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Há milhares e milhares de mortalhas no mundo. Os lençóis funerários abundam em inúmeras civilizações, eras e regiões do planeta. Em Turim, no norte de Itália, porém, conserva-se há 443 anos o único do mundo que exibe o misterioso retrato do morto que envolveu. O lençol de linho feito na Síria com as marcas de um homem que foi flagelado, coroado de espinhos, carregou uma trave às costas e teve o lado aberto por uma lança. A tradição, estudos históricos e científicos identificam-no com o lençol que envolveu Jesus depois de morto, até à sua ressurreição. Um dos estudiosos desta, que é considerada a mais importante relíquia da cristandade, é Antero de Frias Moreira. Ele é médico fisiatra no Porto e escreveu a obra "Sudário de Turim: mortalha de Cristo ou fraude medieval?". Olá, Antero, e bem-haja por ter aceitado este meu convite diretamente do Porto. Bem-vindo ao Observador.

Muito obrigado. Muito boa tarde a todos. Eu quero, em primeiro lugar, agradecer em nome do Centro Português de Sindonologia, que é uma associação cultural sem fins lucrativos, que se destina ao estudo e divulgação de conhecimentos sobre o Santo Sudário. Eu quero agradecer à Rádio Observador e ao meu querido amigo, doutor João Paulo Sacadura, o convite que me foi feito pra esta pequena conversa.

Muito obrigado pelas suas palavras. O seu livro é da Edium Editores e foi editado em 2012. É muito difícil de encontrar. Está muito bem escrito, tem muitas ilustrações, tem 35 imagens no final, que ilustram tudo o que nos conta e que nos descreve, mas é difícil de encontrar. Há de sair mais alguma edição ou como é que é?

Eu penso que através da internet, se for a um site que é de Seda Publicações e lá procurar Edium Editores, Filosofia e Religião, eu julgo que eles ainda tenham alguns exemplares pra venda.

Ok, ainda bem. Então vamos lá começar. Vamos lá definir o que é este pano. O que é este pano de linho de grandes dimensões? O que eu distingo de outros panos, de outras mortalhas que há no mundo?

Ora, eu vou utilizar a definição que costumo usar nas minhas apresentações. O Sudário de Turim ou Santo Sudário de Turim é uma peça de tecido de linho que mede 4,36 metros de comprimento por 1,10 metro de largura, na qual é possível visualizar uma ténue imagem em tonalidade acastanhada da região dorsal e ventral do corpo de um homem desnudado, bem como manchas de tonalidade avermelhada e que, no seu conjunto, é altamente evocador de um flagelado e crucificado. Designa-se também como Santo Sudário, na crença de que seja o lençol adquirido por José de Arimateia e que envolveu o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo no sepulcro. Ele encontra-se em Turim desde 1578. Comparativamente a outras mortalhas que existem, ele distingue-se precisamente pela sua imagem e pelas manchas hemáticas. As manchas de tonalidade avermelhada que efetivamente são de componentes do sangue.

Muito bem. Isso quer dizer que este pano, que tem estas manchas de sangue, tem esta imagem e tem estas queimaduras, quer dizer que aquilo é mesmo sangue? Consegue saber o tipo de sangue que tinha aquele homem?

Consegue. Aquilo é mesmo sangue. Foram feitas análises bioquímicas extensivas, as quais encontraram variados componentes do sangue, nomeadamente o grupo M de hemoglobina, eletrólitos do sangue, albumina, globulinas. Inclusivamente, por métodos imunológicos, foi possível tipar o sangue como AB. Portanto, não há dúvida nenhuma que o sangue é do tipo AB. E mais ainda, ele foi tipado como sangue humano porque, pra além disso, foi feita também a determinação do grupo MNS e foi encontrado o antígeno S, o que permite dizer que não é apenas sangue de primata, mas sim, sangue humano.

Muito bem. Vamos tentar evitar as palavras técnicas. O Antero já está com muitas. Fazer uma coisa o mais simples possível, mas dando todas as informações mais importantes. Portanto, é sangue humano. Já sabe que é sangue tipo AB, que é curioso porque não é um tipo, por acaso, muito frequente na Europa Ocidental, mas é o mais frequente no Médio Oriente, o que é curioso. Tem-se a certeza que este pano, este lençol, é da época?

