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Maria, já tiraste os sapatos de outono da arrecadação?

Tu achas, Margarida, eu ainda ando a sacudir a areia das sandálias.

Olha, tudo bem. Não te podes é esquecer dos saltos altos.

"Do Avesso", um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva. Os saltos altos tiveram, de facto, um forte ressurgimento nos desfiles de outono e inverno, não foi? Mas eu tenho sérias dúvidas se a tendência vai ser um grande sucesso. É que depois de anos a fio a fazer do conforto uma declaração de estilo, eu acho muito difícil, Margarida, nós voltarmos a ver aquelas executivas a correr pelas grandes cidades em cima de uns grandes tacões. O que é que tu achas?

Isso é mesmo uma imagem muito anos 80, anos 90. Mas sim, também tenho sérias dúvidas de que voltem a ser uma escolha para todos os dias.

É, sobretudo em cidades como Lisboa, onde a calçada portuguesa, que é lindíssima, mas pede coisas mais práticas. Eu acredito que este ressurgimento dos saltos, sobretudo quando falamos de sapatos que assumem umas formas mais escultóricas, acabam por ser peças especiais. Talvez aqui, de facto, possa haver uma escolha mais imediata e mais pensada para alguns momentos. Olha, a Chanel tem feito muito isso, por exemplo.

É, com aqueles sapatos bicudos que anda tudo maluco. Olha, eu espero sinceramente que sim. Eu adoro sapatos confortáveis, mas realmente há muito tempo em que sinto falta da imponência de um sapato alto.

É, ocasiões especiais.

Parece que se perdeu um bocadinho a elegância.

Sim, de certa forma, sim. Os sapatos altos, querendo ou não, perdem no campeonato do conforto, mas se calhar podemos voltar um pouco aos velhos tempos em que tínhamos aquele hábito de ter um par de stilettos na gaveta do escritório, para quando surgia algum evento de trabalho mais formal.

Olha, tu agora fizeste-me lembrar uma antiga colega de trabalho que tinha os sapatos organizados pelo tempo que aguentava com eles calçados, sem sentir dor nos pés. Portanto, era ótimo, porque era de acordo com a duração do evento que tinha, que ela escolhia os sapatos e só depois é que escolhia a roupa.

Ora aí está uma forma alternativa de começar a coordenar a roupa.

Como sabes, enfim, o bom styling é tudo. Agora, por onde começas também não interessa muito.

É verdade. Olha, esta estação vimos bem isso com todas as camadas e superposições. Para mim, uma das grandes tendências é, de facto, o styling, como falavas, cada vez mais. Ou seja, não é tanto acumular roupa nova, mas sim pensar em novas formas de conjugar as peças que nós já temos lá em casa e até desconstruir alguns clichês. Sabes que eu antes fazia muita confusão aquela ideia da assimetria entre peças. Eu hoje já não estranho tanto, por exemplo, ver um casaco mais curto por cima de um vestido mais comprido ou assim fazer umas superposições mais inesperadas.

Tu não me digas que ainda vais ser fã do trench coat curto.

Não, não vamos.

Já falámos aqui há uns episódios.

Não chegamos a tanto.

Não, mas realmente, tu quando entrevistaste o Diogo Miranda, ele falava disso. Numa marca originalmente de camisas, como é a portuguesa A-Line, um dos grandes truques dele é, de facto, explorar as camadas da roupa.

E o styling. Sim, precisamente. Porque para aquilo poder funcionar no inverno, isso acaba por ser fundamental. Aliás, é uma coisa que se tornou muito habitual também, cruzar peças de diferentes estações.

Sim, fundamental nestes tempos incertos. Tanto está calor como está frio. Mas olha, sabes o que é que não precisa de grande criatividade no vestir? E eu acho que é por isso que é provavelmente a tendência mais prática desta estação, são os fatos de saia e casaco.

É verdade.

