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O que faz um psicólogo do desporto? E será que um especialista em saúde mental consegue ajudar um atleta a correr mais depressa? E como é que as nossas emoções, e o que podemos fazer com elas, influenciam a performance desportiva, tanto na alta competição como no desporto escolar, ou até naquela corrida saudável ao fim do dia para descomprimir? E já agora, o que podemos levar do treino do desporto para o treino e gestão de equipas numa empresa? Estas são algumas das questões que trazemos ao psicólogo Pedro Almeida, com quem vamos conversar. Bem-vindos ao "Ciência de Campeões". Eu sou o Paulo Farinha.
E eu sou a Cláudia Pinto. O "Ciência de Campeões" é um programa da Rádio Observador, disponível também nas plataformas de podcast, com especialistas que nos ajudam a perceber como é que a investigação científica ajuda a formar atletas profissionais e amadores. Este podcast faz parte da seção Mais Do Que Desporto, uma iniciativa do Observador sobre o impacto positivo do desporto na sociedade. Pedro Almeida, um psicólogo do desporto pode ajudar um atleta olímpico a correr mais depressa?
Primeiro que tudo, olá. Obrigado pelo convite. Depende de muitos fatores. Depende do enquadramento que esse psicólogo venha a ter na equipa multidisciplinar, na recetividade do atleta para trabalhar com um psicólogo e na recetividade do seu treinador para nós trabalharmos em conjunto. Dependendo de vários fatores, o fator psicológico nunca será o único que contribui para o sucesso de um atleta. É uma multiplicação de fatores que faz com que um atleta tenha sucesso e, portanto, depende sempre.
O Pedro Almeida é psicólogo do desporto e da performance, professor do ISPA, um instituto universitário, e consultor de equipas e empresas em contexto de alto desempenho. Um psicólogo do desporto já é uma especialização que qualquer equipa profissional de desporto reconhece e precisa, ou ainda há muito caminho a trilhar, como quando o Pedro Almeida começou a trabalhar no Benfica, em 1994, há mais de 30 anos, quando não tinha sequer uma secretária, como disse numa entrevista ao Expresso?
Eu diria que comparado com os anos 90, quando eu comecei, estamos muito à frente, mas temos ainda muito caminho para trilhar. Eu julgo que já não é tão tabu o recorrer a profissionais desta área, quer do ponto de vista institucional, quer do ponto de vista individual, mas mesmo assim ainda há bastantes tabus e a cultura de cada modalidade desportiva também tem o seu papel. Há modalidades onde é muito tranquila a permanência de um profissional desta área nas equipas de trabalho e no clube, etc. E nalguns países também, há umas culturas de países, mas falando agora de Portugal, há modalidades onde é fácil e há modalidades onde a cultura é mais conservadora e, portanto, é mais difícil.
Um exemplo de uma modalidade conservadora.
O futebol tradicionalmente é um contexto conservador, mas curiosamente é talvez o contexto que talvez alberque mais psicólogos do desporto neste momento. Mas provavelmente por questões financeiras.
Pelo que gera exatamente do ponto de vista de proventos financeiros.
Mas é uma modalidade bastante conservadora, quando comparado com outras modalidades coletivas, nomeadamente, por exemplo, basquetebol, onde a permanência da psicologia ligada ao mundo dessa modalidade, desde sempre e noutros países, sempre foi uma constante. Agora, em Portugal, curiosamente, eu diria que apesar da dimensão conservadora do futebol, é talvez das modalidades que alberga mais psicólogos e emprega mais psicólogos em Portugal.
E se já existe algum preconceito com a psicologia no geral, também lemos numa entrevista que ninguém sabe muito bem o que faz um psicólogo do desporto, que hoje em dia já é uma ideia mais consensual, mas que ainda existem muitas dúvidas.