Ora bem. Do ponto de vista têxtil, eu não sou perito na matéria, mas por aquilo que eu li, vou lhe responder sucintamente da seguinte maneira: os céticos da autenticidade do Sudário de Turim afirmam que o padrão da malha, ou seja, a espiga de peixe 3x1, que é típico do período medieval. O que não é minimamente verdade, porque foram encontradas muitas peças arqueológicas de tecido, inclusivamente antes de Cristo, com padrões semelhantes. Portanto, por aí não podemos, de maneira nenhuma, afirmar ou deduzir que seja medieval, porque há peças anteriores. Só pra apontar um ou outro fato, na fortaleza de Massada, foram encontrados tecidos com tipo de costuras idênticas às do Sudário de Turim. Na época de, mais ou menos, 70 depois de Cristo. Além disso Se for feito um teste químico, eu não quero estar sendo técnico, mas um teste químico que é o fluoroglucinol HCL, que detecta a presença de um composto chamado vanilina, a nível dos nódulos das fibras do Sudário de Turim, ele é negativo, o que demonstra por si só que aquele tecido é um tecido muito antigo e nunca poderia ser do período medieval, porque se fosse do período medieval, daria positivo.

Muito bem. Antero, este incêndio, além de tudo que já falamos, mostra, por exemplo, que o condenado, este homem, não transportou uma cruz inteira, mas apenas uma trave nas costas. Era costume essas crucifixões, eles só levarem a trave às costas e depois a parte vertical da cruz estava no sítio onde eles iam ser crucificados?

Isso eu penso que historicamente depende das circunstâncias. Por exemplo, quando na altura da guerra dos judeus, o general romano Tito ordenou crucifixões em massa e os condenados eram crucificados no próprio local. Foram cortadas árvores, eles eram crucificados no próprio local. Neste caso, o condenado transportou a parte horizontal da cruz, o patíbulo, porque é inconcebível um ser humano, depois de ser submetido a todos aqueles flagelos, ter capacidade física para levar uma cruz inteira, cujo peso seria estimado em cento e muitos quilos. Isso é humanamente impossível.

E realmente foi. Este homem está marcado.

Já o patíbulo era em volta de 20, 30 quilos.

Sim, não tem nada a ver. Este condenado, este homem que está marcado no Santo Sudário, no fundo, está com o corpo todo, tirando talvez a cara e as mãos, talvez os pés, está o corpo todo marcado por esta flagelação, por este castigo, com este chicote que foi muito violento.

Segundo eu pude ler nos trabalhos de patologistas forenses, cerca de 60% da superfície corporal está marcada com lesões de chicotadas com o chicote romano, o flagrum taxillatum.

Sim, e também a coroação de espinhos é diferente do que estamos habituados.

Nós estamos habituados a ver nas representações artísticas uma coroa de espinhos, mas aquilo que os patologistas determinaram é que o instrumento de tortura foi não uma coroa de espinhos, mas um autêntico capacete que lhe envolveu todo o couro cabeludo, a região frontal, as regiões parietais, e estimam-se em cerca de 50 o número de perfurações que são detectadas pelo exame forense.

Portanto, os especialistas em medicina forense e em anatomia descobriram 50 marcas.

Cerca de 50.

Cerca de 50 perfurações em todo o crânio.

Estima-se, porque dos lados, como sabe, não há imagem corporal, mas atendendo à distribuição das lesões perfurantes, estimam-se em cerca de 50.

Esta crucifixão era uma coisa que já vinha desde os persas, dos cartagineses, dos sumérios, dos assírios, e eram feitas muitas vezes em massa. Uma coisa que mostra este homem que está marcado no Santo Sudário é que ele não foi crucificado com os pregos nas palmas das mãos, mas nos pulsos. Isso foi uma das descobertas que houve médicos que conseguiram comprovar isso, que só nos pulsos é que conseguiria aguentar um corpo?

Sim, isso foi verificado, porque o que nós observamos na imagem patente no Sudário de Turim é o local de saída do cravo a nível do punho esquerdo. Observa-se apenas o local de saída do cravo.

Isto porque ele está com as mãos sobrepostas, não é, Antero? Ele está com as mãos sobrepostas e, portanto, na outra mão não se vê.

Do ponto de vista experimental, o cirurgião Pierre Barbet, nos anos 30 do século passado, efetuou experiências. Ele era um estudioso do ponto de vista médico do Santo Sudário e efetuou experiências em cadáveres e membros amputados e chegou à conclusão de que efetivamente era impossível algum crucificado ficar preso na cruz com o cravo a perfurar-lhe a palma, porque as partes moles entre os ossos metacarpianos não têm resistência para suportar a tensão que aí é exercida, porque a tensão em cada uma das palmas, na posição de crucifixão, seria ligeiramente superior ao peso do corpo.

