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Nós quando levamos para lá uma equipa, não temos uma clínica perfeita à espera deles. Muitas vezes nós nos deslocamos às roças, onde é uma casa, às vezes até mesmo meio abandonada, sem água, sem luz, e temos que nos enrascar. Então nós quando enviamos para lá uma equipa, dizemos sempre: "Isto é ir com espírito de aventura". Vão aparecer 1500 problemas.
Colaboração, compração de uma ONG.
Exatamente. Vamos chegar ao dia, não temos carro porque não há combustível, ou não temos carro porque tem os pneus furados, temos que ir a pé, temos que ir de moto.
As estradas também são, o que eu sempre ouvi dizer, são picadas.
É a massagem africana, como nós costumamos dizer.
Toda a gente conhece os Médicos Sem Fronteiras, mas quem é que conhece os Veterinários Sem Fronteiras? Os Veterinários Sem Fronteiras Portugal celebram este ano 20 anos. São duas décadas a promover a saúde e o bem-estar das comunidades, dos animais e do ambiente. Esta ONG colabora sobretudo com os PALOP, onde há carência de cuidados veterinários e onde há, imagine, clínicas veterinárias sem um único veterinário residente. Comigo tenho a Rita Laranjinha, ela é estudante de medicina veterinária e é entusiasta da causa. Participou em cinco das oito campanhas, por exemplo, menos é mais, vamos saber depois o que isto quer dizer, que existiram até o momento e que atualmente faz parte da direção dos VSF Portugal, mas que, curiosamente, quando era nova, tinha medo de cães. Olá, Rita, e bem-hajas por ter aceitado este meu convite. Bem-vinda à Rádio University.
Muito obrigada. Em primeiro lugar, queria agradecer o convite, poder vir aqui falar um bocadinho acerca dos VSF e dar a conhecer a um público mais largo.
Sim, é muito importante. Veterinários Sem Fronteiras, não sabia que existia. Quando tivemos a entrevista com o teu amigo Bernardo Soares.
Exatamente.
Veterinários Sem Fronteiras.
Adorei a sua reação.
Exato, mas é muito importante, as pessoas não sabem isto, vocês fazem coisas muito úteis. E cá está, One Health, não é só desparasitar e esterilizar os cães. Não, tudo o que vocês fazem pela saúde animal, e os veterinários são muito desconsiderados, não são reconhecidos, é terrível, já conversei com o Bernardo sobre isso. Tudo o que fazem vai impactar os humanos, vai impactar o ambiente. Portanto, saúde estamos todos envolvidos.
Claro que sim. Aliás, os veterinários também são agentes de saúde pública. Existem, infelizmente, imensas doenças zoonóticas, que são transmissíveis entre pessoas e animais. E então o facto de tratarmos os nossos animais ou os animais de rua, por exemplo, estamos a contribuir indiretamente também para a saúde humana.
O grande trabalho que se faz em Portugal impede, por exemplo, que a gente tenha raiva. E é uma coisa que ainda existe em imensos países, com os cães vadios e os cães grandes.
E apesar de Portugal estar livre, não quer dizer que um dia não volte.
Não volte a um surto, exatamente. Muito bem. Tu nasceste então em Arruda dos Vinhos, és arrudense.
Sou arrudense de gema.
Terra do fuzo e da boa comida também.
Toda a gente conhece o fuzo, eu digo sempre: há restaurantes melhor. Ai, que agora vão cancelar.
Exatamente, nunca mais lá entras. Mas come-se muito bem naquela zona, não é?
Come-se muito bem, claro, e é terra do vinho. Aliás, a minha família vem mesmo disso, é dos vinhos. Temos imensas uvas, imensas vinhas e para a semana já estou a trabalho, lá na apanha.
Claro. Tu foste filha, neta e bisneta única até aos 17.
Exatamente.
Por quê? Vieste embora de lá aos 17 ou tinhas sobrinhos e netos?
Não, eu da parte da mãe, sou filha, neta e bisneta única até aos 17, porque depois nasceu uma irmã aos 17, quando eu tinha 17 anos. E da parte do pai, estive 10 anos como filha única, por isso eu sou quase mãe delas.
Exatamente. E agora, já aqui um esclarecimento, tu és Laranjinha com G. E eu descobri no teu e-mail, porque o teu e-mail vinha assinado Laranjinha com G. Mas toda a gente te deve escrever laranja com J, portanto, tens sempre que acertar: "Eu sou Laranjinha com G".
Completamente.
Faz parte já do teu nome.
Nem sei porque é que isto aconteceu, porque eu acho que o meu pai também tem com G, mas acho que avós ainda não têm, têm com J. Por isso não sei se isso foi algum problema, o que é que foi, mas olha, a verdade é que é com G. Eu sou diferente, para não ser igual aos outros.
E também és diferente no nome, porque o teu e-mail diz Catarina, tu és Rita, mas és Rita Catarina, não é?
Sou Rita Catarina.
Foi uma grande decisão da tua mãe. Quem compõe?
A minha mãe era muito viciada em revistas, e então quando estava no hospital prestes a ter-me, estava a contar os nomes, quais eram os nomes mais populares daquele ano, e não se conseguiu decidir entre Rita e Catarina, então por que não juntar os dois? E pronto, sou Rita Catarina.
Agora, é verdade o que eu contei. Tu sempre tiveste animais, cães, gatos, e também grandes animais, ovelhas, vacas e uma égua até. Mas tinhas medo de cães, tinhas algum medo de cães.
Eu não faço a mínima ideia de onde é que isso surgiu, porque eu nunca fui atacada por nenhum cão, nem nada do género.
Que tu lembres. Eu tendo dois gêmeos, eu lembro perfeitamente desta cena, vir da escola, pô-los ali ao pé de mim quando viemos da escola, e um cão da minha irmã, pastor alemão enorme, foi lamber-lhe a cara e ele ficou muito aflito, e eu lembro que a partir de aí ele tem um bocadinho de medo de cães. Eu acho que foi um trauma, porque ele não se lembra, porque tinha um ano ou 11 meses.
