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A polêmica nasceu da pergunta que deu título à palestra de uma investigadora cabo-verdiana nos Estados Unidos: "Os Maias, de Eça de Queiroz, é um romance racista?" É isso que procuramos responder neste Nem 8, Nem 80, com o escritor e antigo secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, e o vice-presidente da Associação de Professores de Português, Luís Filipe Redes. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira, e este debate será conduzido também pelo Miguel Pinheiro.

Luís Filipe Redes, podemos começar por você e ir direto ao ponto. Há passagens racistas n'Os Maias?

Sem dúvida que há passagens que têm uma linguagem racista.

É diferente, não é? As duas coisas são, ou é a mesma coisa?

São coisas diferentes. É improvável que qualquer um de nós, de todas as pessoas de 60 anos, que não tenham tido, num determinado momento da sua vida, nomeadamente eu, que vivi em Moçambique, por exemplo, expressões que agora seriam consideradas racistas. Portanto, é nesse sentido que nós dizemos que há passagens racistas n'Os Maias. Eu gostaria só de, em primeiro lugar, agradecer o convite para estar aqui a falar com pessoas tão importantes na nossa cultura, como é o caso do Francisco José Viegas. É uma oportunidade que o observador dá à APP, eu sou vice-presidente da APP, e gostaria só de chamar a atenção para o que nós não queríamos dizer. Eu, em nome da APP. Nós não queremos, de maneira nenhuma, passar a ideia de que o romance deve ser revisto ou, sequer, deve ser objeto de qualquer precaução. O que nós concordamos em relação à proposta de tese dessa doutoranda, é reconhecer que, de fato, há passagens racistas n'Os Maias, mas que da nossa parte não implicam nenhuma revisão ou nenhuma nota pedagógica, sequer. Tudo o que se implica para nós é apenas leitura. Leitura deve ter consciência disso, como de outras coisas. Isto é, o romance tem que ser contextualizado no século XIX.

Já vamos à questão da nota de contexto ou da nota pedagógica. Francisco José Viegas, para si, este ponto também é evidente, o de existirem passagens racistas n'Os Maias?

Bom dia, Miguel Pinheiro. Bom dia também à Sara Antunes de Oliveira e saudação também especial para o professor Luís Filipe Redes. Não, não é evidente. Não me parece que exista um problema de racismo n'Os Maias, nem na linguagem. Quando nós falamos linguagem racista, é preciso que exista uma representação racista. E, portanto, o que a aluna que está fazendo seu doutoramento em Dartmouth, Cristiana, é a natureza racista dos Maias. E aquilo que todos nós podemos ler numa peça da Lusa, que o Observador também transcreveu, e portanto, foi basicamente através daí que nós podemos ter acesso à argumentação dessa investigadora, da Vanusa, é que ela pretende fazer uma investigação sobre a linguagem racista dos Maias. Ora, eu acho que é inteiramente legítima uma investigação sobre a representação racial nos Maias. Já uma análise do racismo e da linguagem racista é deslocada e é desleal. É desleal porque nós devemos ter um dever de lealdade para com uma obra. E até ao primeiro quartel do século XX, o conceito de racismo não existia como nós o vemos hoje. O professor Luís Filipe mencionou a sua passagem por Moçambique e, de fato, da existência de um léxico de expressões comuns, vulgares, que todos nós conhecemos, e que hoje são impossíveis. Nós avançamos passo a passo. Não é só o desconfinamento, é gota a gota que nós fazemos avanços e alteramos o nosso ponto de vista sobre a sociedade, sobre a linguagem. Nós não podemos interrogar um autor ou uma obra sobre aquilo que ela não menciona. Ou seja, não podemos interrogar um autor do século XIX sobre o racismo ou a ideia do racismo que é construída, como nós a temos hoje, depois da Segunda Guerra. Isso significaria que nós iríamos ter que questionar o Miguel de Cervantes ou o Homero sobre o belicismo, o Shakespeare sobre o racismo do Otelo. Quer dizer, eu acho que podemos questionar sobre essa linguagem, mas no caso do Eça, eu falaria de uma representação racial, porque ela existe, mas não podemos fazer aquilo que a investigadora cabo-verdiana queria fazer, que é uma espécie de reparação histórica com base no que gostaríamos que um autor tivesse dito há 100 ou há 200 anos. Especificamente no caso dos Maias, não existe uma marca de racismo, a não ser exatamente nas passagens mais irônicas do João da Ega.

