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Margarida, se é para estar a trabalhar e logo próximo do 1º de Maio, mais vale que seja em bom.
Tu não me digas que querias aparecer aqui como a Naomi Campbell quando foi fazer trabalho comunitário.
Não dá muito jeito, eu sei, mas era um belo vestido. "Do Avesso", um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva.
Também tinhas mais opções. Em 2007, a Top Model fez um dos seus desfiles mais famosos e foi fora da passarela.
Pois é, a Naomi é conhecida pelo seu feitio peculiar. Parece que um dia não encontrava as suas calças de ganga preferidas, acabou a discutir com a empregada, vai daí, atirou-lhe um telefone à cabeça.
Umas semanas depois de Boy George, também ela foi obrigada a trabalhar num centro de limpezas de Nova York. E durante aquela semana, apareceu sempre com looks incríveis, incluindo o tal vestido comprido prateado de Giuliana Teso, e um dia até surgiu com uma Kelly da Hermès.
Imagina. Se a Naomi tinha zero vergonha de subverter as regras, tempos houve em que a roupa de trabalho existia para manchar a reputação de quem a usava. Tu sabes que no século XVIII, no Reino Unido, corria o mito urbano de que as prostitutas deviam usar amarelo como forma de mácula?
Para se demarcarem das senhoras que eram conhecidas pela modéstia, a vestir e a viver.
Sim, não há prova disso, mas a história mostra como, pelo menos ao longo dos séculos, houve sempre a tentativa de regular aquilo que podiam ou não podiam vestir, neste caso.
No século XIV, em Inglaterra, estavam, por exemplo, proibidas de usar qualquer tipo de pele. Aliás, mesmo em diante, era suposto que a tua roupa fosse muito clara sobre a tua condição social. O engraçado é que o século XVIII trouxe mais afluência financeira e as profissionais do sexo passaram a andar vestidas de forma mais exuberante.
Sim, algumas até se passeavam com mascarilhas para trazer mais mistério. Trabalhos há muitos, roupa para trabalhar também. Já pensaste como as práticas Crocs que os enfermeiros e pessoal médico usam tantas vezes nos hospitais se tornaram objeto de moda em algumas temporadas?
Confesso que eu própria sou fã de Crocs, mas para andar em casa. Também não exageremos. E se virmos bem, as modas de hoje nas lojas e desfiles são vestuário de trabalho de ontem, com as devidas evoluções, obviamente, em termos de detalhes, funções e também materiais.
Precisamente. No século XIX, o importante era a roupa de trabalho ser prática e funcional. E também um pouco o século XX adentro. Usavam-se tecidos pesados e duráveis, como o algodão e a lã, que protegiam dos elementos e da dureza das condições. A roupa era muitas vezes feita em casa, claro, ou por pequenos negócios, e o estilo era completamente secundário. Aliás, mesmo em Portugal, os diferentes trajes típicos foram organizando as pessoas por classes, labores e regiões também.
É, e aqui há uma inovação que faz toda a diferença, a partir de 1846, que é depois trabalhada pela Singer, que é a máquina de costura. E também toda a industrialização, porque a produção em massa e as novas técnicas permitiram produzir em maior escala, tornar as coisas mais baratas e, portanto, aqui nasceu também um grande número de fábricas e a roupa de trabalho tornou-se uma coisa mais uniforme.
Aliás, esse termo, uniforme, é uma herança desses tempos. Funcionários todos vestidos de igual, essa ideia. Consoante o ramo de atividade, ainda hoje muito vestuário ajuda a identificar de rajada quem faz o quê ou em que posição está na hierarquia. E é nesta área que vemos a ascensão dos famosos jeans azuis e das botas de trabalho.
