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André Peralta Santos, subdiretor geral da Saúde, obrigado por ter vindo ao "Direto ao Assunto" numa altura em que nas notícias temos três grandes temas que preocupam os portugueses no que toca a vírus respiratórios. Começamos, se calhar, pelo surto de gripe das aves em Sintra, foi detetado numa exploração com mais de 55 mil aves. A OMS emitiu mesmo um alerta. A mais recente informação avançava que não há casos de infecção em humanos. É uma informação que se mantém, pelo menos para já?
Sim, essa informação mantém-se e deixe-me aproveitar para notar aqui algumas diferenças deste vírus, o vírus da gripe zoonótica, é o termo técnico, mas no fundo é um vírus da gripe de animais. Neste caso, afeta mais as aves. Foi identificado um foco em aves de capoeira em Sintra, nestas aves, e não há casos em humanos. Importa também referir que este é um vírus da gripe muito diferente daquele do vírus da gripe que nós estamos habituados e que conhecemos. Por quê? Porque afeta animais e só se transmite a humanos, eventualmente, e em casos raros, para quem tem contato com estes animais infectados. E é também importante referir isto, que não se transmite pessoa a pessoa, como o vírus da gripe que nós conhecemos, e que está presente em todos os invernos. Por que isso gera preocupações às autoridades de saúde veterinárias e de saúde? As autoridades veterinárias estão, neste momento, a trabalhar para erradicar o foco o mais rapidamente possível. As autoridades de saúde acompanham os profissionais que estão neste momento a trabalhar com estas aves infectadas, assegurando que trabalham em segurança e que são vigiados na eventualidade, que nós achamos que é pouco provável, mas na eventualidade de virem a desenvolver sintomas e que possam ficar doentes e, por isso, têm uma vigilância reforçada dos seus sintomas. Para a população em geral, este foco de gripe das aves não representa um risco adicional.
Não é expectável então que surja algum caso, tendo em conta o número de aves infectadas.
É aquilo que nós fazemos sempre esta monitorização muito apertada de todas as pessoas que estão em contacto com este vírus.
E quantos é que estão a ser acompanhados, monitorizados nesta altura? Tem ideia?
Cerca de 20 profissionais.
Que tipo de acompanhamento é que está a ser feito, exatamente?
É um acompanhamento, neste caso, de assegurar que eles trabalham em condições de segurança, com equipamento de proteção individual, assegurar que existe um acompanhamento ativo, que os profissionais de saúde diariamente perguntam se já desenvolveu sintoma, se tem algum sintoma, e também, posteriormente, testagem destes profissionais para este vírus da gripe. Dessa forma, temos a estes profissionais que manuseiam estas aves infectadas, que têm uma vigilância mais reforçada. Deixe-me também referir uma questão que é relevante aqui no contexto europeu. Na Europa, nós já tivemos outros casos de surtos em aves e em aves de capoeira, sem nenhum caso em humanos. Nos Estados Unidos, por exemplo, tivemos nota de casos em humanos, mas mesmo para estes profissionais que manipulam estas aves, assegurando que o fazem em segurança, o risco é moderado.
Estamos a falar de um vírus que não se transmite entre humanos. Também não se transmite pela carne ou pelos ovos. Quais são as formas de transmissão?
As formas de transmissão que nós conhecemos é através da manipulação de aves infectadas, das entranhas destas aves que estão infectadas. Aqui o foco é-
É o contacto direto com as aves, não é?
Exatamente. Do contacto direto com as aves que estão infectadas.
André Peralta Santos, outro vírus que tem vindo a ganhar destaque nas notícias é o metapneumovírus ou HMPV, que na China está a ganhar até contornos de surto. Há casos de sobrelotação de hospitais, medidas de emergência. Neste caso, já foi detetado em Portugal um caso deste vírus. Este é um vírus que é novo ou já era conhecido por parte das autoridades de saúde?
Este é um vírus que nós já conhecíamos, é um vírus que causa sintomas respiratórios. Na maioria das vezes, causa doença ligeira, até predominantemente em crianças. E habitualmente nós temos uma vez esta doença e depois temos até pouca probabilidade de voltarmos a ter esta infecção com este vírus em questão. Recebemos esta informação do aumento do número de casos na China Que não nos causa especial preocupação se o vírus mantiver o seu comportamento habitual. Nós sabemos que este vírus circula habitualmente todos os invernos e nós esporadicamente encontramos este vírus nos nossos sistemas de vigilância. Não quer dizer que tenhamos só um caso deste vírus. Neste caso, foi o caso que nós conseguimos captar nos nossos sistemas de vigilância. Mas, mais uma vez, aqui uma mensagem de tranquilidade à população em geral: estamos a acompanhar. Se o vírus não sofrer nenhuma alteração de maior, não nos causa especial preocupação.
Mas nós sabemos o historial do caso que foi detetado desta pessoa? Sabemos se tinha estado na China?
Não, foi uma identificação de rotina nos sistemas de vigilância e que não nos merece especial preocupação para irmos investigar mais sobre esta pessoa.
Ou seja, não estamos aqui a falar de um vírus de fácil transmissão entre humanos, é isso? Ou seja, não sendo detetados mais casos, não são de esperar medidas de mitigação ou medidas de saúde pública.
Não, o vírus transmite-se pessoa a pessoa. Essa é uma informação que é importante deixar clara. É um vírus que habitualmente circula todos os invernos na comunidade e nós esporadicamente, com as análises que fazemos a um grupo, uma amostra da população em geral, por vezes apanhamos uma pessoa que tem este vírus. Não quer dizer que não tenhamos mais pessoas na comunidade infetadas com este vírus, que mais uma vez eu reforço, causa uma doença leve, com sintomas: mal-estar geral, febre, tosse, mas não causa doença grave e até afeta habitualmente mais as crianças.
