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Olha a cabeçada, golo! Ronaldo! Não há português que não sinta. Mais uma edição do "Diário do Mundial". Esta edição feliz, porque vimos Portugal a golear nos oitavos de final, 6x1 frente à Suíça e o português que tem dado inveja a muita gente, incluindo a mim próprio, Bruno Roseiro, enviado especial do Observador no Qatar. Bruno, boa noite.
Não tenhas inveja nenhuma. São 3h20 da manhã e eu ainda tenho que descrever essa nevesta toda. Não tenhas inveja.
Mas também podias levantar-te três horas mais tarde e assim passavas ao lado do jet lag.
Não, isso tem de ser tudo uma aventura logo desde manhã.
Começamos exatamente por aí. O que andaste a fazer com tantas horas até às 10 da noite no Qatar, que foi a hora que começou o jogo, 7 cá em Portugal continental, o que andaste a fazer durante essas horas todas?
Aproveitei para ir a Souq Waqif, aquele mercado mais conhecido que há aqui em Doha, que já tínhamos falado. Aproveitei para ir de manhã, porque caso contrário, já iria apanhar provavelmente muitos adeptos marroquinos.
Pois.
São as três grandes, digamos assim. A Argentina continuo a achar que é a seleção mais apoiada, depois a seguir talvez Marrocos e Brasil, sendo que os marroquinos são mais exuberantes do que os brasileiros. E nunca esquecer os mexicanos, que já estão minados há algum tempo, mas continuam por aí. Aquilo que eu fiz foi aproveitar de manhã para fazer uma primeira visita a um hospital de falcões. Os falcões, tal como os camelos, é um dos animais mais respeitados, estimados e que tem mais tradição em termos culturais aqui no Qatar.
Há muitas fotos no Google que se nós pesquisarmos, especialmente países do Médio Oriente, em que os falcões aparecem muitas vezes com uma paisagem do deserto por trás. Os falcões são uma presença assídua.
Sim, é uma presença assídua. A minha ideia original é pensar aproveitar que em Souq Waqif tu consegues ver falcões, consegues ver inúmeros artigos para falcões, mas existe um outro hospital veterinário, esse sim, agora o que está mais em funcionamento e onde dará para falar com mais pessoas, que fica a cerca de 50 km de Doha.
Mas Bruno, desculpa, artigos para falcões. Estou a pensar em artigos para cães e gatos do gênero capinhas, casaquinhos. Não tem nada a ver com isso?
Não, há aqueles capacetes.
Ok.
Aqueles capacetinhos que as águias, por exemplo, também têm. Depois há aquilo que terá um nome técnico, não sei qual será, mas é aquela espécie de pedestal onde eles ficam quando estão em exibição. Depois há uma série também de tapetes que não tem propriamente a ver com eles, mas deverá ser uma espécie de uma caminha, não sei, qualquer coisa muito simpática para eles. Os campeonatos de falcões também existem e aparentemente vão existir em dezembro, portanto este mês. Aquilo que eu ainda vou fazer é depois de ter tido esta primeira experiência ali, que apesar de tudo uma experiência pequena, não consigo escrever muito sobre aquilo. A minha ideia é ir ao hospital veterinário maior só para falcões, que fica a cerca de 150 km de Doha, e depois ir a uma estação de metro que é perto da estação de Lusail, que agora está a falhar o nome, mas será Kamal, salvo erro. E lá é também um dos sítios, em termos turísticos, mais visitado. Tem as Galerias Lafayette, que é uma das coisas mais luxuosas dentro do luxo que encontras muito facilmente aqui. E tem lá um programa dos concursos de falcões este mês. Portanto, eu terei de ir lá, porque não me souberam explicar quando é que são os campeonatos, terei de ir lá para perceber quando é que são e onde é que são. Se for no deserto, eu desconfio que pode ser mais complicado de lá ir, mas normalmente os campeonatos do mundo são no deserto, ou seja, aquilo que se costuma fazer é põem uma tenda grande, aquelas poltronas grandes também para os cataris, que veem aquilo. Também há transmissão com drone. Neste caso, não há propriamente um canal como há com os camelos.
Certo.
