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Os meus convidados extra de hoje são muitos. Vou conversar com a Laura Alves, com o Aristides, com a Simone de Oliveira, com o Apóstolo Judas, com o violinista no telhado, tantos. Sissi Martins e o Ruben Madureira são um casal de atores do teatro musical. Além de atores, encenadores, bailarinos, diretores artísticos, professores, são pais. Sabem que estão a fazer história e por isso é tão importante acolhê-los. O que falta pro teatro musical se implantar ainda mais em Portugal? Olá, Sissi. Olá, Ruben.
Olá.
Olá.
Bem-hajam. Muito obrigado por terem aceitado este meu convite.
Temos a entrada tão bonita. Muito obrigado.
Vocês são uns queridos. Vou começar, vou apresentar o Ruben. Esta empresa do planeta Terra é o quê?
O que é o quê?
A planeta Terra é uma empresa.
Eu costumo dizer que sou um cidadão do mundo. Já vivi em tantos países, já fui feliz em tantos países.
Há uma coisa que eu quero perguntar aos dois. Este fascínio pela música, pelo teatro, nasceu quando? Ruben, tu desde muito pequenino começavas a gostar já. Cantavam em casa? Em casa dela?
Claro.
A Sissi cantava?
Absolutamente. Os meus pais, ainda que sem exercer a função, eu acho que eles têm uma ligação muito forte à música, até de certa forma terapêutica. Estou a falar de estar na garagem, arranjar coisas, lavar o carro.
E a cantar.
E vir na rua, cantar.
Não era só no ducha.
Sempre com música.
Não era só no ducha, portanto.
Não. Aliás, meu pai até às vezes nos fazia passar vergonhas, porque ele canta em qualquer sítio. E a minha mãe também.
Isto no Porto. Quando se fala de Porto.
Sim, exatamente.
Tu, Sissi, de Gaia.
Gaia, exatamente.
Criada também naquela zona. Mas de fato, um fascínio pela música em casa, então.
Em casa, desde pequeno. A minha mãe mais diretamente ligada aos filmes musicais. Lembro-me perfeitamente que havia um filme sempre guardado pra vermos ao domingo, ali no cantinho do sofá com ela.
Musicais era "Hello, Dolly!" e esse tanto de coisas assim?
Fred Astaire.
Sim, o Fred Astaire também. E obviamente, a música no coração.
Os clássicos.
Claro, todos esses clássicos que me fizeram querer repetir e imitá-los.
Tu ias muito a concursos de televisão e ganhavas muitos.
E de rádio.
De rádio também?
Sim, eu acho que antes de encontrar o teatro musical, era uma pessoa que tentava saciar essa fome de alguma coisa que pulsava dentro de mim. Não sabia bem como. É óbvio que o canto foi a minha primeira descoberta pessoal.
Eu também até concorria a coisas, à revelia dos seus pais, sem eles saberem.
Exatamente. Aos seis anos.
Eu adoro isso.
Aos seis anos de idade, tentar concorrer ao Festival de Famílias pra poder cantar num palco e ter o microfone na mão. Acho que foi um bocadinho por aí, começou por aí. Eu acho que começa sempre em casa. Eu faço nove anos de diferença do meu irmão, que também é ator e músico, e ele já tocava piano. A minha vontade era estar sempre a dançar e a cantar. E acho que tem muita influência aquilo que nós vemos em casa. E sem dúvida, o meu pai foi pra ultramar de guitarra na mão. A verdade é que em casa a minha mãe sempre adorou cantar e adora dançar. E acho que esse bichinho ficou nos genes.
Diga-me um espetáculo que vos tenha impactado muito, que tenham visto cá ou lá fora. Sissi, lembras-te assim algum que quando tu viste: "Uau!" Pode ser teatro musical, teatro, texto.
Eu acho que já vi muita coisa. Não consigo destacar assim um. Acho que tivemos aqui referências tipo o "Rent" e o "Hamilton", que nos fez vibrar e mudar toda uma história de teatro musical. Mas sem dúvida, eu acho que o impacto-
John Lee Miranda
Exatamente.
Tão bom
Lin-Manuel Miranda, exatamente. E a verdade é que eu sinto que foi num desses espetáculos, e vou referir o Aida, que eu comecei a chorar.
Ópera?
Exatamente.
Ópera mesmo? Versão ópera normal?
Eu já tinha visto a ópera com o meu pai, mas isto foi em pleno musical na Broadway. Foi uma versão com o Adam Pascal e a Heather Headley. E eu estava no intervalo, a chorar baba e ranho, sem saber bem o que estava a acontecer. E acho que foi nesse dia que eu senti que era: "Ok, eu quero fazer isto". É isto. Portanto, não foi o meu musical preferido, mas foi o gatilho pra eu tomar uma decisão.