Eu não sei, mas eu tinha mesmo pavor. Aliás, sempre que eu ia a casa do meu padrinho ou a casa de amigos, eles tinham que prender os cães e eu só entrava quando fosse suficientemente seguro. Eu tinha mesmo muito medo, mas isto passou do nada.
Alguma coisa, alguma epifania aconteceu que deu toda a volta. Hoje é um dos teus animais favoritos.
É o meu animal favorito, sem dúvida.
Incrível. E tens histórias com cães assim amorosas ou perigosas?
Não, perigosas acho que não. Acho que nunca tive. Eu acho que foram ali dois cães que os meus avós tiveram numa determinada altura. Como eu fiquei mais próxima deles, que me deram aqui a volta e mostraram que eles cá não são assim tão bichos de sete cabeças como eu penso. E eu lembro-me que eu, a um dado momento, sempre que estava de férias da escola, estava sempre lá na casa dos meus avós e andava sempre enrolada com eles.
Isto em Arruda também?
Em Arruda, sim. E os meus avós, e a minha bisavó que era quem tomava conta de mim, estava sempre a ralhar comigo: "Tu um dia vais ser atacada, um dia tu ainda apanhas uma doença, tu um dia vais ver". Até que um dia, eu já tinha uns 16 anos, apanhei a febre da carraça. E eu lembro perfeitamente até hoje que estava super mal na cama, o médico a dizer que já tinha sido mesmo na última, que estava muito grave, e a minha preocupação era só os cães. Eu assim: "Pronto, é desta, que os cães vão todos embora. Ela tanto que andou a prometer, é desta". Mas não, eles ficaram vivos, inteiros e de ótima saúde.
E tu também com ótima saúde e viva, o que é muito bom. E por isso estás aqui. No nono ano, estavas ainda pequenita, tiveste que escolher entre que área querias, escolheste Ciências e Tecnologias Tinhas esta ideia de enfermeira e psicóloga, passou pela tua cabeça?
Passou. Eu era uma pessoa completamente perdida. Aliás, eu invejava aquelas pessoas que desde os cinco anos sabem o que querem ser. Nunca.
Exato. Há pessoas assim.
Nunca na vida.
Se às quatro anos me perguntassem saber, eu não sei.
Não sei saber nada, completamente. Eu acho que ainda hoje, às vezes, começo a pensar: "Será que é mesmo isto?"
Afinal de contas, o que eu quero fazer da vida? Do que eu gosto verdadeiramente? Isto já no 12° ano, segunda fase dos exames.
No final da segunda fase dos exames.
Outra epifania te aconteceu e disseste: "Medicina veterinária". Quando isso aconteceu? E é o que estás a estudar.
É verdade. Eu lembro-me que já tinha feito a segunda fase, eu parei pra pensar: "Fogo, eu tenho que preencher aquelas seis opçãozinhas. O que eu vou pôr naquelas opções?" E foi aí que eu lembrei que aquilo que eu mais gosto realmente são de animais. Mas já fui tarde demais, a físico-química tramou-me. E então na altura eu nem sequer me consegui candidatar a medicina veterinária.
Ah, pois foi.
Não consegui.
Por isso foste pra educação. Educação básica.
Eu nem me lembro de pôr essa opção. Nem me lembro.
Mas era uma que lá estava e tu foste. Estiveste lá um ano, foi? Para depois repetir os exames e escolher outra vez.
Mas não aconteceu.
Quando é que a vida te trocou as voltas?
Eu na altura escolhi essa opção. Realmente entrei em Santarém e na altura eu lembro perfeitamente quando estava a matricular-me na escola, fui com a minha mãe e estava lá super perdida. Eu sabia lá o que era educação básica. Eu não era daquelas pessoas que pesquisava, ia ver a escola, nada. Porque gostava de Santarém, pus Santarém, educação básica parecia interessante. E então na altura em que eu estava lá a matricular-me, eu lembro que a senhora deu uma folha das disciplinas do primeiro ano, a senhora do serviço acadêmico, e depois foi-se embora. E minha mãe bate-me assim no ombro: "Olha lá, então isto afinal é pra que é este curso?" E eu meto-me a olhar assim para as disciplinas. E no primeiro ano há um estágio de creche ao pré-escolar e eu: "Olha, não sei, eu acho que isto é ser pra educadora de infância, isto aparece aqui creche e pré-escolar". E então na altura eu saí de lá a pensar: "Ok, faço um ano". A minha mãe disse: "Não vais ficar parada um ano em casa" e eu: "Ok, faço um ano, depois repito os exames no final do ano". Mas a verdade é que apaixonei-me. Adorei Santarém.
Gostaste da escola, das pessoas, do sítio?
Eu não posso dizer que me tenha esquecido de medicina veterinária. Eu costumo dizer que guardei assim na caixinha dos sonhos. Fica lá guardada, talvez um dia, talvez não.
E hoje a VSFA, por exemplo, tem um projeto de educação, por exemplo, que tem a ver com isso.
Exatamente, faço parte.
Junta as duas valências que tu tanto gostas, quer educação, quer-
Estou nos meus sete mundos. Está incrível.
Exatamente. Muito importante e negligenciado, estávamos a falar disto, deste papel dos médicos veterinários na saúde pública. Quando falamos de saúde pública, pensamos logo em hospitais, em médicos, vacinas, campanhas de prevenção, mas os médicos veterinários têm um impacto absolutamente determinante no bem-estar coletivo. É um guardião da saúde pública e é uma peça fundamental na literacia em saúde. Com o Bernardo falámos isso também, importante na prevenção. Além do cuidado com os animais, prevenção de doenças, o controle dos surtos, aí entram as zoonoses. A segurança alimentar, a regulação dos usos antimicrobianos e a promoção de uma relação equilibrada entre humanos, animais e o ambiente. Vocês então são sempre adeptos do One Health.
Exatamente.
Aqui entra o teu fascínio por África.
Claro.
Porquê? Nunca tinhas viajado pra lá, não tinhas amigos, não tinhas conhecidos, mas estavas a estudar veterinária, algures no meio do curso, de repente, abriu uma janela a dizer: "Estágio pra São Tomé".
