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Vai mandar para a final de Portugal. Para dentro! Gol! Portugal!

Diário do Euro da Rádio Observador. Miguel de Estoi, está me a custar muito. É um dia muito triste, muito cinzento.

É o nosso fado, é o nosso destino. Foi assim em 84 com Platini no último minuto.

Não pode soltar Carlos Paredes, Miguel.

Foi assim em 2000 com Zidane. Em 2016 conseguimos vencer, mas agora voltamos a cair aos pés da França no jogo eliminador, e nem estou a falar do Mundial de 2006, onde caímos também com a França. Tirando em finais, nós não conseguimos fazer nada com esta França. André Maia, não sei como é que está a tua alma em direto a partir da Alemanha. Vais ter de dizer também "au revoir", vais ter de dizer adeus a esse país depois deste Europeu, que acaba assim triste novamente com a França. André, como é que estão as emoções na Alemanha?

Até agora até estavam bem, mas depois puseste Carlos Paredes e foi mais dolorido.

O coração não aguenta, André.

Vocês querem me fazer chorar na despedida. Estou triste, obviamente. Estamos todos um bocadinho tristes, mas estamos bem. A vida não acaba aqui e o futebol não acaba aqui. Vamos ter mais oportunidades e a experiência, quer journalisticamente falando, quer também pessoalmente, aqui, todos os jornalistas com a equipa, com os portugueses, foi espetacular, apesar de ter acabado um bocadinho mais cedo do que o previsto, até porque é preciso lembrar, em teoria, e aqui a teoria no futebol não costuma resultar muito bem, não era suposto apanharmos a França agora, porque supostamente França teria passado em primeiro lugar do seu grupo. Portanto, agora, provavelmente teríamos apanhado aqui uma Áustria, talvez, uma equipa assim, sendo que no grupo também estava os Países Baixos. A França decidiu ficar em segundo lugar do grupo, apanhou-nos aqui um bocadinho mais cedo. Mas ontem custou um bocadinho mais pela boa exibição que a seleção portuguesa fez. Fez o melhor jogo até agora, talvez, do Campeonato da Europa. E até agora, e ponto final. E custou talvez um bocadinho mais por aí, porque fica aquela sensação. Aliás, tal como ficou nos outros jogos que disseste, Miguel, todos esses jogos, praticamente, ficou sempre a sensação de que se tivéssemos corrido um bocadinho mais, se tivéssemos rematado aquela bola de maneira diferente, que teríamos claramente passado e ontem foi a mesma coisa. Ontem, se aquele passe tivesse entrado um bocadinho mais cedo, se aquele remate tivesse sido mais para aquele lado, Portugal foi melhor, diria eu, que a França no geral do jogo.

Pois é, isso que eu ia dizer. E se, e se.

Mas como dizia o Paulo Bento, se minha avó tivesse rodas era um camião. Não vale a pena pensarmos muito nesse "e se".

Já está, não há nada que possamos fazer. Mas ontem tu dedicaste praticamente o dia todo aos portugueses. Achas que essa foi mesmo a melhor parte?

Foi, sem dúvida, a melhor parte. Até porque esta segunda parte, vamos assim chamar, desta campanha do Euro, acaba por ser uma segunda parte em que se vive um bocadinho menos o Campeonato da Europa. Isto por quê? Porque na fase do grupo temos jogos todos os dias, em primeiro lugar, ou seja, temos sempre esse aperitivo que nos faz estar sempre ligados à corrente do Euro. Depois, quando chegamos à fase a eliminar, já temos alguns dias em que não há jogos, já são mais passados, já não há jogos também à hora de almoço, só à tarde e à noite. As cidades também são um bocadinho mais afastadas e isso faz com que não tenhamos essa febre do Euro sempre presente. E ontem eu próprio me autoincentivei e me autoobriguei a ir ter com os portugueses. Já tinha pensado em fazer alguns diretos e estive a fazer diretos desde a hora de almoço até à hora do jogo. E ainda pensei em ir para o centro da cidade, mas disse: "Não, vou ter com os portugueses, vou para o bairro, para o Portugiesenviertel", que é o tal bairro que é praticamente português. Estive lá durante toda a tarde e finalmente voltei a sentir um bocadinho aquilo que tinha sentido ali na altura da fase do grupo, em que só se pensava no Euro. Tínhamos aquela febre e ontem o ambiente estava absolutamente espetacular. Aliás, essa foi talvez a parte que tenha custado mais, e é difícil explicar por palavras, porque só estando lá, mas os franceses não se ouviram durante um segundo do jogo. Foi uma coisa absolutamente impressionante. Os adeptos de Portugal foram o ponto alto da partida. Eu até pus isso na minha crônica. Para mim foi o melhor do jogo, foram os adeptos portugueses. Estiveram incansáveis do primeiro ao último segundo, sem parar de cantar. E atenção que eles já tinham começado a cantar desde mais ou menos às 15h.