O trigger.
Exatamente.
Claro que sim. Tu, Ruben, lembra-me de um teatro, uma música?
Curiosamente, eu tive o mesmo trigger que a Sissi, mas em Portugal.
Ok.
Uma vez concorri a um concurso de rádio pelo telefone, ganhávamos um bilhete pra ir ao teatro. E fui ver o "My Fair Lady" em Lisboa.
Do Laufer?
Sim. Do Laufer. Fiquei tão impactado com a megalomania que era aquele espetáculo.
Incrível.
Foi incrível.
Mas o Laufer ainda era uma coisa bem feita, muito bem feita.
E era um elenco de luxo na altura.
Foi o trigger que me fez: "Eu acho que seria feliz a fazer isto."
Tu usas atores, obviamente.
Sim, claro. Foi talvez o meu trigger pra querer alavancar isto.
Vocês fazem muita coisa entre teatro, cinema, televisão, publicidade, não sei o quê, dobragens, os dois também. Há alguma que seja a sua preferida ou teatro musical é a preferida para os dois?
Começa por mim? Eu estudei teatro em Portugal e depois fui para fora estudar teatro musical porque sentia exatamente essa necessidade. Eu costumo brincar a dizer que se estivesse só a fazer teatro, que já me aconteceu durante muito tempo em algumas peças, eu sinto que é fácil. Sinto que é mais fácil.
Não te preenche.
Não me preenche. Obviamente que amo fazer teatro, amo cantar e estou a ser específica em cada área. Adoro cantar, adoro dar um concerto, adoro dançar. Dancei a minha vida toda.
Até gravaste discos de house music.
Exatamente, tudo.
Together.
Together. Tanta coisa, mas nada é tão elevado ou cresce tanta energia de nós. É quase como se sentíssemos que fazemos parte de alta competição e isso faz-nos querer mais. Portanto, quem corre a primeira maratona a seguir quer continuar.
Exatamente, vai pro Iron Man.
Exatamente.
Tu estás no Iron Man do teatro musical.
Acho que é isso, acho que é a minha profissão.
De facto, é mais amar, mais completa e mais cheia.
E deu-nos bagagem para as outras áreas todas.
Exato. E tu também, é muita parte do teatro, estudaste teatro musical, mas também dança, que tu também gostas muito e foste aprender a Nova Iorque sapateado, jazz contemporâneo.
Sim, é das minhas coisas preferidas. Eu estudava cá dança clássica, portanto ballet clássico.
E também em Espanha, se não me engano, também estudaste na universidade.
No Brasil, exatamente. E depois apaixonei-me pelo teatro musical já nos Estados Unidos, quando fui pra universidade. Acabou por ser uma das áreas que eu sentia que não havia muito em Portugal, portanto eu comecei por dar aulas de sapateado cá. Mal cheguei a Portugal.
Eu tive aulas com a Sissi.
Exato.
Mas não namoravam.
Ainda não.
Embora vocês estivessem namorados há 10 anos. Vocês conheceram-se no Superstar?
Nós? 17 anos.
17 de namoro?
Já vamos. 17 total.
Total, está bem. Mas namoraram 10 anos, depois casaram já há uns anos, 2018.
Na celebração do décimo aniversário.
Foi mesmo?
Foi mesmo.
E depois há aqui uma coisa no vosso caminho que é: tu foste finalista dos Ídolos, Rúben. Mas a tua cara não é estranha. Caía que foi uma injustiça do universo.
Fui roubado.
Como o Ruben diz, foi roubado. Concorremos dois, tu e a Sissi.
Fiz ali imitações que de facto...
Também foi na quinta edição deste.
Eu nem consigo ver que eu choro, ver a mim próprio. Estou a brincar, estou a ser irônico.
Este concurso, o "A Tua Cara Não Me é Estranha", o que a tua atual mulher ganhou. Ainda não era tua.
E muito bem.
E tu em segundo lugar.
"A Tua Cara Não Me é Estranha", de facto, é um formato que dispara as visualizações das pessoas e de espetadores.
Também com coisas muito bem feitas a nível de maquiagem, a nível de seleção musical.
Absolutamente. Há ali uma exigência artística que nos catapulta para um nível onde nós gostamos de estar. E foi de facto uma coisa que nos tira absolutamente do anonimato no país e é ótimo receber o feedback das pessoas, que são sempre muito simpáticas comigo e com a Sissi. É espetacular.
É verdade.
Vocês brincavam muito em palco e as pessoas também gozavam com a vossa rivalidade.
Claro que sim. A verdade é essa. Ele costuma dizer: "Ela ganhou o primeiro lugar, mas eu é que levei o prémio pra casa."