Exato. Eu estava a estudar educação básica, nessa altura estava a estudar educação básica. Eu costumava muito ver aqueles programas ao sábado e domingo que dá na televisão de vida animal, etc.
Sim, claro.
E muitos deles são em África, então eu idealizei que um dia eu tenho que ir pra aquela África. Lá está, não conhecia ninguém de lá. E então surgiu a oportunidade, no meu terceiro ano de licenciatura, de fazermos um estágio de duas semanas em São Tomé. E eu, uma vez mais, nem pesquisei nada, não sabia nada de São Tomé.
Mas todos os teus colegas olharam pra ti.
Não, esse ainda foi depois. Este foi o primeiro contacto.
Ah, sim?
Eu fui com uma colega e eu lembro-me no dia antes, estarmos lá a discutir com a professora o que é que íamos fazer, etc. E na minha cabeça eu pensei: "Ok, vou duas semanas dar aulas", até foi pra um jardim de infância, "em São Tomé, de certeza que vou dar aulas debaixo do mar".
Tinha a ver com a educação, portanto.
Exatamente.
Ok.
Na minha cabeça-
Longe dos cães.
Completamente. Na minha cabeça, São Tomé, sei lá, eu ia pra debaixo do mar, ver os mís em todos os rotos. E eu lembro que na altura uma professora disse: "Rita, calma, aguenta lá um pouquinho os cavalinhos, que não é bem assim".
Estavas no último ano do mestrado, portanto.
Exatamente. Não, este estava no último ano da licenciatura, em que eu fui duas semanas. E foi muito interessante, fui com essa minha colega.
Duas semanas depois é que foi.
Exatamente. Depois. Na altura, quando eu saí, foram só duas semanas. Aliás, eu já tinha voltado.
Só duas semanas lá?
Só duas semanas.
Foi muito pouquinho.
É que os estágios era só duas semanas de licenciatura. E então, se eu já tinha o gostinho, pior ainda, fiquei bem pior.
Ainda mais apaixonaste-te por sítios. Santarém primeiro.
É verdade.
Depois não fazes coisa por menos.
Eu ligo-me muito às coisas e às pessoas, é um problema.
Isso é bom.
Tenho o coração partido em vários sítios.
Então, dois anos depois é que vem o príncipe, foi isso?
Exatamente.
Já estavas então na parte final do mestrado, e era um projeto na ilha do Príncipe. Este dar aulas no quinto, sexto, sétimo, a tecnologia e conservação foi o anterior?
Não, foi este agora.
Foi este, pronto.
Este, o da licenciatura, foi duas semanas num pré-escolar, a ter contacto com crianças e a acompanhar as suas rotinas. Depois voltei pra Portugal, fiz o meu mestrado em ensino de primeiro ciclo e de segundo ciclo. Oficialmente, sou professora de primeiro e segundo ciclo.
Exatamente.
E quando já estava quase no final do meu mestrado, já tinha em mente, talvez antes de começar a trabalhar, fazer outra coisa em África, mas nem pensava em São Tomé e Príncipe, eu queria mesmo ir pra aquela África dura, mesmo forte.
Pura e dura.
E então o professor, estávamos a dar aula e falou-nos deste projeto. E eu lembro que naquele momento, todas as minhas colegas olharam pra mim.
As concentrações é a cara dela, é a cara da Rita.
E até eu fiquei super entusiasmada. O único problema era a duração, efetivamente. Porque era um ano letivo a dar aulas. Aquilo é um projeto também muito interessante, que é o Clube Ribada, são aulas extracurriculares que damos às crianças, eles saem da escola, vêm ter conosco, acompanhamos quinto, sexto e sétimo anos e abordamos temas de biotecnologia e conservação.
Muito bem.
Exato.
E aí é que vem o problema da família. Meu Deus, a família deixar partir a menina da terra, a filha única, neta única, bisneta única, nem pensar. Tem que ter que lutar. Filha, nem pensar, há coisas mais perto, por que queres pra África?
O problema era ser um ano. Um ano, olha se me acontece eu morro pra lá, como é que te achamos? Como é que nós queremos?
No meio do oceano, no meio de África. Exato. E até o teu avô quis impedir tu do ir. Oferiou dinheiro.
Oferçou dinheiro. Foi pra aí um ou dois dias antes mesmo de eu partir, já estava tudo programado. Ele disse-me, ele veio ter comigo assim: "Olha, quanto é que tu queres? Quanto é que tu queres para não ires?"
Só há gente tem um preço. Gosto muito. Mas tu quiseste mesmo ir, foste extremamente protegida. Tu eras muito protegida antes, nem sequer podias andar na rua sozinha, as pessoas em casa não te deixavam e te protegiam-te muito. E de repente Tiveste de convencer a família a ir um ano sozinho para o outro lado do mundo. A mãe ainda insistiu, houve aquela luta, passado uns meses tinhas sido aceite.
Exato.
Então lá vamos nós.
Lá vamos nós.
Um ano passaram a quatro.
É verdade. E depois logo por azar, eu fui no ano do Covid. Ou seja, eu fui em 2019, mas depois apanhei o primeiro ano do Covid, ou seja, pior ainda, fiquei presa naquela ilha. Eles que já não queriam que eu fosse, fui para lá e fiquei presa ainda ali.
"Eu não te disse?" Imagino.
É verdade. "Vais morrer para lá".
Falavas com eles de vez em quando, no Skype e coisas assim?
Sim, sempre.
Tinha que ser. Muito bem, então foste extremamente feliz no Príncipe. Adoraste aquilo. A ilha é uma ilha, de facto, é reserva natural da biosfera, linda de morrer. Andaste naquelas praias todas lindas das Sete Ondas e daquilo tudo?
As Sete Ondas é em São Tomé.
Tu estiveste no Príncipe, mesmo Príncipe.
Eu estive mesmo no Príncipe.
É ao pé daquela roça perto da Ilha das Rolas.
Exatamente. As Sete Ondas é a Caminhos do Sul.
Einstein mandou ver o eclipse.
Isso é no Príncipe, é na Roça Sundy. Está lá mesmo um mural em homenagem a ele, celebre. Ainda agora há pouco tempo, celebrou-se 100 anos, há um ou dois anos, já não lembro.