Aguenta, Jorge.

Muito facílimo para a gente.

Dos melhores vídeos e fotos que eu guardo deste Campeonato da Europa, e são muitos. Aliás, ontem tive que limpar alguns.

Já não tinhas memória no teu telemóvel.

Sim, ontem pela primeira vez apareceu-me o sinal de que a memória estava a ficar cheia, mas dos melhores vídeos e fotos que tenho são sem dúvida do cortejo que ontem fizemos, ali junto à zona ribeirinha de Hamburgo, e muita gente nas pontes para ver os portugueses, um ambiente absolutamente fantástico e os adeptos mereciam um bocadinho mais, até porque os pênaltis foram batidos para o nosso lado.

Achei sim.

E acabamos por gritar muito, mas sem sair com frutos.

A verdade é que foste encontrando muitas histórias e foste contando aqui no Diário do Euro, foste publicando muitas em observador.pt. Agora é dia de terminar o trabalho e de regressar a Portugal também, mas certamente tens histórias ainda por publicar deste trabalho que foste fazendo na Alemanha, André.

Tenho sim, para também explicar um bocadinho para os nossos ouvintes qual é o nosso modus operandi. Tendo em conta que sabemos que há, a certa altura, fases que são mais passadas, os quartos de final já são um bocadinho mais, as meias ainda mais, e depois das meias para a final, ainda mais, são praticamente três, quatro dias de distância. E então deixamos sempre algumas histórias, que já gravámos a priori, para ir publicando precisamente nesses dias que não há tantas atividades. E, por exemplo, eu posso dizer que há pelo menos ainda mais duas que vão ser publicadas. Algumas eu já mencionei aqui ao de leve, a história do hotel abandonado, que acho que já tinha mencionado aqui. Fomos a uma vila em Eisenach, uma vila da antiga Alemanha de Leste, da RDA, e estivemos por lá. É uma história muito gira, porque o Hitler esteve lá a discursar ainda antes de ser o Führer, antes de ser o chanceler alemão. Estivemos a perceber o que é que vai acontecer ao hotel, porque o hotel lá dentro está praticamente intacto, ainda que já tenham caído partes do telhado e há ali uma luta também jurídica para saber se o hotel fica de pé ou não, mas é um hotel com muita história. Foi um dos hotéis mais importantes da Alemanha de Leste. E depois temos a história do massacre de Munique. Isto foi quando eu estive em Munique. Essa provavelmente será publicada um bocadinho mais para frente, até por causa dos Jogos Olímpicos. E vamos falar um bocadinho sobre o facto de em Munique haver um ponto importante na história de Israel. O massacre de Munique aconteceu nos Jogos Olímpicos de 1972. Até agora foi o ataque terrorista mais marcante e mais mortal na história do desporto. Morreram vários atletas, cerca de nove atletas e técnicos da comitiva de Israel, assassinados por uma célula terrorista palestiniana. E estivemos à conversa com um israelita que estava lá no memorial que existe no apartamento que foi dos israelitas nos Jogos Olímpicos e estivemos a falar também de como é que isto pode ser agora nos Jogos Olímpicos, como é que teria sido também se Israel tivesse vindo ao Campeonato da Europa, até porque Israel foi até ao playoff. E portanto, temos aqui pelo menos mais estas duas histórias. Pode vir aí mais alguma coisa, mas temos pelo menos essas duas. Ou seja, eu saio de Munique, saio da Alemanha fisicamente, mas jornalisticamente ainda cá estarei mais uns tempos. A minha alma vai ficar por aqui a assombrar os franceses mais um bocadinho e portanto ainda podem ler mais coisas os nossos ouvintes aqui sobre o Campeonato da Europa.

Muito bem, André Maia, ficamos por aqui. Faz um bom regresso a Portugal. Cá esperamos.

Obrigada, gostei muito de falar convosco aqui nestes dias.

Nós também.

Foi uma boa companhia. Obrigado.

Portanto, fica aqui o último Diário do Euro da Rádio Observador.

Vai rematar para a final do Campeonato da Europa! Gol! Portugal!