Exato. Foste o Uber do prémio, digamos assim. Está bem, ok. No Superstar conheceram-se. Este aqui, "Música no Coração", por exemplo, e "O Violino no Telhado", onde já entravam os dois.
Exatamente.
Antes do La Féria, que tu fazes já dos musicais.
"Música no Coração" também.
Na Piaf fazias de Charles Aznavur.
Charles Aznavur.
Que, tal como tu, deu concertos até aos 94 anos. Ele morreu em 2018.
Que eu amo, já amava e nunca augurei.
Com uma voz extraordinária e uma simpatia extraordinária em palco e uma presença incrível.
É fantástico.
É um bom ídolo também pra tu.
É ótimo.
E no Laura também entraste, a grande musical aqui também da Sissi. Vocês foram autores, criadores deste "Broadway Story", que é um bocadinho com sketches de vários musicais?
Também. Isto foi um projeto que nós criamos no final da pandemia. E foi engraçado porque nós sentimos a necessidade de fazer um concerto e até foi com um grupo de amigos, diretor musical conhecidíssimo, Artur Guimarães.
Sim, até tenho trabalhado com vocês, com os dois.
Exatamente, tens trabalhado muito. E nós dissemos: "Vamos fazer um concerto, seja só para a nossa família, seja para amigos. Vamos tentar." E acabou por funcionar muito bem. Fomos a Tábua. E Santa Comba Dão. E na altura foi um bocadinho passar a nossa experiência enquanto grupo. Eram histórias da nossa vida pessoal.
E qual a nossa ligação com aquelas músicas.
Com aquelas músicas, com aquelas músicas. Exatamente.
E o que é que nos fez juntar a todos?
E o que nos fez juntar a todos. E acabou por ser um espetáculo muito giro, que nos marca aqui a passagem do sair de casa, da pandemia.
Esta carreira no West End nunca te passou pela cabeça. Eu sei que vocês tiveram em digressão com o Aladdin e o That's Entertainment, por exemplo, foram uns que pela Irlanda, pelo Reino Unido, não sei o quê. Rúben, a ti passou por esta ideia? A Sissi já vai responder à parte dela, que eu sei que ela esteve lá na Broadway. E houve este convite e ela: "Não, o meu país deve e tem." E tu?
Se calhar sou um bocadinho mais patriota que a Sissi.
Não sei. Ela escolheu ficar cá.
É verdade.
Vê se pode ser mais patriota que isso.
Sim, tens razão.
Havendo portas abertas, estando lá. É isso que eu estou a dizer. Não é: "O meu sonho é ir pra Nova Iorque." Não, ela estudou lá, ela tem a escola de lá, ela fez contactos lá.
A determinada altura, dei por mim a fazer peças, o That's Entertainment, por exemplo, na Cork Opera House, que é na Irlanda. É uma sala que leva 2 mil pessoas.
Incrível.
E de repente, no final do espetáculo, sais, o espetáculo é bom.
Tudo em inglês.
Delírio, tudo em inglês, obviamente. Mas depois não tens lá a tua mãe, não tens lá um amigo, não tens lá um tio.
O ambiente familiar.
E fez-nos talvez questionar pra quem é que nós fazemos isto. Ok, nós fazemos isto só para o público geral, anônimo, mas o nosso coração é um coração tão meloso que carece desse combustível emocional. E talvez essa foi uma das razões pela qual nós estamos a ser teimosos em querer mudar o nosso país.
É por isso que estão a fazer a história. Mas eu acho que estão mesmo.
Eu acho isso um bocado exagerado. Não, mas há uns anos essa conversa não se punha, Rúben, e por essas razões e pelas pessoas que eu já disse, desde o Neves Neves, a Mateus Locado, o Lá Férias, há mais tempo, se calhar. Mas eu acho que está a acontecer agora. Já passa um mês ou assim, raro o mês em que não há um musical para tu veres.
Exatamente.
O que é uma coisa que há cinco anos não havia. Não vou mais longe, há cinco anos ou seis não havia. Eu noto isso, finalmente.
Eu não posso falar de Londres, eu não posso ir a Londres sem ver coisas.
Exatamente. Há pouco tempo, num programa que estivemos a conversar com o Paulo Dias, o Sociedade Civil, Paulo Dias da UAU, o Henrique Feist, e falámos sobre isso exatamente, que há 20 anos nem sequer conseguimos fazer um elenco para fazer teatro musical. Era muito difícil.
Não havia gente formada. Porque é especial, não existem tantas aulas disso.
Exatamente. Há 10 anos tinhas um elenco, mas não chegava a 100 pessoas e nos últimos cinco anos já tens pessoas formadas, vindas de fora. E é isso, é a necessidade de se construir aqui uma indústria e é neste sítio, neste lugar, que nós queremos.