Uma história que em muito se deve à corrida de ouro na Califórnia, que era um trabalho muito exigente e que pedia roupa muito resistente. O que é certo é que em 1853, Levi Strauss, um imigrante da Baviera, abriu uma loja de tecidos em São Francisco e rapidamente percebeu uma necessidade entre as pessoas que trabalhavam, que era roupa concebida para resistir a tudo. Então juntou-se ao alfaiate Jacob Davis, combinaram os reforços de rebite de cobre com a ganga resistente, o que levou à criação dos primeiros blue jeans em 1873, e rapidamente esta roupa de trabalho se popularizou e não demorou até passar para o contexto do dia a dia, fazendo da Levi's a marca que conhecemos hoje.
Sim, a par da Coca-Cola, deve haver poucas marcas mais omnipresentes e longevas.
Sim, toda a gente sabe o que é Coca-Cola e Levi's. Com o século XX, materiais sintéticos como o poliéster, a licra e o nylon tornaram o guarda-roupa ainda mais funcionalOs vincos tornam-se mais fáceis de passar a ferro. É mais maleável, mais fácil de secar. A verdade é que hoje em dia estes materiais já não são muito amados.
São até mais arqu inimigos.
Mas houve uma época em que fizeram milagres.
A parte da roupa de trabalho salta para a ribalta nos anos 50 e 60, muito graças à cultura popular, a uma jovem geração que importa peças como o blusão de ganga, como os rockers, ícones da contracultura, do James Dean ou Bob Dylan. E não é por acaso que as chamadas marcas heritage, como a Carhartt, andam hoje pelas ruas de todo o mundo.
Essa relação com as artes é, de facto, muito interessante. Aqui, sobretudo na música, porque é muito claro. Tu quando pensas numa estrela rock, pensas quase numa farda de estrela rock. Os jeans, os casacos de cabedal, escorrendo os fios ao pescoço. No country também tu não imaginas uma cantora country sem umas botas de cowboy. E no nosso fado, o vestido preto e o xaile às costas. Isto é muito interessante, aqui o nosso caso português em particular.
Estamos desconstruindo isso.
Várias fadistas que mudaram a imagem. Desde logo a Mariza, com o seu cabelo curto, super platinado, mas mantendo sempre os vestidos compridos, ainda que muito irreverente. Depois a Carminho tem feito um caminho incrível.
Muito com a Maria Carlos Baptista.
Sim, na sua imagem, que já se distancia bastante da roupa tradicional do fado. E tens a Sara Correia, que está com uma imagem absolutamente distante da nossa saudosa Amália Rodrigues.
Por regra, a roupa de trabalho no meio artístico, indústrias criativas, convida a uma exuberância maior. A corte anterior a Carlos II de Inglaterra iria adorar. Tu sabes que até então os homens usavam maquiagem, perucas, roupas vistosas, mas depois em 1666 parece que o rei pediu sobriedade.
Bom, ele andava sobretudo vestido com uma armadura.
Era o seu fardamento. Roupa de trabalho mais austera é difícil. O monarca queria cortar a direito com as extravagâncias francesas, então ordenou o afastamento daquelas modas. Os cavalheiros deviam passar a usar casaca de lã, calças e colete. E tu sabes que mais? Foi assim que foi introduzido o fato de três peças.
Bem, e esse fato que dura até hoje. O fato completo continua a ser uma referência no mundo corporativo. E depois temos sempre de maneira menos formal, ficamos ali só pelo blazer, que até hoje é a peça de trabalho que funciona quase sempre em todos os contextos.
Sim, aliás, tu podes colocar um blazer oversized por cima de um fato de treino e consegues salvar o dia.
É verdade.
Curiosamente, os blazers começaram por ser feitos para serem usados em barcos, nomeadamente pelas equipes de remo das universidades britânicas de Cambridge e Oxford, ainda no século XIX.
E ainda hoje aparecem muito associados aqui ao contexto náutico. O blazer começa por estar associado ao guarda-roupa de trabalho masculino, mas depois conquista também o feminino. Aliás, anos 80, temos o famoso power dressing, em que os ombros largos e o corte oversized se marcaram muito e que está de volta.