Uma das questões levantadas pela investigadora tem a ver especificamente com João da Ega, mas com algumas coisas específicas, nós também já lá iremos. Luís Filipe Redes, a Agência Lusa falou em preconceitos raciais presentes em Os Maias e noutros textos de Eça. O racismo passa a ser um problema ou uma questão num romance ou num autor, quando há um personagem que faz comentários racistas?

Sim, vamos lá ver. O Eça é realista, tenta apanhar o discurso que existe na sociedade do seu tempo. E nesse sentido, estou de acordo com o Francisco José Viegas. O racismo, tal como está enunciado, é uma questão contemporânea e nós estamos a tentar transpor para uma época uma questão que é do nosso tempo. Agora, lido no nosso tempo, os nossos alunos jovens leem no nosso tempo e apanham expressões que são desse tempo, que são de outro tempo, mas a capacidade de leitura deles não está afinada para essa transposição. Portanto, ele tinha que se situar no século XIX e esse trabalho é um trabalho que o professor tem que fazer, é isso que nós dizemos. Portanto, é preciso ter consciência de que no final do século XIX, aqui há, de facto, uma referência que hoje não são aceitáveis. A carapinha do preto, quando o narrador se refere à carapinha do preto, se refere a uma pessoa como sendo um preto que estava ali, um esplêndido preto, por exemplo. Essas referências no discurso narrativo são hoje inaceitáveis, mas eram perfeitamente aceitáveis no século XIX. Porque a questão que se punha no final do século XIX era a luta contra a escravatura. Portugal estava a ser acusado de manter a escravatura e continuar a fazer escravatura através do trabalho forçado em São Tomé, por exemplo. E muitas das conversas, a conversa que se passa entre o João da Ega, por exemplo, e um ministro, tem a ver com isso. E a ironia dele tem que ser interpretada. Nessa ironia, ele utiliza material, utiliza expressões que são racistas, por exemplo, um estereótipo comum do século XIX é a desconfiança em relação ao preto que já era civilizado. Quando ele refere um preto a ler um jornal como sendo um falso civilizado, essa ideia compreende-se como sendo o mesmo que se passaria com os portugueses em relação aos ingleses. E esse é o sentido da ironia do João da Ega. É uma ironia bastante...

Esses exemplos que estão a dar, nós também podemos juntar outros, segundo o que dizia, aliás, Vanusa Veras Cruz Lima, há uma associação recorrente entre a cor preta e a escuridão, ideias ou sentimentos negativos. Pedro da Maia, por exemplo, tem crises de melancolia negra. Mas, Luís Filipe Redes, isto é racismo ou são só figuras de estilo?

Não, eu aí não concordo, porque nós temos nódoas negras. Eu acho que essa leitura é abusiva. Essa leitura é perfeitamente abusiva.

E mesmo a ironia de que falava há pouco?

Na ironia de que eu falei, há uma ironia evidente, que está interpretada no próprio texto, porque nós sabemos que o João da Ega é contra o tráfico de escravos desde o princípio, é defensor do desenvolvimento de Portugal, é urbano, e o que ele está a dizer é exatamente o contrário a esse ministro. Está a dizer exatamente o contrário daquilo que ele pensa. E no próprio texto, isso é desfeito, é interpretado, ao dizerem que o João da Ega gosta muito de paradoxos. A questão, o material que ele utiliza na construção dessa ironia. Ele utiliza a imagem do preto a ler o jornal, como sendo uma imagem do que ele achava que era o português em relação aos ingleses. Essa é a leitura que eu estou a fazer, pode ser discutida, claro.

