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Metade já está. Estamos a meio da campanha para as presidenciais do próximo dia 18 de janeiro. O desfecho continua indefinido e a sondagem diária da Pitagórica indica isso mesmo. Há um empate técnico entre cinco candidatos: André Ventura, António José Seguro, João Cotrim de Figueiredo, Henrique Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes. Só dois passam à segunda volta. Os candidatos têm mais seis dias para convencer o eleitorado. Rumamos até à estrada e começamos pelas Caldas da Rainha, por onde anda esta manhã João Cotrim de Figueiredo, candidato apoiado pela Iniciativa Liberal, está no mercado da fruta e é lá que está também o jornalista do Observador, Pedro Jorge Castro. Pedro, bom dia. Cotrim comprou laranjas?
Bom dia, Miguel. Sim, é uma excelente pergunta, tendo em conta o contexto em que estamos. Laranja, como toda a gente sabe, é a cor do PSD e, portanto, é uma analogia fácil. Ele não se fez de rogado. Parou a meio deste passeio aqui pelo mercado, parou frente a uma banca de fruta e, de facto, acabou por referir que a laranja, sobretudo a laranja do Algarve, é um dos seus frutos preferidos. Não comprou laranja aqui para fazer número para as câmaras, porque diz que é uma fruta que suja muito, é difícil de comer frente às câmeras. Acabou por comprar pêra braço de esmolfe e ainda circulou um bocadinho por entre as bancas a degustar essa peça de fruta. De qualquer forma, a analogia mostra também a penetração cada vez maior que Cotrim de Figueiredo está a tentar ter, e está a conseguir, segundo as sondagens, no eleitorado do PSD e da AD. Deixa-me referir que tem sido muito abordado e muito procurado por eleitores durante este percurso aqui nas Caldas da Rainha, colhendo alguns frutos de ações de campanha que teve durante a semana. Foi abordado por mais do que dois, três ex-combatentes. Ele esteve na Liga dos Combatentes na terça-feira e, portanto, pôde puxar dessa autoridade, de ter sido o candidato que se preocupou com isso. Isso rendeu estes encontros com apoiantes, pessoas que lhe vieram declarar o apoio e falar do drama que vivem os ex-combatentes. Foi procurado também por idosos, que falaram da questão dos lares. Portanto, esta estratégia também aqui a render esses frutos nestes contactos espontâneos com o eleitorado.
João Cotrim de Figueiredo, Pedro, tem sido alvo de ataques mais insistentes por parte de outros candidatos ao longo dos últimos dias e muito em particular de Luís Marques Mendes. Como é que João Cotrim de Figueiredo tem gerido a resposta a esses ataques?
Primeiro, encantado. Na verdade, acho que é um ótimo sinal político passar a ser ele a estar no centro dos ataques, e não o contrário, como aconteceu até uma certa fase desta campanha, em que estava ele atrás. Se está ele a ser atacado, a interpretação que ele faz é porque ele está à frente nas sondagens e, na verdade, isto deixa-o na posição de apenas ter de responder aos ataques e tentar sair por cima. É isso que ele tem tentado fazer. Ontem houve duríssimos ataques de Marques Mendes, pela voz do próprio.
Chamou-lhe catavento.
Exatamente, chamou-lhe catavento e a dizer que considerava ridícula esta paixão dele pelo governo agora demonstrada, depois da Iniciativa Liberal ter votado contra o orçamento. E João Cotrim de Figueiredo respondeu exibindo um papel para as câmaras de televisão que tinha uma notícia de 2017 em que Marques Mendes chamava catavento a Pedro Passos Coelho. Ora, isto virar o candidato contra o anterior líder, que ainda por cima tem sido uma presença aqui a pairar nesta campanha, sem declarar apoio a nenhum dos candidatos, mas Cotrim de Figueiredo sublinha que o facto do ex-líder do PSD não declarar apoio ao candidato apoiado oficialmente pela AD é um sinal com leitura política. Portanto, na verdade, isto assenta que nem uma luva na estratégia de João Cotrim de Figueiredo, que continua, de facto, nessa batalha para tentar ao máximo conquistar uma fatia cada vez maior de eleitores da AD. Isso teve outras declinações. Por exemplo, permitiu-lhe responder ao ataque sobre a posição da Iniciativa Liberal. Ele diz que eu e a Iniciativa Liberal não somos a mesma coisa. A Iniciativa Liberal pode ter uma posição. Eu tenho outra posição sobre este orçamento, até já o disse, e, portanto, isso não se coloca. E ainda há outra questão muito sensível, que é se João Cotrim de Figueiredo quer ou não quer este cargo. Porque há entrevistas antigas em que ele teria dito que não era exatamente esta a praia dele, o cargo de Presidente da República, precisaria de algo mais executivo ou estaria telhado para funções mais executivas. E ontem disse que mudou. Que foi evoluindo, fez uma análise da situação e acha que pode desempenhar um papel importante aqui.