Mas também há transmissões com drone, etc. E os campeonatos decorrem lá e eu lembro-me de ter visto trabalhos antes de vir para cá, onde alguns dos mais apaixonados diziam que apesar de haver um campeonato do mundo de futebol, que para eles o campeonato do mundo era falcões e não futebol. Portanto, ainda existe essa parte cultural. E depois, estando ali em Souq Waqif, claro, é inevitável, também tive de começar a comprar as minhas coisas, porque a partir de agora tu nunca sabes o teu dia de amanhã. Ou seja, neste caso, eu não sabia o meu dia de amanhã. Agora, sei os meus próximos três ou quatro dias, ou vou ter de os desenhar.
Vais andar a viver no limpo.
Daqui a três ou quatro dias, depois também não sei como é que vai ser amanhã e assim aproveitei. E para as pessoas que se calhar, sendo portugueses e querendo sempre que Portugal ganhe, começar a trazer algumas recordações para essas pessoas que Partezinha delas, se calhar, não se importavam que Portugal perdesse, porque também era sinal que também iria mais cedo.
Voltavas mais cedo.
Vão ter uma segunda ronda de recordações.
Está justo.
É a única coisa que eu posso fazer para compensar.
Está justo.
Vai ser sempre pouco para compensar aquilo que fazem por mim, mas é a única coisa que eu posso fazer para compensar.
Mas olha, já agora, um íman no Qatar, isso é coisa para quanto?
Não, isso é gratuito, é 10 reais.
Ok.
Portanto, é à volta de 2,5 €.
Pronto. Ok.
Estás à vontade. Vou levar um para ti, já percebi. Aquele do frigorífico.
É o clássico. Só para quando receber pessoas poder mentir.
Pronto, então está feito.
Fazer boa figura.
Sim, tiveste sorte porque pediste a Taluda que é a mais premiada, porque é das coisas mais baratas que há ali, portanto já está comprada, está arrumada a ideia.
E depois de "feirares" e de visitares a parte, ou de revisitares artigos para falcões, começaste a preparar a tua ida para Lusail?
Sim, e ainda passei pelo Media Center.
Obrigatório, não é?
Alguma confiança eu teria, porque já estava a perguntar quando passei por lá, como é que está agora o tempo de espera para a roupa. Se eu perguntei isso é porque acho que vai cá ficar mais tempo e aparentemente acho que o tempo para a roupa diminuiu ligeiramente, porque os três dias que me tinham prometido primeiro, afinal já foram quatro.
Já agora, notas que houve, não sei, até dos nossos colegas, notas que com a chegada desta fase a eliminar, há mais espaço ou há menos jornalistas?
Sim, globalmente sim. Há muito menos jornalistas. A maior diferença que eu notei é quando eu apanho o metro de manhã, 9h30, 10h da manhã aqui, sinto que há menos gente. Seja na rua até lá, que eu ando mais ou menos 10 minutos até ao metro, seja na rua, seja no próprio metro, sinto que há menos gente, ou seja, que a grande afluência continua a existir quando há jogos, mas apenas e só porque as pessoas têm de sair do estádio. Caso contrário, já não há aquelas romarias que havia para Corniche, para West Bay, para as principais zonas de aglomeração de adeptos, isso já deixou de existir. Ficaram foi seleções que têm muita gente. Argentina, Brasil e Marrocos. Portugal não tem assim tanta gente em comparar com eles, sobretudo pessoas que tenham vindo destes países, nomeadamente da Argentina, e que vieram milhares de pessoas que vão cá ficar e que já têm estadia marcada até dia 20. Portanto, confiança ali não falta. E notas essa diferença. No próprio centro de imprensa também vais notando até coisinhas mais simples. Por exemplo, amanhã vai ser o primeiro dia onde eu não tenho necessidade de imprimir bilhetes, porque não tenho jogos.
Certo.
Isto era uma prática comum. Eu imprimia sempre os bilhetes para os jogos no dia seguinte. E orientava sempre assim. É uma questão de criar rotinas dentro de uma coisa e dentro de um contexto que não dá para criar rotinas. Mas como eu sou uma pessoa de rotinas, tentava criar algumas rotinas por mais pequeninas que fossem.
Faz sentido.
E nota-se que há muito menos pessoas. O Media Center tem uma vantagem. Ou seja, neste caso, a vantagem é permitir-me estar sossegado a ler, a escrever, a poder também almoçar com calma. Nós não temos falado muito de gastronomias e afins, mas tem uma vantagem ali que é, tem uma espécie de um buffet onde a probabilidade de errares naquilo que tu escolhes e saíres com a boca a arder é mais pequena.
Bom.