Vimos esta silhueta na Chanel, na Tom Ford, na Lanvin, Proenza Schouler, Marc Jacobs. E aqui falamos de conjuntos de blazer e saia, mas as saias são pelo joelho ou até abaixo do joelho. Uma coisa muito ao estilo dos anos 40, que era um fato de inspiração militar, pela década que se vivia. E foi também aquela altura em que as mulheres começaram a ter mais trabalhos fora de casa e, portanto, precisavam aqui de um conjunto prático.

Ora bem. Olha, para um toque mais feminino, parece que também vamos ver o regresso do peplum. Eu confesso que me divido um pouco aqui. Este conceito de silhueta cintada, com uns folhos, que ajuda a disfarçar, de facto, ali algumas coisas que nós queremos ocultar um pouco, mas nem sempre se acerta no modelo. A parte interessante é que sabes que isto já vem da Grécia Antiga.

É verdade. Olha, se resulta desde aí, alguma coisa de tudo deve ter.

É verdade.

Também já foi eleito o padrão do próximo inverno.

Ai, meu Deus.

São flores, imagina, para o inverno, por isso surgem aqui numa estética mais gótica.

Pronto.

Com um fundo mais escuro e a mim fazem-me lembrar muito as tapeçarias e aquelas naturezas-mortas holandesas.

Estou a imaginar. Numa onda mais gótica, sabes que também vamos ter o veludo, que vai estar em grande destaque, apesar de ser um material que muito boa gente ainda reserva apenas para ocasiões de festa ou noite. Acaba por ser preferido, não sei.

É, mas podemos sempre conjugar este material com outros tecidos.

Coisas mais práticas.

Como a ganga ou algodão, e desconstruir aqui um bocado essa imagem do Réveillon antecipado.

É verdade. Olha, até podes aplicar a tendência a um simples acessório. Se não quiseres ir com um vestido de veludo para o trabalho, podes pegar ali numa coisa mais simples. Olha, isso dá uma boa ideia, que é ir buscar à gaveta um panamá dobrável de veludo, que eu tenho e que dá muito jeito.

Isso é que é uma peça original.

Não é muito impermeável, é verdade, mas para momentos ali mais de frio e vento no inverno, dá muito jeito para andar na mala. Mas eu compreendo que seja um material que não agrada a todos e não seja assim o mais versátil.

Olha, mas é muito menos polémico do que a declaração que tenho para fazer.

Ai, Deus do céu. O que é que aí vem?

O bege já tem um substituto.

O castanho chocolate.

Não, mais radical ainda. O amarelo manteiga.

Mas isso já vem de trás.

É verdade, esta cor já anda por aí desde 2024, onde teve um grande momento com o microvestido da Sabrina Carpenter. E depois aquilo nunca mais parou. Em 2025, o Chalamet usou a cor em look total nos Oscars e outras celebridades também se juntaram à tendência.

E agora transita do verão para a estação fria. Vai ser curioso ver isso. Eu lembro-me que até a Kate Middleton este ano vestiu muito bem, aliás, nela é habitual, no dia da jarreteira, com um vestido-casaco abotoado, muito impecável. Neste tom.

Isto é, de facto, um fenómeno. Digo nota por isso mesmo, como é que uma cor tão primaveril passa dois anos nas paletas cromáticas das coleções. É por isso que eu acho que não estamos aqui perante uma coisa passageira, mas sim algo mais definitivo.

Mais profundo. Boa.

Por isso, para mim, o amarelo manteiga assumiu-se como o novo bege, que é aquela cor que te aparece sempre.

E é interessante, de facto, imaginá-la no guarda-roupa de inverno, porque quase sempre sobressaem as coisas mais escuras, mais reservadas, mais austeras.

E passa a ser um neutro elegante, que consegues conjugar facilmente. É uma cor segura, discreta, um indispensável.