E mais do que isso, agora neste momento temos uma percentagem bem maior de colegas que estão na área e que estão ativos a trabalhar e não estão no desemprego. Ou seja, há muito mais oportunidades e acho que a indústria de certa maneira está a perceber, ainda que devagar, que o teatro musical vende. E é super rentável.
Exatamente. Isso é muito importante, porque é uma das perguntas que eu queria fazer ainda. Tem havido alguns loucos, como vocês dizem, que têm investido. Mas de facto não é fácil. Um dos maiores desafios dentro do teatro musical é esse investimento, porque é difícil convencer alguém que tem público e eles vão pagar para ver e isso vai compensar.
É porque nós lá fora, vou usar o exemplo que conheço melhor, na Broadway existem investidores pura e simplesmente apaixonados pela arte e pelo espetáculo, que investem o seu dinheiro para que haja produções. A partir desse momento, há uma rentabilidade completamente diferente da do nosso país, porque nós não temos investidores neste momento. E vivemos um bocadinho às custas das salas que nos são proporcionadas. Neste caso, temos cada vez menos teatros.
Isso é uma coisa que te custa. Eu estou-me a lembrar da Laura, não é? De óculos escuros a visitar os destroços do Monumental e pensar: o Vasco Morgado tinha 20 e tal teatros.
20.
Onde é que estão hoje esses teatros?
Onde é que estão hoje? Neste momento estão em muitos hotéis que nós temos em Lisboa. E acho que depois é esta partilha que havia entre público e o ator e o artista. Antigamente, havia um carinho superior em que as pessoas saíam literalmente de casa para irem ao teatro. Era muito importante. E acho que finalmente, nos últimos cinco anos, eu diria, já vejo isso acontecer. Eu tenho amigos que dizem: quando estiver em cena, avisa.
Exato.
Portanto, antigamente não era bem assim.
Há cada vez mais garantia de qualidade também, o que faz com que as pessoas não se importem de investir.
Merece a aposta. Com certeza. Sabes que é uma pergunta que faço a muitos convidados que eu tenho, atores, que dizem: qual é a verdadeira importância do teatro e esta arte do teatro, o que é que distingue das outras artes? E muitos falam disso, é um sítio onde tu tens de ir. Não é estás em casa passivo e ligas a televisão e vês filme. Não, tens de levantar, tens que ir, ou de carro, ou de Uber, ou autocarro, o que for, e vais a um teatro e obriga à deslocação da pessoa. Portanto, nós não somos imunes à exigência do público. Eles estão lá e vieram naquele dia ver.
Todos os dias é diferente e por isso é que eu acho que as pessoas saem de casa uma e duas vezes. Nós tivemos esse exemplo agora no Rent.
Sim, com certeza. Muitas vezes, que musical extraordinário.
Vinham duas e três vezes.
A Laura, até o filho dela veio. Foi um bando de gente que fez ir era o filho. "Eu estava a ouvir minha mãe", dizia ele. Isso é a coisa mais bonita de ouvir quando estás nos bastidores.
Eu acho que é importante também pegar nesse elogio que acabaste de falar. Acho que as pessoas também, se pensarem no prisma de que quando vão ao teatro, não vão só para ver os atores, até porque muito provavelmente correm o risco de se encontrarem elas próprias no palco.
Exato.
Acho que é uma coisa que a eles pode ser mais apetecível de ir.
É uma frase que bate fundo: a Broadway, com os seus 41 teatros, movimenta mais investimento que todas as ligas desportivas juntas. Portanto, de facto, a cultura e a arte podem ser motores de economia e as pessoas têm de perceber. Em França também já perceberam isso. Pode gerar dinheiro. Não é vou enterrar dinheiro, vou investir na cultura e vou enterrar dinheiro. Não podemos ter este sentimento.
E a MTL também surge desse tipo de estatísticas e desta vontade.
A Musical Theatre Lisbon.
É isso. Vocês fundaram há três anos, isto com o Martim Galamba.
Sim.
E a vossa missão é, no fundo, trazer mais teatro musical para Portugal. O Martim foi teu aluno a ensinar acting.
Exatamente.
E também esteve em Nova Iorque, na escola em que estiveste, nada mais, nada menos que considerada a universidade das melhores do mundo para aprender teatro musical. E vocês então aqui na MTL fazem também produções, masterclasses.
E temos trazido nomes icónicos do teatro musical, como o Audra McDonald, Bernadette Peters, Rob McClure.
E este ano, se tudo correr bem, vem cá uma pessoa muito extraordinária. Estilo Andrew Lloyd Webber este ano, deste nível?
Podemos dizer que sim.
Mas da América também.
Pois, é britânico, está bem, ok. Está bem. Portanto, vem uma coisa extraordinária que ainda não podem dizer?
