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E no Direto ao Assunto desta manhã, o nosso convidado João Paulo Gomes é responsável pelo Núcleo de Bioinformática e pela Unidade de Investigação do Departamento de Doenças Infecciosas do Instituto Ricardo Jorge. João Paulo Gomes, muito bom dia. Obrigado pela disponibilidade.
Bom dia a todos.
Vamos falar destas variantes do coronavírus e do que é que sabemos sobre elas, numa entrevista conduzida por Paulo Ferreira e Carla Jorge de Carvalho.
Bem-vindo, João Paulo Gomes. O Instituto Ricardo Jorge está a estudar, ou vai voltar a estudar, as características genéticas do coronavírus desta segunda fase da pandemia em Portugal. Dadas as informações que chegam do Reino Unido, é de esperar mais variantes em relação ao que terá sido o vírus inicial?
Sim, eu penso que sim. É perfeitamente lógico esperar isso, porque desde que o vírus apareceu no final de dezembro na China, nós temos observado uma enormidade de variantes resultantes de um processo de adaptação do vírus ao ser humano. E o processo de adaptação passa precisamente pelo fato de o vírus conseguir acumular as tais mutações, uma palavra que nós usamos muito, que são modificações no seu genoma e que fazem com que ele, eventualmente, se adapte melhor e consiga infectar e transmitir-se melhor. Portanto, esta variante do Reino Unido é apenas um desses exemplos. É um mau exemplo, obviamente. É um mau exemplo no sentido de que em nada nos beneficia, mas outras virão, infelizmente.
Portanto, bom para o vírus, mau para nós, para as comunidades e para as pessoas. De qualquer maneira, se há assim tantas, por que se fala muito desta, agora do Reino Unido, que é a primeira grande variante de que se fala e que obriga até a tomar medidas da parte de muitos países?
Os investigadores conseguem já ter uma ideia de que tipo de mutações, ou melhor, em que locais do vírus é que o aparecimento de mutações pode ser mais prejudicial para nós. Individualmente, quando olhamos para as principais mutações que ocorreram nesta variante do Reino Unido, não há propriamente nada de novo, porque essas mutações, as principais, apareceram já noutras variantes genéticas espalhadas pelos quatro cantos do mundo. O problema é que esta variante do Reino Unido junta todas essas mutações no seu genoma. Portanto, elas ocorrem simultaneamente. E uma dessas variantes, como ouviram dizer já, potencia a ligação às nossas células e portanto, potencia a sua infecção, a sua transmissão. Portanto, quando algumas dessas mutações não são benéficas, obviamente, e são motivo de preocupação e ocorrem simultaneamente numa mesma variante, é normal que ela comece a dar o que falar. E agora está a dar o que falar precisamente pela enorme disseminação que está a ter.
E quando dá que falar, já percebemos, o risco de transmissão é maior. Pode evoluir para quê? Na prática, onde é que isto nos pode levar? A um novo coronavírus?
Não. Nunca estamos a falar de um novo coronavírus, porque se olharmos para o número de mutações que esta variante tem, não é nada de extraordinário. É talvez um pouquinho mais do que o normal, mas não é nada de extraordinário. Portanto, outras variantes apareceram também já com o número de mutações superior ao expectável. Mas quando nós falamos em termos médios, isto não é nada de extraordinário. Em termos clínicos, até agora não há grandes novidades e, portanto, não nos parece que ela origine um grau de severidade de doença mais elevado. Portanto, por aí, aparentemente, estamos bem. Em termos da sua disseminação, eu penso que há que controlar as cadeias de transmissão e, acima de tudo, tentar evitar novas introduções nos países onde ela não entrou ainda. Portanto, não estamos a falar num novo coronavírus, estamos a falar apenas numa das variantes com que este novo coronavírus se mostra.
E esse é um cenário realista, essa tentativa de impedir que este vírus chegue a países onde ainda não está? Por exemplo, temos garantias que em Portugal já não ande por aí, sem ter sido ainda identificado de alguma maneira?
Não, nós não temos garantias. O Instituto Ricardo Jorge, em colaboração com o Instituto Gulbenkian Ciência, fez agora um breve rastreio, digamos assim, muito focado no mês de novembro. E com uma amostragem razoável, conseguimos amostras de 113 concelhos de todo o país e, portanto, com uma representatividade muito boa. E não encontrámos nessa amostragem qualquer indício de que a variante esteja a circular. Naturalmente que isto não é definitivo e se essa amostragem fosse maior, talvez a encontrássemos, não sei. Portanto, não podemos assegurar. Asseguramos apenas que ainda não foi detetada, o que é bom, naturalmente, é uma boa notícia. Agora, é muito difícil imaginar que ela não esteja muito mais espalhada e por mais países, obviamente, do que aquilo que tem sido noticiado.