Está sentenciado. Também me parece que vamos ver mais cor, nem de propósito, em geral no inverno, o que é bom para quem gosta deste campeonato, o que veio para ficar também, independentemente da estação, sabes o que é? É a roupa de proteção.

Aí está uma coisa que eu ando a ouvir desde 2010. Eu tirei design de moda, estudei design de moda e os meus professores estavam sempre a insistir para nós criarmos roupa pensada para proteger das alterações climáticas, que era assim o futuro.

Eles lá sabiam, Margarida. Estavam certos, o caminho tem sido progressivo, mas é cada vez mais claro, parece-nos. Um dos conceitos-chave é de facto o outerwear, como lhe chamam, ou seja, toda aquela roupa que usamos por fora, que funciona como abrigo, a começar pelos casacos com forma de casulo, que nós vamos voltar a ver muito esta estação.

E que nos fazem sentir superaconchegados. Parece que nos dão um abraço.

É mesmo. E que protegem realmente. Tornou-se óbvio que vamos lidar com temperaturas e cenários atmosféricos cada vez mais extremos. Vamos precisar, portanto, de bons aliados contra o frio, a chuva, o vento e o calor, claro.

Se pensarmos naquelas imagens clássicas dos homens e mulheres que trabalham no campo, no mar, todos eles se vestem de facto a pensar nesses fatores.

É verdade, não andam despidos, andam mais protegidos. Às vezes parece não fazer muito sentido, mas faz todo o sentido. Aliás, aquilo que nos parece imagens datadas, se calhar, quem sabe, vão servir de inspiração a breve trecho para uma série de criações. Vamos ver. Claro que hoje o que vai fazer a diferença é a tecnologia aplicada a cada peça.

Portanto, tu achas que vamos pagar mais por conforto do que propriamente pelo design ou estética?

Sim, em última instância, eu diria que o novo luxo pode muito bem vir a ser esse. De alguma forma sempre gerou essa separação, mas quem tem mais possibilidades vai de facto poder pagar por ter o casaco, por exemplo, com detalhes técnicos mais incríveis, que tenha uma performance melhor e que lhe garantem uma proteção superior.

Sim, porque de facto uma coisa não impede a outra. Podes ter um trench coat giríssimo, mas que não deixa passar a chuva.

Lá está. E eu acho que essa urgência de eficácia e praticidade se vai acentuar, queiramos nós ou não.

Uma moda menos catastrófica, mas também do mais útil que há, são as pregadeiras com flores.

Mas continuam. Nós até já fizemos um episódio inteiro sobre elas. Vamos ter mais pregadeiras?

Pois é. As da Chanel e da Dior foram as que vimos mais por aí, mas tivemos outras marcas a seguir a tendência e o que não faltam são opções para diversos preços.

Ainda bem.

Eu adoro estas peças, porque tanto dão para ajudar a apertar uma camisa como a dar uma cara nova a um casaco.

Lá está, e senão voar com o vento ou temporal.

Sim, é aproveitar ao máximo o pós-verão para usar. Até podes transformar um lenço numa gargantilha, só tens de dobrar o lenço em faixa, prendes a pregadeira com a flor e pões no pescoço. E olha, está giríssimo.

Tudo ótimas ideias. E têm a vantagem de ser peças relativamente pequenas, que tu consegues guardar na carteira e consegues mudar o look a meio do dia se precisares, ou ao final do dia para ires a outro contexto qualquer.

É a versatilidade, que é uma coisa superimportante. O que não é tão fácil de pôr na carteira, mas está de volta, são os vestidos dos anos 20, do século XX, exatamente, que voltaram a ser revisitados. E não estamos só a falar dos slip dresses e das rendas. Desta vez chegaram mais sofisticados, com misturas de materiais, cortes geométricos e a lembrar muito a art déco, que também inspirou esta década. As sedas, as rendas saltam da lingerie para o dia a dia e a silhueta também perde a cintura. Vimos isto muito em Chanel, Valentino, Miu Miu, Lanvin, Ferragamo.

