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"E o Campeão É" na Rádio Observador. Vamos ver quem são para esta segunda-feira. Edição com Pedro Henriques, Augusto Inácio, Gabriel Alves e Mariana Fernandes. Eu sou o Nelson Ferreira. Vamos analisar os trabalhos de Portugal neste mundial de futebol e também os últimos resultados do dia de ontem, de novo com Cabo Verde a surpreender o mundo do futebol. Dar conta também que daqui a pouco, por volta das 15h, Portugal faz o último treino antes desse jogo com o Uzbequistão. Mais logo à tarde, a equipe viaja para Houston e já à noite, em Portugal, vamos ter conferência de imprensa de Martínez e de um dos jogadores da equipe portuguesa. Começo pela Mariana Fernandes e por este Cabo Verde, que continua a surpreender o mundo. Uruguai 2, Cabo Verde 2, em mais uma bela partida de futebol. Também a curiosidade, que parece que todos os adeptos daquele estádio já conhecem Vozinha. Havia um bruá audível no estádio sempre que a bola chegava ao guarda-redes de Cabo Verde. Temos também aqui Maxi Araújo, da parte do Uruguai, jogador do Sporting em grande destaque, marcou, assistiu, está também a dar nas vistas neste mundial. Que notas tiras deste sonho cabo-verdiano em terras americanas?

Para já, eu acho que aquilo que Cabo Verde está a fazer, mais do que mostrar o que vale e mais do que mostrar que não foi a este campeonato do mundo apenas para dizer que está lá e apenas para dizer que conseguiu qualificar-se, nota uma diferença face aos outros estreantes. Ou seja, se nós olharmos para este campeonato do mundo, tem esta particularidade, como a FIFA abriu a 48 seleções, existem quatro seleções estreantes. Todas já perderam. Ou seja, o Uzbequistão, no grupo de Portugal, perdeu com a Colômbia, a Jordânia perdeu com a Áustria, Curaçao, apesar de ter marcado um golo e entretanto ter empatado com o Equador, o que é um ótimo resultado, perdeu e foi goleado pela Alemanha. Cabo Verde ainda não perdeu. E não perdeu contra seleções como a Espanha e como o Uruguai, portanto, duas das poucas campeãs do mundo que existem. E eu acho que isso acaba por sublinhar bastante bem o valor desta equipe. É uma equipe que não quer ser aquilo que não é, ou seja, que não entra no jogo nunca a tentar dominar, ou tentar ter bola, ou tentar sair a jogar. Tem uma postura conservadora de jogadores que querem sempre ir atrás do resultado, têm uma ótima reação à perda da bola e ontem, logo nos primeiros dois minutos, notou-se que conseguem, têm uma capacidade extraordinária de se adaptarem ao ambiente em que estão inseridos. Ou seja, percebeu-se nos primeiros dois minutos que o Uruguai, um pouco à sua imagem, ia ser hiperagressivo, hiperintenso, com faltas e entradas logo muito duras, Cabo Verde começou a fazer o mesmo. Ou seja, não se escudou e não se escondeu dessa postura muito agressiva. E depois, que acaba por contar, e é preciso também refletir sobre isso, acaba por contar aqui com dois jogos muito pouco conseguidos, tanto de uma seleção como de outra. Tanto Espanha como Uruguai, obviamente, não estiveram ao seu melhor, muito longe disso, e Cabo Verde aproveitou. A verdade é essa. São dois resultados ótimos. Acho que nunca na vida, nenhum cabo-verdiano, nem aqueles jogadores que ali estão, achavam que iam chegar ao final das primeiras duas jornadas com dois pontos, sem nenhuma derrota, com dois empates, com possibilidade de seguirem em frente para os 16 avos.

Falta-lhes um ponto, talvez?

Falta um ponto.

Deverá chegar?

Sim, depende tudo também do resultado que o Uruguai faz contra a Espanha. Cabo Verde está automaticamente apurado se vencer a Arábia Saudita, mas o empate pode chegar se o Uruguai perder com a Espanha, o que obviamente não é um cenário assim tão irreal. Portanto, a possibilidade de Cabo Verde estar nos 16 avos de final existe e é grande, na verdade. E eu acho que nenhum português, nenhum cabo-verdiano, nenhum daqueles jogadores acharia que o cenário seria tão extraordinário neste dia 22 de junho. Mas é por mérito próprio, por muito que se fale do demérito dos espanhóis e dos uruguaios, é por mérito próprio e daquele treinador também que lá está, que eu acho que se tem falado pouco dele. Falamos tanto de Vozinha, falamos tanto da nação cabo-verdiana, que acho que se fala pouco daquele treinador, do Bobista, que lá está e que está a fazer, obviamente, um trabalho ótimo.