Qualquer comparação com o que aconteceu há cinco anos com a COVID-19, que também teve início na China e se transformou numa pandemia, é exagerada?
Sim, é exagerado. Não tem paralelo com o que vivemos com o SARS-CoV-2, com a COVID-19.
André Peralta Santos, vamos agora olhar também para este período de gripe, digamos, normal, que vivemos em Portugal, com muita afluência às urgências. Já conseguimos perceber se foi atingido o pico da gripe ou ainda estamos numa fase crescente de casos?
Aquilo que os nossos sistemas de vigilância nos dizem é que estamos ainda numa fase crescente. O que é habitual é nós termos duas semanas onde está a aumentar o número de casos de gripe e depois, habitualmente, duas semanas em que estão a diminuir os casos de gripe. Os nossos sistemas de vigilância, e são assim em todo o mundo, estamos sempre a olhar pelo retrovisor, aquilo que já aconteceu. Nós só conseguimos captar que a pessoa esteve doente e que está com gripe depois de ela ter desenvolvido sintomas, depois de se ter dirigido a um serviço de saúde e depois de ser testada. A mensagem mais importante é que nós estamos naquilo que nós chamamos a fase epidémica, que temos uma circulação muito intensa de gripe. E esse aumento de circulação do vírus gripe condiciona sempre um aumento da procura de cuidados de saúde. E é isso que temos visto nos hospitais e no aumento do recurso ao serviço de urgência e à linha de saúde 24. É expectável que este aumento da procura dos cuidados de saúde continue durante mais uma ou duas semanas e depois, paulatinamente, vai normalizando a afluência às urgências e entramos em fase não epidémica.
A nível de severidade, estamos a ter este ano casos mais ou menos graves do que noutros anos?
É muito sobreponível. O tipo de vírus da gripe que está em circulação é o tipo B e que está contemplado na vacina que foi administrada nesta campanha sazonal. Isto é uma boa notícia, quer dizer que quem se vacinou está protegido contra o vírus que está em circulação. E a vacinação, como nós sabemos, confere uma proteção contra a doença grave. A severidade da doença é muito sobreponível à do ano passado. Não é o tipo da gripe mais severa, que é habitualmente a do subtipo H3. Não é a que temos este inverno, é do subtipo B, muito semelhante em termos de severidade ao que tivemos o ano passado.
André Peralta Santos, falava aí da questão da vacinação. Tanto quanto percebi, os últimos dados públicos são de novembro. Consegue fazermos um balanço também atual a nível da vacinação, tanto da gripe como da COVID-19?
Sim, a vacinação sazonal está ainda a decorrer. Teve uma boa adesão por parte dos portugueses elegíveis. Temos mais de 2,3 milhões de pessoas vacinadas contra a gripe, cerca de um milhão e meio para a COVID-19. A adesão à vacina da gripe foi até um pouco melhor este ano em comparação com o ano passado. Isto permite-nos, mesmo assim, assegurar que temos uma grande parte da população que tem maior risco de doença grave protegida contra esta mesma doença grave. E Portugal tem ainda uma das melhores coberturas de vacinação para a gripe da Europa, o que reforça que os portugueses têm confiança nas vacinas e no processo de vacinação em Portugal.
Houve algumas queixas da Associação das Unidades de Saúde Familiar pela falta de vacinas, que estávamos longe de atingir as metas ideais.
Nós comprámos vacinas para todos aqueles que se queiram vacinar e temos ainda vacinas disponíveis. Pontualmente, sabemos que pode ter existido um ou outro constrangimento com a vacinação. Este ano utilizámos uma vacina nova para a população de 85 mais, que é uma vacina de dose elevada, que é ainda melhor na proteção contra a doença grave. E nós sabemos que este grupo dos 85 mais é o grupo que tem maior probabilidade de ter gripe e depois descompensação das outras doenças e recorrer ao serviço de urgência e ficar internado. E esta vacina estava só disponível nos cuidados de saúde primários, por uma facilitação logística. E deixe-me dizer-lhe que, ainda assim, este ano batemos o recorde de cobertura vacinal neste grupo populacional. Portanto, eu acho que estas eventuais falhas de vacinação são circunstanciais e não afetaram o sucesso da campanha de vacinação.
E esse sucesso estende-se também às pessoas abaixo dos 85 anos, que não tinham a obrigatoriedade de se vacinar nos centros de saúde. O facto de ser uma rede mais expandida melhorou ou piorou os números abaixo dos 85 anos em relação a outros anos?
Quando falamos da gripe e dos abaixo dos 85 anos, neste momento, as pessoas acima dos 50 podem ser vacinadas de forma gratuita para a gripe e para a Covid-19. E lanço aqui o apelo a quem ainda não se vacinou, que se vá vacinar, ainda vai a tempo e acho que esta é uma mensagem muito importante para deixar aqui aos ouvintes da Rádio Observador. Mas a campanha da gripe correu francamente bem. Para esta população dos 50 aos 84, pode-se vacinar no local que for mais conveniente, na sua farmácia comunitária, no seu centro de saúde, e acho que isto é uma aposta para manter. Neste momento temos mais de 2500 postos de vacinação e damos liberdade para as pessoas escolherem se querem ser vacinadas na sua farmácia ou no seu centro de saúde, sempre com os mais elevados padrões de segurança, que é isso que esperam de nós.
André Peralta Santos, o senhor diretor-geral da Saúde, muito obrigado por ter vindo ao "Direto ao Assunto". Até à próxima, obrigado.
Muito obrigado, foi um gosto.