Ainda não podemos dizer.
Para ninguém roubar a ideia.
Quase.
Não.
Ainda não vamos revelar, vamos fechar tudo.
Ainda agora terminámos o-
Vai ser no verão ou não? Antes.
Não, exatamente.
Em junho, julho?
É onde nós brincamos a dizer que é um summit de teatro musical, porque trazemos pessoas da Broadway, atores, para dar informação a artistas.
É MTL surjos na vontade de fazer uma ponte entre a Broadway e Lisboa.
Exatamente.
E é isso que nós temos feito.
Exatamente.
Já tendo trazido nomes importantes. Agora houve o "Rent", que acabou dia 28, onde foste atriz e encenadora.
Exatamente.
Extraordinário, amei aquilo. Esteve cá, a propósito, o Michael Greif, que foi o encenador original do "Rent".
Pronto, é essa ponte de ligação.
Foi através do MTL também a apresentação?
Foi através da MTL, a produção da MTL Rent.
Frequência e variedade extraordinária.
E funcionou muito bem porque trouxe-nos aqui um carimbo de uma produção original. O Michael Greif é um dos maiores encenadores do mundo. Só este ano ele esteve nomeado para quatro Tony Awards, que é os prêmios mais conceituados de teatro na Broadway, neste caso. E ele veio de braços abertos, deu-nos indicações dos personagens, como é que foi criado, a parceria que ele teve com o Jonathan Larson, que compôs este espetáculo.
E um artista de uma humildade inacreditável. Só vendo.
É tão bom isso. Quando isso acontece é tão bom.
Vi alguns momentos em que a Sissi estava a encenar uma determinada cena e disse: "E vou fazer assim". E virou-se pra ele e disse-lhe: "Não achas, Michael?" E ele respondeu: "Eu? Não, tu é que estás a encenar, eu estou só aqui a ver." Isto vindo da pessoa que catapultou o "Rent". Ele muda o vento do teatro musical, digamos assim.
É sim.
Acho extraordinário.
Atenção que o próprio Lin-Manuel Miranda, o do "Hamilton" e do "In the Heights"-
Aliás, ele cria o "In the Heights" por causa do "Rent". Eu acho que se hoje temos um "Hamilton" e um "In the Heights" e compositores como um Jason Robert Brown, acho que houve aqui uma viragem com o "Rent" para todos eles. Portanto, sem dúvida que tínhamos que apostar numa coisa que nos apaixonasse, MTL, e decidimos trazer o "Rent".
Muito bem. Qual é a importância crescente do teatro musical? Como aumentar esta importância crescente para termos também um Parque Mayer, qualquer coisa como uma Broadway ou como um West End. Por que não fazer isso? Essa marca é importante, que é extraordinária e que nos faz falta. Eu não consigo viajar essas cidades sem ir ver um musical que seja. Tenho, por exemplo, esta questão dos lottery tickets, tu falas disso muito bem. Às vezes eu vou aos sítios. Por exemplo, o "Book of Mormons", quero ver há não sei quantos anos, nunca consegui, porque quando eu chego esgotou, não há. Vou amanhã, já não temos. Vou vendo outras coisas.
Mais uma coisa ligada ao Jonathan Larson.
Exatamente.
Não sabias disso?
Não, não sabia.
O meu sonho era ver aquele, eu não consegui, estou sempre a tempo.
Os lottery tickets surgem por causa do "Rent", porque o Jonathan Larson era um artista em depressão, como tantos outros.
Exato.
Principalmente naquela década. E sempre disse: "Se um dia um espetáculo meu chegasse à Broadway, as cadeiras da orquestra, eu vou vendê-las a bilhetes baratos para os artistas como eu poderem pagar um bilhete." Porque as cadeiras da orquestra em Nova York podem ir até aos $700.
Exato.
E como acontece o que acontece, infelizmente, ele morre num dia antes do espetáculo.
Da estreia.
Da estreia. E o Michael Greif fala nisso, a comunidade artística juntou-se.
Ah, foi feita essa homenagem.
Uma espécie de homenagem, e então criaram os lottery tickets.
Que eles podem comprar no próprio dia, de manhã.
Exatamente. Há uma tômbola, coloca-se o nome das pessoas, dois bilhetes. Duas horas antes do espetáculo começar, eles selecionam 20 bilhetes pras cadeiras da orquestra. Já fomos ver.
Já me saiu pro "Rent".
A mim também já me saiu, mas era uma peça de teatro em Londres.
O "Wicked", fomos ver o "Wicked" também, por 10, $20.
É impressionante.
É maravilhoso.
