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Margarida, Moda Lisboa analógica ou digital?

Sabes, Maria, eu vi tudo pelo streaming.

Eu vi ao vivo e consegui perder menos a voz que tu. Tu deves ter tido um abalo por causa de tanta emoção. "Do Avesso", um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva.

Lisboa fecha a week que terminou este domingo e eu diria que mesmo quem não tem convite para os desfiles já não se pode queixar muito, porque acho que nunca foi tão aberto ao público como é agora.

É verdade, como agora. Os desfiles são todos transmitidos em direto nas redes da Moda Lisboa. Há imagens das coleções e bastidores publicados quase em tempo real, uma programação paralela pela cidade que inclui exposições de fotografia de moda, lojas pop-up com design nacional, lançamento de livros, viewing parties, como no caso de Beiren, eventos em novas lojas. Isto nunca mais acaba.

É, até tivemos um desfile em plena rua com o Carlos Gil.

Tu parece que andaste lá, que apanhaste uma corrente de ar.

Não, não foi. Apanhei a corrente de ar em casa, imagina.

Nós podemos gostar mais ou menos das coleções, mas a verdade é que a iniciativa pôs muitos curiosos a espreitar pelos vidros do museu e a filmar o que se passava ali à porta. Bom, eu acho que justifica nós começarmos a distribuir prémios. Este podia chamar-se "Passa por Mim na Rua Augusta".

Olha, que belo prémio.

Tanta gente passou por lá, a música lá dentro estava meio alta, eu confesso. Às tantas senti-me num misto de abertura de Copa do Mundo e after hours, mas foi divertido, resistimos e teve um bom remate ao som de "7 Seconds", um hit de 94 de Youssou N'Dour e Neneh Cherry.

Nada como uma boa banda sonora para arrepiar ou amainar um desfile. Foi impressão minha ou continuamos aqui nos anos 90?

Estamos presos. Eles estão por adorar, Margarida. Acho que devíamos premiar as playlists mais interessantes. Na verdade, são muito à volta disto e eu ouço sempre com grande nostalgia estes temas com mais de 30 anos. São divertidos. Tivemos isso no arranque Luís Carvalho, a Arns fechou com o ideal surreal do Juban, imagina só. Mestre Estúdio também nos deu uma versão distorcida de "Pedra Filosofal", só para citar alguns casos.

Já Constança Entrudo e Marie Azard lançaram-nos até Nova York, numa vibe muito energética, incluindo os anos 70.

Sim, muito Cyndi Lauper. Mas mais do que canções, eu gostei muito desta colaboração que foi apresentada nos cofres do antigo banco, que funcionou no agora Museu de Design, e que nos deixa estrategicamente na dúvida: é uma peça de roupa ou uma instalação incrível para exibir na sala? É que nós quando vemos não sabemos muito bem.

É, a bola fica também aqui do lado do público, já que a designer portuguesa e a artista francesa esbatem as fronteiras entre moda e arte, com o projeto Ad Hoc.

Sim, e como a série de peças, de facto, exploram as respetivas técnicas-chave, como a tecelagem no centro, os estampados a partir de publicações antigas, materiais improváveis. Eu gostei muito das peças com os punhos das camisas, por exemplo, e de facto é impressionante como muda a perspetiva sobre a roupa quando a vemos num desfile ou numa apresentação mais conceptual, como elas fizeram anteriormente em Nova Iorque.

Já em Beiren, o grande destaque são as silhuetas.

Sim, precisamente. Nós habituamo-nos a ver as criações da Joana Duarte em momentos mais festivos, dos eventos até aos casamentos, que ela tem trabalhado muito. E para esta fase, eu penso que é uma intenção de acrescentar literalmente saias, camadas a esta narrativa. Ela foi buscar referências ao imaginário da Nazaré e traz-nos esse contraste entre roupa de ocasião especial e uniforme de trabalho. Ela apresenta aqui looks e conjuntos que também querem ser para o dia a dia, querem disputar esse espaço e para um público mais maduro, a começar pelas manequins que nós vimos a desfilar. Algumas já não estavam na casa dos 20, nem dos 30 e isso é bastante interessante.