Lá está, e podemos ir às camadas e pôr uma T-shirt por baixo.

Ou um casaquinho por cima, se estiver frio.

Por falar em regressos, não podemos esquecer o xadrez com ar muito punk, bem ao estilo de Vivienne Westwood. Sabe que sinto que andamos sempre um bocado às voltas, no fundo. Sempre a falar de regressos e de modas que já foram inventadas Tu achas que ainda há alguma coisa de novo para criar, Margarida?

Olha, eu espero que sim. Senão esta ideia da moda cai um bocado por terra. Pelo menos esta parte do lado mais criativo e revolucionário. Mas também, sinceramente, não te sei dizer o que é que há para inventar.

Nós já vêssemos.

Eu acho que as silhuetas já estão todas, de facto, muito exploradas e que é difícil fazer algo completamente novo. Mas, por outro lado, acho que a criatividade está muito mais ligada à tradução da cultura e dos movimentos sociais na roupa. Aquela ideia de comunidade também, que é cada vez mais importante. E também, claro, destas questões mais técnicas do vestuário de que já falámos, enquanto proteção.

Precisamente, proteção e armazenamento. Basta pensar nos bolsos, que é uma coisa que eu gosto imenso. A moda que se adapta ao estilo de vida é de facto fundamental. Onde vemos muito isso? Olha nas mochilas e nas malas de viagem. Existe uma enorme preocupação com a questão dos transportes, aqueles bolsos de todos os tamanhos.

E que todos adoramos.

Adoramos, para todos os tipos de objetos. Acho que já nem sabemos em que bolso pusermos as coisas, mas de facto é muito prático. E a verdade é que são acessórios que nós compramos geralmente de forma consciente e intencional. O que me parece ser cada vez mais o caminho, mais do que seguir tendências.

Sim, até porque as próprias tendências parece que já não têm o peso que tinham antes. Quem é que segue as tendências?

É uma boa pergunta.

Será que ainda faz sentido gerir o mercado com base no que se vai usar ou não? Não sei.

Sabes o que ajuda muito nesta fase de regresso ao trabalho? É uma coisa que eu costumo fazer um pouco. É uma triagem da triagem, como lhe chamo. Ou seja, para quem tem que fazer mudanças no armário, o que já por si é difícil, é tentar selecionar uma pequena cápsula de peças de roupas que vai querer mesmo usar nos próximos meses.

Até porque normalmente nós já temos tanta coisa, que de certeza que o que precisamos está perdido no fundo de uma gaveta.

É muito provável, sim. Eu falo disso, mas também de peças que podem nem ser tendência atual. Mas por alguma razão, até profissional, por exemplo, tu sabes que vais ter que usar muito aquela peça em rotação máxima, portanto, acho que isso te facilita a vida.

Também sinto muito que é cada vez mais a personalidade que interessa e a apropriação dos estilos, que são o mais importante nesta coisa das tendências. Acho que isto de ditar o que se vai usar, serve mais até para organizar e ajudar a contar a história das marcas do que propriamente a conduzir o consumidor.

E também tens uma geração que se veste um pouco antitendência, como chamamos, que quer manter as coisas simples e fáceis e ponto final.

E que seguem uma onda muito início dos 2000. Olha, é uma geração para quem a Miu Miu, por exemplo, trabalha perfeitamente. A Miu Miu e as lojas vintage continuam em grande.

Sim, por falar nisso, a minha aposta é, uma vez que já entrámos pelos 2000 adentro, claramente, as gerações mais novas vão continuar a cavalgar essa onda. Este verão tivemos, por exemplo, as calças capri tão 2006. Quem sabe, uma onda mais boémia para o inverno, estilo Amy Winehouse.

Ai, tudo menos aqueles botins de sola compensada.

Margarida, nunca digas nunca. Mas vale dizeres até à próxima.

Até à próxima, então.