Sim, porque há uma colagem muito significativa àquilo que é a imagem do psicólogo clínico na sociedade e, portanto, no fundo, à doença, ao problema de saúde mental, quando um psicólogo do desporto é alguém que é especialista em otimização de performance e, obviamente, em otimização do bem-estar do atleta e, portanto, em promoção de saúde mental. Mas não é só na dimensão da promoção da saúde mental e da promoção do bem-estar do atleta, mas é também na promoção dos fatores psicológicos que levam a uma melhor performance e à otimização da performance. Não só dos atletas, mas de todos os agentes à volta dele, a começar pelos treinadores. Muitos dos meus colegas, eu próprio, trabalhamos essencialmente com treinadores, não só na dimensão de liderança deles com os atletas, mas na dimensão da própria performance deles. Muitas das vezes, o nosso trabalho está centrado em diferentes atores do contexto. Como eu digo, os atletas de forma primordial, mas muitas das vezes, quando estamos em contextos de clubes, trabalhamos com treinadores para os ajudar a liderar melhor, mas também para os ajudar na promoção do seu bem-estar. E em muitos momentos, eu diria que esta é uma das fases mais interessantes da nossa intervenção, porque é aquela que tem mais impacto. Porque se trabalharmos os líderes das equipas e os otimizarmos para poderem produzir da melhor forma possível e terem o maior bem-estar possível, em princípio, tudo o resto vai funcionar melhor.
Eles vão passar a mensagem.
Vão funcionar melhor porque eles vão estar mais atentos a outros detalhes, vão estar melhor para conseguirem fazer aquilo que têm que fazer, e essa normalmente é a melhor missão que um psicólogo do desporto pode ter num contexto de alta competição de espaço coletivo, de modalidades coletivas. Nas individuais, obviamente, a relação é muito mais direta com o atleta e com o treinador em simultâneo.
E às vezes, mediante a idade dos treinadores, isso também pode influenciar Que continuamos a ter aqui. A Cláudia falava da questão do tabu e do estigma que ainda existe em torno da saúde mental e, por vezes, talvez se manifeste mais numa população mais velha. A idade de um treinador pode ter influência aqui? Um treinador mais velho é mais resistente a alguma abordagem do psicólogo do que um treinador mais novo?
Eu julgo que não. Pelo menos pela minha experiência, não lembro nenhum artigo escrito sobre isso, eu já tive treinadores mais velhos, vamos chamar assim, seja lá o que isso seja, mais velhos, do ponto de vista da sua experiência profissional, na sua carreira profissional, num estádio mais avançado da carreira, a acolherem-me de forma brilhante. Posso-vos dar um exemplo: o primeiro treinador com quem eu trabalhei no Benfica, em 2001, no futebol profissional, foi o Toni. E o Toni nessa altura já tinha 50 e muitos, 60.
Como é que foi essa experiência? Correu muito bem?
Foi espetacular, porque repare, final dos anos 90, era 2001, início dos anos 2000. Está há 25 anos exatamente. Agora estou a fazer as contas. Há 25 anos. Portanto, a primeira vez que eu estive no futebol profissional foi com o Toni e o adjunto era o Josvaldo Ferreira, e acolheram-me muito bem e integraram-me numa equipa de futebol profissional. Isto revela que não tem a ver com a idade, claramente. E já tive situações onde tive treinadores, mesmo nos escalões mais jovens.
Mais resistentes.
Mais resistentes. Sendo que, evidentemente, eu diria que não tem a ver com a idade, tem a ver com a abertura, com a forma como as pessoas encaram esta área de intervenção e, se calhar, até com alguns medos pessoais. Há alguns medos.
Essa era uma questão que eu tinha para lhe colocar, porque um psicólogo do desporto trabalha com vista a uma melhor performance da equipa ou do atleta, neste caso, através do treinador, que tem um papel essencial aqui, mas não é o psicólogo clínico do treinador, não está a resolver as questões, não está a ajudar aquele treinador a fazer terapia ou também o faz?
Não, terapia é outra coisa. Vamos a ver, a intervenção que o psicólogo estabelece neste contexto é alguém que treina e desenvolve competências nas pessoas, numa lógica de relação de ajuda, que é o ponto de vista técnico, que é diferente da psicoterapia, que necessita de um outro setting, onde não haja tanta informalidade, tanta presença no cotidiano da pessoa. Quando nós estamos em psicoterapia, precisamos de um contexto, de um setting apropriado. Eu costumo dizer e brincar um pouquinho para as pessoas perceberem o que é, é um pouquinho como um antibiótico, tem que tomar àquelas horas, naquele dia, de forma regular, sistemática.
