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Maria, estava desejosa de chegar aqui para falarmos.
Mas porquê, Margarida? Para ir almoçar mais cedo?
Não, até porque às vezes em almoços rebentam bombas. Olha, como no caso da Chanel.
"Do Avesso", um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva. Depois de dois anos em silêncio, de facto aconteceu isso que estavas a dizer, a Virginie Viard lança um livro onde faz revelações chocantes sobre a marca fundada por Coco Chanel, em particular sobre a forma como foi despedida. Lá está, parece que foi durante um almoço e sem grandes explicações, Margarida.
Ela foi o braço direito de Karl Lagerfeld durante 30 anos e em fevereiro de 2019, após a morte do criador alemão, assumiu o comando criativo da marca.
Esse trajeto na liderança não durou muito. Em junho de 2024 era anunciada a sua saída e em dezembro desse ano começava o consulado do franco-belga Matthieu Blazy. Segundo este livro bomba, que foi lançado esta semana em França, já pode ser encomendado, aliás, a Viard foi afastada, de facto, sem cerimônias, talvez antes mesmo da sobremesa, diríamos nós, num encontro com Alan Vertaimer, o diretor-executivo global da maison francesa, que lhe terá dito simplesmente: "Vamos terminar por aqui".
Bem, isto aconteceu alegadamente sem qualquer aviso prévio, numa altura, segundo ela escreve, em que os preparativos para a alta-costura estavam em pleno andamento e as vendas até parece que estavam a correr bastante bem. Daí ela perguntar-se: "Por que agora, por que desta forma?"
Sim, a designer conta que sentiu uma mudança de ambiente depois do desfile em Marselha, em maio de 2024, mas que nunca pensou que isso significasse um despedimento, sobretudo porque a marca estava a crescer financeiramente. A Chanel tinha acabado de divulgar receitas de $ 19.7 mil milhões, um crescimento de 16%, por aí. Só o negócio de pronto a vestir tinha registado um crescimento de 23% nesse ano.
É algo de notar. Estava bem. Mas também é verdade que nós sabemos que as reações online às coleções eram cada vez mais negativas. Até foi especulada a saída de Viard por várias vezes, lá está, entre os internautas. O que também nos coloca uma questão interessante, que é: o que é que vale mais? É a venda efetiva, o sucesso real, ou esta percepção que se tem da marca, sobretudo online?
E também, que tempo devemos dar a um talento para se expressar? A tua pergunta é um ponto ótimo. Como é que uma marca com um patrimônio vasto se movimenta num mundo de likes e urgência máxima, em que é preciso criar para o momento e se calhar não tanto para a eternidade. Se nos lembrarmos dos famosos casacos tweed da Chanel até hoje, é porque eles foram criados e trabalhados para serem mais do que uma breve tendência, digo eu. E eu até sei que tu gostavas do trabalho da Viard, não é?
Gostava exatamente por isso, porque acho que ela criou roupa de qualidade. Roupa para ser um clássico, para durar no tempo, para teres no armário 30 anos e conseguires usar em várias ocasiões. Também a achava muito prática e leve. Menos encenada que o Karl Lagerfeld, mas sem dúvida falando para as mesmas pessoas. Acho que era uma roupa muito europeia, muito francesa, aquela coisa de vou tirar umas calças e uma camisola qualquer do armário e vou estar bem.
É o que funciona. Faz anos que funciona. Nós sabemos que os números estavam do lado dela, mas a dúvida que provavelmente Vertaimer também terá tido é se iriam continuar altos por muito tempo. E por quanto. A Virginie manteve no essencial a linha até então seguida pela Chanel, falando sobretudo para um público de antigos clientes.
Sim, mas também não nos podemos esquecer que nas primeiras coleções de Blazy também surgiram muitos vídeos dessas mesmas clientes antigas a queixarem-se de que o fitting de agora já não era pensado para as mulheres como elas.
É um dilema.
Aliás, eu acho que, como tu dizias, um dos grandes medos da direção deve ter sido mesmo esta renovação de clientes. E o trabalho que está a ser feito agora é sem dúvida para um público mais jovem. E também mais pensado para o digital.
Exatamente, para o digital. A Viard faz ainda outra reflexão interessante sobre se ela fosse um diretor criativo homem com a mesma personalidade discreta, será que seria descartada com a mesma facilidade? Ela chega a dizer mesmo no livro: "Sei que a descrição de um homem profissional é interpretada como rigor, concentração e consciência. A descrição de uma mulher profissional é interpretada como falta de presença e fragilidade". Ora, os números dizem que pelo menos há uma desigualdade, e nós sabemos disso, sobretudo neste setor, quando o assunto é liderança. Apenas 12% a 15% das direções criativas no segmento do luxo estão entregues a mulheres, apesar de a força de trabalho feminino no design de moda, no design e não só, mas no universo da moda.
E as consumidoras também.
Sim, chegar aos 66%, segundo a plataforma de moda One Granary.