Existe mais variedade. Claro está que gosto sempre de arriscar um bocadinho e já correu mal. Já cheguei a beber duas 7 Up numa refeição, 600 ml só numa refeição porque correu mal. Às vezes a carne tem imenso bom aspeto e depois as especiarias é um abuso. Olha, por falar em especiarias, também fui, acho que foi contigo, que eu fiz no Souq Waqif, a primeira empresária qatari.
Certo.
Fui lá hoje, outra vez, deste caso à parte da loja das especiarias. E voltei a estar um bocadinho à conversa com a filha, que é quem fala melhor inglês. E também aí já tinha combinado, eu vim cá, porque pode acontecer alguma desgraça, mas eu acho que aquilo que eu prometi no pequeno-almoço ainda se vai realizar. E vai mesmo realizar. Passar pelo Media Center. E por quê? Porque o Media Center permite trabalhar um bocadinho mais à vontade nesses dias, onde é basicamente jogo. E depois tem uma vantagem que é para ir para Lusail, como é a linha vermelha, ou seja, foi uma linha que foi montada para ir terminar. Inicialmente, por acaso, até era para ir terminar a Al Bayt, ao estádio Al Bayt, à cidade de Al Khor. Depois perceberam que não fazia o mínimo sentido, nem teria o mínimo de sustentabilidade, então acabou em Lusail essa linha vermelha. Mas a volta pelo metro era tão grande que assim aproveitei e fui no shuttle que existe no Media Center até Lusail, muito calmamente. Perdi 20 minutos, ainda assim do Marrocos com a Espanha, mas consegui ainda ver no centro de imprensa grande parte do jogo.
E o mais importante
E o mais importante também. Estava a ver e só me lembrava da conferência de imprensa do Luís Enrique.
Mil penáltis, não é?
Para bater mil penáltis cada.
Alguém não cumpriu o trabalho de casa, se calhar.
Ou então acho que 1000 não chegam.
Ou isso.
Acho que o próximo Europeu ou Campeonato do Mundo, acho que temos de ir para os 5000 para ver se resulta. Deixa-me dizer que é uma pena que o Luís Enrique era talvez das figuras do mundial que eu tinha mais vontade de escrever, e sinceramente estava a guardar isso para os quartos-final.
Para os quartos.
Falhei.
Tu e muita gente.
Sim, acho que falhei, embora o treinador de Marrocos seja também uma personagem muito destacada e cada vez mais uma figura da equipa, à parte do Ziyech e do Hakimi, que são talvez as duas grandes figuras.
Entrou na seleção em agosto, salvo erro.
Sim, e depois tu percebes, é um treinador que fala quatro línguas, que nas próprias conferências de imprensa gosta de se mostrar no sentido de se lhe perguntarem em francês, é em francês que responde, se perguntarem em inglês, é em inglês que responde. Ou seja, gosta de mostrar esse know-how, digamos assim, que é também um abre portas.
Claro.
Ninguém tire da cabeça que o Luís Enrique responde a perguntas que são feitas em inglês, em inglês, porque me parece que o próximo destino dele vai ser Inglaterra.
Pois.
Ninguém tire isso da cabeça. E então acabei por ver o jogo e enquanto estava a ver o jogo, foi quando fui percebendo que poderia mesmo haver aquela surpresa no 11, que hoje ou agora à noite, nós se calhar pouco ou nada falamos, pelo resultado do Portugal-Suíça, mas ainda assim eu acho que para mim é ainda a notícia mais importante do dia, Cristiano Ronaldo sentar-se no banco. Sinceramente, acho que é a notícia.
E aquele batalhão de fotógrafos, de fotojornalistas, na altura do hino português e do pré-jogo, é revelador, não é?
Sim, e o próprio estádio, também as reações do estádio, acho que dizem muito. Em relação ao facto de Ronaldo ter ficado no banco, parece-me que está a haver muito enfoque na parte disciplinar, digamos assim, ou seja, quase um castigo, depois de mais uma saída, que não foi propriamente a melhor em termos de atitude com o selecionador. Mas eu acho que Fernando Santos teve a coragem de fazer uma mudança de paradigma durante o mundial, que toda a gente percebia que iria acontecer depois do mundial.
Certo.