Não interromper a medicação.
Não interromper a medicação, entre aspas, e num contexto neutro, do ponto de vista daquilo que é a relação estabelecida com aquela pessoa que está a ajudar. No contexto da psicologia do desporto e da performance, há uma informalidade permitida, que é nós estarmos no contexto das pessoas, no dia a dia das pessoas. Somos colegas de trabalho no dia a dia e somos alguém que tem uma especialidade muito específica, que é que somos capazes de compreender o seu funcionamento psicológico, o seu funcionamento comportamental, e podemos ajudá-los a melhorar aquilo que ele tem que fazer, por um lado, e obviamente estarmos atentos a dimensões de perturbações de saúde mental e fazer alguma prevenção. Mas se acontecer que um psicólogo do desporto identifique uma patologia que seja necessário intervenção psicoterapêutica, o mais correto é retirar essa pessoa do contexto, entregá-la a um colega de profissão em contexto de ambiente de psicoterapia, e trabalhar isso fora do contexto, porque há dimensões patológicas do nosso funcionamento que não permitem que a coisa seja resolvida de outra forma.
E o treinador que trabalha na pista ou no relvado, conforme a modalidade que estejamos a falar, e onde é que está o psicólogo?
Também no contexto. Ou seja, dependendo do tipo de intervenção do psicólogo, porque quando eu comecei, isto que eu vou dizer praticamente era inexistente, nem sei se existia, do ponto de vista do desporto, mas atualmente os psicólogos que existem no terreno em Portugal, muitos estão em clubes a trabalhar com equipas multidisciplinares, integrados nas estruturas dos clubes, seja um clube mais modesto, em que está sozinho com o psicólogo, ou seja num clube maior, como alguns dos nossos grandes clubes em Portugal, que têm muitos psicólogos espalhados por todas as modalidades e têm um departamento só dessa área. Mas depois há outros psicólogos que estão a trabalhar sozinhos naquilo que nós agora brincamos e chamamos as equipas invisíveis. Porque muitos atletas, particularmente no mundo do futebol, têm atrás de si equipas de trabalho contratadas pelos próprios ou pelos pais, quando são jovens, que têm alguém da minha área, psicólogo, têm um fisiologista ou têm um fisioterapeuta, às vezes um médico.
Nutricionista.
Nutricionista. E estas estruturas, quase de equipas invisíveis, não estão no terreno, como é evidente, estão fora, mas mantêm, em muitos dos casos, o mesmo tipo de relação de proximidade com o atleta, como se estabelece no mundo da psicologia do desporto, que é diferente, como eu disse antes, daquilo que se estabelece quando o tipo de intervenção é numa lógica de psicologia clínica, psicoterapia.
Dizia que as grandes equipas já têm largas equipas de psicólogos, que possivelmente cobrem um largo leque de modalidades. Os psicólogos do desporto também se especializam em modalidades? Há quem esteja mais virado para basquetebol e outros para voleibol e outros para atletismo?
Digamos que isso pode acontecer, não que exista alguma especialidade em Portugal nesse sentido, mas pode acontecer por gosto pessoal ou por oportunidade. Isso pode acontecer. No meu caso, aconteceu naturalmente, eu 60% a 70%, tenho essa contabilidade feita, vai variando. Cerca de dois terços da minha casuística são atletas ou treinadores de futebol. Porque tive 25 anos ligado a um clube e saí depois em 2019. Tenho esta rede montada e vem muito daí. Mas tenho muitos atletas de outras modalidades, de variadíssimas modalidades. Conheço psicólogos ligados só à equitação, por exemplo, conheço psicólogos só das modalidades de combate, ou seja, que se especializaram, não porque fizeram alguma coisa nesse sentido.
Oportunidades que foram surgindo.
Rede de contactos, gosto pessoal, isso vai acontecendo.
E é muito mais na prática do que propriamente o estudo. Ou seja, é uma especialização que vão fazendo no terreno e porque vão estando a trabalhar mais na prática, não porque exista um curso específico para determinada especialização, é isso?