Pedro, ainda temos mais duas caravanas de candidatos presidenciais para escutar nesta edição, por isso pedia-te num minuto que nos explicasses como é que João Cotrim de Figueiredo consegue manter-se nesta batalha com o candidato apoiado pela AD, sem, no entanto, beliscar um futuro entendimento com o governo.
Sim, olha, com muito cuidado. Ele, de facto, lançou esta carta a Luís Montenegro, que já teve resposta formal, dizer que o gabinete do primeiro-ministro recebeu a carta. Nessa carta, ele propunha um entendimento em três reformas estruturais, mas dava a hipótese de o governo escolher outras três áreas. E, portanto, ele deixou muito claro ontem que isto não é uma tentativa de condicionamento, nem é uma ameaça, não é nada disso. Portanto, é algo para tentar gerir com o governo, tentar consensualizar com o governo. E se o governo rejeitar, se não se quiser pôr de acordo com ele, ele tem noção dos limites dos poderes presidenciais e diz que não se vai fazer de contrapoder. Portanto, ele vai mantendo este cuidado para não hostilizar os eleitores da AD. E é estratégico, de facto, para conseguir fazer este esforço e para tentar ainda chegar à segunda volta.
Pedro, para onde é que vais rumar a seguir? Muito rapidamente.
Para Lisboa. Há um comício à tarde em Lisboa e depois João Cotrim de Figueiredo à noite vai assistir a um espectáculo. Daremos conta disso aos nossos ouvintes.
E tu aí estarás para acompanhar esses momentos e para trazer aqui a antena do Observador. Pedro Jorge Castro aqui em direto das Caldas da Rainha, com João Cotrim de Figueiredo. Seguimos agora ao encontro da caravana de Luís Marques Mendes. Bonjour, Mariana Lima Cunha. Perante os ataques, suspeitas e pedidos de esclarecimento, Marques Mendes quer estar acima de tudo isso, inspirado pelo exemplo de um antigo presidente francês, socialista, por sinal.
É verdade, Miguel. Nós ontem tivemos aqui uma novidade no discurso de Luís Marques Mendes, que tem passado bastante tempo a tentar acertar esse discurso e a sua mensagem. Ou seja, ele já teve algumas dúvidas que foram visíveis para quem acompanha a campanha, relativamente à forma como se devia, por exemplo, dirigir a Cotrim de Figueiredo, como o Pedro falava ainda há pouco. Teve um momento muito agressivo ontem quando classificou algumas atitudes como ridículas e chamou catavento a Cotrim de Figueiredo, que é neste momento o seu principal rival na corrida pelo eleitorado da AD, pelo menos é isso que as sondagens indicam. E Luís Marques Mendes tem tido também alguma dificuldade em consolidar o seu tom em relação ao governo. Ou seja, à medida que as sondagens pioraram, foi se colando cada vez mais ao governo, mostrando um alinhamento cada vez maior com o governo, até poupando na questão dos casos de mortes por atraso no socorro do INEM. E foi fazendo ali um caminho cada vez mais próximo da AD para tentar mobilizar esse eleitorado Luís Montenegro. Ontem apareceu a tentar corrigir um bocadinho esses dois eixos do discurso, ou seja, tanto a relação com os adversários como com o governo. E apareceu usando o famoso slogan de François Mitterrand em 1981, a força tranquila. Luís Marques Mendes adaptou o slogan para dizer que vai ser um líder firme, mas tranquilo e que o que quer trazer são resultados, mas com tranquilidade ao país. E passou um discurso de quem está acima de casos e casinhos, acima do acessório, que preocupa-se com causas grandes, enquanto os adversários estão ocupados a discutir pequena política, e tem se concentrado agora em tentar dar aqui um passo em frente depois destas polémicas, depois dos atritos, aliás, tanto com o Cotrim como com Gouveia e Melo, e tenta dar um passo em frente apontando para, por exemplo, reformas em concreto que gostaria de ver o governo fazer. Ainda ontem apontava para, na saúde, por exemplo, alterar a forma como as nomeações são feitas para diminuir a importância dos cartões partidários. Elogiava a reforma do governo na habitação e pedia mais construção, mas também alterações no mercado de arrendamento. Falava da necessidade de promover o investimento mais amigo dos investidores estrangeiros no interior e começou a tentar dar aqui algumas respostas concretas, também para não ser acusado de ser redondo ou de estar só a tentar facilitar a vida ao governo.
