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Já arrancaram os debates entre os líderes partidários. Pedro Nuno Santos já se estreou e apesar de estarmos todos de olho nas legislativas, a crise política na Madeira e o desfecho eleitoral nos Açores também estão a ser acompanhados com intensidade. Também aqui no "Direto ao Assunto", hoje contamos com a socialista e ex-candidata presidencial, Ana Gomes. Bem-vinda.

Olá, boa tarde.

Ana Gomes, defendeu hoje ao público que o PS deve fazer tudo para impedir que o Chega entre para o governo nos Açores, para não normalizar o partido de André Ventura, nem deixá-lo engordar enquanto principal força de oposição. Se nas eleições legislativas os resultados forem parecidos às regionais dos Açores, para si deve valer o mesmo o PS viabilizar um executivo de maioria relativa da AD?

Eu acho que essa é uma questão que só se pode equacionar depois de se conhecerem os resultados das próximas eleições.

Mas a minha pergunta foi se os resultados forem semelhantes.

Eu acho que tudo depende dos resultados, tudo depende da possibilidade de haver uma maioria que governe com estabilidade. Esse é um elemento importante para os portugueses. Portanto, só perante as possibilidades de se constituir uma ou várias maiorias é que o PS e as outras forças políticas se poderão, e deverão, pronunciar no sentido de alianças possíveis. Isso independentemente daquelas que eles entendam antes declarar, como é óbvio. Mas em termos de impor uma cerca sanitária à nossa democracia, eu penso que só nessa altura é que com precisão se poderá ver face aos resultados. A questão é esta, e isto aplica-se desde já aos Açores: eu penso que é da responsabilidade das forças democráticas, como é o PS, nada fazer para normalizar forças que são por natureza antidemocráticas, independentemente de terem respaldo eleitoral, mas que querem destruir a democracia, querem entrar para as instituições da democracia e para o governo para destruir a democracia. Isto não é novo na história. Estamos a vê-lo de novo, não apenas no nosso país, mas noutros países. E, portanto, não devemos fazer nada, nem para engordar essas forças enquanto estão na oposição, nem para as normalizar, deixando entrá-las para os governos. E é nessa perspectiva que eu penso que o PS poderia considerar, de facto, viabilizar, pela abstenção, um governo dos Açores, desde que houvesse um claro compromisso por parte da AD nos Açores de que não governaria, que não faria qualquer tipo de aliança com o Chega. Ora, infelizmente, esse compromisso não existe, não está aí. Uma coisa é o que disse Luís Montenegro, outra coisa é aquilo que aparentemente está a fazer Bulieiro. Aliás, semelhante ao que ele já fez em 2020, onde para ir para o poder, fez aquilo que agora critica, uma coligação negativa, justamente com o Chega.

Ana Gomes tem recusado divisões no PS sobre este tema dos Açores, até porque a autonomia dá ao partido o poder de decisão, mas há sempre aqui uma leitura nacional. Não concorda que o que for decidido nos Açores vai sempre acabar por condicionar o rumo das legislativas e também as satisfações que os partidos têm de dar aos eleitores?

Não, acho que o que se passa nos Açores tem que ser decidido pelos açorianos e concretamente pelo PS. Eu expressei esta minha opinião, mas também disse claramente que é ao PS Açores que compete decidir. E portanto, expressei a minha opinião do que poderia ser um raciocínio do PS Açores, se de facto houvesse o compromisso da parte de Bulieiro de excluir conversações com o Chega. Infelizmente, as últimas notícias não indicam isso, pelo contrário. Mas o que é dos Açores, fica nos Açores, porque é evidente que os resultados nos Açores têm muito a ver com o efeito que é típico dos Açores do incumbente.

Mas disse há pouco, Ana Gomes, que uma coisa era o que Luís Montenegro dizia, outra coisa é o que se passa nos Açores. Acredita que Luís Montenegro pode eventualmente faltar à palavra ou não em relação ao não é não que traçou frente ao Chega?

Eu não estou a dizer que seja Luís Montenegro que não está a fazer o que indicou, mas é aquilo que pelos vistos Bulieiro está a fazer. Temos notícias até de hoje, de elementos do resto do Chega, a dizer que estão em conversações informais.

Mas se até dá o benefício da dúvida a Luís Montenegro, por que não diz claramente que o PS deve viabilizar um governo da AD, caso os resultados sejam parecidos?