Olha, Nuno Baltazar é que eu tive pena de não ver ao vivo.

Mas também eu acho que nós não vemos nenhum. Nós vimos muito bem, Margarida.

As imagens que aparecem no site, é mesmo difícil de perceber a roupa, aquilo está muito escuro e cheio de sombras. Eu, pelo que consegui perceber entre as sombras, foi que haviam uns vestidos drapeados lindos e também uns estampados interessantes.

Mas e para ser sincera, é um formato, aquela coisa toda às escuras com os holofotes, pode funcionar ao nível da performance, mas beneficia muito pouco, de facto, a peça em si, o produto. Mas se calhar é uma boa ideia lançar a escada aqui para uma coisa assim no âmbito da Moda Lisboa, mas uma sala, um evento que permita explorar esta moda do receive, para que as peças sejam expostas nos dias a seguir aos desfiles.

Até para o público geral, por exemplo.

Sim, exatamente, para que as pessoas possam ver mais de perto os detalhes, os pormenores, aquelas coisas todas, como é que as peças estão ali de uma forma mais estática, mas permitir dar outra informação. É que, de facto, há coisas que só percebes quando estás muito perto. E depois há aquelas histórias interessantes que nós só apuramos quando falamos com os designers, quando andamos ali pelos bastidores.

É claro. Tu até me contaste que o Salfuns tem trabalhado aqui a partir de Ferreira do Alentejo.

É onde ele tem o ateliê.

E que a Bárbara Athanásio também vai lançar o seu novo site dentro de dias.

Em breve, vai estar aí mesmo a rebentar. Sabes, também é muito engraçado, porque a Bárbara normalmente usa manequins masculinos a desfilar as suas coleções, neste caso incluindo o seu irmão, como foi o caso. Porque era inspirada nele, o irmão, a coleção. Mas ela confessou-me que na verdade é mais procurada pelo público feminino, o que significa que mesmo nós vermos aquelas peças com fitting mais largo, ajustam-se completamente, o que é interessante, até porque ela usa muito molas nos calções e, portanto, conseguimos dar ali a volta. E o Gonçalo, da Salfuns, de facto, eu acho que ele continua a fazer um trabalho muito interessante. Surgiu a partir do Alentejo, está aqui uma onda muito slow fashion. Ele dedica-se muito ao chamado care wear. Aqui pensando desde os materiais, as fibras que são usadas, até à roupa como quase ali um abraço, um amparozinho psicológico, social, é muito interessante.

Fala dos sistemas de poder.

De poder, sim. É engraçado, ele cita, por exemplo, a filósofa Donna Haraway, que dizia coisas como: "Importa que as histórias contam histórias, importa que os pensamentos pensam pensamentos." É sempre muito interessante falar com ele, porque ele lembra-nos que a roupa é de facto ferramenta política e também nos lembrou, levou-nos por aquele caminho. Nós já falámos aqui sobre o clima e os desafios que trazem também para a roupa. Sabes que ele está a testar umas peças com alumínio, contava-me ele.

Que engraçado.

Inspirado pela gaiola de Faraday, que foi um experimento conduzido por Michael Faraday em 1836. Olha, pode ser que as vejamos por aí, ainda um dia destes.

É, temos, de facto, de estar sempre ouvidos bem abertos, porque essas coisas só assim é que se sabem.

E de olhos para ver assim as personagens inesperadas.

É isso, olhos bem abertos. Eu sei que houve uma pessoa que tu gostaste especialmente de ver.

Pois, eu não vi pessoalmente, não estava lá nesse momento, apesar de termos acompanhado o momento em reportagem, mas foi a Ministra da Cultura, porque de facto Por vários motivos. Um, porque acho que tem tido uma sofisticação da imagem superinteressante, que lhe fica muito bem e que acrescenta pontos à função, o que também é sempre precioso. E depois, porque é de facto um sinal positivo quando trazemos um grande evento de moda para a esfera da cultura, porque o simbólico conta, nós já sabemos como é que são estas coisas.