Sim, não há curso específico de psicologia. Há dentro dos cursos de treinadores, psicologia aplicada ao futebol, por exemplo. Nos cursos de treinadores de futebol, existe psicologia na formação específica de treinadores. Eu dou formação a treinadores há muitos anos, desde os anos 90 também. E dentro da formação de treinadores, na parte da formação específica de treinadores, há uma disciplina que se chama psicologia aplicada ao futebol. Mas isso está virado para treinadores, para aquilo que é a psicologia que os treinadores podem usar, a ciência psicológica que o treinador pode usar para perceber melhor aquilo que tem que fazer e conhecer melhor as pessoas que estão à sua frente. Mas eu diria, o que me está a perguntar especificamente, se há um curso específico de psicologia, vamos imaginar, da modalidade X, para um psicólogo se especializar, que eu conheça, em Portugal não existe. Acho que teria pouco público, diria eu, porque é demasiado especializado para a dimensão do nosso público-alvo. Mesmo do ponto de vista internacional, algumas coisas, mas são coisas muito pontuais. Há coisas, há algumas estruturas que fazem isso, mas são coisas pontuais.
Falando da academia, os seus alunos no ISPA veem a possibilidade de serem psicólogos do desporto e da performance como uma saída profissional que tem muitos adeptos e tem muitos interessados? É uma coisa que hoje em dia tem mais alunos interessados em ser psicólogos clínicos ou em ser psicólogos do desporto? Tem ideia?
Psicologia clínica, sim, temos ideia muito clara disso.
Psicologia clínica ganha.
Clínica ganha 60%, 70% dos alunos que compram psicologia. Mas, curiosamente, nos últimos anos, eu assisti, eu diria, nos últimos cinco, seis anos, talvez desde a pandemia para cá, porque eu julgo que houve um boom com o pós-pandemia sobre estas questões da saúde mental.
Sem dúvida.
Mesmo no contexto do desporto.
Falamos de saúde mental hoje de uma forma, aliás, o Observador tem uma seção totalmente dedicada à saúde mental.
E mesmo do ponto de vista do mundo do desporto. Houve aqui algumas coisas boas também nestes movimentos que aconteceram do ponto de vista social, mas eu noto uma procura maior de alunos na área do desporto. Eu tinha tradicionalmente, dentro dos mestrados que existem na faculdade, havia sempre dois, três alunos que me procuravam para fazer um estágio no desporto, ou fazer a tese no mundo do desporto. E atualmente, nós vimos obrigados a criar uma área de estágio, de seminário de estágio, que é uma espécie de grupo de ajuda mútua, digamos assim, que é uma disciplina do último ano do mestrado que apoia os estágios dos alunos. Nós, neste momento, temos um seminário de estágio só de desporto, de alunos que estão no mundo do desporto, porque efetivamente a procura começou a ser bastante e vem de diferentes mestrados. Ou seja, tenho alunos que vêm do mestrado de clínica, alunos que vêm do mestrado de psicologia social das organizações, alunos que vêm do mestrado de psicologia do esporte.
Por que acha que isso acontece? Porque há mais informação sobre isso? Porque há muitos deles que são atletas ou ex-atletas? De onde é que vem esse interesse crescente?
Eu acho que é um pouco de tudo. Também porque colegas anteriores foram passando a ideia de que o mercado estava a abrir. Nos últimos anos, quase todos os anos, alguns dos meus alunos ficam no local de estágio onde esteve a estagiar, quase sempre nos grandes clubes daqui da zona de Lisboa.
É bem pago um psicólogo do desporto?
Ninguém é bem pago em Portugal. É uma pergunta que nem dá para fazer.
Não, eu tenho que a fazer.
Certo. Ninguém é bem pago.
Em várias áreas, aliás.
Em todas as áreas.
Não vamos lá dessa área.
Segue a mesma lógica da sociedade portuguesa, eu diria. Não, eu diria que há uma fase da carreira onde podemos estar num contexto a trabalhar assim, mas depois temos que começar a juntar outras peças, ou mudar para outros cenários, porque evidentemente os salários depois não crescem de forma proporcional. Há um ou outro colega que vai conseguindo ter o seu espaço mais profundo dentro de um clube, que se calhar é promovido, tem outros salários, mas uma boa parte dos colegas que estão no terreno tem uma vida relativamente curta, meio dúzia de anos, dois, três, quatro, cinco, seis anos, e depois roda e vai para outras coisas, ou vai para o freelance, ou vai trabalhar sozinho, ou junta a esse detalhe outras coisas, e vai variando.
