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Hoje no Direto ao Assunto recebemos Paulo Cunha, vice-presidente do PSD, número dois da lista da Aliança Democrática para o Parlamento Europeu. Boa tarde e obrigado desde já pela disponibilidade.
Boa tarde.
Paulo Cunha, começava por perguntar: não colocou reservas a integrar uma lista encabeçada por Sebastião Bugalho? A escolha não o surpreendeu?
Não, é uma escolha do presidente do partido, absolutamente consensual na direção nacional do partido e corresponde ainda àquilo que eram os pressupostos que podíamos ter colocado para a escolha do cabeça de lista.
Não é uma escolha demasiado arriscada para Luís Montenegro, alguém que não tem experiência de combate político?
Todos nós sabemos que a política sem risco é fastidiosa, como alguém dizia, é chata. E é preciso finalmente que o país tenha um líder do governo, que é presidente do PSD, que arrisca a sociedade contemporânea. As circunstâncias novas que vivemos pressupõem que tenhamos uma liderança à altura. Uma liderança à altura é uma liderança que não tenha medo de correr riscos, de assumir desafios, de procurar novos protagonistas para ter novos resultados.
Internamente, e porque faz também parte desse núcleo duro do PSD, não existiram reservas por escolher um nome que é um independente, não vem do núcleo duro do partido?
O nome foi consensualíssimo, foi objeto das mais diversas referências abonatórias em relação à pessoa em causa e à forma como o líder do partido chegou a essa conclusão.
O processo de formação da lista com a abordagem a Rui Moreira não manchou um bocadinho o processo, não deixou uma má imagem do PSD e da AD?
Sempre dissemos, e o presidente do partido também disse em várias circunstâncias, que Rui Moreira é um protagonista político de grande relevo. Não houve da parte do PSD, como é sabido, segundas nem terceiras escolhas. A proposta foi Sebastião Bugalho, não foi Rui Moreira.
Mas houve a abordagem.
Há muitas conversas com muitas pessoas em muitas circunstâncias. E Rui Moreira é uma pessoa que está muito próxima do nosso patamar político-partidário. Bastou perceber a proximidade que ele teve conosco nas eleições legislativas. Em muitas circunstâncias, o presidente do PSD referiu, e outros elementos do PSD referiram, que Rui Moreira é, repito, um protagonista político que ocupa um espaço político próximo ao PSD. Isso não quer dizer que tenha havido abordagens concretas. O que houve foi conversas com ele e com muitos outros protagonistas.
Mas havia o desejo por parte do líder do PSD de convidar Rui Moreira para integrar as listas, mas não como cabeça de lista. Faz sentido convidar o líder da segunda autarquia do país para não encabeçar as listas ao Parlamento Europeu?
Eu não ouvi o Luís Montenegro dizer isso e, portanto, não lhe vou confirmar nem desmentir esta informação. Só renovar que não ouvi o Luís Montenegro dizer que convidou Rui Moreira para ocupar qualquer lugar na lista candidata ao Parlamento Europeu.
Quanto às eleições, que estão marcadas para nove de junho, a escolha de alguém que nunca foi testado em eleições, neste caso Sebastião Bugalho, desobriga o PSD de ganhar as europeias?
Tudo. O PSD não baixou a fasquia com a escolha de Sebastião Bugalho, isso é o contrário. A questão que me coloca faz lembrar aquela empresa que só procura pessoas com experiência. E aqueles que estão no início da sua carreira nunca têm a primeira oportunidade, porque o mercado só espera pessoas que vão à procura de segundas oportunidades. Acho que nós temos que ser diferentes e não basta ser diferentes na linha discursiva. Não basta o Luís Montenegro, como fez e bem, em todo o contexto de campanha eleitoral, uma afirmação muito forte em relação aos jovens. Pela primeira vez num debate, num contexto pré-eleitoral, os jovens foram tema central da campanha para as legislativas. E o que está a acontecer nas europeias é um ato consequente com essa abordagem. É assim que temos que interpretar.
A AD não corre o risco de ser a principal prejudicada pela entrada do Chega e da Iniciativa Liberal no Parlamento Europeu ou esta escolha de Sebastião Bugalho é mesmo uma tentativa de entrar no eleitorado destes dois partidos?
Sebastião Bugalho vem refrescar a política portuguesa, não só pela idade que ele tem, mas principalmente pelas posições e posicionamento político-partidário que ele tem assumido. Uma pessoa que traz de facto, em muitas circunstâncias, pensamento político, um pensamento novo, um pensamento inovador, inédito em muitas circunstâncias. E a política precisa disso, não só para ser uma marca forte junto dos jovens, mas também para, junto dos portugueses, trazer uma abordagem de quem tem muito mais futuro do que passado. E os portugueses têm dado sinais inequívocos de que gostam destas abordagens, gostam de protagonistas que tenham ambição de construir futuro. É neste contexto que Sebastião Bugalho se apresenta como cabeça de lista da AD.