Isto o que o Antero está no fundo a dizer é que se os cravos, estes pregos, tivessem sido aplicados na palma das mãos, como nós vemos nas pinturas, o corpo não aguentava? Aquilo rasgava?

Não aguentava, as partes moles desgarravam.

Portanto, o corpo cairia. Portanto, só naquele sítio do pulso onde há o intervalo entre os ossos.

Não, e claro, os carrascos romanos que estavam habituados a esse tipo de suplício, eles sabiam muito bem o local onde iriam aplicar os cravos para fixar o corpo.

Portanto, há um espaço mesmo ali nos ossos do carpo, que há um intervalo entre os ossos?

Eles aplicavam o cravo. Eram cravos aterradores, cerca de 18 centímetros de comprimento por cerca de 1 centímetro quadrado de secção. Aliás, existem registros arqueológicos.

Eram os pregos de carpinteiro.

E eram aplicados a nível da prega de flexão palmar do punho e atravessavam o espaço entre os ossos do carpo e proporcionavam assim uma fixação sólida no patíbulo.

E portanto, houve mesmo este médico francês que já há quase 90 anos fez estas experiências mesmo com cadáver, não é?

Sim, nos anos 30.

Fez mesmo experiências com cadáveres e aquilo só assim é que aguentava mesmo o peso de um corpo pregado.

Sim, ele chegou à conclusão de que, efetivamente, o homem do Sudário, que tudo indica que seja Jesus Cristo, foi crucificado não nas palmas, mas a nível dos pulsos. E mais, portanto, teria os seus membros superiores elevados na posição de crucifixão a fazer um ângulo de cerca de 60 a 65 graus com a vertical.

É verdade. Falou nele o Pierre Barbet, este médico do Hospital São Luís, de Paris, que fez estas experiências mesmo e ficou muito conhecido por isso. Muito bem. Há outro pormenor curioso na história do Sudário, que era nos últimos séculos, era pertença de uma família, dos Saboias, a Casa Real de Itália O último dono privado do Sudário, no final, morava aqui em Portugal, em Cascais.

Exatamente. Foi o rei Humberto II.

Pois, que foi exilado.

Foi exilado depois da Segunda Guerra Mundial pra Portugal. Viveu durante muitos anos na Vila Itália, faleceu em 1983 e no seu testamento legou o Sudário de Turim à Santa Sé com a condição de que não fosse retirado de Turim.

Pronto, foi a condição de ainda hoje estar lá e assim é, assim se conserva. Agora, Antero, nós temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Antero de Frias Moreira, um médico fisiatra do Porto que escreveu a obra "Sudário de Turim: Mortalha de Cristo ou Fraude Medieval?". É curioso porque o Antero, sendo precisamente um especialista em medicina física e reabilitação, com certeza que se interessa também pelo aspecto anatômico do que mostra o Santo Sudário e tem realmente uns pormenores incríveis. Deixe-me perguntar-lhe uma coisa: médica e anatomicamente, a imagem que está neste Sudário está correta? Não há nenhuma incongruência?

A pergunta é um bocadinho complexa pra lhe responder.

Como é que pode responder resumidamente?

Do ponto de vista das imagens lesionais, ou seja, as manchas hemáticas, está absolutamente correta, respeitam a anatomopatologia das lesões. Inclusivamente, é possível do ponto de vista forense distinguirem-se trajetos de lesões em estruturas vasculares venosas e estruturas arteriais. Elas respeitam a anatomia, e eu estou a me reportar, por exemplo, às lesões na região frontal, onde há lesões perforantes do ramo frontal da artéria temporal superficial e da veia frontal, ramo da veia temporal.

Está a falar na testa do homem, na testa da cara que está no Sudário.

Respeitam perfeitamente a anatomia, os trajetos sanguíneos. E, por exemplo, os trajetos sanguíneos a nível dos membros superiores são perfeitamente consentâneos com a posição de crucifixão, porque o fluxo do sangue seguiu a linha da gravidade.

Da gravidade, exatamente. Quando verteu, fez aqueles traçados que ainda se mostram no pano.

