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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O funeral do sargento que abria sempre a porta à namorada. “Que Deus vingue o seu sangue”

O funeral de um dos militares israelitas baleados em Hebron foi uma homenagem com 16 discursos de familiares e amigos, uma música de Alicia Keys cantada pela irmã — e um pedido de vingança divina.

A mãe e o pai do soldado falecido têm a roupa rasgada por cima do coração. O corte foi feito pelo rabino militar das Forças de Defesa de Israel, para simbolizar a dimensão da dor que é a perda de um filho. Alexander e Marina, os pais de Ron Roytman, são russos que emigraram para Israel. Ron foi o primeiro filho nascido no país que escolheram para viver. Morreu aos 23 anos, baleado por palestinianos num checkpoint em Hebron na sexta-feira.

Perante cerca de 700 amigos e jovens militares, a mãe profere um dos discursos mais emotivos, este domingo de manhã, no cemitério militar de Ashkelon: “Meu Ronchik, meu filhinho… Sou infinitamente grata por teres nascido de mim, por entre todas as mães do mundo me teres escolhido a mim!”, declara, a soluçar de choro.

“É uma dor gigante o que nos aconteceu, não te ter aqui connosco. Mas prometo-te que vamos continuar de cabeça erguida, porque somos os pais do Ron, somos a família do Ron! Prometo que vamos viver de forma digna de ti, vamos continuar a apoiar-nos e a amar-nos uns aos outros. Amo-te muito. Para sempre a tua mãe, e tu o meu filho.”

"Na sexta-feira de manhã, quando vi as notícias sobre o ataque, soube imediatamente que eras tu. Tu foste o primeiro a ir para a frente, o primeiro a proteger os teus soldados... Foste o herói que sempre foste. Perdi o meu porto de abrigo, o meu melhor amigo, o meu amor. Prometo-te que vou manter-me forte por ti. Vou amar-te para sempre."
Ella, namorada do primeiro sargento Ron, que morreu baleado em Hebron

O pai, Alexander Roytman, um psicólogo russo, acompanhado de perto por um militar russo de alta patente durante a cerimónia, mostra todo o orgulho nos feitos do filho, primeiro como desportista, na natação, no boxe e no aquatlo (corrida mais natação). Depois como militar: “No exército também encontrou o seu lugar e foi impecável. Tudo o que os comandantes contam dele é o que ele me contava em casa. Ele ficava chateado por não conseguir ser ainda mais rápido ou fazer ainda mais…”

Alexander comove-se, o que o obriga a fazer uma pausa: “Se ele estivesse a ver isto hoje, estaria a roer as unhas de raiva por não ter conseguido neutralizar os terroristas naquele preciso instante, embora, como comandante, tenha feito tudo o que devia fazer.” Nas últimas palavras, proclamou: “Deixo-te ir com o coração leve, porque foste impecável e trouxeste um oceano de amor para todos nós. Vais fazer parte da nossa história para sempre. Amo-te muito, meu filho.”

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“Tu eras um verdadeiro cavalheiro. Trazias-me flores escondidas na mochila”

Entre os 16 amigos e familiares que homenageiam Ron, muitos vão-se abaixo assim que se aproxima do microfone, debaixo do toldo onde se celebra a cerimónia. A namorada de Ron, Ella, dirige-se a ele: “Amor da minha vida…” E chora, até encontrar forças para continuar. Recorda a forma como se conheceram na recruta. O momento em que ambos se voluntariaram para uma tarefa chata. O instante em que Ella percebeu que ele era “o mais alegre e especial dos rapazes”.

“Tu eras um verdadeiro cavalheiro. Trazias-me flores escondidas na mochila para a base, abrias-me a porta do carro, e se eu tentasse abrir sozinha, corrias para a fechar e abrir de novo, só para seres tu a fazer!” Esta descrição arranca ao mesmo tempo pequenos risos e lágrimas entre quem está a ouvir.

“Entraste pela porta adentro, com aquele cabelo farto, o peito aberto e um carisma imbatível. Em dez minutos explicaste-me que tipo de comandante querias ser, o quanto querias impactar e dar o melhor pelos teus soldados e pelo país. Hoje percebo que cada palavra tua era pura verdade. Não havia um único soldado que não te admirasse. E eu próprio, Ron, nunca deixei de te admirar."
Capitão Or Afriat, comandante da Companhia Eitan

Depois, refere o momento em que percebeu que o namorado podia ter perdido a vida: “Na sexta-feira de manhã, quando vi as notícias sobre o ataque, soube imediatamente que eras tu. Tu foste o primeiro a ir para a frente, o primeiro a proteger os teus soldados… Foste o herói que sempre foste. Perdi o meu porto de abrigo, o meu melhor amigo, o meu amor. Prometo-te que vou manter-me forte por ti. Vou amar-te para sempre.”

Enquanto Ella chora, a instalação sonora passa a música “Ahavat Chayai”, que significa Amor da Minha Vida, o que provoca novos momentos de lágrimas de algumas pessoas da assistência, rapidamente abraçadas e consoladas por quem tinham por perto. É uma emoção contida e sóbria, de quem tem ido coletivamente a muitos funerais. Uma rapariga desmaia e cai sobre uma campa, mas é rapidamente socorrida pelos paramédicos presentes no local.

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“O nosso garoto-prodígio, o homem que tudo podia”

A homenagem mostra que, antes de ser soldado, Ron era filho, irmão, namorado, amigo, aluno. Mas duas altas patentes militares tomaram a palavra a seguir ao pai e antes da mãe de Ron.