E Francisco José Viegas, no Twitter comentou a posição da Associação de Professores de Português e disse que era preciso distinguir a ironia da antonomásia, da catacrese. Mas aqui um dos pontos é: o chapéu das figuras de estilo serve para tudo e torna a literatura inquestionável, ou não?

Torna a literatura certamente inquestionável. Por um motivo essencial, quer dizer, essa utilização que a doutora Vanusa faz das figuras de estilo, que, aliás, o professor Redes mencionou, nós temos nódoas negras, quer dizer, isso não é absolutamente uma marca de racismo. Essa utilização é abusiva, é ridícula e, do ponto de vista da intenção política, é abjeta. Dá-nos vontade de rir, porque existe o negro, existe o rosa, existe o branco, existem sonhos cor-de-rosa, tal como existem sonhos negros, como existe buraco negro. Quer dizer, não tem sentido, do ponto de vista da nossa língua, não tem sentido fazer essa marca.

Apesar de tudo, há uma ligeira distinção, é que as nódoas são mesmo negras, mas a melancolia não tem cor. A associação da melancolia à cor negra já é um salto de

Sim, eu percebo, mas o que nos ensina a história da língua, a filologia e a história dos significados da nossa língua é que vamos construindo uma linguagem, um conjunto de referências. Se nós, com o andar do tempo, chegarmos à conclusão que não é decente, do ponto de vista humano, dizermos "pensamentos negros" e passarmos a dizer "pensamentos brancos", é uma evolução natural da sociedade. O que não podemos é, com as lunetas de agora, para retomar uma expressão keynesiana, ou com a luneta do Eça de há 100 anos, analisar os reflexos racistas. Porque, a certa altura, eu fui levado a reler mais uma vez "Os Maias", que eu acho que é o livro que eu mais li na minha vida. O João da Eça gosta dos caracóis negros. Quando há olhos negros, há uma referência aos olhos negros. Isto é racismo? Não parece. Isto dá vontade até de rir. Eu acho que aqui o que nós temos é uma polêmica de abertura. É uma espécie de abertura do pórtico para a revisão do estatuto de uma série de autores da nossa língua. Isto começou há tempos com o António Vieira, que foi acusado de ser um representante do colonialismo, e Eça, o Pessoa, o Camões e o Camilo são objeto também dessa releitura. Isso parece-me normal. E no Brasil, inclusive, tem havido uma releitura destes autores, dos autores portugueses, do ponto de vista das relações coloniais e até do seu ponto de vista nacional. No fundo, há muitos investigadores, muitos professores brasileiros que não querem ler os autores portugueses e que não acham que são fundamentais. Eu acho isso normal. Agora, tal como em Vieira, no caso do António Vieira, uma análise histórica simples vai afastar-nos da acusação de colonialismo, tal como nós hoje lemos o colonialismo, em Eça, o problema racial enfrenta desde logo um muro, e esse muro é a sua obra, ainda por cima de sua atitude política. Por exemplo, há inúmeros textos de Eça. Obviamente que o professor Rennes, inclusive, citou o esplêndido preto, que era o criado do suposto marido da Maria Eduarda, ao grilo maravilhoso da Cidade das Serras. É, inclusive, um dos autores que dá maior visibilidade no século XIX aos negros, tal como a pintura portuguesa do século XVI, XVII, era aquela que, em toda a pintura europeia, mais representação dava à população negra na cidade de Lisboa. O Eça tem inclusive textos sobre a China, o Japão, o povo egípcio, a multidão negra do Egito, por exemplo. Eça dá visibilidade aos negros e dá uma visibilidade e também um desejo de justiça. Ele podia não fazer nada disso. Aliás, enquanto cônsul em Havana, o Eça escreve a célebre carta ao ministro Andrade Corvo, que foi um manuscrito perdido durante muito tempo, até que Raul Rêgo o adquiriu e depois foi publicado, há uns tempos, na editora Perspectivas e Realidades, sobre a imigração como fator de civilização. E há também a sua correspondência da época, em que dá conta de como horrorizava aquilo que hoje nós designamos como racismo da época. Independentemente dos jogos de linguagem, independentemente da natureza da ironia, e de fato, quando nós temos o João da Ega, eu permito-me discordar do professor Rennes, porque não sei se todos nós vimos aquela série de televisão, "A Teoria do Big Bang", em que o Sheldon Cooper está sempre a explicar as piadas. Ora, nós não podemos estar permanentemente a explicar as piadas do João da Ega, porque retira a piada, justamente, porque quando ele está em diálogo com o Conde Gouve 琳 ho, o Carlos da Maia, o senhor Sousa Neto. O Sousa Neto que diz coisas de uma enormidade. Ele pergunta, a certa altura, ao Carlos da Maia, se a Inglaterra, onde o Carlos esteve, também há lá literatura, folhetinistas de pulso, e o Carlos, obviamente, diz: "Não, lá não há disso." Nós temos que explicar.