E até Neemias Queta já veste o Cabo Verde, tubarão azul, para apoiar esta seleção. Gabriel Alves, a Espanha, que já teve embate também e empate com Cabo Verde, venceu por 4 x 0 a Arábia Saudita. Ainda assim, as contas de Cabo Verde poderão ser favoráveis para uma passagem à próxima fase. Como é que olhas para o trajeto que está a fazer esta seleção, que também prova, de alguma forma, um assunto já aqui abordado no "E o Campeão É", que é o bom momento das seleções africanas?

Sim, é verdade. Boa tarde. Bom momento das seleções africanas, isso é um fator. Mas olhando aqui para Cabo Verde, é um espetáculo e virou de pernas pro ar tudo aquilo que é o grupo. Onde está inserida, que vai ter discussão e que discussão até ao final. De resto, acima de tudo, eu completamente subscrevo aquilo que disse a Mariana, só adianto a raça com que a equipe está. De facto, o treinador que não inventa, portanto, aquele sistema 4-1, 4-1, mas muito bem assente, muito bem consolidado, em que os jogadores têm uma disciplina tática francamente famosa, fabulosa, porque a alta competição é disciplina tática também, e é uma grande concentração competitiva e uma reação, portanto, em termos físicos, que dá resposta àquilo que são as exigências para o desempenho do sistema. Portanto, foi um final impressionante de jogo, é verdade. Cabo Verde até poderia ter marcado o terceiro gol. Enfim, não marcou. Paciência. Fica na retina, para já, em termos estatísticos, os 65,3% de posse de bola da equipe uruguaia, mas só com Dois remates enquadrados que acabam por ser os dois gols que lhe dão a hipótese do ponto. Quanto ao mais, quero dar aqui duas notas ao treinador, que a Mariana falou e bem. Gostei muito porque ali à volta do futebol, a forma como ele humildemente se dirigiu ao treinador do Uruguai, que muito bem o recebeu, obviamente, com toda a solicitude e com toda a educação. Mas o treinador de Cabo Verde foi lá oferecer galhardete dos Tubarões e oferecer uma prenda, algo que não sei o que é, que Bielsa aceitou de forma cordata e muito agradecido. É bonito ver estas situações que me parecem também tremendamente interessantes. E não posso deixar de referir aqui o gol do Pina naquele livre, independentemente da barreira, por não estar devidamente formada, ter facilitado, mas a verdade é que o Pina marcou aquilo que se chama um golaço e deu o tiro de partida para mais uma grande exibição de Cabo Verde, que está em tudo que é imprensa mundial, é a diáspora, de fato, cantante de Cabo Verde no mundo.

Já vamos ter de avançar também para um olhar aos trabalhos da seleção portuguesa, mas muito rapidamente ao Augusto Inácio. É, de fato, a surpresa e um colega dizia-me: "Já parece um pouco a Miss Simpatia deste mundial Cabo Verde, parece que está a conquistar corações um pouco por todo o mundo."

Boa tarde a todos. Cada vez que se está a ver Cabo Verde, aquilo é contagiante. Eu estava a puxar por Cabo Verde, como é evidente, porque diz muito mais Cabo Verde do que diz o Uruguai. Mas a forma como Cabo Verde disputou o primeiro jogo com a Espanha e da forma como jogou agora com o Uruguai, é realmente uma coisa que contagia e que ficamos com pele de galinha, porque estamos não só a torcer-lhes, mas eles estão a morrer pela bandeira, eles estão a morrer pelo seu povo, eles estão a morrer pelo melhor resultado, eles estão a morrer para fazer a melhor figura possível e o que é certo é que eles já fizeram história. Empataram com a Espanha, empataram com o Uruguai, podem ainda fazer mais história se conseguirem passar também, dependendo do jogo com a Arábia Saudita, para a fase seguinte. Mas eu diria que o futebol que Cabo Verde pratica no campo é o futebol que o povo também transporta de fora do campo que está a ver. Ou seja, alegre, humilde, brincalhões, sem provocações, simplesmente querem viver o seu dia, querem viver o seu jogo. E foi isso que os jogadores da seleção de Cabo Verde fizeram e eu fiquei comovido por ver todas essas minutações, que é realmente justo que isso aconteça e que Cabo Verde possa passar à fase seguinte.

Pedro Henriques, deixo-te também a antena aberta para se quiseres deixar algum comentário sobre este momento de Cabo Verde no mundial, mas queria saber também o que achas do nosso Portugal e da ausência, em princípio, de Tomás Araújo, que parece que continua a ser a dúvida para o treino que começa às 15h. Volta a ser na defesa central portuguesa que têm surgido os problemas físicos. Felizmente, ainda não são muitos. Foi Rúben Dias no início, agora está a ser Tomás Araújo, mas isto pode também baralhar as contas de Martínez para o jogo de amanhã.