E que inevitavelmente chegará a Portugal.
Ou chegará a Portugal ou poderá já cá estar e não ter sido ainda detetada. É normal que agora comece a existir um controlo de fronteiras a nível de testagem, etc. E isso vai ser na tentativa de ela não entrar. Agora, se já entrou, é possível que tenha originado já algumas cadeias de transmissão. E se isso aconteceu, nós vamos com certeza durante as próximas semanas ter esses resultados e vamos detetá-las.
Vamos perceber isso então. João Paulo Gomes, a letalidade desta variante, segundo aquilo que se sabe, não é superior, mas é muito mais transmissível. Isso significa que as regras que temos em vigor, que devem obviamente ser respeitadas, são suficientes e não devem ser alteradas em função desta nova informação, desta nova variante?
Sim, eu penso que nada deve mudar se as regras forem cumpridas. Se nós tivermos consciência daquilo que devemos fazer e continuarmos a proteger-nos, a nós próprios e aos outros, eu penso que não há razão para fazer modificações. O que significa uma maior transmissão, eventualmente, é o traduzir-se numa... Ou seja, menos vírus são capazes de se passar de pessoa para pessoa, enquanto numa outra variante é necessário, eventualmente, uma maior quantidade de vírus para que isso aconteça. Agora, não vamos imaginar que esta variante passa a barreira da máscara e os outros não passam. Não vamos por aí. Portanto, penso que relativamente a isso podemos estar descansados. Vamos continuar a proteger-nos e se isso acontecer, o grau de proteção será exatamente o mesmo.
Há uma outra preocupação de que se tem falado muito em relação a esta variante e que tem a ver com a eficácia da vacina ou das vacinas que estão a começar a ser administradas. O que lhe parece que pode acontecer? Há cautela em relação aos efeitos na prática, o que lhe parece? Que riscos é que ganhamos com isto?
Esta preocupação vem do fato de uma dessas mutações que aparece, que caracteriza esta variante, ocorre num sítio muito específico do vírus, que é precisamente um dos locais onde os nossos anticorpos se ligam. Portanto, é normal que a comunidade científica tenha alguma preocupação, porque é perfeitamente normal imaginar que se alguns anticorpos deixam de reconhecer aquele sítio, deixam de se poder ligar, vamos então especular que a eficácia da vacina poderá estar comprometida. No entanto, há algum alarmismo aqui no meio disto tudo, porque nós não nos podemos esquecer que a imunidade, que é gerada pela infecção natural, bem como a imunidade que é gerada pela vacina, implica vários tipos de resposta imunitária. E uma delas, aquela que estamos a falar agora, os anticorpos, são anticorpos criados contra muitos locais do vírus, não apenas contra este. E, portanto, mesmo que este ficasse comprometido, algo que, atenção, ainda não sabemos, não há dados experimentais que comprovem de que este local fica completamente comprometido. Mas mesmo que isso acontecesse, nós teríamos anticorpos que irão reconhecer e irão ligar-se a muitos outros locais do vírus. E portanto, sejamos otimistas, não penso que haja grandes razões para alarme agora e cremos que a eficácia da vacina não seja comprometida.
E a BioNtech, que é parceira da Pfizer numa das vacinas que estão a chegar ao mercado, também já disse que demora seis semanas a alterar as vacinas, e corrijam-me se eu estiver errado nesta formulação, mas a adaptar as vacinas a estas novas variantes. Isto permite que a resposta da comunidade científica seja muito mais rápida agora?
Eu não sei se demora seis semanas ou se demora mais. Eventualmente, nalguns tipos de vacinas, até poderá demorar mais. Mas imaginar a necessidade de uma alteração de uma vacina, de uma modificação de uma vacina agora, parece-me muito precoce. Como lhe disse há pouco, a vacina é algo muito complexo, gera uma resposta imunitária da nossa parte muito complexa também e muito completa. Esta mutaçãozinha aqui vem apenas perigar uma fração ínfima de todo esse sistema e, portanto, não penso que haja razão para alarme. E como lhe disse há pouco, nós, em laboratório, ou seja, quem está a fazer isso, investigadores britânicos, em laboratório não conseguiram ainda sequer demonstrar, quando colocam esta nova variante em contacto com uma série de anticorpos, que essa reatividade seja claramente diminuída. Portanto, isso não foi ainda demonstrado. Contrariamente ao que foi demonstrado há um ou dois meses, quando aquela variante associada às martas da Dinamarca apareceu. Eles aí conseguiram provar que parecia haver uma diminuição da ligação dos anticorpos a essa variante, o que gerou logo uma enorme preocupação. E só não foi mais preocupante porque essa variante da Dinamarca estava pouco disseminada, estava muito associada aos trabalhadores que ligavam diretamente com as martas. Neste caso, esses estudos ainda não foram feitos e, portanto, tudo não passa de especulação. Devemos estar preocupados, naturalmente, mas com muita prudência. E penso que os resultados experimentais em breve dirão se a preocupação é justificada ou não.
