen muito cético e apreensivo.

Mas, por outro lado, eu sou cético no sentido, já sabe, os VCs são sempre céticos. Nós estamos sempre treinados para encontrar problemas e para escolher com muita cautela os investimentos que fazemos. Mas eu também percebo que a arquitetura mundial financeira está neste momento alinhada para que isto corra bem. E, portanto, a minha esperança é que corra bem e que o Elon Musk consiga entregar estes resultados.

Não, é que o próprio sistema começa a ser manipulado. Manipulado, não estou a dizer no mau sentido, sem qualquer juízo de valor, que é quando o Nasdaq altera as regras no sentido da valorização do título, quando vai se permitir alterar as regras de governação, tudo isso, nós já estamos na fase de manipular o sistema para ele continuar a rodar.

Pois, mas estamos na fase em que todos nós esperamos que o sistema, manipulado ou não, continue a correr bem.

Claro. Que a bicicleta continue a rodar, não é?

Exatamente. Vamos lá ver. Aí é que há a virtude do alinhamento de interesses com manipulação ou sem manipulação, porque senão, será o português comum a pagar a conta também. Vamos lá ver, não é só os investidores e a especulação mundial. Portanto, apesar de todos nós às vezes ficarmos com dúvidas, etc., e a população achar que se calhar, e as pessoas mais informadas ainda mais, que isso é tudo uma coisa meio louca, a verdade é que, para bem de todos nós, Deus queira que isto corra tudo muito bem e que não haja um sobressalto demasiado grande.

Porque uma queda desencadearia um processo de bola de neve, não é?

Exatamente.

Uma tempestade financeira, não era?

A SpaceX fatura quase 20.000 milhões de dólares por ano. Também não é uma empresa qualquer. É uma empresa grande já, e a economia americana continua a ter a capacidade, que vai desde a Palantir à SpaceX e todas as outras, de produzir empresas absolutamente inacreditáveis, que dominam o mundo completamente, porque tem uma profundidade de mercado de capitais e há um alinhamento de interesses, mais uma vez, entre as massas e as elites, que parece que não existe, mas existe. Os grandes donos, além do Elon Musk, são os fundos de pensões privados, que representam os professores, as enfermeiras, os bombeiros, etc. Esses são os grandes donos do capitalismo nos Estados Unidos e portanto, essas pessoas estão todas a beneficiar. Não é concentrado só em alguns poucos, tem mais ainda. Toda a população americana está a beneficiar com isto.

Mas há essa marca, que pela primeira vez na história do capitalismo alguém conseguiu subir ao patamar de trilionário. Isto significa que entramos aqui numa nova fase?

Isto aqui é uma questão mais filosófica, e entramos no domínio do justo ou do injusto. É justo haver trilionários no mundo? Desde que a população, na minha visão mais particular, em geral perceba que todos fiquem mais ricos e que tenham melhores vidas, sim. Se obviamente ficarmos a falar de que um ganha tudo e os outros perdem a maior parte, aí já não é bom para a população mundial. Agora, se houver um trilionário, mas todas as outras pessoas, como por exemplo, aliás, muitos empregados da SpaceX tornaram-se bilionários e não sei quantos milhares ou até muito mais gente tornar-se milionária porque está associada a isto, olha, fantástico para essas pessoas todas. Há um tipo que é trilionário, ele também não vai fazer nada com os trilhões que tem. Não há nada que se possa comprar com tantos trilhões. O importante é que o mundo em geral beneficie. Depois há a questão do poder. A concentração de poder econômica, financeira e política em poucas pessoas.

E tecnológica.

E tecnológica, tem riscos, digamos, para a democracia, para a liberdade, para o futuro do mundo.

Foram os alertas do Papa na encíclica.

Exatamente. Isso é uma questão filosófica, mas que ninguém tem resposta neste momento. E é uma questão que veremos o que é que vai acontecer e como é que a democracia sobrevive a isso, versus outros Estados autoritários que também não são propriamente uma panaceia. Temos a China e outros Estados que têm outros modelos de funcionamento, mas que as pessoas desses países também, uma grande parte, não está contente por não ter voz. Mas estamos aqui no mundo entre "1984", do George Orwell, e o "Brave New World", do Huxley. Estamos a caminhar para estes paralelos.

Stephen, só uma última questão relacionada com os riscos que o que está a acontecer colocam, que é: há aqui uma grande apetência por este tipo de empresas. A questão é: a China pode ser um fator de aumento da oferta de possibilidades de investimento, se a economia chinesa se abrir mais financeiramente?