Mas se não fosse piada, Francisco José Viegas, se não fosse piada, neste caso.

Mas é justamente.

Não, mas a pergunta é: se nós tivéssemos um romance só com personagens racistas, em que não houvesse pinga de ironia, isso era um problema?

Eu acho que isso era um problema. Acho que sim, que era um problema.

Então essa literatura já era questionável?

Não. Desculpe, não me fiz entender. Eu acho que isso é um problema, mas há aqui uma outra distinção que temos de fazer. É que um autor, uma obra, não são modelos cívicos, não são exemplos de cidadania responsável. A cidadania da literatura não existe. O bom civismo da literatura não existe. Se um autor deve ser um modelo cívico, eu quero perguntar o que nós fazemos do Balzac, do Baudelaire, do Cervantes, do Poe, do Rousseau, que era um ser humanamente abominável.

Não, certo, mas o ponto é: não temos que extrair uma lição de moral de um romance, necessariamente.

Temos sempre essa tendência, essa tentação de extrair uma lição moral. E hoje em dia, nós estamos a fazer uma releitura da história da nossa literatura, por exemplo, sobre os clássicos. Porque os clássicos são velhos, homens, brancos, e, portanto, os clássicos gregos e latinos. O problema é que nós mudámos, a humanidade mudou E, portanto, aqui houve outra questão que eu gostava de insistir. É que nós não podemos tomar um autor como uma fonte de virtudes cívicas, porque isso levava-nos a perguntar que virtudes cívicas é que existem em Miguel Torga, por exemplo, onde há assassinos, violadores, mentirosos. Em Agustina, onde há seres terríveis que nós podemos dizer: "Esta personagem é mázinha. Esta personagem defende coisas que nós, sendo pessoas sensatas, não podemos defender." Em Pessoa, em Nemésio. Quer dizer, por exemplo, qual é o lugar dos homossexuais em Gil Vicente? Eu acho que o problema do Eça é que ele torna-se um símbolo, na verdade, e a sua obra é um monumento romanesco, mas não é, nem pode ser, um monumento cívico. Longe disso.

Luís Filipe Redes, faz sentido olhar para um romance de 1888 com o olhar e com os valores de hoje?

Não, precisamente, o preciso é ler no tempo.

Mas o lado pedagógico não é isso mesmo? Não é olhar para ele com os valores de hoje?

Não com os valores de hoje, mas perceber que há valores que são progressistas. Eu acho que custa muito compreender, hoje, que o colonialismo foi um movimento progressista no final do século XIX, e que estava a ser discutido nessa altura. O colonialismo era um movimento contra o tráfico de escravos. A ocupação efetiva era pressionada pela necessidade, ideológica, evidentemente, afirmada nesse discurso, de acabar com o tráfico de escravos em África. E Portugal estava a ser acusado, e essa conversa refere essa polêmica.

Mas isso não é precisamente olhar para o romance como um exemplo moral que não está lá.

