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Está no ar mais um "Direto ao Assunto" na Rádio Observador. Faliu um banco norte-americano este fim de semana, outro foi encerrado. Pode vir aí uma onda de contágio que afeta a Europa. O Ministro das Finanças garantiu que não. É nosso convidado hoje no "Direto ao Assunto", Vítor Bento, presidente da Associação Portuguesa de Bancos. Uma entrevista aqui conduzida na Rádio Observador pela Judite França, pelo Bruno Vieira Amaral e pela Vanessa Cruz.

Vítor Bento, bem-vindo à Rádio Observador. Sabemos como é que uma crise começa, não sabemos é como ela acaba. A pergunta que muitos farão agora é se podemos ficar descansados na Europa, nomeadamente em Portugal, isto depois do fantasma da crise que nos trouxe a troika de volta.

Olá, boa tarde. Relativamente a este problema em particular, creio que sim. A situação não tem paralelo. A situação que ocorreu com estas instituições em particular não tem paralelo na Europa, em particular em Portugal, que é a situação que conheço melhor e, portanto, não é uma situação que possa ser extrapolável para o nosso caso.

Mas porque os bancos portugueses estão mais resistentes desde a última crise?

Por várias razões. Aliás, a própria situação em que o banco em causa esteve envolvido foi uma situação de certa forma particular. Houve uma corrida aos depósitos, portanto houve uma crise de confiança muito rápida, porque o banco fora disso não tinha sinais demasiado graves, como aconteceu nos anos que deram origem à crise financeira internacional. No entanto, há uma diferença fundamental face àquilo que é a generalidade da Europa e em Portugal. Há um conjunto de regras que são aplicadas na supervisão onde os bancos têm que manter determinados rácios de liquidez, portanto, têm que ter determinadas exigências de liquidez face às suas responsabilidades expectáveis durante determinado tempo. No caso dos Estados Unidos, essas regras não são aplicáveis aos bancos regionais, como era este caso. E portanto, isso foi possível, que o banco pudesse ter esse gap de liquidez sem que tivesse sido detetado. No caso da Europa, essa situação é muito mais improvável, porque, como digo, os rácios de cobertura de liquidez face às responsabilidades imediatas são muito mais exigentes e são vigiados mais recorrentemente.

Mesmo assim, Vítor Bento, este caso do Silicon Valley Bank pode estar relacionado com a subida das taxas de juro. É expectável que depois desta crise, a Fed decida pôr um travão nas subidas?

Não, isso depois é outra coisa. A crise, basicamente, simplificando muito a questão, é que o banco tinha um conjunto de investimentos feitos em títulos de dívida pública, que entretanto, como as taxas de rendimento, acompanhando as taxas de juro de mercado, como subiram, o valor de cotação desses títulos baixaram consideravelmente. E o banco, para obter liquidez, porque estava a ter uma corrida aos depósitos, teve que vender esses títulos de uma forma muito apressada e começou a realizar muitas perdas. E portanto, foram essas perdas que originaram, no fundo, o que nós em português chamamos uma pescadinha de rabo na boca, um círculo vicioso, que essas perdas induziam mais levantamento de depósitos. Agora, o que é que as autoridades depois vão fazer ou não? Para conter esta situação e conter o contágio, as autoridades já fizeram várias coisas. Outra das coisas também que era importante neste caso é que nos Estados Unidos os depósitos estão garantidos até €250 mil. Este banco, como tinha uma série de depósitos das empresas tecnológicas da zona de Silicon Valley, tinha muitos depósitos de valor acima desse montante garantido e portanto, foi isso que criou também um pânico mais generalizado. Entretanto, as autoridades já acabaram por garantir todos os depósitos e portanto, desde hoje que os depósitos ficaram garantidos e colocaram à disposição de todos os outros bancos que possam ter também uma situação de carteiras de dívida em perda nominal, a possibilidade de se financiarem junto do Fed ao valor nominal desses títulos e portanto, sem terem que realizar perdas. Isso, em princípio, deve de alguma forma estabilizar a situação do sistema bancário, admitindo que não há outros problemas mais graves de outra natureza, mas relativamente a este problema. Agora, como estava a dizer, de facto, neste momento começa a haver alguns comentários a solicitarem ao Fed para parar a subida das taxas de juro. Só que isso tem um outro risco. Se isso acontecer, significa que a inflação vai ser mais difícil de controlar e portanto vai se prolongar durante mais tempo, com as consequências que tudo isto tem. Até porque não nos devemos esquecer que uma das razões que têm contribuído quer para a emergência da inflação, quer para a sua continuação, é o excesso de moeda em circulação que existe no Ocidente em geral.