Eu consegui também isso com os meus filhos pequenitos, depois de enviuvar, eles tinham sete anos, aos 12, por aí. Levei-os a Londres e fomos ver, por exemplo, aquele do miúdo bailarino, como é que ele se chama?
Billy Elliot.
Billy Elliot. Qualquer era com o Tom Holland, imagina, que é o miúdo agora.
Tom Holland, exatamente.
E vimos lá, extraordinário, e também com bilhete comprado no próprio dia de manhã, com um grande preço. Existe esta possibilidade.
Eu acho que é já necessário isso acontecer no nosso país.
Isto chama, isto é chamativo também.
Claro que sim.
É verdade, a parte dos teatros, a conexão dos teatros é muito importante. Há preconceitos artísticos? Vocês sentem que ainda há algum preconceito, que em Portugal as pessoas dizem: "Portugal não se canta muito, o teatro musical não tem cá tradição."
Nos projetos que tenho feito, até estou a gravar agora uma série pra RTP, e sinto que é o contrário, cada vez mais. Sinto que as pessoas sentem que a versatilidade e a capacidade de fazer várias outras coisas já tem tendência a ser valorizada, ao invés nos anos 90, quando nós viemos pra aí abaixo do Porto pra Lisboa, que éramos colocados rótulos, ou éramos cantores, ou éramos bailarinos, ou éramos atores. Nunca poderíamos ser as três coisas ao mesmo tempo.
Mensagens e tão completos.
A verdade é que a Gwen Verdon dizia Quando começou a fazer peças e era questionada sobre como é fazer uma peça, ela dizia: "É muito mais fácil, só tenho que fazer uma coisa, em vez de estar a fazer três coisas ao mesmo tempo." Isso é ótimo.
É mesmo.
Estava agora a pensar no "Rent", onde a Ti é encenadora, foi a Sissi. Aliás, quando eu fui ver, tu entraste no princípio a dizer qualquer coisa, uma mensagem qualquer.
No ensaio geral.
Exatamente. No ensaio geral e tu lá, não sei o quê. Pensei: "O que ela está a fazer? Devia estar no teatro em frente, o que está aqui a fazer? Devia estar no Teatro Maria Matos a esta hora."
Tive que desbloquear os nervos da malta e agradecer a presença.
Não, foi ótimo, foi excelente. Mas, de facto, o "Rent" é uma coisa que também faz a Sandra Leal muito bem, com o "Into The Heights", que eu reparei, que é traduzir para o português também não é fácil, mas fez todo o sentido. Consegue traduzir muito bem, faz sentido.
É verdade. A Sandra Leal é muito bom exemplo disso.
Um exemplo excelente. Ligado ao Tó Rio, portanto. Estão ligados também à Contracanto. Tenho que fazer aqui este elogio àquele grupo que eu adoro no meio da Beira Alta.
Mesmo, e que transportam teatro para a Beira Alta, que é aquilo que eu acho que é importante também no nosso país, é cada vez mais haver a possibilidade de haver teatros espalhados.
E não estamos a falar de produções, estamos a falar de grandes produções.
E já centenas de miúdos passaram por lá.
E nós também.
Alunos deles que hoje em dia estão conosco.
Em Londres. Exatamente.
Agora no "Rent" também tivemos, no "La Féria", temos sempre gente a sair da escola do António. E a Sandra, a adaptação, eu acho que é das coisas mais difíceis no nosso país, é adaptarmos espetáculos de fora para português. E é mais uma das áreas que também precisa de algum tempo.
Tempo e acho que não é uma ferramenta teórica, acho que é uma coisa que pulsa também dentro do adaptador ou do dramaturgo, neste caso.
É, e não deve ser fácil.
Ela é muito talentosa.
A preocupação com o ritmo, nem é preciso a preocupação com o ritmo, não sei, mas todo esse técnico, o dizer, no fundo, o que tu queres dizer, passar a mensagem, que é a mesma mensagem, que é importante.
Obedecer a uma métrica, imagina, por exemplo, Sondheim.
Mas fica lindamente. Ninguém reparou que aquilo era em estrangeiro ou português. Viram uma história e gostaram muito. Depois eu pensei: "Pois é, tudo traduzido."
Mas obedece a um rigor muito elevado.
Claro que sim, muito elevado.
Porque temos uma partitura que em inglês rima a primeira com a segunda, com a terceira ou palavra do meio.
A musicalidade do que se diz, no teatro musical é importantíssimo.
Exatamente.
Mas faz sentido e noto que está bem feito, porque foi completamente escorreito. Aquilo saiu naturalmente e a história toda está lá. E tudo o que vocês querem passar.
Que bom.
E depois é giro, porque "Rent" é muito atual. Até os figurinos são quase atuais, não é? Porque, de resto, lida com estes problemas: saúde pública, o amor.
A habitação.
Gentrificação.