Foi. Para confirmar a teoria da relatividade, é extraordinário, foi muito importante essas medições ali. Pela primeira vez sentiste-te em casa e estavas a milhares de quilómetros da tua família, da tua casa.
Completamente, é verdade. Fui para lá sem conhecer uma única pessoa. Eu fui com o meu chefe na altura, que também tinha estado com ele só uma vez na entrevista. Eu não conhecia absolutamente ninguém, já tinha estado em São Tomé, mas lá está, agora ia para o Príncipe, era diferente, era uma outra ilha.
A primeira vez foi em São Tomé, eu não me lembrava disso.
Exatamente. E na altura não consegui ir ao Príncipe, queria ter ido, mas não consegui. E desta vez fui direta lá.
Cães vadios no Príncipe. Infelizmente, não há pessoas nem lugares perfeitos e, portanto, é um grande problema o número elevadíssimo de cães de rua, alguns com dono, mas que vivem nas mesmas situações. E é uma ilha maravilhosa onde os humanos e os cães ainda não têm uma boa relação. Existe sempre uma luta entre o cão e o homem, o cão que morde e o homem que lhe bate. Tu levaste com isto e isso fez-te a maior das impressões, porque já estavas muito focada no resgate animal.
Sim. Primeiro, eu não estou habituada, felizmente cá em Portugal, é claro que ainda existem alguns casos pontuais, mas já nem sequer estamos habituados a ver matilhas de cães na rua, nem nada disso.
Pois não.
E lá, nós quando chegamos lá, agora felizmente já não, mas no início, não se encontrava um cão em mínimas condições na rua. Aquilo ou estavam cheios de sarnas, ou estavam queimados, ou estavam com patas cortadas. Vê-se um bocadinho de tudo. E depois é as guerras entre os cães, quando as cadelas estão com cio. Então, infelizmente, no meio de tanta beleza e quase tanta perfeição, ainda existe aquele problema e realmente era aquilo que mais me afetava, porque me sentia impotente. Infelizmente, na Ilha do Príncipe não existe médicos veterinários.
Incrível. E foi lá que tu encontraste que havia, ali, não sei onde, que havia uma espécie de clínicas, ou os senhores levavam os animais a um sítio onde é suposto, é como se fosse clínica veterinária, mas não havia residentes lá mesmo. Deve haver equipes muito bem preparadas, tu dizes isso, mas que passam nos sítios e são chamados, mas que não estão sempre.
É assim, neste momento, em São Tomé existe uma clínica e elas fazem um trabalho incrível, mas não têm mãos.
Em São Tomé mesmo?
Em São Tomé. Mas coitadas não têm mãos a medir, porque São Tomé é uma ilha enorme e onde o problema é escalado numa outra dimensão.
Sim, claro.
No Príncipe não existem veterinários, médicos veterinários ou enfermeiros não existem. Existem técnicos, no entanto, o trabalho deles é mais direcionado para grandes animais, por exemplo, para o matadouro, para o controle, para a entrada dos porcos, vacas, etc. Ou seja, se o meu cãozinho tem uma ferida, não tem nada, nem nada, nem ninguém para o ajudar.
Têm que recorrer a eles.
Então na altura o que nós fazíamos é: nós tínhamos ali um grupinho, por acaso éramos todos portugueses, e fazíamos o que podíamos. Pronto, dois deles eram enfermeiros de humanos, então por norma íamos sempre ter com eles porque sempre tinham mais conhecimentos do que nós. Mas a ideia era ligávamos para conhecidos, tentávamos pesquisar na internet o que é que podíamos fazer para aquele ou para o outro caso. Eu muitas vezes quando ia a casa de férias tirava fotos, tirava fotos aos cães todos. "Este tem um problema na orelha, este tem um problema no olho". E depois chegava cá a Portugal e ia ao meu veterinário: "O que é que eu posso fazer a isto?"
Exatamente. E depois a questão do material, como é que arranjavam lá material que fosse preciso? Havia, usavam os dos humanos ou depois quando foste já levavas coisas contigo?
Sim.
Ou encomendavam?
Tudo o que era medicação para esses casos específicos, eu trazia de Portugal mediante o que o veterinário me dissesse. Enquanto estávamos lá, não havia. Não havia. Tratávamos as pulgas, por exemplo, com um banho de vinagre ou dar-lhes óleo de coco na comida.
Óleo de coco é bom para isso?
Lá dizia que sim. Olha, era melhor do que nada. Nós mostrávamos sempre.
Tentam tudo.
Pronto, fazíamos o que podíamos.
E havia, portanto, lá um grupo de voluntários, no fundo, também, já.
É assim, amigos dos animais, digamos assim. Nós tínhamos pena e sentímo-nos impotentes, então tentávamos sempre ao máximo fazer o que conseguíamos.
Em 2021 há este projeto Menos é Mais. Esta ideia, as coisas começaram a mudar, então já temos há cinco anos, iniciou-se este projeto Menos é Mais, já da Veterinários Sem Fronteiras, na Ilha do Príncipe. Ficaste muito contente quando soubeste, claro, isso é muito importante, mas ainda não estavas lá, ainda não fazias parte, ou já?
Não, aliás, eu nem conhecia, eu nem sabia que existiam os Veterinários Sem Fronteiras.
Conheceste lá, então.
Conheci lá, porque eu vivia os Veterinários Sem Fronteiras, temos vários parceiros neste projeto Menos é Mais. Um dos parceiros é a Fundação Príncipe, que nos chega de casa, sempre que há voluntários, eles podem ficar numa guest house lá, que era a guest house onde eu vivia. Então basicamente houve um dia em que chegou-me lá dois veterinários e eu toda felicíssima da vida, do género: "Boa, agora finalmente vamos fazer alguma coisa". E então foi assim que eu os conheci, foi lá.