Exatamente, traçados que estão patentes. Do ponto de vista da imagem em si, a imagem é correta, embora haja algumas pequenas distorções que têm a ver com a forma que nós ainda não sabemos como é que a imagem se produziu a nível do lençol e também com as manipulações que o lençol sofreu ao longo do tempo.

Pois, diga-me.

Mas do ponto de vista anatômico, ela é correta. Ela representa um indivíduo, com todo respeito por quem ele é, mas um indivíduo do sexo masculino, desnudado e em estado de rigor mortis, ou seja, a rigidez cadavérica que se estabelece cerca de duas horas após a morte.

Esta relíquia, este lençol é de longe o artefato arqueológico mais estudado de toda a história. Nenhum outro objeto foi tão estudado como este por cientistas de todo o mundo, incluindo da NASA, do Laboratório de Propulsão a Jato e de imensas especialidades de vários países. E estes estudos que têm sido feitos mostram algumas características desta imagem, deste retrato deste homem, que já percebemos que é único, que está neste lençol guardado em Turim, que são muito especiais, como por exemplo, o fato de ser um negativo, de ter informação tridimensional e de ser uma imagem, por exemplo, de grande pormenor e superficial, perfeitamente só na camada superior do pano. Como é que se pode explicar, por exemplo, a questão do negativo, quando é uma coisa que na altura, mesmo que fosse na Idade Média ou no tempo de Cristo, não havia fotografias, portanto, não havia sequer a noção de negativo. Isto não é uma coisa que tem surpreendido os cientistas, que se têm debruçado sobre este pano?

Absolutamente. Aliás, foi o que despertou o interesse no estudo científico da relíquia, porque em 1898, o fotógrafo Secondo Pia teve permissão para fotografar. Como nós sabemos, a imagem patente no lençol é uma imagem de tonalidade acastanhada. Na altura, havia apenas a fotografia a preto e branco. O Secondo Pia ficou admiradíssimo quando, no seu laboratório fotográfico, ao revelar, viu que o negativo fotográfico tinha muito mais pormenores do que a imagem que estava patente no lençol. Ora, isso acontece precisamente devido às características da imagem a nível microscópico, ou seja, a nível de fibras, porque ela é única. Como disse, e muito bem, é uma imagem superficial. As fibras estão coloridas só numa distância pequena, duas ou três fibras mais superficiais é que estão coloridas. E inclusivamente, há fibras coloridas ao lado de fibras não coloridas, o que é extraordinário do ponto de vista meramente da física.

E mais, Antero, não há sequer nenhuma imagem nas costas do lençol? Não se vê homem nenhum.

Está se referindo à parte de trás do lençol.

Sim, no verso do lençol. Não se vê nada.

Não, no verso do lençol não há.

Só há imagem à frente.

A imagem é superficial.

Só o sangue é que passa.

Contrariamente àquilo que as pessoas às vezes pensam que é uma fotografia. Não, aquilo não é uma fotografia. Aquilo resultou de reações químicas que ocorreram nas próprias fibras de linho Depois a imagem é fotografada, mas aquilo não é uma fotografia. Aquilo é tudo menos uma fotografia. Agora, comporta-se, sim, como um negativo fotográfico. Aquilo que nós observamos quando vemos aquelas clássicas fotografias da face do Sudário, que é o negativo fotográfico com todos aqueles pormenores, acontece precisamente devido ao que está codificado naquele pano. E isso é que é extraordinário.

Há uma codificação volumétrica, uma informação tridimensional. Como isso é possível?

Isto é que continua a baralhar os cientistas.

Ainda é um mistério.

Porque há uma proporcionalidade inversa entre a estrutura corporal que produziu a imagem e a sua distância versus o tecido. Ou seja, há zonas onde há contacto ou a estrutura corporal está mais próxima, elas aparecem mais escuras na imagem. Quanto mais longe estiverem, mais claras aparecem. Do ponto de vista microscópico, quanto mais escuras, mais fibras coloridas. Quanto mais clara a zona, menos fibras coloridas por unidade de superfície.

Portanto, está a dizer que o pano, por exemplo, que estava encostado, faz de conta, na zona da cara, as partes que tocavam no pano estão mais claras? É isso que está a dizer?

Não.

Mais escuras.

Há mais fibras coloridas nas zonas de contacto.

De contacto, ok. Muito bem.

De contacto. Agora, a imagem não foi obtida por contacto.