Não, exato. Não estamos a olhar para o romance, mas estamos a ver o que está lá escrito, só isso, mais nada. Estamos a ler o que está lá escrito. Não temos de olhar de uma determinada maneira, é uma obra de arte, que utiliza material, neste caso, é realista, ainda por cima, portanto que utiliza questões da época, que estão lá, e essas questões têm que ser lidas, é só isso que estou a dizer. Não estou a defender que seja o modelo do que quer que seja. E nesse sentido, o racismo que lá está, só é racismo, como o próprio José Pedro Agra explica muito bem, de acordo com as polémicas do nosso tempo, não de acordo com as polémicas que havia naquele tempo. Naquele tempo, não se falava em racismo, falava-se no tráfico de escravos.

Então, nesse caso, aquilo que eu sugiro é que para sermos honestos em relação ao Eça e em relação ao problema atual do racismo, é que declaremos aqui em uníssono que, de fato, não se trata do racismo em Eça. Há aqui um problema de representação racial, mas a questão do racismo resulta de uma tresleitura, já não é uma desleitura, é uma tresleitura do romance do Eça, de certas passagens do romance do Eça, em que, como disse há pouco, se trata de uma interpretação das ironias do João da Ega. Porque quando, repare, por exemplo, aquele caso que citou da expressão: "um preto de chapéu alto", não é? Era aquela ideia do preto de chapéu alto a ler o jornal de debate. Portanto, aquilo que o Eça diz, que o João da Ega diz, não é o Eça, repare, é importante. Aquilo que o João da Ega diz é importantíssimo e é muito moderno. É a assunção do próprio multiculturalismo. O que ele diz aí, se nós formos então optar por uma leitura literal, eu não tenho aqui os Maia à mão. Ele diz que havia aquela mania francesa de reduzir todas as regiões do mundo ao mesmo tipo de civilização, e, portanto, uma pessoa vai através da África, chega a Tumbuktú e encontra um preto de chapéu alto a ler o jornal de debates. Quer dizer, isto é absolutamente moderno, se nós quisermos, é absolutamente atual. É como se nós quiséssemos que as pessoas de Tumbuktú se comportassem como as pessoas de um boulevard parisiense. E aí ele é completamente moderno. Por outro lado, todas as outras coisas, e eu percebo a sua preocupação pedagógica como professor, eu também já fui professor, mas sobretudo fui estudante. E nunca passou pela nossa cabeça ficarmos a admirar o João da Ega por ele, numa noite em que já estava embalado pela bebida, em que ele diz que a única civilização em que as pessoas puderam viver com comodidade foi New Orleans, porque existia a escravatura absoluta com direito de morte. Portanto, obviamente, não nos passava pela cabeça. Aqui o que está em causa também é uma infantilização dos próprios estudantes, que eu penso que basta uma palavra a dizer: "Meninos, isto é uma ironia, é uma personagem, que ainda por cima mal sai do célebre jantar dos Governos, em conversa amena com o Carlos Maia, des constrói-se todas as suas observações", porque, sinceramente, nós com isto estamos a entrar numa espécie de loucura eufórica. Por exemplo, repare.

E basta mesmo, José Pedro Agas.

Desculpe, é só mesmo dar este exemplo. Desculpe. Saiu agora uma nova edição universitária americana da obra Completa do Emmanuel Kant, do filósofo, e inclui no frontispício, em três linhas, uma nota do editor em que se alerta o leitor para o fato de que há ideias do autor que não são nada recomendáveis hoje em dia. Quer dizer, nós estamos a infantilizar isto. Eu lembro-me que em 1986, não foi há muito tempo, e repare-se, um grupo de intelectuais e professores franceses pediu, isto não foi um abaixo-assinado, foi em primeira página do Libération, que o governo francês, na altura era o Ministério da Igualdade do primeiro governo Mitterrand, que pusesse no index, repare, eu nunca me esqueci disso, toda a obra do Kafka, a Madame Bovary, as Neves de Inamanjaru do Hemingway, o Thomas Hardy e o Baudelaire, por provocação pública e ódio sexista. Eu acho que isto é uma tresleitura dos romances da literatura, pretendendo que eles digam aquilo que nós queremos dizer. E isto é errado, tratando-se ainda por cima o João da Ega, no nosso caso, de um autor de ironia, em que tudo o que ele diz é para ser lido ao contrário.