Poderia ser, mas o problema é que a tendência deste presidente chinês não tem sido abrir mais, tem sido de grande concentração de poder. Aliás, vê-se o que aconteceu com o Jack Ma quando decidiu dizer qualquer coisa ou exprimir alguma opinião. Desapareceu durante umas semanas. O problema da questão chinesa é que não é um parceiro em que se possa confiar e meter as fichas do outro lado, porque, na realidade, é ainda pior.

Era uma oportunidade para a Europa se ela a soubesse aproveitar.

Realmente, a Europa tem uma grande oportunidade, mas temos um problema de governance da Europa. Com uma decisão a 27 para decidir uma vírgula, não se consegue avançar. E também não se consegue avançar para mudar a regra da unanimidade. Mas eu noto na Europa, pela primeira vez em muitos anos, nas discussões que temos com a Comissão Europeia, tanto a nível da Associação Portuguesa de Capital de Risco, da qual eu sou também presidente atualmente, como a nível mais privado, que há uma vontade enorme de a Europa agarrar esta oportunidade. Eu acredito que, com todos os problemas de governance que a Europa tem no sentido de decidir, estão a ser dados passos muito importantes, nomeadamente no que toca à união do mercado de capitais e outros passos, para que haja um avanço rápido no sentido de não ficarmos totalmente para trás e de percebermos que temos que ganhar autonomia. Aliás, porque o nosso parceiro principal nos disse isso. Ficarmos autossuficientes a nível da defesa e muitas outras coisas. Os Estados Unidos nem dizem isso por mal, dizem isso até do nosso interesse, que nos tenham dito isso já no primeiro mandato do Donald Trump. Ele disse: "Vocês têm que pagar a conta." E tinha razão nesse fator e realmente toda a gente concordou.

Stefano Morais, obrigado. Agradeço ter se juntado a nós.

Stefano, obrigada.

Obrigado. Estamos já na reta final do "Contra Corrente", Helena e José Manuel, e também Alexandra, que reflexões vos suscita este nível estratosférico desta operação bolsista?

Eu devo dizer que mais do que um nível estratosférico pontual, aquilo que devíamos tentar perceber é, primeiro, como é que a máquina de produzir coisas novas, que são os Estados Unidos, continua a carburar e nós temos dificuldade em acompanhar na Europa. Houve uma coisa que aqui foi dita pelo presidente Ricardo Ponte.

Presidente da Agência Espacial de Portugal.

Foi aquela história sobre a urgência, a seguir às tempestades, de criar um sistema alternativo de telecomunicações, até supostamente poderia haver um sistema europeu que pudesse concorrer com o Starlink, mas depois a coisa era tão complicada, tão complexa, tão burocrática, que as empresas portuguesas disseram: "Não dá, temos que ir para uma coisa rápida, simples e eficaz."

E compraram Starlinks.

E compraram Starlinks, que é louco.

Outra vantagem do Elon Musk, a burocracia europeia.

Não é vantagem do Elon Musk, é culpa nossa, mas é que ele faz outra coisa.

Ele até disse mais, que compraram Starlinks, foram ao site, colocaram o número e no minuto seguinte já tinham a comunicação.

Ele estava a contar isso. E eu estava a lembrar-me de uma das coisas que continua hoje a distinguir os carros do Musk dos outros. É que nos carros do Musk, quando nós andamos com aquele carro e vamos carregar, precisamos de reabastecer. Se formos a um dos portos da empresa, além de ser muito rápido, a única coisa que fazemos é chegar lá, ligar o tubo de eletricidade, esperar, às vezes 20 minutos chega para reabastecer, ou 10 minutos, desligar e vir embora. A conta é debitada no nosso cartão de crédito, alguns no mundo, e está feito. Ainda ontem tive que reabastecer um carro.

Um carro desses?

Não foi um carro desses. Foi um carro que não era desses.

Eu acho que não sei quanto tempo.

Para conseguir ligar àquele, depois a aplicação ou o cartão, conseguir contactar com o posto e o posto arrancar, não sei o quê. Aquilo é tão prático, tão intuitivo. Naquele caso, não é assim, porque quando estamos a falar de um equipamento destes, há muitos outros fatores que determinam a compra. Mas quando há pouco a Helena dizia, no caso da SpaceX, aquilo há uma integração vertical. A integração vertical foi um modelo que a Europa, designadamente quando mandou a sua indústria para fora dela, as indústrias tradicionais.