Antero, eu já li algumas coisas sobre isto, não consigo deixar de me surpreender, eu e se calhar milhares de cientistas em todo o mundo, porque é isso, ainda hoje, com a tecnologia do século XXI, com todos os meios que nós temos, os mais avançados que há, nunca ninguém, e têm sido feitos muitos testes por grandes cientistas, grandes químicos, grandes físicos ao longo da história, nunca ninguém conseguiu reproduzir uma imagem com aquele detalhe e com aquelas características especiais que se vê no Santo Sudário. Nunca ninguém conseguiu reproduzir uma mortalha igual àquela ou parecida.

Não, o que diz, João Paulo, está absolutamente correto.

Impressionante.

Correto. Têm sido feitas tentativas de reprodução da imagem por vários processos, através de processos fotográficos, através de um rubbing sobre baixos-relevos, com estátuas com baixos-relevos aquecidas pra provocar alterações térmicas no tecido. E mais recentemente, em 2009, se não me falha a memória, houve uma tentativa de reprodução da imagem do Sudário, completa, da região dorsal e a região ventral de um corpo. E quem a tentou elaborar foi um químico que sabia muito bem que aquilo que causou a coloração nas fibras foi um processo de oxidação e desidratação. E então através da utilização de um baixo-relevo, que era colocado sobre a face de um voluntário e que por sua vez era coberto com o lençol, era efetuada uma pincelagem com ácido sulfúrico diluído e azul de cobalto, e obteve realmente a imagem mais parecida com a do Sudário, mas que é completamente diferente do ponto de vista macroscópico. Não é preciso ser um entendido para se observar a imagem e ver que ela é completamente diferente. E por quê? Lá está, porque ele obteve apenas transformações químicas nas zonas de contacto.

Muito bem.

E do ponto de vista microscópico, também é completamente diferente. E também, como há pouco o João Paulo falou, da dita codificação tridimensional, que isso é um aspecto importantíssimo desta imagem.

É incrível como é algo que ainda hoje confunde os cientistas em todo o mundo. Antero, estou agora a pensar, por exemplo, naquele belíssimo crucifixo do Dalí ou aquele do Velázquez, que está no Museu do Prado. Por que todos os artistas, já a partir do Renascimento, pintaram tudo errado? Uma coroa de espinhos, só aquelas coroas à ocidental, à volta da cabeça. Já sabemos que foi um capacete que lhe abrangeu a cabeça toda. As palmas das mãos é que são atravessadas por pregos. Vemos às vezes dois pregos, um em cada pé, e a anatomia do Sudário mostra que foi só um pé sobreposto no outro. Por que os artistas pintaram tudo errado? Havia alguma proibição?

Eu não sou minimamente um perito em História de Arte, mas por aquilo que eu li, a crucificação foi abolida no reinado do imperador Constantino, no século IV, e depois caiu em esquecimento. Por outro lado, também durante muito tempo, nós sabemos que os cristãos, aliás, a religião cristã começou a predominar no Ocidente, os cristãos tinham conhecimento do suplício de que foi vítima Jesus Cristo.

Sim.

E, portanto, a cruz e a crucificação era algo horrendo que não era evocado. Durante muitos séculos, foi caindo em esquecimento. Depois quando se começou a representar artisticamente, os artistas, quer do ponto de vista da pintura, quer da escultura, imaginaram que teria sido assim e faziam as suas próprias representações, mas elas não estão de acordo com a realidade.

Até porque isso eu tinha a noção que houve durante muitos séculos era proibido representar Jesus morto, era assim um deus.

Exatamente.

E quando realmente estes artistas já são da Idade Média e do Renascimento, começaram a pintar, já há mais de 1000 anos que não se viam crucifixos na Europa. Pintaram como eles viam descrito nos evangelhos, que diziam uma coisa muito básica: atravessaram-lhe as mãos, atravessaram-lhe os pés. Portanto, não corresponde à realidade que o Sudário depois revelou. Há outra coisa curiosa que tem a ver com o sangue, Antero. Porque eu tenho a impressão que o Sudário tem quase tudo é sangue que Jesus, ou aquele homem, terá vertido em vida, como aquelas marcas todas que falou da flagelação. Mas também há sangue que ele verteu, e consegue-se descobrir isso através de análises com luzes físicas e químicas, que há sangue que ele já verteu depois de morto.

