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Maria, tu já pensaste como era a vida antes da invenção do spandex?

Ai, Margarida, eu morro de calor só de pensar em lã na praia.

Olha, então arranja uma ventoinha para este episódio.

"Do Avesso", um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva. Bom, ao menos a lã, que foi usada para roupa de banho masculina e feminina até 1930, tinha alguma elasticidade. Do mal ao menos permanecia opaca quando a pessoa se molhava.

Estás a ver? Já não é tudo mau.

Sim, não é. Eu confesso que há um outro item de tempos idos que eu acho delicioso, aqui entre nós: as toucas para proteger a cabeça. Foram muito populares nos anos 40. Estavam entre a moda e o funcional também, de certa forma.

Sim, pode ser que as marcas de roupa de praia se lembrem de apostar nisso, com as criações mais originais. A verdade é que há muita gente que não gosta de molhar o cabelo na praia. E ia dar muito jeito para aquelas senhoras que parecem umas girafas dentro da água, com o pescoço muito esticado para os chalepicos não irem para os cabelos, para aqueles ouros todos. Levam sempre muitos ouros penteados, pendurados e os óculos de sol.

Tu estás a falar de alguém em particular, não é?

Sim, olha, mas estou a falar de mim, é verdade.

Mas também podem pensar na piscina, por exemplo. Se bem que para mim banho de mar sem molhar a cabeça não é banho. Eu estava bem arranjada no século XVIII, porque nessa altura as pessoas começam a ir a banhos mais pelas propriedades terapêuticas. A verdade é que não se incentivava muito que as senhoras mergulhassem de cabeça. Aliás, de resto, eu acho que até achavam que nadar não era sequer uma atividade muito feminina.

Nada. E nessa altura ainda se usavam as chemises, que mais pareciam umas camisas de noite muito fluídas. Tu imagina sair da água com aquilo tudo agarradinho ao corpo.

Pois é. No século XIX, a roupa de banho já ficou mais parecida com a roupa que se usava na rua, mais ajustada ao corpo, mas claro que a exigência de modéstia se mantinha.

E também se mantinham os materiais horríveis. Devia ser ótimo tomar banho com roupa de lã ou flanela, já para não falar do calor que deve fazer e as suas naturais consequências.

Sim, é uma imagem que dispenso, de facto. Mas há uma coisa que eu invejo do período vitoriano e que ainda hoje eu acho que nos dava imenso jeito. Tu sabes quando se usava aquelas cabines de banho para entrar e sair do mar, como umas casinhas de madeira sobre rodas, puxadas por cavalos. Olha o meu Uber ondas, o que é que tu achas?

Aquilo ainda servia de balneário, porque elas mudavam-se lá dentro. Claro que estamos a falar de roupa subida, mangas, saias compridas e muitas vezes até meias. Tinham que ser cabines grandes.

Pois tinham. Mais uma vez, o desporto e as provas olímpicas ajudaram a mudar mentalidades e o guarda-roupa de banho. A competição ao nível da natação é do começo do século XIX, mas instala-se de vez com os Jogos Olímpicos de 1896, ainda que as mulheres só tenham tido acesso à prova em 1912. Nós devemos muito estas mudanças a uma nadadora australiana chamada Annette Kellerman, que revolucionou a roupa de banho e até entrou em filmes.

E que em 1905 foi convidada para nadar com a família real britânica a assistir, só que o seu fato justo mostrava uma boa parte das pernas. Então não queriam que ela usasse aquilo. O que ela se lembrou? Pôr umas meias pretas e cosê-las à parte de cima, e aquilo foi muito falado na época.

Os progressos técnicos chegaram ainda no final dessa década, tanto nos Estados Unidos como na Austrália. A famosa Speedo, uma marca que nós conhecemos até hoje, foi lançada em 1914.

É curioso, porque depois da Primeira Guerra Mundial, a moda de banho variou entre continentes. Nos Estados Unidos da América, as mulheres procuravam algo mais desportivo e na Europa queria-se algo mais elegante, o que na realidade foi durante muito tempo também aqui a distinção entre os estilos americano e europeu.

Sim. Se falarmos de elegância, é hora de voltarmos a falar de Coco Chanel. A designer criou um fato de uma peça num tecido bouclé, que na verdade parecia unissexo, e Jean Patou, seu contemporâneo, era um dos mais conhecidos a cruzar a moda com o sportswear. A roupa de banho ia chegando à Riviera francesa, claro, através de boutiques como as da Lanvin, de Molyneux, Schiaparelli ou Poiret.

Claro, e o conceito do fitness a sério só chega aqui nos anos 30, e aí a natação passa a ser uma atividade também possível para as mulheres. A natação e o bronzeado.

Que maravilha.

Que pela primeira vez não é associado apenas às classes trabalhadoras e, portanto, as senhoras começam a apanhar sol.

Poder apanhar uma corzinha.

Com tudo isto, claro que precisavam de bons fatos de banho. Aliás, tu sabes que em 1932, a Schiaparelli até patenteou um modelo sem costas para não se ficar com as marcas do sol.

Incrível. Nós às vezes achamos que somos muito moderninhos e estas pessoas já andavam a fazer estas coisas ótimas. Por esta altura, chegou a haver uma coisa ainda mais genial que as toucas, que eram as capas de banho. Tu já viste imagens. As senhoras pareciam super-heroínas com aquele vestido preso com um cordãozinho ao pescoço, uma maravilha.