E hoje quando faz essa escolha, eu sou sincero, a informação que eu tinha ontem à noite era de que o Ronaldo ia jogar. Portanto, sou sincero, não vale a pena estar aqui a dizer: "Eu já sabia, etc". Não, a informação que eu tinha ontem à noite era que os quatro da frente, Bruno, Bernardo, Félix e Ronaldo. Era essa a informação. Não sabia qual era o meio-campo. Desconfiava que o William poderia jogar, não sabia que o Rúben Neves iria sair, mas os quatro da frente seriam esses.
E mesmo o Cancelo, também já estavas à espera?
O Dalot ia jogar, e depois jogaria um dos outros.
Certo.
Pronto, também pela saída do Cancelo, acho que aquilo que ficou provado é que não há intocáveis.
Pois.
Porque até mesmo o Pepe, que nós podemos dizer: "Não, o Pepe nesta altura não pode sair da equipa", e não pode. Os jornalistas brasileiros continuam completamente pasmados como é que o Pepe com a idade que tem ainda faz aquilo que faz. E estivemos a falar um bocadinho disso na zona mista enquanto os jogadores não vinham. Mas até o Pepe começou o Campeonato do Mundo no banco.
Exato.
Provavelmente também teve a ver com questões físicas, não o querer arriscar, eventualmente, mas também começou o Campeonato do Mundo no banco. Portanto, a partir de agora, Portugal quebrou de vez com o paradigma de que obrigatoriamente tem de ser o Ronaldo e mais 10. Acho que quebrou com a ideia, que era uma ideia feita e bem feita, aquele chavão de não há jogadores imprescindíveis, não há ninguém com lugar cativo, porque havia, havia um que tinha sempre de jogar. E fez-me recordar, em parte, aquilo que aconteceu no Euro 2004. Curiosamente, quando o Ronaldo foi um daqueles que entrou e não, neste caso, aquele que saiu.
Exato.
Na altura, quando o Scolari faz a revolução na equipa, ou começa a fazer depois da derrota inaugural com a Grécia, o Ronaldo ainda fica no banco no jogo com a Rússia, mas no último jogo da fase de grupos com a Espanha já é titular.
Mas mesmo nesses dois jogos, Bruno, se bem me recordo, ele na Grécia entra, marca, nós perdemos, e contra a Rússia assiste.
Assiste o Ricardo Costa.
Exatamente.
Portanto, teve sempre um contributo e a partir do terceiro jogo foi titular e assim ficou. Nunca mais o Ronaldo tinha ficado no banco numa fase final de uma grande competição. E aliás, desde 2004, ele tinha ficado cinco vezes no banco, mas por mera gestão física. Percebia-se que nunca havia a questão da opção técnica. E Fernando Santos aquilo que fez foi exatamente isso, ou seja, aproveitou um capítulo disciplinar, que era por demais evidente para toda a gente, e nessa altura as imagens televisivas não dão grande folga para este tipo de situações passar ao lado, e tomou uma opção técnica. Quando Fernando Santos diz que tomou uma opção técnica, eu acredito. Admito Tenho a convicção de que foi à boleia de uma questão disciplinar, mas esta era uma opção técnica que ele queria tomar e o tempo e o jogo em si mostrou que tinha razão naquilo que fez. E tinha razão não só pela opção de Gonçalo Ramos, mas também pela capacidade que a equipa teve em melhorar brutalmente em termos coletivos, com cada um a jogar um bocadinho mais do que tinha jogado até aqui.
Certo.
Era o tal win-win que ontem falava com o André. A conferência de Fernando Santos tinha sido win-win e foi mesmo um win a sério. O Ronaldo não passou ao lado propriamente disso. Aliás, o Ronaldo parecia um elemento da equipa técnica de Fernando Santos, ao lado do Ilídio Vale. Enquanto os outros suplentes estavam a trocar a bola entre si, ele estava a ver o aquecimento dos titulares. Não me parece que seja uma coisa bem resolvida. Nem ele, nem ninguém gosta de ficar no banco numa grande competição, ainda para mais ele com o currículo que tem.
Claro.
Agora, perante o resultado de hoje e até pela maneira como Portugal jogou, eu acho que Ronaldo, sobretudo, por mais frustração que possa ter de não ter jogado hoje, e porque em alguns jogos ele pode ser o avançado que nós precisamos, ninguém coloca isso em causa, assim como ninguém coloca nada do que o Ronaldo fez até hoje em causa, mas parece-me que ele terá de acabar o dia satisfeito com aquilo que Portugal fez, que é apresentar uma candidatura mais do que séria a poder marcar presença na final de um campeonato do mundo, algo que nunca aconteceu na história.