Leva o galardão on point.

Pronto, entregues.

Exato, até porque a ministra estava ali em trabalho.

Em trabalho, claro.

E anunciou que o governo está a preparar, em conjunto com a Moda Lisboa e o Portugal Fashion, um novo apoio para a moda nacional focado nos jovens designers.

Vamos ver se temos novidades em breve. Até para perceber como se vão organizar estes dois eventos de moda, que tantas vezes andam mais de caléias às avessas, mais focados nas suas diferenças do que na união de esforços. Apesar de que nos últimos anos as coisas já estão mais colaborativas. Ainda bem. Têm sido feitos alguns esforços de internacionalização conjunta e, por outro lado, vamos vendo os titulares de cargos públicos, ainda que em eventos mais ligados à indústria, é sempre mais indústria que design.

É sempre mais por aí, ainda falta dar esse passo. Também tivemos por cá a estreia da marca espanhola Adolfo Dominguez, que tem boa parte da produção em Portugal.

Produzida cá. Também há essa nota, apesar de ser uma marca espanhola, acaba por ter esta ligação tão próxima ao país. Mas falta ainda chegar esse empurrão no design que faltava. Sendo que eu compreendo que o calçado continua a ser a nossa área mais forte.

É, e nessa área, a 26 de outubro, chega ao mercado mais uma boa notícia.

Pois é, a colaboração do designer libanês Elie Saab com a H&M vai ter sapatos produzidos em Portugal.

Para ver.

Exato. O Luís Onofre partilhou esta história connosco agora durante esta edição. O designer de calçado português assume a confeção de dois ou três modelos, diz eu, todos em pele, que integram mais uma edição premium e limitada da marca de fast fashion.

Logo vemos os prémios que damos a esta coleção.

Temos que ver primeiro o resultado, é verdade.

Mas agora vê lá se adivinhas para quem vai a estatueta "Não Há Coincidências".

Calma, Margarida, antes de mais temos que dar a estatueta "Detetora de Coincidências".

Muito importante também.

Sim, que vai para a Sâmia Fiat, a nossa jornalista de lifestyle no "Observador", que mal saiu do desfile falou de um encontro de materiais. É que o Gonçalo Peixoto e o Luís Carvalho utilizaram um tecido igual nas suas coleções, em peças diferentes, obviamente, mas era o mesmo. Uma coincidência que à primeira vista pode ser um bocado chata, mas quando pensas em moda de autor e em suposta exclusividade, não gostas de imaginar isto, mas quem nunca se cruzou numa festa com uma pessoa com um vestido igual?

E eu acho que isto até já aconteceu com alguns designers.

Seguramente. Até porque o meio é pequeno, os fornecedores também tendem a ser os mesmos. Estes tecidos que surgem só em duas ou três peças, geralmente são materiais mais caros, mais especiais, que os designers compram em pouca quantidade e muitas vezes a comerciantes de dead stock. Até porque a moda de autor em Portugal não produz grandes quantidades de roupa.

Aliás, essa é uma das razões para a relação com a indústria nem sempre ser fácil.

Não é sempre fácil. Mas sabes que se tivermos um prémio jardim, não vai ser nada fácil eleger o vencedor, porque as flores estiveram presentes em inúmeros casos. Lá está nesse estampado que os designers usaram em conjunto, separadamente, mas que acabam por fazer um belo pandemono. E mais, o Luís Carvalho viajou pelas memórias de infância através daquele efeito das pétalas de flores que reparaste atrás, ficava ali super bem. Vimos em vários detalhes das peças, que gostei muito, aliás, desta coleção toda. E para mais, ele criou uns acessórios especiais numa parceria com a Topázio, que também é algo interessante.

É algo bem pensado, essas marcas juntarem-se.

Sim. Também tivemos outras colaborações. O Peixoto também fez isso com a Pandora. Estas collabs vão sendo interessantes. Tivemos flores no print da Lídia Kaló Vrat, também em Francisca Navinho, com flores que espreitavam por fora dos canos das botas e dos punhos, numa colaboração com a Xuxu Blooming.