É também aí que se dá o salto para o mundo corporativo?
Não, não tem uma coisa a ver com a outra. Há colegas meus que são oriundos do mundo de formação de base de psicologia social das organizações e, portanto, têm esse apetite para ir para essa área de forma paralela ou noutra fase da carreira. Mas, por exemplo, há colegas meus que a formação de base para chegar ao mundo do desporto vieram da clínica. Portanto, quem está no mundo do desporto veio de diferentes áreas de formação de base, porque é uma área de cruzamento. Nós usamos conhecimentos, quer vindo mais do mundo da psicologia social, quer vindo mais do mundo da psicologia clínica, e há um corpo científico próprio desenvolvido no mundo da psicologia do desporto. Psicologia do desporto nos anos 70, 80, o ponto de vista de investigação era uma coisa, e bebia muito da investigação da psicologia geral, mas depois com a evolução dos anos, foi criando os seus próprios modelos teóricos de referência e, portanto, a investigação está assente em modelos que foram desenvolvidos a partir do desporto e que agora, nos últimos anos, por exemplo, em 2012, a APA, que é a American Psychological Association, que serve de referência ao mundo da psicologia, criou, dentro da divisão da psicologia do desporto Porque percebeu que havia outras áreas que procuravam psicólogos do desporto e que eram muito próximas do mundo do desporto, transformou a secção de psicologia do desporto e do exercício em psicologia do desporto, exercício e performance. E juntou aqui todas as áreas performativas que possa imaginar, que têm alguma atividade motora, nomeadamente o mundo artístico, o mundo dos cirurgiões, por exemplo.
Entra dentro desse-
Do mundo da performance, todas as atividades humanas que têm alguma atividade motora, porque tem muitas semelhanças com o mundo do desporto. Dei agora aqui estes exemplos, pode ser o mundo dos modelos.
Sim, desfilar na passarela.
Alguma dimensão.
Um piloto.
Sim, sendo que a aeronáutica tem uma especificidade e tem a psicologia da aeronáutica de uma forma muito específica, mas sim, podia se encaixar em alguma parte aqui também. E já tive pilotos, por exemplo, como clientes. Situações de algumas polícias, a área da intervenção policial, por exemplo, sendo que a área militar, especificamente de cenários de guerra, não tanto a área da polícia de intervenção pública, mas a área militar tem outros cenários também e tem dimensões próprias da psicologia, psicologia militar. Mas o que eu quero dizer com isto é que a área da psicologia do desporto e da performance, do ponto de vista também da investigação, começou-se a passar modelos que eram da psicologia do desporto para outros contextos de performance. E começou a haver investigação de aplicação desses modelos a outros contextos de performance.
E nomeadamente, voltando à questão e voltando a usar a expressão corporativo, na formação de quadros superiores de empresas, gestores de equipas, CEOs, que bebem muito e recorrem muito a profissionais como o Pedro.
Sim, porque do ponto de vista de liderança, e a semelhança é mais do ponto de vista da liderança, não tanto da atividade motora.
E daquilo que os treinadores fazem com os treinados.
Exatamente. Muito daquilo que é o nosso trabalho com treinadores e na gestão dos processos de liderança e na gestão das equipas de alto desempenho, que tem que ser no contexto do desporto, muitos contextos corporativos bebem exatamente essa mesma ideia e recorrem com alguma frequência a este mundo do desporto para ter metáforas, para ter dimensões que possam inspirá-los do ponto de vista do dia a dia. E não têm sido poucos os colegas, eu inclusive, os meus colegas de profissão, que têm apoiado o mundo corporativo, nomeadamente aqueles que nós viemos também do mundo da psicologia social das organizações de base. No meu caso, tenho um mix, porque fiz as duas coisas, mas há colegas que vieram mais do mundo social das organizações, há colegas que vieram mais do mundo da clínica, como digo. São duas grandes áreas.
Duas grandes áreas, a par da psicologia da educação.