Até porque, Bruno, e se não concordares comigo, obviamente, o dirás, mas nós ganhámos um campeonato da Europa sem a possibilidade de usar Ronaldo na parte decisiva do jogo. Nós agora podemos fazê-lo e podemos também aproveitar a utilidade que foi ter o Ronaldo no banco nessa altura, não é? Porque foi de facto útil.
Sim, eu diria que há uma palavra que faz toda a diferença, ou a troca de uma palavra que pode fazer toda a diferença entre 2016 e 2022. Eu acho que na final, com tudo aquilo que Ronaldo foi fazendo, quem estava lá dentro também estava a ganhar por Ronaldo.
Exato.
Não estava a ganhar só por Portugal, estava a ganhar por Ronaldo. E nesta altura, Ronaldo passou para um patamar onde todos os que estão lá dentro lutam para ganhar por Portugal e com Ronaldo.
Exato.
Já não é por Ronaldo, é com Ronaldo, porque o Ronaldo a partir de agora é mais um entre os 26. E isso não tem qualquer tipo de problema, não é um desprimor qualquer para a carreira que ele fez, não é falta de gratidão por ter sido o melhor português de todos os tempos, e que vai continuar a ser, ninguém tem dúvida, e um dos melhores jogadores de sempre, mas é o constatar que nesta altura, e até depois do jogo que ele fez com a Coreia do Sul, que foi um jogo mesmo pouco conseguido, que nesta altura Portugal funciona melhor com Gonçalo Ramos do que com Ronaldo, e todos os jogadores da frente funcionaram melhor com Gonçalo Ramos do que com Ronaldo. Isto não tem a ver com nomes, tem a ver com características dos jogadores e aquilo que eles conseguem fazer hoje. E o Ramos hoje oferece mais, até para os jogadores que o acompanham na frente, do que o Ronaldo pelo seu estilo de jogo, e nada mais do que isso.
E passamos então rapidamente à vista de olhos pelo jogo. Estiveste no Lusail, de cadeirinha a ver, não sei, diz-me tu, este jogo entrou para o teu top 10 dos melhores jogos que viste de Portugal ou até está acima disso?
Não, garantidamente. Garantidamente, porque eu ontem tinha ficado, vou-te dar um exemplo prático, eu ontem fiquei completamente maravilhado com o terceiro gol do Brasil.
Certo.
Acho que é uma jogada fabulosa, começa lá com as brincadeiras do Richarlison, lá está, mas depois coletivamente é uma jogada fabulosa. O quarto gol de Portugal não fica em nada atrás. Mais, o Brasil faz aquele gol com a Coreia do Sul encostada lá atrás e Thiago Silva quase a 10 metros da área.
Exato.
O quarto gol de Portugal é feito em velocidade, contra uma equipa que defende muito melhor, contra uma equipa que tem muito mais experiência de futebol europeu, que dá, apesar de tudo, outra tarimba, e sempre à procura de espaço, até conseguir isolar o lateral, e foi o lateral que foi finalizar. Percebe-se claramente que esta vitória não passou ao lado da imprensa internacional, que depois da derrota com a Coreia do Sul duvidou, de certa forma, daquilo que Portugal poderia ou não fazer, e é completamente legítimo que isso pudesse acontecer, até porque a Suíça chegava a jogar um futebol e a ter índices de competitividade que não tiveram nada a ver com aquilo que se viu hoje.
E o jogo imediatamente antes deste foi o que foi frente à Sérvia.
Sim, e contra a Sérvia, para mim, tinha sido o melhor exemplo, até porque, por exemplo, com o Brasil, a Suíça não ficou muito longe de conseguir sacar um ponto. E contra a Sérvia, acho que fez um jogo muito interessante, conseguiu perceber os momentos todos do jogo. E depois acabou por acontecer uma coisa, que eu acabei por falar com o Miguel pouco antes do jogo, quando ele fez a primeira ligação.
Certo.