Através deste projeto Menos é Mais, vamos já falar disso. Para já, Rita Laranjinha, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Rita Laranjinha, ela é estudante de Medicina Veterinária e entusiasta da causa dos Veterinários Sem Fronteiras Portugal, uma ONG que celebra duas décadas este ano e que opera sobretudo em Portugal e nos Palops. Este Menos é Mais, que estás a falar, era um projeto já dos Veterinários Sem Fronteiras. Das oito campanhas que fizeram, este Menos é Mais, oito vezes foram lá, tu estiveste em cinco, portanto mais de metade tem a ver contigo. Participavas naquilo que conseguias, fazias o que mandavam. Aos poucos, aquele sonho que tinhas guardado naquela caixinha, que nós falámos, começou a sair. E quando essas campanhas decorriam na ilha, isto era o quê? Um mês por ano?
Dependia de quando conseguíamos financiamento e de quando é que havia oportunidade também dos nossos voluntários irem.
Acabavas às vezes mais cedo e ias a correr.
Sim, chegou uma altura em que eu acabava realmente mais cedo, mandava os miúdos embora e eu pensei: "Ok, algo aqui não está certo. Eu estou aqui para dar aulas, estou sempre mais cedo para ir ajudar veterinários."
E depois percebeste: "Não, eu tenho que ir para veterinária e vou ter que tirar este curso e acabou. É o que eu tenho que fazer." Podes dizer que os Veterinários Sem Fronteiras, de facto, mudaram literalmente a tua vida?
Mudaram literalmente a minha vida. Eu estava lá muito bem no Príncipe. Aliás, fui até numa campanha específica em que estava lá um casal de veterinários, em que a veterinária tinha tido um percurso muito parecido com o meu, era professora e também do nada mudou. E foi ela que me começou a deixar o bichinho de: "Mas tenta!"
Ela que está a dizer bichinho quando tu estás a dizer veterinária.
Exato.
Da única vez tem tudo a ver. E então?
Na minha cabeça: "Não, já estou muito velha para isto e agora são seis anos de curso e só se tenho cabeça para estes seis anos de curso". Mas ela foi-me ajudando: "Não, vai, tenta". Entretanto, foram outras campanhas para lá e eu pensei: "Ok, ou vai ou racha, vou me candidatar, logo se vê."
E assim consegues interligar, hoje estás nos Veterinários Sem Fronteiras, fazes parte da direção, aliás, consegues interligar estes dois cursos, que são também dois sonhos, a educação e a veterinária. A VSF, Veterinários Sem Fronteiras, a origem das origens tem a ver com França, este encontro em Lyon, em 1989. Eram sete países, se não me engano, e depois em 2014 surge então a Veterinários Sem Fronteiras Internacional, já com 12 países, já estamos nós, Portugal já está incluído nesse grupo, com Alemanha, com Bélgica, com França. A ideia original ouvi dizer que era a pecuária, era mais estes animais de quinta ou de produção, não era?
Exato.
Depois com o tempo acabou, não digo que mudaram o chip, mas hoje em dia é muito mais os animais de companhia.
Depende um pouquinho. O VSF Internacional é como se fosse a associação mãe. Depois existem vários VSF, existe o de Portugal, existe o da Bélgica, de vários países.
São grandes institutos e grandes apoios, é impressionante, é uma grande escala.
Enormes. Nós ainda somos um filhinho. No entanto, sim, originalmente, e até agora, ainda está muito virado para a área da segurança alimentar, da pecuária, dos grandes animais. Aliás, eu acho que até posso dizer que o VSF Portugal até somos aqueles que estamos mais ligados aos animais de companhia e pequenos animais. Não que não façamos também trabalho com os outros.
Sim, em Garava, em Cabo Verde, por exemplo, com as grandes vacas.
Exatamente, esse é um projeto nosso recente e tem tudo a ver. Por isso não estamos fechados, não somos apenas pequenos animais e animais de companhia. No entanto, comparando com os outros VSF, talvez estejamos um bocadinho mais virados para essa direção.
Mas também é muito as solicitações que vocês recebem.
Exatamente. A ideia é também vermos o que é mais necessário nestes países onde atuamos, o que é que faz mais falta. É claro que faz sempre falta um bocadinho de tudo, mas o que é que nós podemos ajudar agora no momento.
Aqui em 2005, estamos agora a falar do doutor João Oliveira, este médico veterinário, que viveu uma experiência em Cuba, que o levou a fundar isto. Com a doutora Conceição Poleteiro e Isabel Fazendeiro, as três fizeram esta escritura para fundar em 2006, faz agora 20 anos, os VSF Portugal, Veterinários Sem Fronteiras Portugal, tudo na base do voluntariado. Têm por missão promover a saúde humana, através da saúde animal, e assegurar esta segurança alimentar também. Vocês vivem de quê? Só de donativos e este tipo de coisas? Angariação?
O nosso trabalho é completamente voluntário, pro bono, até agora. Ou seja, tudo o que fazemos, todos os voluntários que enviamos para os diferentes projetos, mesmo os que ficam cá a gerir e organizar tudo, é de forma voluntária. No entanto, sim, também nos podem ajudar. Também recebemos receitas através dos sócios, pode-se ser sócio dos Veterinários Sem Fronteiras, em que paga-se uma quota anual simbólica. Temos donativos, há pessoas que fazem doações e depois também procuramos sempre arranjar investidores para os projetos mais em específico. Por exemplo, o Menos é Mais, que já falámos. Temos um investidor lá na própria ilha, que é uma empresa hoteleira lá na Ilha do Príncipe, que nos dá um financiamento.
Eu vi uma coisa giro acerca disso. Sim, e é engraçado porque eles têm lá os resorts, imagina. Para estar à vontade os clientes, têm 50 matilhas de cães a entrar.
E depois não são resorts quaisquer, aquilo vai a 2000 ou mais por noite.
Exato.
E depois eles estão completamente dentro da natureza.
Por isso vocês também ajudam isso, claro, obviamente.
Sim. Aliás, tentamos sempre ao menos um ou dois dias por cá.
Isto é em Príncipe?
No Príncipe mesmo.
E ao mesmo tempo, apesar de ser tudo voluntariado, vi uma coisa qualquer de vocês a dizer: "Precisamos de alguém", não sei se foi no vosso Instagram, que é ótimo. "Precisamos de alguém empregado mesmo, ao menos uma pessoa a tempo inteiro que respondesse aos mails, que agilizasse as coisas. Às vezes nós demoramos um bocadinho a responder ou assim porque temos de ter tempo para as nossas vidas." Exatamente.