Sim. São as três grandes áreas clássicas, sendo que, curiosamente, não tem tido ao longo dos anos muitas pessoas vindas do mundo da educação interessadas nesta área. Tem tido, sim, sempre, destes dois outros espaços de formação.
Clínica e organizações.
Clínica e social e organizações.
E voltando aos clubes, já falamos dos psicólogos do desporto em clubes que têm outro tipo de investimento e outro tipo de envergadura. Um clube de bairro deve ter um psicólogo do desporto ou isto só faz sentido em alta competição?
Não, eu diria que um clube de bairro muitas das vezes tem uma missão espetacular na formação de jovens, por exemplo, e eu diria que se fosse possível, seria muito interessante. Aliás, eu cheguei a colaborar com uma autarquia no sentido do desenvolvimento de uma linha de apoio para, em vez de estarem a dar dinheiro à toa aos clubes, darem um serviço. E darem um serviço nesta área.
Foi uma ideia da autarquia?
Não, foi uma ideia minha, por acaso, que vendi a uma autarquia e comprou na altura. E essa ideia acho que é uma ideia importante, que sei que foi implementada ainda durante algum tempo, depois mudou, vieram eleições e mudou.
Mudou o corpo político.
Mudou tudo. Sendo que o meu contacto não era político, era um contacto técnico. Na verdade, era um vizinho, portanto, era muito fácil. Foi uma coisa muito simples. Mas a ideia que eu estou a tentar passar é: por vezes, chegar a um clube de bairro é só uma questão de criatividade para buscarmos a forma sustentável.
Pois, porque mesmo que o clube não tenha essa sustentabilidade e não consiga pagar, através das autarquias, pode ser uma via.
Às vezes as autarquias dão dinheiro a clubes de uma forma menos controlada, ou às vezes dão sob outras formas, e se calhar podem dar de maneira muito específica. E esta pode ser uma forma muito específica de apoiar um clube de bairro, em que abre uma linha, abre um contexto de apoio, numa lógica de consultoria. Evidentemente, não é a mesma coisa ter um psicólogo no clube, mas se calhar é melhor que nada, nomeadamente ao nível da psicoeducação, pequenos workshops, que foi o que eu fiz na altura, pequenos workshops com jovens, com treinadores.
Identificação de sinais.
Muitas coisas que se podem ensinar numa lógica preventiva e numa lógica de conhecimento, a lógica da psicoeducação.
Que depois, naturalmente, é aplicada no desempenho da atividade física daquele atleta e daqueles treinadores.
Inclusive com pais. Na altura, recordo-me que fiz várias sessões com pais em dois dos clubes que aderiram mais, porque depois aquilo também tinha a ver com os pedidos dos clubes, e houve dois clubes que pediram mais e eu fiz várias sessões com pais, por exemplo. E esta formação com pais, com atletas, com treinadores, numa lógica de psicoeducação, apoiado por uma autarquia para clubes de bairro, é uma via perfeitamente possível.
Com pais eu acho essencial.
Sim, nós na preparação desta conversa optámos por não colocar aqui e iremos colocar num dos próximos episódios do "Ciência de Campeões", justamente a questão dos pais e daqueles pais que são muito interventivos e que vão para a bancada intervir muito para dentro e gritar.
Deixa-me dar uma nota sobre pais, porque às vezes nós diabolizamos muito os pais.
Alguns pais é jeito.
Certo, é um fato. Mas os pais de um atleta de alta competição não escolheram ser pais de atletas de alta competição. De repente, o seu filho começou a ter jeito para a coisa e quando deram por ela, estavam dentro do caldeirão e eram pais de atletas de alta competição.
E não há volta a dar.
E não há volta a dar, porque depois o jovem tem jeito, parte à frente.
Com uma mudança incrível na vida.
Com tudo, uma mudança incrível na vida, nos ritmos da família, na centralização em torno do filho que é atleta erradamente.
Face aos outros.
Face aos outros, nas complicações conjugais que às vezes isso traz, nas complicações financeiras, na incapacidade dos pais de saberem gerir as suas próprias emoções e emoções dos filhos, etc.
Articular a sua vida profissional com aquilo que tem.