Ela tem de facto esse perfil discreto. Aliás, a própria assume no livro que se arrepende de não ter arranjado um parceiro que assumisse a face mais pública do trabalho, permitindo-lhe manter alguma invisibilidade nos momentos que desejava, porque ela com o Karl estava habituada a estar mais nos bastidores.
Essa fórmula continua a ser muito válida, digo eu. Há pessoas que de facto são mais talhadas para estarem num papel mais recuado dos holofotes. Ainda assim, essencial. Eu também entendo que após 30 anos de trabalho haja um desejo de saltar para a linha da frente. E que ela pudesse também desejar isso, mas ao mesmo tempo, se não tens perfil para essa exposição, fica muito difícil.
Mas ela também sabe que essa postura teve um custo.
Da invisibilidade.
E agora acrescento eu que teve um custo, sobretudo aqui no mundo digital, em que hoje em dia todos temos que pôr uma cara, uma personalidade e até saber as flores preferidas de todos os criativos que por aí andam.
Sim, é verdade. Essa é uma grande questão destes tempos. Claro que o carisma sempre teve impacto numa gestão de carreira, a começar pela própria Gabrielle Chanel, a fundadora. Mas hoje parece simplesmente impossível não fazer parte desse dito circo midiático, pelo menos numa grande casa global como é a Chanel. Dificilmente poderás ter um perfil esquivo como o Martin Margiela, que é uma pessoa que nem entrevistas dá.
Sim, mas está muito ligada à marca. Não entrou na marca agora neste tempo digital. É diferente o caso dela. Desse ponto de vista, de facto, ela tinha o jogo perdido logo à partida. Isto porque substituir Karl Lagerfeld, que tinha uma imagem reconhecível em qualquer lado e um trabalho muito apoiado na sua personalidade.
E gatos.
É uma missão impossível, é insubstituível. Se calhar foi por isso mesmo que ela foi escolhida, para fazer esta transição. E verdade é que ela se pôs nesse papel perfeitamente e não estava ali para renovar nada, mas sim para continuar. Ou então, se calhar, como dizíamos antes, não lhe deram o tempo suficiente para ela poder mudar alguma coisa.
Mas por isso é que também é encarado como um intervalo entre uma coisa e outra. Uma imagem que a deixou muito ofendida, porque se sentiu completamente apagada da história da marca, coisa que também não é justa. Ela existiu, cumpriu o seu papel, as coleções são boas, mas aqui falamos de relevância histórica para a marca e de pontos de viragem.
E de facto o livro está cheio de contradições, o que é muito humano.
Sim.
E ela própria quando se refere, por exemplo, a Karl, também há sempre um misto de admiração e de algum ressentimento.
Estas coisas nunca são fáceis.
E muita dessa mágoa vem do facto de Karl a assumir como braço direito, mas nunca a assumir como parte da dupla. Aliás, Viard confessa que ponderou um convite para trabalhar com Marc Jacobs na Vuitton, exatamente porque estava muito farta que a Madar Leek, a musa de Lagerfeld, aparecesse de repente antes dos desfiles e ocupasse o seu lugar ao lado do estilista.
Pois é, ela afirma mesmo que ele adorava alimentar rivalidades dentro da equipa. E nós imaginamos. E assume que se foi indicada pelo Kaiser para lhe suceder, foi porque ele queria que a sua memória não fosse apagada e sabia que ela iria simplesmente continuar o legado e também não ia dar muito nas vistas.
Já Matthew Mazi tem passado o seu próprio legado, coleção para coleção.
Sim, desde logo.
Mas a que nos trouxe esta segunda-feira à noite não me convenceu muito. No conjunto, acho muito mais fraca do que as outras coleções, apesar de depois quando vês ao detalhe, ter algumas peças interessantes. Nomeadamente um casaco reversível, que se transforma num vestido com saia pregueada. É uma peça muito de engenharia da moda, mas que passa completamente despercebida.
Eu vi muitos coronados, propostas e estilos muito distintos. Um bigode à mostra também. Enfim, não vamos andar muito por aí. Por mais que imagine que uma mulher possa ser, de facto, muitas mulheres, e é, eu acho que ele na verdade tenta falar para diferentes faixas etárias. E eu acabo por me perder um pouco nos entretantos. Visualmente, como disse, também não mexeu as medidas, por assim dizer. Claro que depois temos pormenores e sobretudo apontamentos narrativos, como este que tu referias, e outros que complementam a história. Como uma carteira que pertenceu mesmo a Coco Chanel, criada em 55 e que abriu e fechou a apresentação.
Ou o facto de termos visto a desfilar nomes como a Rachel Ojurami, acho que é assim que se diz.
É, sim.
Que viralizou este ano com os seus vídeos de moda gravados em Lagos, na Nigéria.
Viralizou este ano, imagina. Portanto, já está no desfile da Chanel. Era onde nós queríamos chegar.
Só esta frase é a choice.
Acho que diz tudo.
Isto prova é que as marcas estão superatentas às redes e respondem ao que está a dar no momento. E agem também cada vez mais por reação e esta reação rápida.
Rapidíssima.