Exatamente. Há predominantemente sangue que extrudiu. E agora eu faço só um pequeno parêntesis para dizer que aquilo que se observa no Sudário, as manchas, não é sangue completo, aquilo é material hemático, portanto sangue, que resultou do contato dos coágulos à superfície das lesões e que passou pro tecido. Não é sangue completo, tem muita falta de elementos celulares do sangue, é um exsudado de coágulos.

Ok.

Mas na linha do que estávamos a falar, há efetivamente sangue vital e sangue que extrudiu após a morte.

O chamado sangue cadavérico.

O exemplo mais paradigmático é a mancha hemática da ferida do lado, onde há uma mistura de sangue e de um fluido de cor clara. Isto é muito importante que se diga, porque no capítulo 19 do Evangelho de São João, fala-se do episódio do soldado que perforou a lança de Cristo, perforou o lado do qual brotou sangue e água. Ora, efetivamente, no Sudário observa-se uma mancha avermelhada, que é de sangue, foi o sangue proveniente da aurícula direita e a dita água não é mais do que fluido do derrame da pleura ou derrame do pericárdio, que é uma membrana que envolve o coração. Portanto, isto está absolutamente de acordo com o Evangelho. E mais ainda, essa mancha clara, a dita água, observada pelo discípulo João, que estava aos pés da cruz, é muito mais aparente em fotografia de fluorescência de ultravioletas.

Muito bem. Sabe se tem-se alguma noção de quanto tempo é que este corpo terá ficado envolvido neste pano?

Sim, temos elementos pra poder inferir quanto tempo é que o corpo esteve envolvido no pano. O facto de a imagem representar um corpo em rigor mortis e também o facto dos estudos químicos que foram efetuados pelos bioquímicos John Heller e Alan Adler, num estudo laboratorial muito sofisticado, não detetaram produtos de decomposição corporal. Ora, a ausência de produtos de decomposição corporal e a presença do rigor mortis, permite-nos inferir que aquele corpo não esteve envolvido pelo lençol por mais do que 30, 36 horas. E há um outro aspecto também muito importante que, se me permite, eu gostaria de referir.

Diga.

E também não há explicação como é que o lençol possa ter sido removido do corpo ou, noutra perspectiva, o corpo removido do lençol, porque as manchas sanguíneas estão absolutamente imperturbadas. Os seus contornos são perfeitamente regulares, as regiões periféricas estão mais elevadas e as regiões interiores estão deprimidas e não há qualquer esborratamento.

Portanto, está a dizer que se a pessoa tirasse o corpo, arrastava ou mudava aquelas feridas e não há.

Não há qualquer explicação. Se qualquer um de nós fizer uma experiência de um coágulo sanguíneo ligeiramente úmido, colocar uma compressa e retirar depois a compressa, vê o que é que acontece. A mancha fica completamente esborratada. Aqui não se verifica isso.

Eu sei que o Antero foi há alguns anos a um congresso, por exemplo, que houve em Valença, sobre o Santo Sudário. Há muitos congressos sobre o tema, há quase 100 anos que há congressos sobre o Sudário de Turim, porque realmente é uma coisa que continua a confundir os cientistas em todo o mundo. Nesses congressos vão especialistas e vão falar sobre o que descobrem sobre o Sudário, mas que não são católicos, a maioria são judeus, protestantes e agnósticos. Certo?

Eu não diria que a maioria não são crentes. Há também agnósticos e há judeus. Aliás, eu há bocado apontei o nome, o professor Alan Adler, o bioquímico, era judeu. E atualmente o editor do principal site de caráter científico, o doutor Baruch Swartz, é também judeu.

Ok.

Agora, eu não diria que a maior parte são agnósticos.

Mas portanto, esses homens estudam o Sudário sem acreditar que é Jesus.

A ciência por si não vai identificar o homem que foi envolvido no lençol. A ciência é neutra

Sim. Mas realmente há muitos pontos de coincidência com a figura que vem relatada nos evangelhos de Jesus Cristo.

Agora, a conclusão que nós podemos tirar é reunindo múltiplos aspectos. Tudo aponta para que efectivamente seja a mortalha que envolveu o corpo de Jesus Cristo.