Ainda hoje é difícil sentenciar o que é roupa de trabalho. Sobretudo para as senhoras, porque depende do tipo de trabalho, das ocasiões, dos códigos internos, quando não depende também do contexto histórico e político e do julgamento social.
Sim, com o Estado Novo, por exemplo, muitas associações de classe e sindicatos organizaram-se influenciando o vestuário de trabalho, que se tornou assim mais padronizado. Quanto à mulher, como em diversas sociedades e culturas, muitas tinham a casa como espaço de trabalho invisível.
Único espaço.
Exatamente. Com a roupa a passar para segundo plano e diria que o avental se calhar a passar para primeiro.
Exato, é isso mesmo. Pelo contrário, hoje temos um investimento redobrado em novas abordagens, personalização, sobretudo por parte de empresas, negócios, projetos que querem marcar a sua identidade num mundo cada vez mais global.
Sim, tens o caso da Livraria Lello, que tem uniformes desenhados pela Constança Entruda, numa proposta super irreverente, mas que ao mesmo tempo é muito funcional, inspirada pela arquitetura do próprio edifício. Tiveste também a Gandaia, que salvou a moda para a restauração com os uniformes do Velho Rico ou da Cervejaria Ramiro também.
O Mais 351 também já tem feito umas coisas. Temos o exemplo mais popular de roupa de trabalho, que o público em geral quer comprar e usar também. E todos os anos renova o guarda-roupa.
Estás a falar das influencers?
Não, eu estou a falar das camisolas dos jogadores de futebol.
Pois, é verdade, já me esquecia dessa farda.
São um verdadeiro rito. E tu não te esqueças dos uniformes antimoda, ou pelo menos que surgiram como provocação aos velhos códigos e que depois fizeram escola. Eu penso, por exemplo, na roupa minimalista dos gênios de Silicon Valley. Naquela gola alta escura do Steve Jobs, no exército de New Balance nos pés de muitos jovens que hoje querem códigos mais leves nos escritórios.
Na verdade, são os uniformes informais, que acabam por surgir de forma muito natural quando o teu trabalho não te impõe uma farda obrigatória. Porque isto de pertencer a um grupo também engloba esta parte estética, portanto, é natural que de repente toda gente pareça igual. Aliás, o conjunto de calças direitas, blusas de cetim e blazer instituiu-se quase como norma nos trabalhos mais corporativos. E aqui sobretudo com o aparecimento de lojas como a Zara, a Mango, que trazem uma vasta oferta neste ramo.
Atualmente a tendência acaba por ser mais variada, não só porque a oferta é maior, mas também porque a roupa de trabalho vai beber muita inspiração aos looks de eventos formais. Tu vês cada vez mais saias e vestidos e até alguns acessórios e muitos padrões, que era uma coisa sequer menos pensada.
Era um twist que tu antes só encontravas quase nas corporações mais ligadas à moda e que hoje é uma tendência bastante transversal. Aliás, se pensarmos bem, na moda acabas por ter algumas das fardas informais mais aborrecidas que há. Os maquiadores e os cabeleireiros, que andam quase sempre de preto.
Às vezes pensas por que os designers andam sempre vestidos igual. De facto acabam por se diluir. É interessante.
Diluem-se muito. Depois tens o caso, por exemplo, do mítico Bill Cunningham, o fotógrafo das ruas de Nova York, que andava sempre de calças beges e casaco azul, bastante minimalista. O mais extravagante que tinha era a bicicleta.
Pois é, e o minimalismo dos nadadores salvadores na praia. Tu já pensaste que a roupa de trabalho são uns calções de banho coloridos e uma boia.
Por falar nisso, os chinelos de borracha, de facto, é daquelas coisas que só fazem sentido em uniformes de trabalho, se trabalhares na praia ou na piscina.
Eu diria que sim. E já agora, será que podemos eliminar os crop tops e os calções em geral também, dos escritórios?
Vamos, mas é embora.
Estamos a enervar um pouco. Vamos embora.
Começo a enervar.
Até breve.
Até breve.