O que é muito estranho quando pensamos que estamos a falar de marcas associadas a longevidade e a tradição. As marcas percebem que é muito importante fabricar conteúdos para serem comentados no dia a seguir e, portanto, vão atrás destas coisinhas que andam por aí nos TikToks, Instagrams e essas coisas todas. Mas de facto, se falamos de semana de moda de Paris, também temos que falar da Dior, que eu acho que foi mais consistente desta vez. Eu normalmente sou mais team Chanel, mas esta estação acho que a Dior esteve melhor.
Sim, concordo. É um daqueles casos em que o Jonathan Anderson move os fãs com ele de casa para casa. Há aqui um outro movimento.
É, um bocadinho como o Alessandro Michele na Valentino. Que também é um bom exemplo de como o carisma de um designer leva a casa atrás. Os fãs seguem-no e vão comprar o que ele cria, a visão dele, independentemente de ser Gucci ou Valentino. Não interessa muito. Um carisma que Viard não tinha.
Quem apresentou uma coleção também bastante vestível foi o Daniel Roseberry na Schiaparelli. O Schiap tinha menos dinheiro, não é? Já falámos disso. E teve que fazer mais à mesma, mas com menos. E depois dos seus bestiários loucos, surgiu com uma coleção que mergulhou nos arquivos da marca e trouxe alguns casacos incríveis, como sempre. Isso vale a pena, apesar de não serem totalmente novos, mas todos eles usáveis.
São muito bonitos, bem feitos e muito Schiaparelli. De mestre, achei a jogada da Miu Miu de apresentar os novos New Balance no desfile e certamente vão ser o objeto de desejo da geração Z no próximo verão. A irmã mais nova da Prada continua a ser um ótimo exemplo de estratégia na mushe. Sem crises de meia-idade por resolver, sempre foi trabalhada como uma porta de entrada para a Prada e assim continua em franco sucesso. Eles pensam, de facto, sempre para a geração mais nova.
E não ficam ali naquele limbo de estamos a desenhar.
As clientes vão envelhecendo e transitam, provavelmente, para outras marcas e eles não saem dali.
É verdade. Voltando ao início da nossa conversa, não é fácil encontrar um bom equilíbrio entre o peso mediático da direção criativa e da maison em si.
Sim, eu penso imediatamente numa série de figuras femininas que têm feito um ótimo trabalho em várias casas, nomeadamente esta estação, e que acabam por ser menos sonantes e menos faladas.
Menos citadas. Eu penso, por exemplo, na Paula's Jacolotoros, na Lacoste, a Veronica Leone da Calvin Klein, a Louise Trotter na Bottega, falámos dela semana passada, a Kamena Kamali na Chloé, a Meryl Rogge na Marni, a Nadege Vanhee e a Grace Walls Bonner na Hermès, e a Sara Burton na Givenchy, só para citar algumas.
Frada os nomes. É que algumas têm uns nomes mesmo difíceis.
Eu estava a ler e a pensar: "Isto, de facto, é mais difícil falar destas pessoas".
Se bem que para franceses também não deve ser fácil pronunciar Carminho.
Pois não.
E a fadista portuguesa foi convidada para a Hermès. E aí está um exemplo de uma escolha bastante acertada.
O método faz sentido. Mas a Sara Burton tentou tornar a Givenchy mais pronunciável, pelo menos em termos de utilização. Vimos muitos desfiles em que a estrutura foi desconstruída nestas edições e ela começou por devolver alguma precisão e proporção. Depois, eu penso também no dia a dia, trocou aquelas saias elegantes, mas muito impossíveis também da Givenchy, por malhas técnicas que se valiam da mesma linha afiada e sem o desconforto. E portanto, acabou por ser tudo mais vestível.
É uma mulher a desenhar para mulheres também. Acho que isso também ajuda um bocadinho. Por cá, vamos entrar em semana de moda com a Moda Lisboa e já sabem que é mais uma boa oportunidade para comprar design nacional, mesmo que não vão aos desfiles. Por exemplo, no Mood encontram peças do Dino Alves no upcycling que fez com artigos das lojas Humana e no Chiado têm a pop-up da Moda Lisboa em parceria com a House of Created. Portanto, vão visitar. Nem que seja para conhecer o que se faz por cá.
Sim, para ver, mesmo que não comprem. Há mais pontos de interesse pela cidade, incluindo o Museu do Design, na Baixa de Lisboa, com duas exposições de joalharia imperdíveis, isto para lá da moda, mas como também falamos de joias e de criação artística, acaba por estar muito alinhado com o tema. E depois, uma desculpa para passarem, mais uma, pela Loja Parlamento, que em colaboração com a L-Red, instalou uma livraria de moda temporária na Rua da Boa Vista e portanto, podem comprar ali uma série de títulos. Eu penso que livros, revistas também, ligadas à área, para vasculhar, para folhear e para comprar, quem sabe, até sábado.
Isso agora deu-me imensa vontade de ir já para lá a correr.
Tu és acumuladora de revistas, portanto tenham medo.
Por isso acho que esta é a mesma nossa deixa para nos irmos embora, Maria. Até para a semana.
Até para a semana.