Exatamente.
Está lá tudo.
Poderia ter sido escrito ontem.
Exatamente. É desde 1990 e tal que isto se estreou.
A diversidade, a inclusão.
94 ou 96?
94 foi a primeira apresentação, mas isto é sobre o final dos anos 80, início de 90.
Exatamente.
Mas olhamos para as roupas de agora e é superatual.
Exato. Eu achei isto brutal. Tu és uma encenadora picuinhas? Ou dás muita liberdade aos teus atores? Tens que dirigir muito bem eles.
Com o marido é picuinhas.
Está bem.
Por acaso acho que é mais o inverso. Nesse sentido, és mais picuinhas comigo.
Sou.
É sério?
Sou.
Não, eu tomei a liberdade do ator.
Tu que estás lá, não és a pessoa que está a ver de fora. É sempre diferente quando estás lá com eles.
Não, eu como encenadora tenho uma forma de estar e ser, e como atriz tenho outra. Mas enquanto encenadora, eu gosto de perceber o que o ator tem para dar, obviamente, e depois gosto de manipulá-lo à minha maneira. Obviamente que obedeci a uma dica do Michael Graff, neste caso.
Do "Rent"?
Foi, exatamente. Ele disse-me assim: "Let them be rockstars and then you work them." Então é uma porta. Deixa-os experimentar ser rockstars e depois conduzes no sentido em que queres. E sem dúvida que dá um bocadinho a liberdade, porque eu acho que se limitarmos logo o ator à maneira como nós queremos ver a situação, pode bloquear.
Muito com baias. Exato.
E poderemos tirar-lhe a liberdade que nós procuramos ter em pó.
Eles fizeram aquilo com naturalidade, saídos com naturalidade.
Exatamente.
Mas também há de haver stars e divas que querem ter o seu momento.
Temos que ter travão. Claro que sim.
É engraçado. E depois tudo traduzido, que é muito importante, e sem apoio financeiro. É outra coisa que eu quero dizer, vocês é uma luta permanente. Têm de ter investidores, vocês não têm.
Não temos investidores.
Estamos à espera de um messias que traga chocolate.
Um messias ou mecenas.
Mecenas, neste caso.
Exato.
E eu digo que para a MTL acontecer é preciso muita força de vontade. O Martim é sonhador e precisamos de mais gente como ele. Nós lançamos um nome e ele vai e consegue.
Ele tem de ser uma joia de pessoa.
É mesmo. E a verdade é que sem investidores, nós temos conseguido o que temos conseguido, é verdade, mas também eu acho que há aqui uma compaixão, uma empatia, e pela primeira vez senti um sentido de comunidade muito forte. Há muita gente que ama teatro musical e que quer ajudar de alguma forma a MTL, o que tem sido muito bom de receber. Colegas: "Olha, vocês precisam de alguma coisa, eu posso ir ajudar, seja com maquilhagem." Portanto, tivemos muita gente no verdadeiro sentido de comunidade, que é isso que eu acho que é preciso também na nossa área artística.
Muito bem. Dizem que tem os olhos do avô, é verdade?
Tem a alma.
Talvez. A vossa filha. Tem três anos agora?
O meu pai tem um olho verde e um azul.
Ah, é verdade.
E ela escolheu o azul.
Ele e o David Bowie, exatamente.
Exatamente. E ela veio com os dois azuis do avô.
Acho que tens olhos de luz de morrer, mas como tu dizes, eu adoro quando falas dela. Parece que são pais orgulhosíssimos. Não é que a gente não dissesse muitas coisas, não fazíamos. Mas já que está, não pode ser mais amada, e eu adoro isso. E dizem que tu dizes: "Tem a alma antiga", e eu adoro isso. Já vibro muito com as vossas danças e cantares.
Completamente.
E queres fazer?
Quero.
Sabes que nós fizemos sempre o exercício de não Provocar, ver um filme.
Até para ser um pacto que não falam trabalho em casa.
Não falamos muito. Aliás, só quando temos algum processo criativo e temos mesmo que resolver, aí falamos. Mas a verdade é que estas coisas já vêm mesmo nos genes.
Exato, não podem fugir.
Ela com três anos já improvisa sobre várias músicas.
Quando ela nasceu, disseste uma coisa linda de morrer, Ruben, que era: "Acho que nunca estarei tão perto da eternidade quanto hoje". É lindo isto.
E cada vez mais. E essa frase fica cada vez mais pesada. Por isso é que nós agora queremos é viver o máximo que pudermos.
Exatamente. Estava a pensar agora em vocês em pequeninos, porque falei da vossa filha. E claro, há esta coisa dos tios da SADIN. Já sabes do que eu vou falar, não é? Quando num bilhete, aquelas coincidências, aquelas Deusidências que ninguém sabe explicar, foste com o bilhete de uma amiga, não era para ser tu, e estavas no Cassino da Póvoa, é possível?