Para nós termos as nossas vidas, então lá estar nesse tempo.
Esse papel que é importante.
Exatamente. Não, mas agora à partida, é uma novidade para este ano, acho que já temos uma pessoa que vai trabalhar connosco de forma mais direta e que já está a trabalhar. Nós também é nos nossos tempos livres que podemos fazer aquilo que conseguimos.
Exatamente. E muito fazem vocês, mais de 15 missões, mais de 5000 intervenções, mais de 50 voluntários, e está escrito no vosso site. É isto. Levantamento, identificação, vacinação, tratamentos, esterilizações, desparasitações, sensibilização das comunidades locais e das escolas, por exemplo. O mote é isto: cuidamos da saúde animal por uma relação saudável e sustentável entre humanos, animais e ambiente. O que é esta gestão populacional canina? É exatamente isto. Vocês seguem os guidelines da Da International Companion Animal Management. Isto é gestão populacional canina, tem a ver com não haver stray dogs, não haver cães errantes, é este género de coisas?
Falando mais concretamente do Príncipe e desta missão do Menos é Mais, infelizmente, há uma superpopulação. Aliás, quando eles lá chegaram em 2021, existia uma grande superpopulação canina. Nós lá agora nem estamos a atuar com os gatos, porque realmente existem muito poucos.
Há muito menos, porque são de companhia mesmo.
Sim, mas os cães também os matam. Não se vê assim gatos na rua, não é um problema.
Esta colaboração com o AMA, Amigos de Animais.
O AMA é a tal clínica/associação em São Tomé, que também é nossa parceira e que também nos ajuda sempre que consegue.
Então vocês, já desde setembro, outubro de 2025, há um ano quase, 276 animais alcançados, 136 cirurgias, vão fazendo também desses trabalhos.
Esses dados são relativos à última campanha, por acaso eu estive presente, isso é só da última campanha.
Então em três anos, mais de 850 animais atingidos, é possível?
Eu digo-lhe já os dados que eu tenho aqui na minha calma.
É impressionante, é muito.
De 2021 a 2025, nós este ano ainda não conseguimos ir ao Príncipe, fomos agora em setembro, mas de 2021 a 2025, realizámos então as oito campanhas, e das oito campanhas temos 1501 animais intervencionados, ou seja, que chegaram até nós. Destes 1501, 1193 realizámos cirurgias, ou seja, realizámos castrações ou esterilizações de forma a evitar que se pudessem reproduzir. E destas 1193, 505 eram fêmeas. Nós não discriminamos, obviamente, nós fazemos cirurgia quer em machos, quer em fêmeas, mas é claro que as fêmeas têm sempre um papel mais fundamental, porque são as reprodutoras. Então quando conseguimos chegar a um grande número de fêmeas, é sempre maravilhoso.
Aqui também em São Tomé e no Príncipe também têm estas campanhas de sensibilização da população. Vão às escolas, vimos filmes vossos com os cãezinhos, os miúdos todos a rafitinhas. Isso é importante, não é? Explicar zoonoses e a prevenção, o que é que se pode fazer, como é que se deve tratar um cão.
De nada vale nós irmos para lá trabalharmos arduamente duas semanas e fazermos imensos animais, quando depois nos vamos embora e eles continuam a ser maltratados, continuam a não ter os cuidados básicos, mínimos. Então, eu acho que é tão ou mais importante a cirurgia a par da educação e da sensibilização. Nós vamos sempre às escolas, falamos com as comunidades. No início, eu lembro que nem sabiam o que era um médico veterinário. E as pessoas olhavam para nós: "Mas o que vocês estão aqui a fazer?" E nós: "Estamos. Não acham que existem muitos animais?" "Sim, então isto mata-se. Então é fácil, chegamos aqui e matamos." Então, mesmo eles, demorou ainda algum tempo a perceberem que a cirurgia é a melhor opção. Por quê? Porque nas primeiras campanhas as pessoas diziam: "Mas vocês estão aqui, trabalham tanto, mas vê-se lá mesmo os cães na rua." E eu: "Pois, exatamente, nós não os matamos, nós levamos, esterilizamos e depois eles voltam às ruas". E então fazia alguma confusão a muitas pessoas, porque não se vê um resultado imediato. Se os matássemos era mais fácil.
Elas estavam à espera da solução final.
Porque era habitual, infelizmente.
Exatamente. Era a prática corrente.
Exato.
Em Cabo Verde também. Em Angola, tiveram em Angola, interessante também.
Também tivemos em Angola.
Com a AIRA, Associação de Intervenção e Resgate Animal, no Lubango, por exemplo, colaboraram com o hospital do Lubango?
Ainda não colaborámos, mas por acaso isso é muito interessante. Nós recebemos um contacto do hospital do Lubango, um hospital de pessoas, em que fomos contactados, uma das doutoras estava muito preocupada porque existe cada vez mais um número elevado de pessoas que se estão a dirigir a esse hospital com casos de raiva, casos de sarna, doenças zoonóticas.
Para vacinação?
Exatamente. Então aqui a ideia é construirmos, ainda não está feito, ainda não estamos a implementar, mas é construir-se um projeto em que através, por exemplo, de um programa de vacinação aos animais, conseguimos então também tentar resolver ou pelo menos diminuir a incidência desses casos nos humanos.
Muito bem. Em Cabo Verde, portanto, tiveram esta associação com a Associação Covets, na realização de campanhas de controle de população canina nas várias ilhas. Colaboraram também com os Bons Amigos, tem que ser os amigos.
Esses projetos não são nossos, mas fizemos uma colaboração e tentamos ajudar sempre que possível, nem que seja a escolher voluntários e enviá-los para lá. Mas são associações que estão em Cabo Verde e tentamos ajudar sempre que nos pedem ajuda e que é necessário.
Isto faz parte do projeto Animais de Companhia, pequenos animais.
Exato.