Certo, mas o que eu estou a tentar explicar é que nós às vezes diabolizamos demasiado os pais. E muitas das vezes os pais só não têm é competências ou não foram preparados. E às vezes é interessante percebermos que poderíamos ou poderemos dar um pouquinho mais de ferramentas aos pais e eles serem melhores pais de atletas de alta competição.
E se calhar aqueles pais que vemos nas bancadas, lá estamos nós a trazer para esta conversa.
Estamos a pensar no futebol essencialmente, penso eu.
Sim, vê-se muito em futebol, também se vê noutras modalidades, mas vê-se muito em futebol.
No ténis também se vê bastante.
Também há muito?
Um bocadinho. Têm que estar mais caladinhos, porque não se pode falar. Mas também se vê alguma intervenção dos pais.
É, mas de facto o futebol e o futebol juvenil das camadas jovens vê-se bastante os pais dos atletas a darem sugestões, a dirigirem uma série de sugestões ao treinador e à mãe do treinador também, e à mãe do árbitro e por aí fora. Que depois acaba muitas vezes por prejudicar o próprio atleta pelas dinâmicas que os clubes têm que ter. Mas sim, uma psicoeducação aí poderia ser útil e os autarcas que nos estejam a ouvir e os responsáveis de clubes que nos estejam a ouvir, sobretudo, e será uma fatia larga de clubes neste país, aqueles que mal têm dinheiro para conseguir reparar a janela do pavilhão que está partida ou o pavimento, ou a compra de novos colchões, mal têm dinheiro para isso, quanto mais para pagar um psicólogo, mas se calhar alteraria.
Mas se calhar essa comparação partimos do ponto errado, digamos assim, entre aspas. Eu percebo que se não tivermos comida na barriga, não podemos andar. Mas depois algumas comparações são um pouquinho aberrantes. A parte mental fica sempre no fim da lista.
E o que haverá de parte de muitos dirigentes, se calhar, é esta ideia que eu próprio acabei de referir.
Sem dúvida. Como é que eu vou gastar na parte mental, na parte psicológica, quando nós não temos os vidros todos no sítio? E às vezes eu diria assim: "Mas se calhar às tantas mais vale ter os vidros partidos do que ter a malta desarranjada do ponto de vista mental", entre aspas. Agora, as prioridades que se dá à saúde mental, à literacia em saúde mental em Portugal, à literacia sobre o fenómeno, como é que a nossa cabeça funciona, ao longo das décadas da nossa existência como adultos que somos, tem sido lamentável, porque se calhar muitas coisas que nós estamos a viver em Portugal neste momento do ponto de vista de saúde mental e dos rácios que temos de perturbações de saúde mental, teriam sido evitados se nós tivéssemos aumentado a intervenção precoce em pré-escolar, em idade escolar, primeiro, segundo, terceiro ciclo.
E em clubes de bairro.
E em clubes de bairro e em todos os contextos possíveis e imaginários, empresas, já com o pessoal já mais adulto, numa lógica de prevenção, numa lógica de psicoeducação, numa lógica de dar ferramentas às pessoas. Porque as pessoas olham para um pequeno fenómeno de ansiedade de uma forma diferente do que olham para uma gripe. E em muitos momentos, alguns pequenos fenómenos de ansiedade não passam de uma gripe, entre aspas. Alguns fenómenos de ansiedade, não todos, obviamente. Mas algumas dimensões, algumas experiências iniciais de uma qualquer perturbação psicológica podem ser prevenidas e a pessoa pode aprender a aceitar e a conseguir lidar com o assunto e a jogar com as emoções a seu favor. E isso não é ensinado antes. E esse é que é um problema que, na minha opinião, do ponto de vista social, é absolutamente dramático. Este tópico devia estar na ordem do dia de governantes, numa lógica macro nacional, de governantes, se quiserem prevenir problemas de saúde mental nas próximas décadas em Portugal, porque os números são muito claros neste momento e têm estado a evoluir de uma forma absolutamente clara.
Não há uma aposta na prevenção.
Zero aposta. Não há literacia, não se ensina nada sobre estes temas, desde pequeninos até à idade do nono ano.