João Paulo Gomes, a comunidade científica ainda está, de facto, a aprender e a conhecer o vírus. E pergunto se aquilo que aconteceu com a variante identificada em Ovar, a variante deste vírus, que foi responsável, no início da pandemia, por mais de um quarto dos contágios em Portugal, segundo li. Se, de alguma forma, o que aconteceu em Ovar pode ser comparável com esta nova variante que foi identificada em Londres e no sul de Inglaterra. Podemos estar perante uma situação semelhante?
É curioso que faça essa pergunta, porque, de facto, a situação é idêntica em termos epidemiológicos. O que nós observamos na zona norte e centro, no início da epidemia em Portugal, foi rigorosamente a mesma coisa que os britânicos agora estão a observar no sul de Inglaterra. Ou seja, esta variante entrou vinda de Itália, a nossa, vamos chamar de nossa, entrou vinda de Itália, no final de fevereiro, na zona norte e centro, e foi aumentando de frequência diariamente. E o que nós observamos é que, enquanto que ali em meio de março, ela representava apenas uma pequenina proporção dos casos, no final de abril, ela representava cerca de um quarto de todas as infecções Covid-19 em Portugal. Foi precisamente isso que os britânicos observaram relativamente a esta variante do UK. Portanto, a nossa variante portuguesa tinha também uma vantagem muitíssimo grande quando comparada com as outras. Ela não deu, se assim podemos dizer, tanto que falar em termos de comunidade científica, apesar de, atenção, ter sido detetada noutros países também. Mas ela não tinha o tal coquetel de mutações que faziam perigar, digamos assim, eventualmente a saúde humana e a saúde pública. Apesar de uma mutação ser na tal proteína que se liga às nossas células e que faz com que sejamos infectados. Ela tinha uma mutação muito importante, enquanto que esta variante UK junta no mesmo genoma várias dessas mutações.
No caso concreto de Ovar, foi criada uma cerca sanitária à cidade. O que aconteceu a essa variante do coronavírus? Desapareceu? Perdeu impacto, força e perigo? Como é que evoluiu?
Penso que claramente tenham sido as medidas de saúde pública que tenham estrangulado a sua disseminação, porque as medidas tomadas na altura foram muito agressivas. Não as vou chamar de atempadas, porque obviamente as medidas são sempre atrasadas. Nós vamos sempre aprendendo e, portanto, não podemos agir como gostaríamos. Mas de facto, se se lembram, nessa altura, havia limitação de circulação entre concelhos. Ovar, que foi o principal concelho atingido, foi sujeito a uma cerca sanitária e portanto, houve ali um estrangulamento e ela não teve possibilidade de disseminar para o resto do país. Foi de facto algo muito interessante, mas é através da tomada deste tipo de medidas que nós temos que perceber porque é que os países de vez em quando são tão rígidos a tomar determinadas medidas e que agora nesta variante UK, estão a fazer rigorosamente o mesmo. Só assim nós conseguimos estrangular a sua disseminação. Não há outra forma.
João Paulo Gomes, e para perceber um pouco como é que isso funciona, nesse caso concreto de Ovar, essas medidas mais apertadas de cerca sanitária foram tomadas com esse conhecimento já da comunidade científica, de que estaríamos perante uma nova variante, ou esse conhecimento foi tido a posteriori, através das investigações dos cientistas?
Não, de facto esse conhecimento foi tido a posteriori. Houve aqui uma atuação imediata das autoridades de saúde pela mera observação de que estava a circular um vírus com elevada taxa de transmissão e, portanto, a afetar comunidades inteiras. Nessa perspetiva, como medida, não a vou chamar de preventiva, porque já não era preventiva, obviamente. Preventiva é na medida de evitar novas infeções. Essas medidas foram tomadas, mas nós não sabíamos, na altura, o que se estava a passar e que estávamos a ser assolados pela disseminação de uma variante genética em particular. Este estudo saiu bastante mais tarde. Foi um estudo retrospetivo, mas não deixa de ser curioso. Ou seja, nós percebemos agora o porquê da situação que vivemos em março/abril.