Ao estádio. Era o que eu estava a explicar, o Arsène Wenger, entre várias constatações que fez em relação à fase de grupos, houve uma que me ficou que foi: todas as equipas estão a bloquear bem, através do seu meio-campo, o corredor central e as equipas que ficam mais perto de ganhar e as equipas que conseguem criar mais oportunidades são aquelas que sabem aproveitar da melhor forma os corredores laterais. Em paralelo com isso, são aquelas que têm individualidades, conseguem desequilibrar sozinhas. E os exemplos práticos, como sempre, foram os sul-americanos, o Brasil e a Argentina, porque existe Messi e naquele caso, em relação ao Brasil, existe Neymar, existe Vinicius, existe Raphinha, etc. Mas tem muito a ver com a capacidade que eles têm de dar largura ao seu jogo. Mais, estatisticamente, ao longo da fase de grupos, o Brasil e a Argentina foram as equipas que demoraram menos tempo a recuperar a bola. Por quê? Porque também sabem que a partir do momento em que passa a primeira barreira de pressão, vão estar muito mais expostas e que não têm propriamente a defesa mais segura do mundo, apesar de terem setores defensivos seguros, mas não é propriamente a situação mais confortável. Quando vejo o jogo de Portugal, tudo aquilo que Arsène Wenger disse que era a fórmula do sucesso para ir longe nesta competição, foi tudo aquilo que Portugal fez.
Preenche-se os quadradinhos, não é? X, certo. X, certo.
Sim, estava tudo certo. Garantidamente, Fernando Santos não quis ou não montou uma estratégia a pensar naquilo que Wenger tinha dito, mas claramente a estratégia acabou por entroncar em tudo aquilo que se dizia que era a fórmula do sucesso para se ir mais longe no Campeonato do Mundo. Dar largura, conseguir criar espaços para os desequilibradores aparecerem. Tudo o que se poderia pensar em relação a isso, aconteceu, sempre com o Otávio a desequilibrar, mas sobretudo com o Gonçalo Ramos, que tem um jogo épico, que nunca mais será esquecido, e com um jogador que Portugal recuperou, que há muito tempo nós não víamos, que alguns até achavam que poderia afinal não existir e que se chama João Félix.
João Félix.
Este João Félix, eu lembrava-me dele. Só que muitas vezes não é o João Félix que nós vemos no Atlético de Madrid. E isso também mostra que muitas vezes o contexto em que se joga, a filosofia com que se joga, aquilo que nós pedimos aos jogadores, muitas vezes também é o segredo para estarem mais perto de vencerem e triunfarem, individual e coletivamente, ou não triunfarem. E acho que Diego Simeone pode aprender algumas coisas, se quer um jogador que lhe possa fazer a diferença, acho que pode aprender algumas coisas, porque ele é exatamente o mesmo jogador com o qual trabalha há três anos e meio.
Exato. Fim do jogo, 6-1, uma vitória categórica, uma goleada para passar a Suíça e chegar aos quartos de final frente a Marrocos. O jogo está marcado para sábado, às 15h, vais lá estar certamente e depois vem a zona mista. Bruno, o que é que tu viste nesse local privilegiado?
A zona mista, quando tu ganhas com goleada, é de cadeirinha.
Pois.
Não é uma coisa fácil, ou seja, não tens de estar muito preocupado, porque quem vai falar já sabe que para ali na primeira zona de português, hoje também com os jornalistas brasileiros ao nosso lado, e portanto não tens de pedir muita coisa, porque é tudo muito fácil. Quando tu ganhas e quando tu goleias, é tudo muito mais fácil, muito mais tranquilo, fala-se muito mais à vontade. Sinceramente, eu acho que há conversas que só não são muito mais interessantes, porque existem, e isso é completamente normal, jornalistas de outros países que depois têm outras curiosidades e que acabam por desviar um pouquinho a conversa. Por exemplo, uma conversa com o Bernardo Silva é sempre uma conversa interessante. Uma conversa com o Bruno Fernandes é sempre uma conversa interessante. A questão é que os outros jornalistas de outros países, para eles o interessante não é a mesma coisa do que é para nós.
Exato.
E portanto, acaba sempre por se perder ali um pouquinho. Passou também Cristiano Ronaldo, que parece-me que na TVI, que é uma zona que nós não conseguimos ver, ou seja, é a zona de quem tem os direitos, as transmissões, que são sempre as primeiras, terá dito que as notícias que têm saído em relação ao Al-Nassr não são-
Não são verdadeiras. Entretanto, já estive a ler, Bruno, e há quem diga que ele não vai.
