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Uma equipa de investigadores descobriu algumas semelhanças e também diferenças na forma como os cérebros humanos e os dos cães processam informações visuais sobre o rosto ou focinhos. E parece que o cérebro dos cães tem uma forma especial de processar essa informação.
E junta-se agora a nós Pedro Alves, é neurologista, trabalha também no Laboratório de Estudos de Linguagem da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e é também médico no serviço de neurologia do Hospital de Santa Maria. Muito boa tarde. Pedro Alves, começo por lhe perguntar, afinal, como é que o cérebro dos cães acaba por ver os rostos dos seres humanos?
Muito boa tarde. Este estudo que referiram é, de facto, muito interessante, porque nós sabemos que nos humanos e também noutros primatas, é a parte mais posterior do nosso cérebro que é responsável pelo processamento das informações visuais. E o que é muito interessante é que o nosso cérebro organiza e processa essa informação em diferentes categorias. Portanto, nós vamos ter áreas do cérebro que são ativadas, principalmente quando vemos faces. Por outro lado, temos outras áreas que são ativadas quando reconhecemos determinados locais ou quando reconhecemos uma palavra. Portanto, temos esta categorização em que diferentes áreas do cérebro processam informações visuais de categorias diferentes. O que este estudo pretendeu avaliar foi se o que se passava ao nível do processamento visual do cérebro dos cães seria semelhante ou não ao processamento no homem e em outros primatas.
E a que conclusões é que chegou então este estudo, Pedro Alves?
A conclusão é que não havia esta categorização tal como existe no cérebro humano. Este estudo basicamente consistia em colocar um grupo de cães e um grupo de pessoas dentro de um aparelho de ressonância magnética funcional, em que os participantes eram expostos a um conjunto de estímulos que envolviam faces e outros estímulos que não envolviam faces. E os cães, de facto, não havia uma diferença da ativação quando estavam a ver faces versus outras partes que não envolviam faces, neste caso, a região da nuca.
Portanto, não iam fazendo essas categorias daquilo que iam vendo. Qual é a importância deste estudo? Por que existiu a necessidade de fazer este tipo de comparação e no que isto se pode traduzir?
Em primeiro lugar, num aspeto mais científico, é muito importante para avaliarmos a neurobiologia, como é que os cérebros de diferentes espécies se foram diferenciando e se foram distanciando, digamos assim, de acordo com a especificidade da atividade de cada uma das espécies, que é obviamente diferente. De um ponto de vista prático, é também importante porque nós ao percebermos melhor como é que o processamento visual do cérebro dos cães acontece, podemos mudar ou melhorar formas de treino. Por exemplo, imagine a existência dos cães de guia, o reconhecimento dos donos e outro tipo de treino que seja importante na nossa interação com os animais, neste caso, com os cães.
E portanto, qual será o próximo passo? É continuar a estudar tudo isto para depois conseguir começar a aplicá-lo? Nessa questão do treino, por exemplo, que é bastante interessante.
Sim, exatamente. Neste caso, os investigadores avaliaram a capacidade de reconhecimento de faces e podemos dizer que os cães não são tão especializados como os humanos nesse aspeto. Será muito interessante estudar ou avaliar outras categorias, porque certamente que serão mais especializados do que os humanos noutras categorias. Portanto, penso que isso será um estudo muito interessante a fazer também no futuro.
E Pedro Alves, falou na questão dos estudos aplicados também a outras espécies. Já há também outros estudos no terreno com resultados promissores?
Sim, de facto, esta informação, em relação ao cérebro humano, já se sabia que o cérebro tinha estas áreas especializadas em faces e também já se sabia que nos cérebros de outros primatas havia esta especialização. Portanto, em relação a isso, a literatura já era bastante consistente. O que é de novo neste estudo é que foi, talvez pela primeira vez estudado, esta categorização no cérebro de uma espécie não primata.
Exatamente. No melhor amigo do homem, neste caso.
Exatamente.
Obrigada por se ter juntado a nós. É médico no serviço de neurologia do Hospital de Santa Maria, trabalha no Laboratório de Estudos de Linguagem da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, ajudou-nos aqui a perceber este estudo, que descobriu algumas semelhanças, mas diferenças importantes na forma como o cérebro humano e do cérebro dos cães funciona e processa informações visuais. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.