Nem por isso, deixaram de se escutar ontem à noite as críticas a João Cotrim de Figueiredo, por exemplo, mas pela voz de Miguel Pinto Luz.
Exatamente. Voltamos ao registo com que a campanha tinha começado, que era ter sobretudo os apoiantes e não o próprio candidato, irem mais à luta e criticarem os principais adversários. E nesse sentido, nós temos ouvido os mais variados nomes, começamos lá pelo Luís Montenegro, seja Sebastião Bugalho, Hugo Soares, ontem Miguel Pinto Luz também, a referirem-se aos adversários principais. Neste momento, os que estão identificados para a primeira volta, claro, são Gouveia e Melo e Cotrim, sobretudo, e estão a concentrar-se em dar argumentos ao eleitorado da AD, porque é mais do que assumido que é essa base que Mendes quer agarrar, pelo menos para tentar passar à segunda volta, dar argumentos a esse eleitorado para preferir Mendes. Neste momento, o principal argumento é mesmo que Mendes será o presidente que mais estabilidade garantirá ao governo. E por isso é que foi tão importante ontem Marques Mendes tentar desmontar a ideia de que Cotrim é, neste momento, o candidato que até poderia facilitar mais a vida ao governo, as reformas, e que tem a tal paixão pelo governo, como Marques Mendes dizia.
Ouvimos aqui em fundo o rufar dos tambores. Que iniciativa é esta de campanha?
Estamos a fazer um clássico de campanha. Estamos aqui à porta do Natário, das bolas de Berlim do Natário, em Viana do Castelo. Marques Mendes está neste momento sentado no café à espera que as primeiras bolas de Berlim do dia saiam. E vamos fazer aqui um contacto com a população em Viana do Castelo. Depois vamos ainda seguir para Vila Verde, para ter almoço com apoiantes. Vamos a um encontro com jovens, depois já em Braga, e vamos acabar o dia em Aveiro, nas festas de São Gonçalinho, onde Gouveia e Melo esteve também ontem. É mais um clássico deste roteiro pelo país.
São momentos da campanha de Luís Marques Mendes, acompanhados pela jornalista do Observador, Mariana Lima Cunha, que pode ler em observador.pt e ouvir aqui na antena do Observador. Obrigado, Mariana. Boas bolas de Berlim do Natário, que inveja. Seguimos até a Matosinhos, por onde anda esta manhã Henrique Gouveia e Melo, que ontem, Rui Pedro Antunes, bom dia, puxou dos galões para sublinhar a importância da experiência militar na escolha do próximo presidente da República.