É possível que sim. Em termos desportivos, parece-me mais ou menos óbvio. Mas até em termos pessoais, tenho muitas dúvidas nesta fase da vida do Ronaldo, com a idade que os filhos têm, porque muitas vezes nós esquecemos que um jogador de futebol também é um ser humano, ou seja, também tem emoções, também tem digerir ainda a questão dos filhos. Há uma coisa que é terrível e eu nesta altura também sei do que é que falo, que é saudades de casa, da família, namorada, filhos. E ele provavelmente na Arábia Saudita iria ter isso tudo. A questão é, ele estando a dois meses de fazer 38 anos, é isso que ele quer? Por mais que receba uma fortuna autêntica, é isso que ele quer? É esse o futuro? Ainda por mais numa altura em que os filhos já estão inscritos em colégios em Lisboa, porque a vida dele nos próximos tempos irá mudar, ele um dia irá pendurar as chuteiras, irá ter os seus negócios, irá ter os seus compromissos. Continua-me a fazer um pouquinho de confusão a questão do Al-Nassr. Posso dizer Por exemplo, houve um jornalista iraquiano que, por causa do Al-Nassr, não saía dali. E a certa altura ele até nos veio perguntar: "Mas por que o Ronaldo passou e não falou do Al-Nassr?" E eu tive que lhe explicar uma coisa mais a sério, mas disse-lhe só: "Não, ele passou, não falou, mas não falou no Al-Nassr, como não falou do jogo, não falou de nada". Para que ele percebesse que não tem nada a ver com o Al-Nassr, nem com o Al-Gharafa, nem com qualquer coisa que aparecesse. Teve apenas a ver com o facto de ele não querer falar. Houve só uma exceção, que foi quando ele percebeu que havia jornalistas brasileiros que se apresentaram como tal. Foi a única altura que ele parou, só para dizer uma frase. Primeiro disse as melhoras para o Pelé. "Enviem, por mim, as melhoras para o Pelé". E depois, mais à frente, disse: "Espero que o rei volte com força, espero que o rei melhore". Ou seja, quis deixar uma mensagem para o Pelé. Foi a única exceção que ele fez entre percorrer a zona mista sem fazer mais nenhum comentário sobre o jogo e sobre a sua condição de suplente, mas teve essa preocupação de deixar em loco uma mensagem ao Pelé e de antes ter dito isso, que a hipótese Al-Nassr não se confirma. Deixa-me ainda assim acrescentar, tenho muitas dúvidas, muitas dúvidas mesmo, que a marca, por ser a marca, se atravessasse assim, que não houvesse alguma coisa feita. Agora, a informação que eu tinha há cinco dias, não atualizada, mas há cinco dias, a primeira notícia que apareceu, não havia nenhum acordo assinado. É a única garantia que eu tenho. Ronaldo agora diz que não é verdade a questão do Al-Nassr. Não sei se não é verdade o facto de ele ir no dia 1 de janeiro, não sei se é verdade a possibilidade de ele poder ir. Não sei, sinceramente. Sei é que cada vez mais vai ser um assunto secundário, quando todos nós achávamos que Ronaldo iria ser a figura principal. A verdade é que jogos como o da Suíça, tendencialmente, vão também fazendo com que a situação de Ronaldo vá normalizando, porque as coisas são assim, quando corre bem, tudo acaba por ser um bocadinho mais fácil. E por exemplo, eu amanhã vou a um treino da seleção pós-jogo, que é pela primeira vez, porque Cristiano Ronaldo vai estar no lote de jogadores que foram ou suplentes utilizados ou suplentes não utilizados e que vai estar a treinar amanhã.
Exato.
Eu acho que este dia é importante por aí. Houve uma mudança de paradigma na seleção. Aconteceu durante o mundial, que foi a grande surpresa. Fernando Santos tem 26 jogadores e a partir de agora não há mesmo intocáveis. Os que vão lá para dentro são mesmo aqueles que ele acha que são os melhores para Portugal continuar a ganhar.
Certíssimo. Já deste aí uma pista quanto a uma parte do teu dia de amanhã. O que queria perguntar para fecharmos este diário e para tu também te preparares para descansar, desconfio que não vais descansar, mas preparas-te para descansar. O que se faz no primeiro de dois dias sem jogos? Porque tu, Bruno Roseiro, enquanto jornalista, a acompanhar estas leads de seleção em grandes competições, nunca estiveste dois dias sem jogos.