A globalização, a busca da maximização do lucro.

Maximização do lucro.

E ele viu outra forma de maximizar o lucro.

Exatamente. E eu acho que nós temos que olhar para isto e perceber que há aqui coisas que são de facto novas. Por exemplo, ele está a fazer isto tudo com fábricas nos Estados Unidos. Portanto, o problema não é o custo da mão de obra, ele não foi fazer a fábrica no México, e ainda menos na China. Ele foi à China.

Ele está num negócio que está a inovar.

Sim, mas não é o primeiro negócio dele.

Não é, ele não está a montar carros.

Mas onde é que estão as fábricas dele?

É verdade.

As fábricas de carros dele, ele não foi para o México, é o outro lado da fronteira. Tem fábricas na Califórnia ou no Texas.

Mas tem de ir buscar equipamento.

Mas cada vez menos.

Na inovação, tu precisas muito disto. E tem muito segredo.

E na inovação, há coisas que as pessoas inovam. Vou voltar ao exemplo do carro dele. O carro dele, ele encomendou e o sítio onde encontrou no mundo que faziam isso era até em Itália, umas prensas absolutamente gigantescas para que numa única operação de prensagem, toda a carroceria ficasse feita. Que é uma coisa que parece óbvio, mas a Mercedes não fez e a Volkswagen não fez. E agora pra fazer, é mudar as fábricas todas. Portanto, é muito mais complicado de fazer.

É o keep it simple.

É keep it simple, tirar processos. Às vezes estamos a ouvir entrevistas dele, não conseguimos acompanhar, porque ele está a falar de coisas muito técnicas e o domínio dessas coisas muito técnicas é uma coisa que hoje, quem gere investimentos, muitas vezes não tem. Pode comprar o sonho, mas lhe explicar, nem sabe se calhar qual a diferença entre um quilowatt e um quilowatt-hora.

Está mais interessado nos KPIs.

Está mais interessado nos KPIs do nos KVAs.

Ia começar a falar com símbolos. Continuar.

Mas ele estava a discutir os chips no espaço. A discutir o tamanho, a dimensão de cada um. Ele vai a este detalhe.

Ele conhece bem o seu produto.

Mas não sabes qual é a diferença que isto também faz? No momento em que há uma dúvida, a decisão é imediata. Não é preciso vir comissão de engenheiros, comitê de diretores, administração, acionistas, e depois vir outra vez para o mesmo.

O problema que foi criado nas empresas cotadas.

As empresas têm muito esta questão. Quando se fala de Muskismo, também é isto. Evidentemente, as empresas consolidadas não podem fazer isto. Alguns dos problemas do capitalismo que existem estão mais associados às empresas tradicionais.

Têm um legacy.

Não é só o legacy. É o legacy e, por exemplo, governar por trimestres, que é uma das coisas mais identificadas como sendo um vício, mas que é muito difícil.

Mas é essencial nas cotadas.

Porque ao mesmo tempo, repara, mas as cotadas são determinantes. Aquilo que separa o capitalismo americano do capitalismo europeu, é que o capitalismo americano funciona com o cidadão comum financiar as empresas. E o capitalismo europeu, estou a exagerar, mas é com os bancos a financiarem as empresas. A lógica é outra completamente diferente. O gosto pelo risco do privado pequenino.

É isso que o Stéphane está a dizer que está a tentar mudar. Mas deixe-me só dizer o seguinte.

Muito rapidamente, Helena.

Estou a falar disto para a Europa há décadas. E continuamos a ter um sistema de bancos e não um sistema de bolsas.

Olhando para o que se está a passar, eu diria que é bom que isto corra bem, porque se isto não correr bem, como disse o Stéphane Morais, vamos pagar todos caro. O José Manuel considera que vai correr bem?

Eu não sei se vai correr bem, nem tudo vai correr bem, de certeza, porque ele já falhou muita coisa pelo caminho. Houve muitas coisas que ele tentou e que não funcionaram.

A probabilidade de correr bem é elevada.

A probabilidade de correr bem é elevada. Se ele vai morrer a Marte, não sei.

Eu espero é que ele não morra já, porque estes negócios dependem dele, como se viu no caso da Tesla.

Pelo menos há uma certeza, não vai ser enterrado debaixo de uma árvore em Marte. Não temos mais tempo. José Manuel, Alexandra e Helena, obrigado, até amanhã.