Isto vai ser uma constante nos próximos meses? É expectável que apareçam novas variantes que representem desafios diferentes para todos, para a comunidade, para os cientistas?
Infelizmente, é isso que nos espera. Como lhe disse no início da intervenção, o vírus está sempre a modificar-se, está sempre a adaptar-se e os vírus melhor adaptados serão aqueles que mais facilmente serão transmitidos e portanto, infelizmente, outras surgirão também com novas combinações de mutações, não só combinações de mutações que envolvem algumas que o tornem mais transmissível, como também outras que fazem com que o nosso sistema imunitário eventualmente fique um pouco mais débil, não consiga reagir tanto como nós gostaríamos. Portanto, é normal. Nós temos é que atuar rapidamente e saber lidar com isso. E a melhor forma de lidar com isso é diminuição do número de casos. Nada mais do que isso, porque nós não podemos modificar os vírus que aparecem. Não é possível, não é essa a forma de o combater. A forma de o combater é evitar que ele entre no país e, se ele entrou, evitar que ele se propague. E se evitarmos que ele se propague, ele acaba por desaparecer, tal como a variante portuguesa acabou por desaparecer.
Estamos num século marcado por uma enorme mobilidade de todos os habitantes da Terra e, portanto, será mais difícil. E é isso, João Paulo Gomes, que gostávamos de perceber. Na história das epidemias, já houve várias. O que acontece ao vírus? Como é que ele desaparece? Como é que a humanidade ultrapassa esse desafio?
Olhe, alguns vírus não desaparecem, tornam-se aquilo que nós chamamos endêmicos. Tornam-se sazonais. Temos o vírus da gripe, que é um vírus sazonal. Eventualmente, este coronavírus poder-se-á tornar sazonal também e, portanto, no inverno, nas alturas em que há alguma debilidade em termos do sistema imunitário, ele poderá aparecer novamente. O que acontece à maior parte dos vírus que caracterizam algumas das epidemias, é que muitas vezes nós conseguimos vacinar a população, criar uma imunidade de grupo, o que faz com que ele depois não tenha a oportunidade de arranjar pessoas que infecte. Porque quando nós temos uma imunidade de grupo, nós protegemo-nos a nós próprios e ao protegemo-nos a nós próprios, significa que se tivermos um contacto futuro com esse vírus, não é possível passarmos esse vírus a uma pessoa que nem sequer esteja protegida, porque nós próprios não fomos infetados. É essa a grande importância da imunidade de grupo e que muitas pessoas não percebem. E quando as pessoas não querem vacinar-se, porque acham que podem ter efeitos secundários, estão a pensar muito em si próprios e não estão a pensar no outro. A grande importância da imunidade de grupo criada pelas vacinas, e é com as vacinas que nós eliminamos muitos vírus perigosos, vírus e bactérias que foram aparecendo na história da humanidade, é precisamente para nós criarmos defesas, os anticorpos são uma delas, contra qualquer futuro contacto que possamos ter, para nos protegermos a nós e para protegermos quem, de alguma forma, não está protegido. É um conceito muito importante e tenho muita pena que haja tantas pessoas ainda contra o processo de vacinação.
A imunidade do grupo é então o grande objetivo, a grande meta para vencermos isto. Estamos muito longe disso, neste caso concreto, ainda?
É tudo uma questão de tempo. Há que ter confiança, obviamente, nos timings do processo de vacinação, mas não é fácil que os timings sejam cumpridos. Vamos ouvindo notícias de atrasos na entrega, de problemas na produção, mas não penso que esteja a correr mal, penso que está a correr razoavelmente. A imunidade de grupo será atingida quando, neste caso em particular, 50, 60, 70% da população estiver imunizada. Não é vacinada, porque repare que nós já temos uma boa percentagem da população que está imunizada através da infeção natural. Portanto, é sempre muito difícil especular quanto à imunidade de grupo. Ela vai sendo atingida aos poucos. Não tenhamos é dúvidas que mesmo quando apenas 15% ou 20% da população estiver vacinada, já temos alguma imunidade de grupo e, portanto, a probabilidade das transmissões ocorrerem ao ritmo que estão a ocorrer agora, é naturalmente muito mais baixa.
João Paulo Gomes é responsável pelo Departamento de Doenças Infecciosas do Instituto Ricardo Jorge, esteve conosco esta manhã no "Direto ao Assunto". João Paulo Gomes, muito obrigado por estes esclarecimentos e bom dia.
Bom dia, obrigado. Foi um prazer.
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