Nós estamos a tratar dos Açores neste momento, e a questão dos Açores não está arrumada. Eu até imagino que ela possa não ser arrumada calculisticamente antes de 10 de março. Porque a verdade é que Bulieiro está a falar com todos e isso inclui o Chega, é o próprio Chega que o confirma. E, portanto, não estou a ver indícios de que Bulieiro aceite o compromisso de excluir o Chega Compromisso que seria essencial para o PS poder considerar a possibilidade de viabilização de um governo de maioria relativa através da abstenção, porque obviamente nunca se poria a questão do PS apoiar um governo da AD, até porque os programas são completamente incompatíveis nos Açores. Agora, nos Açores há um efeito que não se verifica na República: o efeito do incumbente. Eu estou convencida que boa parte dos resultados que o Bulieiro obteve nos Açores resultam do fato de ser governo. Não era assim em 2020, mas agora Bulieiro era governo. Na República, os principais candidatos dos dois principais partidos, PSD e AD, não eram antes primeiros-ministros. Não vêm de primeiros-ministros. E portanto, há aqui um fator diferenciador do que se passa na República em relação ao que se passa nos Açores.

Mas na sondagem que ontem foi divulgada, o PS surge com 28% dos votos, atrás da AD, sendo que com a margem de erro ainda estamos no empate técnico. O Pedro Nuno Santos, que viu ontem no primeiro debate com Rui Rocha, da Iniciativa Liberal, vai conseguir descolar da imagem de ministro que tem uma corresponsabilidade no estado da habitação, uma área que tutelava, e do SNS, por ter feito parte do governo?

Eu acho que a imagem mais forte e mais relevante para a avaliação dos portugueses que Pedro Nuno tem, é a imagem relacionada com a TAP e com a ferrovia, onde ele fez diferença e, na minha opinião, positiva. Muito importante vai ser o esclarecimento da opinião pública neste mês que ainda resta. E eu esperava e espero que os debates sejam esclarecedores, embora o formato de fato não seja muito benéfico, porque em meia hora dá para uma troca de soundbites, não dá para explicar as políticas de cada um. Mas eu espero que haja oportunidades para serem explicadas as políticas e as propostas do PS. Aliás, o programa do PS ainda nem saiu, e portanto espero que quando ele sair, possa ser mais claro, mais preciso e mais facilmente compreensível para os portugueses o que está em causa. Portanto, eu não estou preocupada com as sondagens. Eu sei muito bem que as sondagens são um indicador. Já muitas vezes demonstraram errar, são indicador do momento.

Erraram nos Açores, por exemplo. Por exemplo, nos Açores davam uma vitória ao PS que acabou por não se verificar as sondagens.

Exatamente. Portanto, eu não sou das fanáticas das sondagens, e que passa a vida a gastar o meu tempo a analisar sondagens, devo dizer. Acho que são um indicador de um retrato de um momento, mas que pode alterar-se, como muita coisa pode acontecer neste prazo de um mês, que ainda temos pela frente mais de um mês até ao dia 10 de março, e suponho que há bastante tempo para os portugueses conhecerem melhor as principais propostas que estão em causa. E não há dúvida que se os portugueses querem votar útil e impedir forças antidemocracia, como o chega de chegarem ao poder, sem dúvida que têm que pensar estrategicamente em como utilizar o seu voto e, do meu ponto de vista, o voto que conta é o voto no PS.

Pedro Nuno Santos, aliás, hoje disse que Luís Montenegro não tem alternativa para governar. Se ficar em segundo, como afirmou, não irá formar governo e também não se irá coligar com o Chega. Pedro Nuno Santos diz que então não há hipótese de governar. E quais são as hipóteses de o PS governar sem maioria absoluta?

Bom, vamos ver, tudo depende dos resultados, naturalmente. E o PS, espero, juntamente com outras forças de esquerda, tenham votos suficientes para fazer uma coligação que governe. Foi o Luís Montenegro, ele próprio, que excluiu a possibilidade de governar com o Chega. E bem, do meu ponto de vista, fez bem, porque se as sondagens então servem para alguma coisa, elas também indicam que a grande maioria da base eleitoral do próprio PSD e da AD não quer coligações com o Chega. Mas é verdade que haverá setores da AD para quem o estar no poder é o fundamental. E, portanto, isso poderá implicar que Montenegro saia de cena e que haverá uma outra figura, um Sebastião, tipo Vasco Coelho, que sai de fora de cena para assumir as rédeas e fazer a coligação com o Chega. Esse risco é real e os portugueses têm que estar bem conscientes dele.