A Francisca Navinho, que nos deu uma coleção muito feminina, mas mais adulta do que as anteriores e com sapatos e carteiras desenhados pela designer e até tivemos direito a uma modelo que parecia a Zendaya.

Tu mandaste-me uma foto e disseste: "Esta pessoa é a cara da Zendaya". A Francisca Navinho percebeu que é muito importante ter uma comunidade fiel e estruturada. Isto já vem de trás. Aquela comunidade que ocupa grandes espaços nas filas da frente. E bem. Quem também recorreu às flores foi uma das designers do Sangue Novo, que integrou o leque de cinco finalistas. Com a Marta Amorim, elas surgem como instalações na cabeça e para mim foi das melhores coleções do Sangue Novo, eu gostei muito.

Para mim também foi uma das melhores. E aliás, a Marta tem um percurso curioso.

Tem.

Ela é do Porto e começou por licenciar-se em Direito. Não tem nada a ver com as modas.

E depois ainda fez mestrado em Gestão de Marketing, trabalhou em eventos de moda mais neste âmbito. Depois é que decidiu voltar-se para o design e foi estudar para o Moda Tex. E eu diria, ainda bem, porque se continuar assim, temos tudo para continuar a ouvir falar dela. Ela concluiu o curso este ano e aqui na Moda Lisboa, nesta edição, mostrou-nos como é que é possível questionar a função do objeto, entre o design, a forma, a matéria e também a expressão escultórica, ainda por cima cheia de cor. E também gostei muito do Francisco Martinho, que foi outro finalista.

É, que também acumula várias áreas de estudo.

Sim, ele andou pelo design, pela cerâmica, escultura, arquitetura e também estudou no Moda Tex, mais uma vez destacando-se a construção. É muito interessante.

É caso para dizermos que o Luís Lobochino tem que estar superbabado. O Luís que até publicou um story todo contente, porque os cinco finalistas foram alunos dele.

É o prémio professor do ano, Margarida. É como uma passagem de testemunho. É de facto muito curioso e tocante, certamente para o Luís.

É uma continuação do trabalho pessoal dele também. Ele que já não apresenta, mas é muito interessante.

Precisamente. E num outro registo, ainda no Workstation, eu acho que vale a pena mencionar alguns nomes, a Ariana Henri, que voltou depois de vencer o Sangue Novo e sinto que daqui, tal como estes estúdios, estão numa fase desafiante. A ensaiar ainda o que pode vir a seguir, que não é sempre fácil fazer esta transição. Gostei muito de Narnes. A Ana Rita ainda por cima deu-nos um descritivo da coleção que era uma sopa de letras, para encontrarmos com lápis as principais referências da coleção.

É só aqueles pequenos nadas que contam muito.

É aquele pormenorzinho. Parecem coisas que ninguém liga, é um bocadinho como os cabelos. Dir-se-ia que os cabelos nas manequins, é tudo aquilo que ninguém quer saber, até toda a gente querer saber. Porque se elas desfilassem como acordam, eu aposto que toda a gente ali naquelas filas ia sentir falta de alguma coisa.

E nesta edição ninguém se esqueceu disso, até porque tivemos um desfile especial.

Sim.

Pela mão da Helena Vaz Pereira.

Uma histórica aqui dos cabelos. As modelos surgiram de lingerie e com penteados dignos de produção de moda. Pela primeira vez vimos, de facto, a Helena a sair dos bastidores para vir mostrar a sua arte e colher os aplausos, claro. E também recebia o nosso prémio Mãos Tesoura.

É um ótimo prémio.

O prémio Mãos Tesoura de Ouro, que é um bom corte de cabelo. Sabemos que é de facto uma arte, o penteado também. Olha, Margarida, agora que penso nisso, eu acho que tu tens que tratar das madeixas da garganta e eu destas pontas, porque isto está péssimo. O que é que tu achas?

É verdade, vamos tratar disso. Até para a semana.

Até para a semana.