Mas Francisco José Viegas, basta mesmo essa nota do professor Nalley em que diz: "Atenção, meninos, isto é só ironia." Porque o argumento de Vanusa Vera Cruz Lima é o de que precisamos mesmo de discutir a obra usando as lunetas atuais, porque apesar de o romance ter sido escrito em 1888, diz a investigadora, faz parte da realidade de milhões de alunos espalhados pelo mundo lusofalante em 2021. Este não é um argumento válido?

Olhe, eu já dei aulas, já estive com muitos alunos em Moçambique, em Cabo Verde, no Brasil, etc. E aquilo que eu explicava sempre era que o Eça é, aliás, como lhe chamava o professor Harold Bloom, é um diabrete satírico. É um homem sempre à procura do riso e que ri também, inclusive, dos que o tomam a sério. É como se nós tivéssemos agora que interrogar o Eça, por exemplo. Nós podemos interrogar o Eça de todo o ponto de vista, de qualquer ponto de vista, é essa a sua grande riqueza. Por exemplo, uma das minhas personagens favoritas é a senhora Condessa de Louvarinho, que foi completamente maltratada pelo machismo do Eça. Mas quer dizer, quando nós dizemos do machismo, nós dizemos assim alegremente nesta conversa, mas não podemos, na verdade, usar a expressão "o racista do Eça", sobretudo conhecendo os textos que o Eça escreveu sobre essa matéria, a propósito dos chineses. Reparem, o que ele protestava, o que ele se escandalizava com a forma como eram tratados os chineses, como eram tratados os vestidos e os negros em Cuba, os culis, a maneira como ele protestava contra o racismo europeu em relação aos orientais. Ele tem um texto monumental, antológico, sobre a China e o Japão, onde aborda essa questão. E depois vamos ter que explicar que, afinal, este homem, que foi antirracista, que defendia princípios que estamos todos de acordo, eram progressistas para a época. Que afinal, temos que interrogar a sua obra com as lunetas de hoje. Ora, isso é que está errado. Nós não podemos interrogar o Shakespeare com as lunetas de hoje, não podemos usar cada referência como uma espécie de queda em abismo, de pecado venial de um escritor, porque isso liquida a nossa tradição e, sobretudo, liquida a nossa sanidade. Porque nós estaremos sempre à procura de um pecado.

Mas esse ponto é interessante porque tem acontecido, de facto, muito no mundo anglo-saxónico e esta investigadora não pede que "Os Maias" sejam retirados das bibliotecas ou sequer que deixe de ser dado nas escolas. Mas Luís Filipe Redes, como é que estes comentários pedagógicos que a investigadora defende, que defende que a obra deveria ser antecedida de comentários pedagógicos. Isto faz sentido? Como é que podia ser feito? E além disso, que temas é que merecem, nos diferentes romances, comentários pedagógicos? Aqui estamos a falar de questões raciais, mas a questão das mulheres, por exemplo, ou a forma como aparecem certas ideologias políticas. Quais seriam os limites destes comentários pedagógicos?