Já se falou também da possibilidade de se levantar os limites desses depósitos dos depositantes para também os tranquilizar. Acredita que essa medida poderá ser tomada e qual será o efeito de uma medida dessas?

Neste momento, eu julgo Julgo que não está previsto aumentar a segurança dos depósitos em todos os bancos. Até porque este banco, agora estou a citar de cor, tinha uma percentagem de depósitos não garantidos muitíssimo superior aos grandes bancos americanos. Os grandes bancos americanos, eu estou a dar números de cor e, portanto, podem não estar atualizados, têm cerca de 30%, autour disso, de depósitos não garantidos e este banco tinha mais de 60% de depósitos não garantidos. Também era uma situação desfasada daquilo que era a normalidade, sobretudo dentro daqueles que são os grandes bancos. Eu não creio, mas isto é uma questão de especulação, que vá ser feita uma generalização de garantia de todos os depósitos nos Estados Unidos. Agora, estes casos, que são os casos que estavam, neste momento, numa situação mais problemática e nomeadamente relativamente a Silicon Valley, estava a deixar muito instável as empresas da zona, porque não sabiam se iam poder retirar o dinheiro pra pagar os salários, porque há muitos contratos em que os salários são pagos semanalmente. Tinham que pagar salários e não sabiam se podiam dispor do dinheiro ou não para isso. E esta garantia geral tranquiliza essa frente e, portanto, em princípio, é provável que as coisas agora comecem a estabilizar. Qualquer das formas, na Europa, como disse, não há nenhum sinal de contágio preocupante. Obviamente que houve uma queda nas cotações como reação imediata, há de haver avaliações, nomeadamente da qualidade da carteira de ativos que alguns bancos possam ter, mas mesmo a própria queda que as cotações tiveram na Europa não tem qualquer comparação com a queda que tiveram nos Estados Unidos, em particular dos bancos considerados mais vulneráveis.

Mas dentro dos Estados Unidos ainda há um risco real de contágio, as autoridades estão a tomar medidas para evitar precisamente esse contágio. Mas há essa possibilidade?

Possibilidade de contágio nestas coisas existe sempre, porque é uma questão de confiança e se se quebrar a confiança... Aliás, uma parte do problema que surgiu ao Silicon Valley Bank foi que de repente houve um pânico generalizado e esse pânico generalizado acelerou o colapso. Atualmente, já há uma série de empresas de venture capital, que são os financiadores das empresas tecnológicas, que hoje já põem em causa porque entraram em pânico tão depressa e não tiveram a serenidade de gerir com mais paciência a própria situação, que eventualmente poderia ter evitado o colapso do banco. Mas qualquer das formas, e indo ao essencial da sua questão, o presidente americano repetiu a célebre frase de Mario Draghi quando foi da crise do euro, dizendo que "whatever it takes", fará o que for necessário para suster esta crise. Por um lado, a determinação das autoridades é muito grande, por outro lado, a vulnerabilidade do sistema não tem qualquer comparação com o que foi em 2008.

Sendo que diz também Joe Biden que é o capitalismo a funcionar. Vítor Bento, estava aqui há pouco a falar dessas medidas que foram tomadas pela Reserva Federal dos Estados Unidos. No que toca ao Banco Central Europeu, embora tenhamos percebido por aquilo que disse que estamos, à partida, a salvo, vão ser tomadas mais medidas preventivas, pelo sim pelo não?

