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Foram detectados nove casos da subvariante Delta em Portugal, é o que revela o mais recente relatório do Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge. Esta nova subvariante é rara e aparentemente sem riscos acrescidos de contágio face à variante Delta.
E para nos ajudar a perceber um pouco mais sobre esta subvariante, que tem uma designação que já lá vamos, vou deixar isso mesmo para o nosso convidado. Ora temos conosco o médico investigador da Escola Nacional de Saúde Pública, Vasco Ricoca Peixoto. Muito boa tarde, obrigado por se juntar a nós aqui na Rádio Observador. Estamos aqui perante uma subvariante que nos pode causar preocupações? Há motivos para estarmos preocupados?
Eu antes de mais queria também começar por olhar para trás e dizer que a Covid mostrou-nos que em pouco tempo foram geradas variantes muito mais infecciosas. A variante original infectava cerca de duas pessoas em condições normais e a Delta, há estimativas que infecta oito. Portanto, é uma evolução rápida e com alguma redução da efetividade vacinal, ainda que ligeira e principalmente para a doença sintomática sem necessidade de hospitalização. Ou seja, a vacina continua a vacinar bem para prevenir a hospitalização. E protege também contra a infeção e contra transmitir a outros. Também é importante dizer isto, mas menos do que nos estudos originais e nas variantes anteriores. E de facto, isso tranquiliza um pouco. Mas, por outro lado, nós temos que perceber, e não é só esta variante, é que estamos num contexto em que estas variantes podem aparecer em locais no mundo com muita transmissão e com menos nível de vacinação. E, portanto, isto é uma ameaça, e é uma ameaça que deve ser pensada a nível da Comissão Europeia, a nível dos países e a nível global, porque isto pode fazer-nos voltar atrás de várias formas e, de facto, é a grande ameaça e devia estar em cima da mesa, não deve ser levada de ânimo leve. O nosso contexto atual, eu também estou a trabalhar num grupo, numa task force das escolas de saúde pública europeias, e de facto, isto foi considerado que é aquilo que pode fazer mudar o futuro que agora está a correr bem neste aspeto.
Ou seja, pode haver aqui um ponto de viragem neste momento com isto que está agora diante de nós?
Pode. E estas coisas começam sempre lentamente, ou seja, nós temos que ter cuidado, porque senão vamos voltar a andar atrás do prejuízo. Já tivemos outras variantes que entraram sem qualquer problema e se espalharam pelo mundo. Aliás, é interessante também o Reino Unido, como é um local de grandes viagens e que neste momento tem medidas de controle muitíssimo relaxadas, é natural que haja disseminação dessas variantes no Reino Unido e depois que se espalhem a partir do Reino Unido também para a Europa. E nesse sentido, de facto, podemos ter a ganhar, dentro das nossas liberdades, dentro da saúde pública, dentro do funcionamento das economias, em ter algum controle, especialmente a partir de países com elevada transmissão e com vacinações mais baixas.
Mas entretanto, deixe-me perguntar-lhe uma coisa, Vasco Ricoca Peixoto. Há pouco falávamos dessa necessidade de se ter atenção e de este não ser apenas um problema específico de alguns Estados membros da União Europeia. Neste caso, estamos a falar aqui da União Europeia e do Reino Unido. Do ponto de vista das autoridades europeias, está a haver neste momento um movimento no sentido de haver aqui já um momento de prevenção e de precaver aquilo que identificava como esses riscos futuros e esse ponto de viragem, ou está a haver aqui alguma falta de apresentação de soluções que possam, de alguma forma, mitigar aquilo que pode ser um problema futuro?