Comentário pedagógico eu não gosto dessa expressão. Não acho que se deva pôr qualquer coisa antes da leitura de qualquer texto literário, a limitar a interpretação. Mas claro que faz sentido, eu acredito que o professor está perfeitamente habilitado para explicar essas expressões, não está? É claro que se deve fazer um esforço para que esteja, no caso de haver, e haverá, naturalmente. Pode haver, perante a sacralidade canônica que é dada aos maias, pode acontecer que os alunos nem sequer digam e sintam: "Mas é que os pretos, o preto, o que isto quer dizer o preto?" Portanto, nesse sentido, o professor deve estar preparado para explicar como é que essa expressão era utilizada na época e qual era o contexto, que não era o mesmo atualmente, de maneira nenhuma. Nós somos resultado dessa história. Nós somos resultados do colonialismo. Inclusive, a doutoranda caboverdiana é resultado desta história do colonialismo. Pós-colonialismo, porque houve colonialismo. E não podemos negar a existência do colonialismo. O que custa muito a muitas pessoas é considerar que o colonialismo foi, num certo momento, positivo. Havia ideologias racistas muito poderosas no século XIX que eram normais, era o pensamento. Dominava a antropologia física nos estudos antropológicos, começava a ser deslocado da antropologia física para a antropologia cultural com o Lewis Morgan, com o evolucionismo de Morgan. Mas mesmo nesse evolucionismo de Morgan, por exemplo, aqui aparece n'"Os Maias" a palavra selvagem. Havia referência ao ser selvagem como um estado de desenvolvimento da humanidade, por exemplo. É preciso entrar no espírito da época, porque está aqui o espírito da época n'"Os Maias". Gostei de explicar essa distância em relação ao nosso tempo. Eu acho que é necessário, acho que sim. Faz parte da leitura.

Francisco José Viegas, acha que é legítimo alguém sentir-se incomodado ou insultado por estas passagens de "Os Maias", sejam irônicas ou não? Acha que há esta legitimidade de alguma indignação ao ler isto?

Miguel, eu acho que hoje nós estamos a ser todos coitadinhos. Eu sinto-me incomodado por certas passagens do Sartre, e sinto-me incomodado por certas passagens do Dostoiévski, e sinto-me incomodado por certas passagens do Camilo. E, no entanto, eu acho o Camilo absolutamente maravilhoso. É um grande escritor, é um notável escritor, aprendi imenso para a minha vida, aprendi imenso para escrever. O professor Luís Filipe mencionou que havia ideologias racistas no século XIX. Não, repare, Luís Filipe, havia ideologias racistas no século XX. Hoje, há ideologias racistas. Agora, por exemplo, o problema do selvagem é que essa noção do selvagem tem que ser contextualizada. E em termos de história da língua, nós temos desde o bom selvagem do Rousseau, que era, de facto, o selvagem admirável da América Latina, até ao selvagem do Ega, do João da Ega, e temos o selvagem que o Eça usa quando escreve como sujeito cívico. E quando ele escreve as suas correspondências para os jornais portugueses ou para os jornais brasileiros, ele nunca se refere aos negros como selvagens. Ele usa um personagem, que é o João da Ega, para mencionar essa coisa dos selvagens. Porque também podíamos dizer que o único momento em que ele é racista n'"Os Maias", e é declaradamente racista, o João da Ega, é quando, no célebre jantar do Hotel Central, do jantar em homenagem ao Cohen, ele diz que os portugueses são a mais miserável raça da Europa. É a única parte em que ele usa, de facto, essa expressão. Ele diz a mais miserável raça da Europa, diz a mais covarde raça da Europa. Eu estou de acordo com o professor Luís Filipe, quando ele diz que, de facto, é necessário enquadrar. Se for necessário enquadrar, faça-se esse enquadramento. Não acho que seja necessário fazer um frontespício, como agora estão a fazer nos filmes da Disney, como estão a fazer nas obras do Kant que eu mencionei. Eu acho que isto leva-nos a considerar, do ponto de vista pedagógico, eu acho que isto é uma coisa que se trata em duas penadas, para contextualizar. Porque os miúdos são espertíssimos, são inteligentes, gostam da ironia. Nós estamos hoje a falar do racismo no Eça, que eu acho que é absolutamente irrelevante, embora se possa, como eu disse, é inteiramente legítimo fazer um estudo sobre a representação racial. Daqui a pouco, estamos a falar do machismo e do Miguelismo no Camilo, da violência no Camões, do uso dos advérbios do Vieira, da obscenidade de Gil Vicente. Isto é inteiramente legítimo, mas é preciso ver qual é a utilidade do ponto de vista acadêmico para mostrar banalidades. O que eu gostava era que os nossos textos fossem mostrados nas escolas, não como exemplo do génio nacional ou como um emblema da pátria, mas como instrumento para o nosso conhecimento enquanto leitores. Justamente porque a leitura não é uma virtude cívica, é um momento do reencontro do leitor com uma sombra que ilumina. As virtudes cívicas mudam. A literatura é aquilo que permanece. O Miguel Pinheiro perguntava-me se eu me sentia chocado com certas passagens. Eu sinto-me chocado com aquilo que me choca, mas não posso impor um quadro de leitura, hoje, que somos pessoas civilizadas, livres, abertas e cosmopolitas, não posso impor as minhas virtudes cívicas para ler um livro que não as tem.