Temos aqui uma última questão sobre esta grande polêmica dos testes de carbono 14. Estamos a falar da Páscoa de 1988, já lá vão 30 e tal anos, onde a Igreja nunca deixou fazer testes de carbono 14, porque são testes destrutivos e era preciso queimar parte do pano, até que em 88 lá se deixou fazer os testes. Houve três laboratórios, Tucson, Oxford e Arizona, que fizeram o teste e depois veio o resultado que espantou o mundo. O Sudário seria uma fraude medieval entre 1260 e 1390. Hoje em dia acredita-se que estes testes de carbono 14 não foram indicativos da idade do Sudário, da verdadeira idade. Há outros testes que provam que o Sudário é do tempo de Cristo, mas ainda é uma mancha que continua a levar muita gente a não acreditar que é realmente Jesus que está ali representado.

Em relação a isso, é um tema que levantou muita controvérsia. Atualmente, quem se dedica ao estudo do Sudário de Turim já tem uma explicação para o que se passou. Efetivamente, aquilo que foi datado, a amostra que foi recolhida do Sudário, não é representativa do resto do Sudário. E só há duas explicações: ou há uma contaminação com carbono 14 mais recente que não tenha sido removida pelos processos de limpeza, ou então ela resultou, como tudo indica, de um restauro medieval invisível. Como em 1988 foi recolhida apenas uma amostra, não três amostras, aquilo que tinha sido acordado era que iam ser selecionados sete laboratórios, ia ser utilizado outro método, além do método AMS, Accelerator Mass Spectrometry, foi o único utilizado, e escolheram o pior sítio que podia ser selecionado para recolher a amostra.

Portanto, não é representativo.

Claro, isso foi o único elemento dissonante. Surgiram várias teorias explicativas, mas entretanto, desde estudos físicos anteriores a 2005, através da espectrometria de infravermelhos com transformadas de Fourier.

Outros testes, sim, os testes mais modernos.

Que demonstraram que aquela amostra que era quimicamente díspar do resto do Sudário. Em 2005 foi feito um estudo aprofundado pelo professor Rogers com o material remanescente do local onde foi cortada a amostra para os testes de carbono 14, e ele concluiu inequivocamente que aquela amostra não era representativa do resto do Sudário. Mais ainda, utilizando um método alternativo, que é o método da cinética de degradação da vanilina, ele concluiu que a idade do Sudário seria entre 1300 a 3000 anos. Mais recentemente, e eu estou-me a referir a um estudo sobre a análise estatística das subamostras, e esse estudo foi publicado em 2019 na revista "Archaeometry", chegaram à conclusão de que havia uma marcadíssima heterogeneidade das subamostras que foram fornecidas aos laboratórios, logo aquela datação não era válida para o resto do Sudário.

Muito bem. Diga, temos que terminar.

Só para terminar. Com métodos alternativos de datação de têxteis, a equipa do professor Giulio Fanti, utilizando método micromecânico multiparamétrico, a espectrometria-

Isto já é sempre complicado.

Espectrometria Raman e a espectrometria de infravermelhos com transformadas de Fourier, concluiu que o tecido do Sudário seria datável entre 280 antes de Cristo a 220 depois de Cristo.

Então pronto, apanha mesmo a altura em que nós sabemos.

O corpo nunca foi usado medieval.

Muito bem, nós já terminámos, passámos o nosso tempo. Antero, quero lhe agradecer. Quero lembrar só que amanhã é sábado, dia 3 de abril, Sábado Santo, e que vai haver uma cerimônia, para quem esteja interessado, uma cerimônia de meditação e oração diante do Santo Sudário, que vai ser transmitida pela TV2000, um canal italiano, às 15h30, hora de Portugal. Pode seguir pelo site www.tv2000.it/live. É este conselho que fica aqui. Amanhã vai ser uma meditação em direto televisionada com o Santo Sudário, amanhã neste canal italiano, TV2000. E hoje quero lhe agradecer, Antero, porque hoje, Sexta-feira Santa, é o dia ideal para ter tido esta conversa que fala da morte de Cristo e do seu sepultamento, até celebrarmos no domingo a sua ressurreição. Já sabemos então, o corpo estará envolvido neste lençol desde o fim da tarde de hoje, Sexta-feira Santa, até à madrugada do domingo, à altura em que Jesus teria ressuscitado. Não temos tempo para mais, mas quero agradecer muito, Antero, a sua disponibilidade em falar ao Observador. Oxalá continue as suas pesquisas e os seus comentários avisados sobre esta relíquia tão importante para tantos e este mistério da história que tanto impacto tem causado no mundo ao longo dos séculos. Bem-hajá, Antero. Até breve, muito boa Páscoa e mantenha-se seguro.

Eu é que agradeço e desejo uma feliz Páscoa.

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