Já referiu que a escolha desta lista até aumenta as expectativas. O objetivo do PSD, da AD, é aumentar o número de eurodeputados. Atualmente têm seis. Apesar da concorrência mais forte à direita, é possível crescer?
É possível crescer e não escondemos a ambição de crescer. Respeitamos sempre, como é óbvio, a soberana vontade dos eleitores, eles é que decidem através do voto quantos mandatos cada candidatura vai ter na noite de nove de junho. É sabido o contexto em que as eleições se desenvolvem, num fim de semana difícil Uma eleição tradicionalmente associada a índices de abstenção muito altos. É bom não esquecer que há cinco anos houve uma abstenção da ordem de 60%. Quer dizer que nem um terço dos portugueses que podiam votar, votaram. É bom não esquecer também que há cinco anos o PSD não atingiu os 21% de votos. Portanto, este o contexto em que a eleição se desenvolve, mas o PSD e a AD, no seu todo, PSD ou CDS, não escondem a ambição de trazer propostas e protagonistas que mereçam a confiança dos portugueses.
Mas manter o número de eurodeputados seria os mínimos olímpicos ou seria sempre uma derrota?
Não há mínimos olímpicos, nem derrotas antes da noite de 9 de junho. Esta eleição específica, com todas as suas circunstâncias, algumas delas já descrevi que envolve, especificamente a questão da câmara falhasse os programa europeu. Há tradicionalmente um distanciamento entre os portugueses e o Parlamento Europeu. Há uma dificuldade específica em percecionarem a importância desta eleição. Há também uma tendência para nacionalizar esta eleição. Já vimos isso em muitas outras circunstâncias e, portanto, tudo isso terá uma influência determinante no resultado a obter na noite de 9 de junho.
Mas o objetivo da AD é melhorar os resultados dos dois partidos, PSD e CDS, nas últimas eleições europeias ou é ganhar estas eleições? Se não ganhar essas eleições, o governo pode sair fragilizado?
Essa é a questão que eu há pouco disse que me parece indevida, que é a associação de uma eleição que é europeia a uma circunstância que é nacional. É por esse caminho que nós vamos mal, permita-me dizer assim, porque as pessoas quando votam na eleição europeia estão a eleger deputados para o Parlamento Europeu. O que é central neste processo são as ideias acerca da Europa. É aquilo que as candidaturas dos partidos, alianças, os candidatos querem fazer no contexto europeu e não uma consequência ou um efeito daquilo que é o desempenho do governo.
Mas é inevitável uma leitura nacional desses resultados. Já vimos governos demitirem-se depois de resultados de eleições autárquicas, por exemplo.
Não é inevitável. O que nós vimos foi comentários, até a resultados de oposição. É famoso o de António Costa em relação à vitória então de António José Seguro, o famoso "pouco chinha" que ficou na história eleitoral de uma noite de eleições europeias, onde, aliás, Francisco Aziz era então cabeça de lista, como se lembraram, com certeza. Essa relação de aceitação, de causa/efeito, de consequências colaterais ou danos colaterais, se quiser, que as europeias possam ter na governação é, confesso, absolutamente indevida. E, portanto, o PSD/AD não retirará nenhum tipo de conclusão acerca dessa eleição no que à questão interna diz respeito. É óbvio que queremos atingir o máximo de mandatos possível. Não há nenhuma fasquia, não há nenhum resultado à partida, não há nenhum número que consideremos mínimo, não há nenhuma fasquia do ponto de vista da ambição. Há uma campanha pela frente, uma pré-campanha agora, uma campanha, entretanto, com especificidades, porque teremos, como sabemos, voto antecipado no dia dois, que neste contexto significa que as eleições vão ser em dois dias, dois e nove. Uma campanha com essa especificidade, que é preciso organizar, é preciso definir o parâmetro a seguir na campanha. Essa é a questão mais importante para a AD neste momento. Uma vez definidos quem são os protagonistas, é apostar nos ideias, é apostar numa métrica de campanha que permita que os portugueses percecionem quais são as propostas que a AD tem a apresentar no contexto europeu.
Portanto, se a AD ganhar estas eleições europeias, não haverá aí um impulso para o governo também?
O impulso para o governo foi na noite de 10 de março, foi na votação legislativa. Não é em 9 de junho que esse impulso vai enfraquecer ou ser reforçado. Da mesma forma como eu não vejo leituras de reforço de legitimidade com uma vitória europeia para aquilo que diz respeito à questão nacional, também não vejo nenhuma perda de força se o resultado for inferior ao que obtivemos na noite de 10 de março.