E também havia os pijamas de praia.

Sim, também houve essa moda.

Foram muito populares lá fora nos anos 20 e 30 do século passado. Era um look de duas peças, com calças largas e túnica. No fundo, é aquilo que hoje vemos como uma saída de praia, mas que na altura se levava mesmo para o areial o tempo inteiro.

Margarida, como é que as pessoas não haviam de ficar chocadas quando se passou para o biquíni?

De facto, a introdução dos tecidos elásticos mudou tudo. O facto de ser possível misturar fios como o Lycra, inventado em 1931, com fibras naturais, fez com que as possibilidades criativas para a roupa de banho se multiplicassem. Isto já para não falar no conforto que este tipo de material dá.

É mesmo. O design do biquíni é creditado a dois designers. Por um lado, Jacques Heim, um estilista francês que criou uma roupa minimalista de duas peças em maio de 1946, portanto faz aqui uma data redonda. Chamou-lhe Atome, mas neste caso o umbigo parece que ficava tapado, mais compostinho. Depois, em julho desse mesmo ano, um outro senhor chamado Louis Réard, que era engenheiro Transformado em designer, de alguma forma, criou aquilo que ele chamou de biquíni.

Exato. Depois a indústria do cinema e o glamour de Hollywood fizeram o resto, como é costume. Em 1952, Brigitte Bardot aparecia no filme A Menina da Girl in the Bikini, com apenas 17 anos, e foi uma das primeiras mulheres a usar biquíni no ecrã. Depois, em 1956, elevou ainda mais a fasquia quando entrou no filme E Deus Criou a Mulher.

E tu sabias que em 1950, a fotógrafa Nina Lin fez umas fotos na praia de três mulheres de costas, a usarem fatos de banho com grandes chapéus. E essa imagem, que foi tirada na altura para a revista Life, ainda hoje é um best-seller na loja da publicação, o que é uma coisa rara, porque são mulheres anônimas. E normalmente as fotos clássicas que costumam ser mais solicitadas pelos clientes são de celebridades, tipo a Marilyn Monroe.

Olha, se houve alguém que fazia parar o trânsito em biquíni era de facto a Marilyn.

É verdade.

Mesmo naquela versão muito pin-up com modelos ajustados às suas formas e uma espécie de mini saia hot pants.

Pois, os biquínis já tiveram esse detalhe.

Como se usava muito aqui nos anos 40 e 50. E que estão de regresso. Sabes que uma das grandes tendências deste verão são precisamente os biquínis com calções.

É isso. O Emanuel Ungaro, André Courrèges, Giorgio Armani, Oscar de la Renta, Calvin Klein, foram alguns dos designers que continuaram a experimentar roupas de banho durante a segunda metade do século XX. E em 1964, tivemos um designer chamado Rudi Gernreich, que lançou o quê? Um icônico monoquini. Isto é que ainda estamos para lá.

Eu adoro o nome monoquini.

Só o nome é maravilhoso.

No final do século XX, a roupa de banho feminina tornou-se cada vez mais ousada e colorida, reflexo também das tendências da época. E houve este duelo clássico entre o biquíni e o fato de banho. Claro que temos um momento na televisão que conseguiu fazer muito pelo segundo, que é o fato de banho encarnado da Pamela Anderson, em Baywatch, a partir de 1989. Aliás, eu acho que é um modelo para aí mais reinventado de fato de banho.

Até hoje.

Há sempre um fato de banho encarnado.

Um verdadeiro ícone. A natação competitiva no século XXI tem continuado a beneficiar de avanços tecnológicos em formas e materiais, e no plano lifestyle, Margarida, nós temos centenas de marcas para escolher, muitas portuguesas, aliás, já falámos sobre isso, muitas delas que vão reabilitando alguns acessórios mais retro, como os calções de que falaste, os biquínis mais subidos também, introduzindo também uma série de novos artigos. Seja molas para os cabelos, chapéus de sol, sacos de praia, geleira, tudo com muita pinta. Portanto, nós voltámos, na prática, supercarregados para a praia, agora por razões de estilo.

É verdade. E também temos sempre é que falar do desporto, que também dita muitas modas em relação à roupa de praia. Isto é tão verdade que tu sabes que as primeiras imagens do que se parece com um biquíni, na verdade, são do século IV depois de Cristo. E é um mosaico onde aparecem 10 raparigas, cada uma a praticar uma modalidade desportiva diferente.

Portanto, vamos sempre meter ali, de facto, o desporto. E a ideia de que os romanos inventaram quase tudo. Claro que estes biquínis não eram para ir a banhos, nem sequer nas suas famosas ternas, mas no que toca à estética, podiam ter sido desenhados neste século. Isso é que é impressionante.

É por essas e por outras. É que a moda passa a vida a mergulhar em arquivos históricos e a reinterpretar o que já foi inventado. O que, na verdade, nos dá aqui muito jeito para o podcast.

Pois é, o que me dava também muito jeito era ter trazido o fato de banho por baixo, porque este episódio deu-me uma vontade superlativa de ir já para a praia.

A mim também.

A ti também. Portanto, boas férias, se for caso disso, e até à próxima.

Até à próxima.