Da Póvoa, exatamente.
Quando cantou a Diana Ross. Aliás, não sei se sabias, continua com 81 anos.
81 anos.
Vai para Inglaterra agora, vai a Manchester, vai a Londres, vai a Suíça. Continua a fazer, está agora na Europa. Vem por aí. Mas ela estava a cantar então no Cassino da Póvoa.
Ela estava a cantar no Cassino da Póvoa e fui assistir. "Endless Love".
A música do Lionel Richie.
Exatamente.
Esqueceu-se da letra, fez ali uma gafe.
Esqueceu-se. Como é que é possível ter uma branca, ainda por cima na única letra que eu sabia de cor? Portanto, não há coincidências mesmo.
Estamos a ver.
E eu acho que na minha inocência de 15 anos, cantei mais. Eu acho que hoje não faria isso nem por nada.
A lata, a ousadia.
A ousadia de: "Olha, queres ajuda? Eu sei a letra."
Exato.
Portanto, foi um bocadinho assim. Ela mandou parar a orquestra, desceu do palco, pôs no microfone, chamou-me ao centro e depois cantámos em dueto. A Dadá Luzirello emocionou-se.
Ficaste com um cartãozinho dela, uma coisa extraordinária.
Que nunca usou.
Que nunca usei.
Ainda hoje lhe falei nisso.
E o que é que tens a ver com isto?
Eu tenho uma história que eu acho que as pessoas até acham que eu invento.
Não o conhecias, de todo?
Não, de todo. A Sissi quando lhe foi dada esta oportunidade de ver o espetáculo. Era muito pequena, estava com uma amiga e encontrou lá um casal que lhes deu, ou seja, trocou de lugar com ela para irem para a frente, porque elas eram baixinhas. Isto tudo aconteceu. Ela engana-se na música, canta, o Gosta estava lá.
Depois foi verdade?
Foi.
Mas foi para a RTP.
Foi o Júlio Isidro da Sissi.
Eu costumo dizer que ele é o meu Júlio Isidro.
Corta para eu e a Sissi conhecemo-nos, começámos a namorar. Um dos meus melhores amigos é o André Pimenta, é médico dentista, o pai dele, o doutor João Pimenta, é inacreditável. Então um dia a Sissi estava a fazer uma coisa qualquer. Atenção, isto foi com 20 anos de pausa.
Exatamente.
Ela estava a fazer uma coisa qualquer num dentinho e o pai dela passa na clínica e ela estava na máquina e diz: "Eu conheço estes dentes". E sai. E volta e diz-lhe assim: "Eu conheço mesmo estes dentes. Você não estava no concerto da Diana Ross?"
Estás a brincar.
Calma! "Não estava no concerto da Diana Ross e foi cantar com ela porque ela se enganou?" Estava. Eu fui a pessoa que lhe deu o lugar para ir para o lugar da frente.
Incrível!
Já viste.
Extraordinário.
Como é que isto é impossível?
É uma história mesmo bonita.
Vocês estão beijados por Deus completamente todos os dias.
A verdade é que foi um momento muito caricato, porque eu não tinha bilhete, foi uma coisa em cima da hora. Eram aquelas mesas de cassino compridíssimas, portanto, eles cedem-nos o lugar deles encostados ao palco. Aquilo acontece, eu vou para a televisão. Acho que há um bocadinho da minha carreira começa ali. É verdade, porque o Cassino da Póvoa adorou o momento ao ponto de me contratar. E fui cantora residente do Cassino da Póvoa. Portanto, anos depois, conheço as pessoas que me cedem o lugar naquela noite.
Proporcionaram aquela proximidade.
É mesmo bonito.
Incrível. Pronto, vocês estão ligados até não só pelo coração, por tudo, pela filha, pelo trabalho, por tudo. O nosso tempo voou, já sabia que isto ia acontecer, mas Sissi Martins, Ruben Moreira, quero agradecer muito a vossa disponibilidade em virem aqui, até porque não é fácil ter-vos aqui. Já sei que estão a preparar agora, já têm uma coisa grande aí que vem aí.
E eu ainda estou com a "Famíliadamos", atenção.
E tu estás na "Famíliadamos", no Teatro Maria Matos, até 15 de junho. Não percam quintas, sextas e sábados às 21:00, sábados e domingos às 16:30. Não perder, eu fui ver e é maravilhoso. Extraordinária aquela história, irresistível, encenada por Ricardo Neves Neves. Vamos sempre acompanhar o vosso trabalho, quero que vocês voltem. Foi muito bom ter-vos aqui.
Muito obrigada.
Muito obrigado.