Sim, Miguel, até por acaso foi um discurso diferente do que costuma fazer, porque fez uma espécie de revista ou uma retrospectiva daquilo que era a vida dele e de como foi ele que convenceu os pais a voltar a Portugal para seguir a carreira nas Forças Armadas. Ou seja, tentar puxar por este lado militar, que ele inicialmente, na fase da pré-campanha, quando se apresentou como candidato Medo. Voltar a ter um militar. Não havia muita ideia do desconhecido, porque não era exatamente igual ao momento em que Ramalho Eanes tinha sido presidente, porque depois houve uma revisão da Constituição que mudou o estado das coisas e escondiam um bocadinho esse lado. Era mais porque era alguém que era organizado, o que as Forças Armadas lhe tinham dado. Cada vez mais, tendo em conta a incerteza do contexto internacional, ele próprio está a puxar muito por esse lado. Ontem até fez uma espécie dessa história que era um miúdo que tinha 17 anos e depois no fim disse, quase à Tony Carreira: "E esse miúdo era eu." Como música dos Sonhos de um Menino. E ele apresentou-se quase como um sonho de adolescente de servir Portugal e como esteve 45 anos ao serviço das Forças Armadas, tenta entender isto como uma espécie de continuação. Qual é que é o objetivo estratégico disso? É mostrar que ele é quem melhor conhece as limitações do Ártico, Gronelândia, o que isso implica, a quem telefonar, de que forma agir, como é que Portugal se deve posicionar, como é que se deve lidar com um aliado que é a favor num ponto e contra noutro. E, portanto, tentar dizer às pessoas que no caos, na guerra, no conflito, ele seria o presidente certo. E esse é um eixo estratégico que ele continua a apostar cada vez mais. Já o tinha feito aproveitando o caso da Venezuela e agora com toda a instabilidade à volta da Gronelândia, ele tenta precisamente explicar isso, que é ele que mais percebe de geopolítica e geoestratégica, diz ele. Mas de estar lá debaixo daquilo que ele chama os charutos, que é o que ele chama os submarinos, e que teve que estudar de forma muito clara como é que era a geopolítica internacional para até, do ponto de vista prático, se posicionar nessas operações.
Rui, e para usar uma linguagem militar, Gouveia Melo lançou também uma ofensiva que teve como alvo António José Seguro. É um ataque a reboque das sondagens?
Sim, ele desde domingo, segunda-feira que em vez de se centrar unicamente em atacar Marques Mendes, em que ele é muito mais colérico e irritadiço, atacou muito António José Seguro, mas é uma crítica que coloquialmente nós chamaríamos um banana. Ele é um bocadinho mais polido, mas chama-lhe chá diluído. Ontem a Mónica Quintela, que é mandatária do centro, até chamou a António José Seguro uma aguarela muito diluída e para já ainda não atacou a idoneidade e apresenta António José Seguro como impoluto, ao contrário de Marques Mendes, que ele apresenta quase como se fosse um líder da máfia. De uma forma mais polida. Mas a Mónica Quintela ontem, que não foi o próprio candidato, sugeriu que António José Seguro tinha por trás dessa aguarela diluída óleos de um quadro a óleo de interesses dos lobbies da saúde. É a primeira vez que há um ataque direto à integridade de António José Seguro. Não sei se isto vai evoluir para outra coisa ou não. Parece-me que é absolutamente claro neste momento que é estratégico também atacar António José Seguro e Marques Mendes numa espécie de um duplo ataque que tem se verificado todos os dias. Eu já fiz uma contagem de mais de 20 e tal ataques a estes dois candidatos. E isto também é estratégico para se vender a ele como alguém fora do sistema, chamando a estes dois candidatos os candidatos do sistema e, portanto, ele seria o equilibrado fora do sistema, enquanto André Ventura é o extremista de fora do sistema.
Os trunfos de Henrique Gouveia Melo para convencer o eleitorado. Rui, já aqui dissemos, estás a esta hora em Matosinhos. Por onde é que vais seguir depois de Matosinhos?
É verdade. E agora estás a ouvir um avião.
Estou, estamos a ouvir.
Buenos días, Matosinhos. Os aviões lá atrás é um meme muito conhecido dos portugueses. E a seguir vou seguir para Famalicão. Estou agora na feira de Matosinhos e a seguir vou a Famalicão e o dia vai andar à volta do Porto, onde vamos terminar em Penafiel e, portanto, vai ser todo aqui à volta da zona do Porto.
Dia de campanha acompanhado pelo Rui Pedro Antunes. Rui, obrigado, que vai dar conta precisamente dessas iniciativas de campanha em observador.pt, também aqui na Rádio Observador, para acompanhar também tudo a par e passo aqui na antena, nos diferentes espaços dedicados em exclusivo a esta campanha para as presidenciais.