Luís Filipe Retes, dizia que era preciso enquadrar. Eu não sei se dá ou deu aulas ao 11º ano, mas falará seguramente com colegas que são professores de Português, de alunos que se confrontam pela primeira vez com "Os Maias". Já alguma vez foi, de facto, preciso enquadrar ou esta questão só surge de uma palestra e não tinha sido colocada antes?

Pois, e é que está. Acho que está a colocar a questão precisa. Não, não existe essa necessidade muitas vezes, porque a leitura é assim, isto aparece no texto

Tenta-se perceber a ironia, mas não existe a necessidade de fazer uma correção. Essa correção, essa necessidade, vem desta ideologia recente de revisão das obras literárias. Disso eu discordo liminarmente.

Como é que os alunos normalmente reagem a estas passagens?

Não tenho tido problemas a esse nível.

Francisco José Viegas, isto de facto, como estávamos a dizer, veio de uma palestra numa universidade americana, nos Estados Unidos. Este é um ponto que se discute muito. Estas discussões, por um lado, existem cá e, por outro, se não existem já, é inevitável que cá cheguem. Daqui a pouco tempo vamos estar a ter estas conversas, não porque elas surgiram numa universidade americana, mas porque surgiram numa universidade portuguesa?

Micaela, eu acho que essas discussões existem latentes, mas como disse o professor Luís Filipe, os alunos, por exemplo, do 11º ano, não questionam, percebem a grandeza do Eça de Queiroz. É preciso dizer o seguinte: nós temos modelos de leitura, a que já nos referimos aqui, sobretudo no mundo anglo-saxónico, que é a procura de uma correção política em toda a história da cultura, e que eu acho que está a provocar traumas, que terão consequências, eu penso, enfim, não serão dramáticas, mas que daqui a pouco vão encher o saco de toda a gente. No caso do Eça, que é aquilo que me preocupa, eu acho que o Eça é um dos grandes romancistas europeus, comparável ao Flaubert, ao Balzac, e "Os Maias" é um romance realista admirável. O Harold Bloom chamava-lhe um diabrete satírico. Um génio caprichoso, que foi capaz de reunir o Voltaire e o Stevenson numa sátira extraordinária, tal como, por exemplo, o maior literato negro do século XIX, que é uma espécie de milagre, foi o Machado de Assis. Nós, ao valorizar esta polémica, que foi motivada por uma pequena sessão na Universidade de Massachusetts em Dartmouth, que é uma universidade meritória, mas onde não se produz ciência nem conhecimento há muito tempo, acho que isto é muito forçado para todos nós. Agora, que estes temas possam regressar e permanecer durante algum tempo, admito que sim. Houve essa tentativa de criar a campanha contra o Vieira. No próximo ano são os 450 anos dos "Lusíadas", e é provável que haja também algumas torções de militantismo, num esforço, eu acho, desesperado para nos colocar nessa fronteira de má consciência perante a literatura, que é no fundo disso que se trata.

Francisco José Viegas, Luís Filipe Retes, muito obrigada por terem estado no "Nem 8 Nem 80" desta semana. Nós voltamos, como sempre, na próxima semana.