Deixe-me tentar aqui uma leitura inversa, Paulo Cunha, que é: por norma, os eleitores aproveitam os europeus para mostrar um cartão amarelo ao governo. Este estando há tão pouco tempo em funções, vocês, candidatos ao Parlamento Europeu, ainda podem beneficiar de algum estado de graça?
Olhe, a expressão estado de graça é uma expressão que deve ter caído em desuso. E há muitas evidências disso, a primeira das quais foi termos uma manifestação sobre a área da saúde antes de termos sequer o governo empossado. E alguns dias depois do governo empossado, temos greves na área da justiça, temos manifestações, temos reivindicações. É bom não esquecer que temos um governo há cerca de 15 dias. A saber, faz 15 dias que foram reprovadas ou foram rejeitadas moções de rejeição ao governo, que se fossem aprovadas, o governo não iniciaria sequer funções. Vejam o que aconteceu em 15 dias. Parece-me que a expressão estado de graça é absolutamente inadequada àquilo que tem sido a ação deste governo.
Luís Montenegro prometeu atacar vários problemas em pouco tempo. Com as dificuldades que tem enfrentado no Parlamento, não corre o risco de chegar à campanha das europeias sem ter conseguido implementar qualquer medida daquelas que foram prometidas em campanha?
Luís Montenegro já mostrou que é um político sem medo, que arrisca sempre que arriscar seja benéfico para o país. Ele sê-lo do ponto de vista da ambição das propostas. É inédito um governo, no primeiro Conselho de Ministros, após a reprovação de moções de rejeição ao seu governo, aprovar medidas com impacto orçamental, como foi a redução do IRS, com impacto de 348 milhões de euros e ao mesmo tempo estar a iniciar negociações com vários setores, desde a saúde à justiça, à segurança, à educação, para melhorias de contexto salarial. Portanto, são sinais evidentes de que se há coisa que nós não temos é complexos com medo.
Mas não há aqui uma necessidade de mudar de estratégia? É que em pouco tempo falhou a eleição de Aguiar Branco à primeira, a aprovação de descida do IRS. Não é preciso ser mais proativo a angariar mais consensos no Parlamento?
O Governo e o grupo parlamentar têm feito o que está ao seu alcance para que esses consensos se atinjam. Como sabe, para que haja consenso, não basta que haja vontade de quem lidera, é preciso também que haja vontade de quem está no contexto parlamentar a fazer oposição. E nós vivemos uma especificidade na história, porque temos um governo de centro-direita e que temos oposição à esquerda e à direita. Portanto, há aqui uma circunstância própria que não podemos ignorar.
E pergunto-lhe então se há condições para governar assim durante quatro anos e meio.
Claro que há. Por que não haveria? Por que nós não havemos de respeitar a vontade popular? O PSD tem-no feito, a AD tem-no feito, com esta postura negocial aberta, franca, intuitiva, de procurar consensos com os mais diversos partidos com representação parlamentar, sem privilegiar nenhum deles, mas também sem ignorar que há um partido que é o Partido Socialista, que é o principal partido da oposição, que mais do que ser o principal partido da oposição, é o partido com a responsabilidade governativa dos últimos oito anos. Este facto não pode ser ignorado e tem que ser ponderado cada vez mais naquilo que o PS deve fazer para que este governo seja bem-sucedido, porque um eventual insucesso deste governo, será uma marca inevitável da posição do PS no pós-governo socialista. Portanto, o PS não pode ignorar que foi governo oito anos e que a circunstância de o ter sido responsabilizam para que tenha uma postura de oposição mais consentânea e mais receptiva àquilo que são as propostas da Aliança Democrática.
Paulo Cunha, só mesmo para terminar, três eurodeputados do PSD integraram agora o governo. O Paulo Cunha não tinha também a expectativa de integrar este executivo?
Não foram três, são quatro.
Com o Nuno Melo, sim.
Sim, claro. Não com o Nuno Melo, são três ministros e uma secretária de Estado.
Exato, sim.
Do PSD. A Cláudia Monteiro de Aguiar é secretária de Estado e também é deputada pelo Parlamento Europeu. O Paulo Cunha sempre esteve disponível para aquilo que o presidente do partido considere que ele é mais útil. Tenho feito um percurso cívico, profissional e político que me permitem ter um posicionamento de proximidade à liderança do meu partido, como já tive noutras circunstâncias e no exercício de outras funções. Fui autarca, como é sabido, fui presidente de câmara durante oito anos. Nos últimos três anos dediquei-me mais à minha vida profissional. Neste momento, perante o desafio do Luís Montenegro de integrar esta lista, aceitei de bom grado. Essa é a circunstância, não há outra que interesse aqui revelar.
Muito obrigado a Paulo Cunha, vice-presidente do PSD, número dois da lista da AD às eleições europeias de 9 de junho.