Só em caso de Portugal, por exemplo, 3 milhões de portugueses têm cão, é um número impressionante. Faz os projetos que estão a decorrer. E agora, está quase a vir o 15 de agosto, também é o Dia Mundial do Animal Abandonado. Relembro aqui que abandono de animais de estimação é crime desde há 12 anos, para as pessoas perceberem isso e pensarem um bocadinho nisso, porque continua a ser um flagelo terrível que acontece muito, e isso é suposto sermos civilizados e isso nunca acontecer. O projeto de grandes animais e segurança alimentar aconteceu também em Cabo Verde, na Ilha Brava. Este projeto de soluções viáveis Populações saudáveis ruminantes da Brava, visitaram imensos, dezenas de criadores e tiraram amostras.
Ainda é um projeto em curso, ainda estamos a fazer. Fizemos agora a nossa primeira visita no início do ano, mas ainda vamos continuar. E já é mais direcionado aos grandes animais, animais de produção, a ruminantes. Lá existem sobretudo muitas cabras. E a ideia, agora que ainda estamos numa fase inicial do projeto, é identificar que espécies existem, quais são os principais problemas, alguma doença que possa existir, mas sobretudo dar alguma capacitação e formação aos produtores, para que tenham animais o mais saudáveis possíveis.
Recolha de amostras, já analisaram centenas de animais. Para estudar tudo. Recolha de amostras, desparasitação interna e externa, capacitação de criadores, formação local, muito bem. Houve também já projetos em Moçambique? Também já tiveram coisas em Moçambique há uns tempos.
Isso eu não sei, porque se houve, foi muito no início. Neste momento não temos, infelizmente. Mas quem sabe?
E em Portugal? Projeto de educação, por exemplo, este projeto Zoomano, uma só saúde da escola para a vida. Isto tem a ver com a One Health.
Exatamente.
E impactaram centenas de crianças com isto, que é muito importante.
Sim. Nós começámos o ano passado, neste ano letivo passado. Basicamente, era uma coisa que fazíamos nestes países, em São Tomé, em Cabo Verde, íamos às escolas e fazíamos uma atividade com os alunos. Então decidimos fazer algo cá em Portugal também, mas mais estruturado, com um plano de atividades bastante rigoroso. Então contactámos várias escolas, fizemos agora o primeiro ano, consiste em três sessões, vamos três vezes por ano lá. Abordamos temas como o comportamento animal, como é que os animais falam conosco, quais são as necessidades básicas que temos que ter para com o animal. E também falamos um bocadinho, nós este primeiro ano ainda fomos apenas a pré-escolar, são idades ainda muito precoces, mas tentamos já introduzir um bocadinho este termo da zoonose, o que é, e que realmente há doenças que podem ser passadas dos animais e como é que nos podemos proteger.
Alguns cuidados essenciais para prevenir essa transmissão.
Exatamente.
E também, claro, uma só saúde, falam com certeza também nisso. O papel que cada um pode desempenhar na promoção da saúde animal, da saúde humana e ambiental. Estas atividades, como o cão se sente? Pode ou não pode? Tem a ver com estes programas que fazem nas escolas?
Sim.
Isto tem a ver com conseguir identificar as emoções dos cães, por exemplo?
Exatamente. Ou seja, é tentar explicar, porque sobretudo as crianças, e há muitas que são muito novas.
Eles levam cãezinhos com vocês?
Temos o Paco.
É o vosso cão mestre.
É o nosso cão. Temos o Paco, eles adoram o Paco. Aliás, eles lembram-se sempre do Paco, nós não.
Tão bom.
Mas a ideia é: há muitas crianças que têm medo. E há outras que não têm medo nenhum e, por exemplo, vão ter com um animal que não conhecem, começam logo a mexer. Então aquilo que nós queremos transmitir é quais é que são os sinais que nós podemos observar para vermos se eu posso aproximar, não posso, ele tem a cauda para cima, está a mexer, quer recetividade, não quer. Então tentamos, de certa forma, alertar um bocadinho as crianças de que até que ponto é que eu posso me aproximar deste animal, não posso. Realçando, sempre que perguntamos ao dono, se o animal estiver com o dono, perguntar ao dono se podemos mexer. Ou seja, é tentar evitar um bocadinho que haja problemas e ataques.
Educação para a saúde também, os veterinários têm um papel muito importante com os tutores e com os produtores, e sensibilizam para estes temas da vacinação, da higiene, da alimentação, dos cuidados preventivos. Eu lembro-me que o Bernardo falava coisas que as pessoas não faziam ideia. As uvas, o chocolate, são coisas que destroem a barriga dos cães.
Eu lembro quando era pequena de andar a apanhar uvas e dar uvas ao meu cão, e assim. Ele por acaso sobreviveu.
Havia outra coisa que também não podemos dar aos cães.
Os frutos secos, também.
Frutos secos, exatamente. Tem que ter muito cuidado com isso. Um bom exemplo desta atuação de educação pra saúde é o fato, que falámos há bocado, Portugal não tem qualquer caso autóctone de raiva desde os anos 60. Uma conquista que se deve em grande parte à consciência das campanhas de vacinação. As alterações climáticas também aumentam, tens noção disso? A questão da propagação das doenças, o aquecimento e tal, o próprio António Guterres falava na ebulição global. O dengue, estes vetores, o dengue chegou à Europa e isto pode acontecer muito, as pessoas, portanto, têm que ter cuidado com coisas que nós achávamos que estavam geograficamente distantes, afinal já não é bem assim.
Eu acho que temos que eliminar aquele pensamento de "isto não acontece comigo". Mesmo a raiva, felizmente agora estamos livres, não quer dizer que um dia, por uma entrada ilegal de um animal ou por alguma coisa, possa voltar. Então é estarmos sempre informados, sobretudo, saber os sintomas, de que forma é que podemos prevenir, e não achar que só acontece aos outros e que nós estamos a salvo.
Quais são esses benefícios de uma abordagem integrada à saúde animal, humana e ambiental? O que é que falta para haver mais colaboração entre estas três entidades? Vocês são muito chamados para ter conferências com médicos ou assim, de saúde humana, ou devia haver mais?