Eu vejo pouca comunicação pública sobre isso, embora saibamos que há grupos dentro da Comissão a fazer estes cenários, o que é que pode ser os piores cenários e os melhores cenários, mas isto, de facto, é uma questão que nos interessa a todos e que devia ser mais discutida. Depois há as estratégias que nós podemos… Por exemplo, a Alemanha fazia um isolamento de pessoas de certos países, cinco dias, e depois apresentar um teste de PCR. Isso já tem um impacto importante e devia ser eventualmente pensado. E de facto, temos que perceber outra coisa, é que a nossa vigilância está muito mais fraca agora. Fazemos muito menos testes, fazemos menos testes de PCR, a maior parte dos testes que são feitos são autotestes ou são testes rápidos, muitas vezes são autotestes. Portanto, há muitas pessoas com sintomas ligeiros que não fazem testes atualmente e nós vamos ser desculpados a identificar as infeções e a que elas cheguem ao nível de fazer um PCR e que só a partir do PCR é que podemos identificar as variantes. E portanto, digamos que não podemos achar que vamos conseguir evitar depois a transmissão a partir do momento que essas variantes se disseminem. E eu não sei o que pode acontecer, é que em janeiro, fevereiro, não sei quanto tempo é que poderá acontecer isto, podemos estar numa situação pior. Estes cenários deviam estar em cima da mesa. Claro que é difícil pensar a longo prazo. Estamos todos cansados, estamos todos a aproveitar também alguma normalidade e isso é bom, mas de facto devemos estar a pensar um bocadinho nestas questões. E de facto, há outro tipo de evidência interessante, por exemplo, que este vírus, também pela parecença com alguns vírus dos morcegos, pode ter uma capacidade mais rápida de alterar este receptor que se liga, até porque o morcego tem muita variedade dos receptores a que se liga o vírus, ao contrário dos humanos. Há aqui todas estas questões. E já nos aconteceu duas vezes entrar em variantes mais problemáticas. Agora o problema será a redução da efetividade vacinal. Isto tem implicações, em necessidades de outras doses, em necessidades de outras vacinas, e que será problemático, será difícil ter essa capacidade. E dizer ainda que outra questão importante seria acelerar a vacinação do resto do mundo. Só que isto sabemos que é uma questão também complexa, mas é até dito em vários meios, que seria um investimento do século para os países ricos comprarem ou ter vacinas a estes países, porque caso tenhamos o azar, estamos a considerar que é um azar e que não é uma probabilidade relativamente alta, o azar de aparecerem variantes que reduzam a efetividade vacinal ainda mais um pouco, e que em princípio não será de repente, mas que vão fazendo com que a Covid continue a ter este peso, agora mais lento, mais arrastado, mas que continue a ser um problema.
Mesmo com a taxa de vacinação que temos neste momento e que exista à escala europeia?
Exatamente. Ou seja, eu estou a falar precisamente de uma variante que possa ter uma redução da efetividade vacinal. Se isso não acontecer, não vamos ter esses problemas. Agora, esta é uma incerteza crítica, digamos assim, e portanto, julgo que é importante pensarmos nisso de forma séria e se calhar sermos um bocadinho preventivos, nomeadamente na área do controle de fronteiras, em termos de exigências de teste e de algum período de isolamento dos países em que existe maior risco, em que há grande disseminação do vírus e pouco controle. E portanto, também diz este artigo da Escola de Saúde Pública que os países têm uma responsabilidade para com os outros países, para com o mundo. Se um país gera uma variante ou se queremos pôr no contexto global, deixar gerar variantes, que têm impacto depois em todo o mundo. E portanto, por isso também os países agirem com alguma responsabilidade, algumas críticas ao Reino Unido nesse sentido, de não deixar a infecção andar demasiado descontrolada e porque na verdade, isso também tem impacto nos serviços de saúde, mesmo com taxas de vacinação mais elevadas, embora em Portugal, como sabemos, uma das taxas mais elevadas do mundo, estamos mais protegidos. O grande risco é precisamente variantes com que haja redução da efetividade vacinal. E isso é possível de acontecer, pelo menos tem que estar em cima da mesa.
Doutor Vasco Rico Pepeixoto, muito obrigada por se ter juntado a nós. É também investigador da Escola Nacional de Saúde Pública, ajudou-nos aqui a perceber esta variante, subvariante que surgiu, a subvariante da variante Delta da Covid-19. Já há alguns casos identificados em Portugal, como dizíamos, o Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge já identificou alguns e, neste caso também, a Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido está atenta a esta sublinhagem da variante Delta, que hoje ficámos a conhecer de forma mais detalhada na nossa rubrica de ciência. Entretanto, encontra também no site do Observador um artigo assinado pela jornalista Vera Novais e pelo jornalista Edgar Caetano sobre o mesmo tema. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.