O Tenente-Coronel Liad Shachar, Comandante do Batalhão Ari, reconstitui a tragédia: “Dois abomináveis terroristas chegaram ao cruzamento de Yehuda para atacar civis. Numa ação de bravura, a força sob o comando de Ron, de abençoada memória, conseguiu travar o avanço dos terroristas, impedindo que chegassem às localidades vizinhas e evitando uma tragédia maior entre civis.”

Recorda que Ron tinha sido escolhido para liderar a formação de novos recrutas. E, em nome das Forças de Defesa de Israel, elogia a sua liderança através do exemplo e não pela imposição de autoridade.

O capitão Or Afriat, comandante da Companhia Eitan, refere-se a Ron como “o nosso garoto-prodígio, o homem que tudo podia”. E recorda o momento em que o recrutou: “Entraste pela porta adentro, com aquele cabelo farto, o peito aberto e um carisma imbatível. Em dez minutos explicaste-me que tipo de comandante querias ser, o quanto querias impactar e dar o melhor pelos teus soldados e pelo país. Hoje percebo que cada palavra tua era pura verdade. Não havia um único soldado que não te admirasse. E eu próprio, Ron, nunca deixei de te admirar.”

O capitão também chora, também soluça, também perde o fôlego: “O meu maior receio era o que seria da companhia sem ti. Eras o melhor comandante que esta companhia podia ter. Amo-te para sempre. Obrigado por tudo.”

A intervenção mais justiceira cabe ao presidente da Câmara de Ashkelon, Tomer Glam: “Ron cresceu e foi educado na nossa cidade, um jovem repleto de valores, de amor à pátria e de dedicação ao próximo. Na sua última batalha, agiu com bravura e determinação para proteger cidadãos de Israel, pagando o preço mais alto pela nossa segurança.(…) Que a sua alma descanse em paz e que Deus vingue o seu sangue.”

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“Sempre soube que tu eras melhor do que eu em tudo!”

Antes do último grande momento, protagonizado por uma irmã, falam outros familiares. David, irmão de Ron, e igualmente militar, lembra as conversas que tinha com aquele a quem chamou o seu melhor amigo, sobre o que aconteceria se um deles caísse em combate: “Tu odiavas falar disso, ficavas até irritado comigo. Não havia espaço na tua cabeça para essa opção.”

Yuna, outra irmã, elogia o gosto musical do irmão, as playlists e o som da sua guitarra, mas também o riso e as alcunhas que Ron inventava para lhe atribuir, na brincadeira. Também acaba a soluçar, a falar do momento de negação sobre a tragédia: “Cheguei a ligar para o teu telemóvel a esperar que me atendesses e me dissesses que isto tudo era uma brincadeira de mau gosto. Tu destacavas-te em tudo o que tocavas. Tinhas medalhas, diplomas… Mas desta vez, Ronchik, devo dizer que não estou satisfeita contigo. Podias ter-te esforçado só mais um bocadinho e voltado para casa! Não combina contigo desistir… Sinto tanto a tua falta. Obrigado por seres o meu irmão.”

Timor, outro irmão, diz que Ron é que lhe mostrava onde estava o certo e o errado. Em russo, promete cuidar da família e da namorada, e honrar o nome do irmão por toda a parte.

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Um primo de Ron, Gil, transporta toda a assistência para as brincadeiras do tempo de crianças: “Tínhamos sempre aquela competição saudável de quem era o mais forte, o mais rápido, o mais corajoso. E no fundo eu sempre soube que tu eras melhor do que eu em tudo! Tinhas uma força de vontade inacreditável. Foste um herói até ao último segundo.”

Há ainda um grande amigo do primeiro sargento a desvendar os plano que tinham para uma viagem à neve depois de terminar o tempo de serviço militar. “Tu eras aquele amigo com quem podia falar de tudo, desde as maiores parvoíces até aos assuntos mais profundos da vida”. Outro amigo de infância fala de Ron como o “líder natural” da escola e como se fosse o seu “irmão mais velho”. Mais um amigo recorda os tempos de serviço comunitário e a forma como Ron “resolvia conflitos com humor e empatia”.

Até o professor Baruch, da escola secundária de Ron, se aproxima do microfone, para elogiar o “aluno excecional” e a determinação com que o via treinar, nadar e correr para conseguir entrar no Exército. Também se comove a dizer o óbvio: “Num mundo justo, os professores não deveriam ter de fazer discursos nos fúnebres dos seus alunos”.

A última a homenagear Ron é a irmã Michelle-Maria, também de lágrimas nos olhos: “Antes de cantar, quero só dizer que o Ron adorava ouvir-me cantar. Ele pedia-me sempre para cantar esta música para ele… Por isso, esta é para ti, Ronchik.” E começa a cantar ao vivo a canção ‘If I Ain’t Got You” [Se não te tenho], de Alicia Keys.

Duas horas depois do início, a cerimónia termina com a salva de três tiros das tropas das Forças de Defesa de Israel. E com a colocação de coroas de flores sobre a sepultura.

Neste mesmo domingo à tarde foi enterrado o outro militar que morreu no ataque de Hebron, Yuval Shai Svilem, 20 anos, um apaixonado por mergulho.

Na sequência da morte destes dois militares, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ordenou o bloqueio da Cisjordânia. Dois mil palestinianos tiveram duas horas para deixar as suas casas em Hebron, até as autoridades israelitas concluírem investigações sobre quem teria ligações aos dois autores do ataque.

Foram demolidos vários edifícios localizados perto do check-point onde decorreu o ataque, por serem de construção ilegal, segundo o exército israelita. Pelo menos 40 suspeitos foram detidos na região este fim de semana.

[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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