Eu pessoalmente não estou à espera, obviamente, eu não estou na cabeça deles, nem consigo adivinhar o que é que vão fazer, mas todos os sinais que há por enquanto, estou convencido que estão a acompanhar a situação, obviamente, tanto quanto vi das notícias, decidiram não fazer nenhuma reunião extraordinária sobre o assunto, o que em si é um sinal de tranquilidade. Admito também que seja intencional querer dar esse sinal e não quererem fazer nenhuma reunião de emergência, precisamente para não criar nenhuma sensação de pânico, numa avaliação que eles farão de relativa tranquilidade. Eu não estaria à espera que para além do acompanhamento da situação, houvesse nenhuma proatividade por não ser necessário. Obviamente que há alguns bancos na Europa, nada tem a ver com Portugal, mas há alguns bancos na Europa que têm vulnerabilidades, mas que são vulnerabilidades que já trazem há muito tempo, não emergiram agora. Alguns na Alemanha, o caso do Crédit Suisse na Suíça, mas isso são vulnerabilidades que já vêm de há muito tempo, não tiveram a ver com esta situação atual e obviamente, face a esta crise, o grau de sensibilidade dessas situações mais vulneráveis aumentou e esses foram aqueles cujos indicadores mais se ressentiram. Mas eu não estaria à espera de nenhuma ação dramática da parte das autoridades, por considerarem que não é necessário.

Vítor Bento, olhando aqui para aquela expressão "too big to fail", grande demais para falir, neste caso, o banco em causa não é grande. Temos aqui alguma mudança de paradigma, talvez?

O banco não é grande? Depende. Quer dizer, não é grande face aos grandes bancos, mas é, segundo a informação que eu vi, o segundo maior banco que faliu nos Estados Unidos, maior do que este só o Continental Illinois nos anos 80 ou 90. Portanto, em termos de bancos falidos, ele é grande e em termos absolutos é um banco grande, só que nos Estados Unidos há bancos muito maiores e com mais relevância internacional do que este, mas o banco não deixa de ser grande.

Mas isto também significa que--

Desculpe só interromper. E o fato das autoridades terem intervindo de uma forma também tão generalizada, dando a cobertura aos depósitos todos, é um sinal, de fato, que essa dimensão poderia ter um efeito sistêmico indesejável.

E é um sinal de aprendizagem com a crise de 2008.

De certa forma, se bem que as duas crises não são idênticas, até pelo potencial sistémico que têm. A outra tinha um potencial sistémico muito grande, esta não creio que tenha um potencial sistémico, nem sequer nos Estados Unidos. Embora possa afetar mais bancos regionais, que são bancos que estão fora deste escrutínio mais apertado das condições de liquidez. Aliás, há sinais de que há mais alguns bancos cujas cotações caíram de forma dramática, 60 e tal por cento, e estão numa situação periclitante. Mas insisto, são bancos regionais que estavam fora deste escrutínio mais apertado das condições de liquidez.

Só pra terminarmos, Vítor Bento, hoje o BCP derrapou 7,5%. Há pouco já referia aqui essa reação. Tudo bem que foi uma reação a quente, mas este nervosismo pode continuar?

Estas coisas de nível psicológico, como isto tem uma grande componente psicológica, são sempre difíceis de prever qual é a sua duração. Isso vai depender da capacidade de a serenidade se reinstalar. Não creio que vá mais além do que isso. Obviamente que é natural que numa primeira reação haja um assustar demasiado com a situação, mas eu não creio, embora não tenha nenhuma bola de cristal, que haja condições pra situação se agravar mais do que isso. Eu esperaria que a situação tendesse, daqui pra frente, a estabilizar.

Obrigada, Vítor Bento, por ter vindo ao "Direto ao Assunto". Vítor Bento, presidente da Associação Portuguesa de Bancos. Estivemos aqui a olhar pra as consequências da falência deste banco norte-americano, o Silicon Valley Bank.

Obrigado.