Já se fala mais de saúde mental, mas a verdade é que continuamos a olhar para ela, lá está, como eu próprio acabei de dar o exemplo, como só vamos lá se tivermos dinheiro. Só lá vamos se, pronto, e depois quando falta para outras coisas. Estamos a aproximar-nos do final da nossa conversa, mas não queria deixar de lhe colocar uma questão que me parece importante neste contexto, que é a questão da gestão de expectativas. A expectativa do atleta, a expectativa da família. Enfim, nem todos serão Cristianos Ronaldos, nem todos os pais serão donas de Loures. Como é que se ajuda um atleta e uma família a lidar com isso?
Da minha experiência, racionalizando, ou seja, ajudando o atleta e a família a racionalizar o percurso. No clube onde eu estive muitos anos, nós fazíamos isso de forma regular com os pais dos atletas. Eu, quando estou individualmente com atletas e com os seus pais, faço também a mesma coisa. Racionalizar o processo é muito importante. A forma como nós interpretamos a realidade determina muito aquilo que nós experienciamos emocionalmente. Isso é o que nós sabemos do ponto de vista da literatura e também do ponto de vista prático. Ou seja, é a história do copo meio cheio, meio vazio. Eu quero o copo cheio, mas se eu olhar para o copo que está meio e olhar para ele numa lógica de está quase cheio, é uma coisa, se olhar ainda se está meio vazio, é outra.
Isso também se treina?
Também se treina, porque tem a ver com a interpretação que nós fazemos da realidade E a expectativa muitas das vezes é de facto a interpretação que a gente faz dessa realidade. A forma como eu olho para a realidade gera uma expectativa e determina muito as que vão ser as minhas reações a seguir. Portanto, uma das coisas que nós ajudamos, muitas das vezes, pais e atletas, é treinar essa interpretação da realidade. Pondo em perspetiva, relativizando, dando outra interpretação, tendo pares com quem troca ideias para ter outro olhar sobre o mesmo assunto, são algumas das formas que nós temos de relativizar, pôr em perspetiva e, portanto, ter uma nova interpretação. Quando nós temos mais informação, nós conseguimos gerar provavelmente expectativas mais ajustadas. Se temos mais fontes de input para aquilo que parece o nosso pensamento, a nossa interpretação, provavelmente as expectativas vão ser diferentes. E isto é absolutamente determinante para nós não formarmos falsas expectativas face àquilo que pode vir a ser, por exemplo, o desempenho do meu filho, se fosse um atleta, ou o meu desempenho como atleta, se eu for um atleta e estou numa fase X da carreira e começo a, como se costuma dizer, embandeirar em arco. Ou a ver de forma muito rotista, também ao inverso, de uma forma muito pessimista. E, portanto, este tipo de trabalho, de disciplinar o pensamento, é muito o trabalho que nós fazemos no dia a dia com atletas, com treinadores. Eu tenho treinadores e atletas verdadeiramente com síndrome do impostor.
Que se veem como muito piores do que são ou do que podem ser.
Muito piores. Tenho muitos atletas que claramente olham para uma situação qualquer e a primeira coisa que lhes ocorre é que não vai dar, não vai ser possível. Muito difícil. E depois tem outros exatamente no oposto.
E o ajustar dessas expectativas é também muito o vosso trabalho.
Mas sobretudo ter uma perspetiva de ter esta ideia de que se ganharmos capacidade de interpretar e reinterpretar de forma constante, ou seja, de pôr em perspetiva, relativizar. Imaginarmos que isto era um cursor, como os botõezinhos do som, de andar para a frente, para a esquerda, para a direita e eu poder, se eu for podendo mexer na interpretação que faço da realidade, e portanto ir cada vez tendo mais informação para poder interpretar de forma mais ajustada possível, isto ajuda muito a que as minhas emoções sejam mais ajustadas, porque resulta. É uma das dimensões do processo emocional, é a forma como nós interpretamos a realidade.
Pedro Almeida, obrigada por ter vindo ao Ciência de Campeões. Foi um gosto. Obrigada a quem nos ouviu também.
O podcast Ciência de Campeões está disponível nas plataformas habituais e no site do Observador, onde temos uma secção totalmente dedicada ao desporto na sociedade. Até à próxima. Esta entrevista faz parte do projeto Mais Do Que Desporto, uma iniciativa do Observador com o apoio do BNP Paribas.