Sim, devia sempre haver mais, obviamente. Ainda agora houve uma conferência há pouco tempo também que falava muito sobre a One Health e a importância da One Health. Eu sinto, e nós sentimos, que fala-se agora muito a One Health, mas isto é um conceito que existe há muito tempo e nós já temos essa consciência há muito tempo. Talvez só agora venha um pouco mais à baila e que seja mais falado, mas ainda bem, mais vale tarde do que nunca. Mas eu acho que muitas pessoas, mesmo agora nestas escolas que nós fomos, nesta última sessão que falámos da zoonose Educadoras vieram ter comigo e dizer: "Eu não sabia, não fazia a mínima ideia o que era uma zoonose e quão fácil eu podia apanhar uma determinada doença a partir de um animal". Ou seja, infelizmente, há pessoas que ainda não estão informadas nem têm consciência de que isto existe.
Exatamente. Isso é muito importante, vocês e os veterinários em geral explicarem isso, que é muito importante. As pessoas ainda não sabem e, como já tive convidados aqui a dizer, assim como veio o Covid, outras virão, isso é inevitável. Passadas por animais é uma coisa que acontece ciclicamente, como foi a gripe das aves, sempre virá. E podem vir mais perigosas ou menos perigosas, mas já devíamos estar cada vez mais preparados e a saber. De facto, a informação faz total diferença e é muito importante. Esta campanha do menos é mais, onde estás mais envolvida, tem desafios? Ficamos aqui, tens mais uma hora.
Mais um bocado hoje.
Diz-me duas ou três coisas que era muito importante que já fosse resolvido ou que já houvesse meios para.
Não nos podemos esquecer que aquilo é um país ainda em desenvolvimento. É uma ilha que não está habituada a este tipo de tratamentos. Aliás, esta ilha não está habituada a que exista este cuidado com animais. Para eles ainda é estranho levar um cão ao médico, levar um cão para levar uma vacina ou para castrar. Então, um dos grandes desafios, primeiro, é explicarmos às pessoas o porquê que elas devem ir ter conosco. E aí é muito importante estarmos lá, irmos constantemente. Nós agora temos uma meta de ir pelo menos três vezes por ano, vamos ver se conseguimos, porque é com a insistência e é com esta proximidade, porque basicamente as pessoas ainda não estão muito recetivas a isso. Já se vê uma mudança, graças a Deus.
Nos últimos cinco anos já tem havido a mudança.
Exatamente. Nós já temos campanhas em que aparecem pessoas que já lá tiveram. Uma vez uma senhora apareceu lá a dizer: "Eu tenho aqui esta cadela. Ela já está castrada, mas ela há muito tempo não vê o senhor doutor." Então eu: "Perfeito, ela que venha."
Claro que sim.
Já se começa a ver aqui uma mudança de mentalidades que é tão bom, mas lá está, isto leva tempo. E depois, sendo um país que ainda carece de muita coisa, nós quando levamos para lá uma equipa, não temos uma clínica perfeita à espera deles. Muitas vezes nós nos deslocamos às roças, onde é uma casa, às vezes até mesmo meio abandonada, sem água, sem luz, e temos que nos enrascar. Então nós quando enviamos para lá uma equipa, dizemos sempre: isto é ir com espírito de aventura. Vão aparecer 1500 problemas.
Colaboração de uma ONG.
Exatamente. Vamos chegar ao dia, não temos carro porque não há combustível ou não temos carro porque os pneus furaram, temos que ir a pé, de moto.
As estradas também são o que eu sempre ouvi dizer, é que são picadas.
É a passagem africana, como nós costumamos dizer.
Isso também não ajuda.
É verdade.
Mas de facto, qualquer pessoa que queira ajudar os Veterinários Sem Fronteiras Portugal, tem as vossas redes. O Instagram, por exemplo, que eu vi no site da VSF Portugal, o e-mail é vsfportugal@gmail.com.
Exatamente.
E pode-se tornar sócio, voluntário, doações, dar o tempo, mesmo que não saiba, vocês ensinam.
Lá está, eu comecei, não sabia absolutamente nada.
Exato. Venha cá, há sempre coisas que é preciso organizar, transportes, logística.
Ou mesmo cá em Portugal, no terreno, por exemplo, ajudar-nos com as redes sociais, a gerir alguma coisa nas preparações. Eu acho que quem tiver interesse, entre em contato conosco, veja o nosso site, vejam as nossas redes sociais. Tentamos sempre ao máximo colocar tudo o que estamos a fazer, os resultados que temos tido ao longo da campanha. Por isso, quem tiver curiosidade, acho que é a forma mais eficaz. Se quiser falar conosco, assim uma forma mais direta, temos o contacto de e-mail, podem nos mandar mensagem nas redes sociais.
Dar o tempo, que tu dizes, mesmo que não saiba nada, a gente ensina, mas dar o seu tempo é das coisas mais valiosas que a gente tem. Pensem nisso. Não tem que ser veterinário, venha ajudar-nos. É muito curioso isto e apetece mesmo ajudar-vos. Envolva-se nas nossas missões, no terreno ou à distância, financeiramente ou com o seu tempo, a sua presença. Para nós é sempre importante, isso é muito bom. Rita Laranjinha, nós não temos mais tempo, mas cá está, o tempo é muito importante. Mas é sempre bom esta divulgação e é extraordinário, porque de facto, tudo o que eu puder fazer para dar voz a esta causa. Não conhecia, surgiu-me logo esta ideia. Claro, é muito importante falar disto. Vocês fazem um trabalho, de facto, muito importante. Todos os palops aqui servidos por vocês e Portugal também, e Portanto incluído, claro. E se calhar um dia, isto corre bem, vocês têm mais missões, mais voluntários e mais médicos veterinários, quando tu também acabares e tiveres corpo inteiro, e se calhar chamam-vos para missões no Gana e no Mali.
Todas.
Muito obrigado, Rita, mais uma vez pelo teu entusiasmo e como tu passes esta ideia e que corra tudo bem com os VSF. Parabéns pelos 20 anos do Veterinários Sem Fronteiras Portugal. Bem hajas, obrigado por teres vindo.
Muito obrigada eu.