Mas em que é que Pedro Nuno Santos dá mais garantias de estabilidade, se é um ministro que vem de um governo que ruiu e que teve uma maioria absoluta?

Sim, eu fui uma das socialistas.

Isto porque, digo-lhe só porque Pedro Nuno Santos afastou hoje o cenário de maioria absoluta de qualquer um dos dois grandes partidos e, portanto, essa questão da governabilidade põe-se tanto do lado do PSD como do lado do PS.

Eu não vejo ninguém minimamente sério a pôr a possibilidade de uma maioria absoluta de qualquer partido, obviamente.

Mas como é que um PS vindo de uma maioria absoluta dá mais garantias de estabilidade?

Até porque os portugueses vêm justamente de uma experiência de maioria absoluta que não deu estabilidade.

O PS é melhor a governar sem serem maioria absoluta.

Eu acho que sim Eu acho que o PS, quando teve que concertar posições com os parceiros na geringonça, e ter mais abertura até para outras forças políticas, incluindo para o próprio PSD, porque há obviamente questões onde os consensos têm que ser mais alargados. Por exemplo, a questão essencial da reforma da Justiça. É evidente que essa era uma das áreas onde o PS devia ter procurado um consenso o mais alargado possível, sabendo o que queria, mas estando disponível, por exemplo, para se concertar com Rui Rio, como de resto Rui Rio ofereceu. Foi um erro que o PS e que o país hoje paga caro, não ter feito essa reforma da Justiça.

E Ana Gomes está aqui a falar também de uma eventual reedição da geringonça, mas não deveria Pedro Nuno Santos responder ao desafio do Bloco de Esquerda de negociar um novo acordo com medidas e já antes das eleições haver aqui alguma clarificação sobre o pós-eleições para entendimentos?

Acho que é mais importante cada partido ir com o seu próprio programa, e certamente, e nesse aspecto, o Bloco já apresentou, e o PC também, os seus próprios programas, e o PS espera-se que apresente, e que depois, em face dos resultados, concertem, e penso que será importante e útil haver um acordo escrito posterior ao ato eleitoral, onde fique concertado qual é o programa do governo, naturalmente retirado daquilo onde haja coincidência ou onde seja possível a coincidência dos partidos que integrem uma coligação para governar com estabilidade.

O Bloco de Esquerda diz que só há acordo se for mesmo escrito, que se não é só conversa, não é transparente.

Exatamente. Eu acho que a experiência de outros países mostra que vale a pena perder algum tempo a escrever esse acordo. Foi também a existência de acordos escritos no tempo da geringonça que deu estabilidade à geringonça. Daí que os portugueses tenham boa memória do que foi a geringonça e é perfeitamente possível reeditá-la com novas características, naturalmente. Até porque se aprendeu, todos aprenderam com a experiência, houve evoluções em diversas áreas e eu penso que Pedro Nuno Santos, tendo sido o motor principal da geringonça, o principal negociador com o Bloco e com o PC, tem hoje uma experiência acrescida que nos dá a todos maiores garantias de que ele possa efetivamente fazer funcionar um governo que procure essa consensualização permanente, que é isso que efetivamente dá consistência e estabilidade à governação.

Ana Gomes, estamos a chegar ao fim da nossa entrevista. Já esteve na corrida a Belém. Marcelo Rebelo de Sousa devia dizer o que pretende fazer depois de 24 de março em relação à Madeira?

Olhe, eu hoje via muitas críticas justas em relação às baixas fraudulentas de agentes das polícias. Mecanismo que, de resto, diminui a justiça da luta deles. E alguém fazia a comparação com o Presidente da República, dá a sensação que também meteu baixa. Ele que falava tanto e sobre tudo e mais alguma coisa nos últimos tempos e com vários problemas sociais, como inclusivamente este dos polícias, ele já podia e devia ter se pronunciado. E sim, em relação à Madeira, aos Açores, em particular, e à Madeira também, mas em particular em relação aos Açores, ele deveria falar no sentido de deixar claro que não viabilizará aquilo que viabilizou em 2020 com grande dano e como eu, de resto, denunciei, que foi exatamente o acordo parlamentar com o Chega que sustentou o governo de Bulieiro.

Ana Gomes, muito obrigada por ter vindo ao "Direto ao Assunto" aqui na tarde política da Rádio Observador.