Nunca estive, porque em 2010, Portugal perdeu com a Espanha nos oitavos de final e eu fiz 24 horas de avião, basicamente. Ou seja, fui Cidade do Cabo, Joanesburgo; Joanesburgo, Frankfurt; Frankfurt, Lisboa. Foi praticamente um dia inteiro em viagens. Em 2018, lembro-me também que foi o Portugal com o Uruguai, foi em Sochi, na altura. E foi basicamente apanhar o avião para Moscovo logo muito de manhãzinha e depois de Moscovo também regressar. Estar dois dias sem ter coisas fixas para fazer é uma novidade. Como é que eu vou tentar dar a volta a essa novidade? Primeiro, tratar do hotel mais quatro dias, porque a questão do pagar adiantado e depois não utilizar, não. Tínhamos hotel até amanhã, agora vamos renovar por mais quatro dias. Esperemos continuar a renovar até 18 ou 19. Não mais do que isso, porque não quero ficar com a síndrome qatari, mas pelo menos até à final continuar a renovar. Depois, ir ao treino da seleção, que é ao meio-dia de Cabo, portanto logo de manhã. Amanhã não haverá conferência, depois muito provavelmente os jogadores terão aquele meio dia de folga, poderão ir à praia, como já aconteceu, mas estarão sossegados e também, de certa forma, mais resguardados. E depois à tarde, estou a pensar ir ao treino dos Países Baixos, porque o treino vai ser à porta fechada, mas antes do treino vão falar dois jogadores. Não sabia ainda quem é que era. Inicialmente até era só um, sem nome, e agora, entretanto, já aparece no site da FIFA. Tem uma zona de calendário para nós sabermos aquelas que são as conferências, os treinos, etc. Já aparece quem são os nomes. Um é o guarda-redes titular, que acaba por ser uma das surpresas também desta equipe. E o outro é o senhor Virgil van Dijk. A dois dias de defrontar o senhor doutor Lionel Messi, acredito que pode ser uma conversa interessante.
Vai ser gira.
Até porque o van Dijk continua muito naquele estatuto de “não há ninguém que me passe”. Ele cada vez está com mais confiança, percebe-se isso. Acho que a Argentina vai ter muitas dificuldades, desde já digo. Toda a gente já está a dar o Argentina x Brasil nas meias-finais. Acho que era um jogo fabuloso. Se Portugal não estivesse no Campeonato do Mundo, acho que seria a final desejada por toda a gente, porque era, de facto, um jogo fabuloso. Acho que os Países Baixos vão ser uma equipa muito complicada para a Argentina. E nesta altura é assim, é ir aproveitando. Treino da seleção, treino dos Países Baixos, fazer uma coisa que eu já nem sei o que é, que é chegar por volta das 20:00, 21:00, como se fosse uma pessoa normal. É para escrever, mas uma vida um pouquinho mais normal, e depois no segundo dia já tentar fazer coisas um pouquinho mais fora, porque é como te digo, é uma incerteza. Este hoje foi o dia mais complicado de todos no Mundial. Passa tudo pela cabeça, não sabes se vais embora amanhã, não sabes se vais ficar. Não sabes mesmo. E se há coisa que eu não gosto, é coisas que eu não controlo, e claramente, é o pior dia deles todos, porque a partir de agora tu já estás preparado para ficar, para ir. Como é óbvio, toda a gente quer sempre ficar.
Já tinhas a mala feita antes do jogo?
Não, isso não.
Ok.
Isso não.
Superstição?
É superstição.
Ok.
Isso é superstição. É superstição, porque eu fiz isso na África do Sul, em 2010, e não só fui logo embora no dia a seguir, eliminado pela Espanha campeã mundial, como quando cheguei a Lisboa, a minha mala estava colada com fita-cola, porque se eu tirasse a fita-cola, partia-se em dois. Portanto, a partir daí percebi que eventualmente isto pode puxar o azar e depois ainda posso ficar sem mala. Portanto, a partir de agora nunca faço a mala, está sempre tudo por fazer. E neste caso estava tudo por fazer, até porque o voo era só às 15:30. Deixou de existir esse voo. Também ainda não marquei o próximo. Já passou o pior dia do Mundial. Para mim, já passou, porque é o dia da incerteza. Agora, a partir daqui é só ir fazendo.
É isso. Bruno Roseir, mais uma edição do Diário do Mundial. O Mundial tem agora uma pausa de dois dias antes dos quartos de final. Não significa necessariamente que o nosso enviado especial pare, como vamos percebendo. Bruno, um abraço.
Não vai acontecer.
Um abraço, bom descanso, bom trabalho e até amanhã.
Obrigado, até amanhã.
Olha a cabeçada! Gol! Ronaldo! Não há português que não sinta.