Muito boa tarde. Em relação à questão de Cabo Verde, dizer obviamente que um empate eventual de Cabo Verde com a Arábia Saudita e com os três pontos, se a Espanha cumprir o seu papel de ganhar ao Uruguai, o Cabo Verde passa com três pontos em segundo lugar. Mas esse mesmo empate e os três pontos, caso o Uruguai também se empatasse com a Espanha, poderiam colocar, pois dependia do número de gols, obviamente, neste momento é favorável ao Uruguai, por ter mais gols marcados, neste caso concreto, podia colocar o Cabo Verde em terceiro lugar com três pontos. E terceiro lugar com três pontos poderá, vamos ver como é que a coisa está a se desenrolar, falta todos os outros grupos, poderá não dar apuramento dentro dos oito melhores terceiros lugares. E, portanto, o melhor é mesmo Cabo Verde perceber que dependendo deles poderem manter esta força mental, sobretudo, e o bom jogo que têm praticado e ganharem, que isso é a forma mais concreta até de passarem de forma segura à próxima fase. Depois dizer que relativamente a Portugal, vamos lá ver, eu acho que vai haver algumas reestruturações e remodelações, independentemente, e nesse caso particular, daquilo que nós conhecemos a esse aspecto da lesão, mas o Tomás Araújo, muito provavelmente, no meu ponto de vista, também não deveria ter lugar, independentemente, está lesionado ou não, naquilo que é a concessão do 11, depois do que aconteceu neste primeiro jogo, até para já, porque o Rúben Dias retoma e obviamente que agora isso também nem se vai colocar, porque eu acho que a lesão que ele tem neste momento será pelo menos impeditiva ou não haverá necessidade de estar a queimar fichas quando tens outras opções e até jogadores que não jogaram, como é o caso do Gonçalo Inácio e do Rúben, que obviamente estando bem, estando em condições, será sempre titular, porque parece-me que é o único central que nós temos, olhando para toda a seleção, daquele que é do lá muito bom já para o excelente. Depois também se espera, obviamente, reestruturações na equipa, porque com o desempenho que houve, o próprio Francisco Conceição a puxar dos galões a dizer que no fundo é titular na Juventus e embora tenha saído do banco, já tenha marcado, se não estou em erro, quatro gols sempre a sair do banco, a puxar um pouquinho dos galões naquela que é a possibilidade de entrar ali na ala direita. Vamos lá ver o que é que o treinador faz. Depois da Da exibição muito menos bem conseguida de Bernardo Silva. Espera-se algumas alterações, muito provavelmente até ao nível das alas. Se calhar o João Félix vem a jogo, mas amanhã falaremos melhor sobre isso, até porque também vai haver mais desenvolvimentos. Vamos ver também quem são os jogadores que vão às conferências de imprensa, que isso muitas vezes também dá um sinal, embora aqui o sinal tenha sido vários jogadores, não foi o caso de Francisco, que ainda jogou. Os primeiros dois jogadores foram jogadores que não foram titulares e isso foi inteligente da parte da seleção. Mas amanhã falaremos melhor sobre o 11. Mas Portugal aqui tem que apostar as fichas todas, porque é olhar para a Espanha, para aquilo que a Espanha fez, perceber aquilo que Portugal não fez e, sobretudo, perceber que as seleções estão todas empenhadas em ganhar. E como disse, e termino com isso, Francisco Conceição, é igualar na atitude, porque tecnicamente somos melhores em relação ao adversário. Agora temos é que igualar na vontade e na atitude e por muito que se possa dizer: "Ah, mas os jogadores tentaram fazer isso". Tentaram, mas não o fizeram. E é isso que é importante, é igualar na atitude.

Vamos ter a Argentina em campo hoje, também França, fortes favoritos a este mundial. Mariana, temos de avançar para as nossas notas de hoje. Quem é o teu campeão e com que nota?

O meu campeão é o Jeremy Doku, o avançado belga, que até falhou o jogo de ontem contra o Irão devido a uma infeção respiratória e que disse, e no meu entender bem, que se a Bélgica continuar em competição, no início de julho quer deixar os Estados Unidos para assistir ao nascimento do primeiro filho na Bélgica. Doku foi completamente arrasado por muitos jornalistas, muitos comentadores, particularmente uma comentadora de um programa de televisão associado ao L'Équipe, ao ponto de o L'Équipe, entretanto, ter emitido uma nota a pedir desculpa ao Doku e da própria comentadora também ter pedido desculpa ao Doku. Esta ideia de que os jogadores de futebol não são pessoas normais é uma coisa que me incomoda um bocadinho. Se fosse qualquer um de nós que estivesse em trabalho e pedisse para sair ou dissesse que tinha de sair para ir assistir ao nascimento do primeiro filho, eu acho que acharíamos uma coisa normal, até um direito de um trabalhador. Como é um jogador de futebol, que está alegadamente a cumprir o seu sonho e que está do outro lado do mundo a representar a Bélgica, não pode. E é falta de profissionalismo, é falta de vontade, é falta de querer. Eu acho que o Doku tem todo o direito de sair dos Estados Unidos e de assistir ao nascimento do seu filho, assim como acharia que qualquer outro que não o quisesse fazer também estaria a exercer o seu direito. Portanto, fica uma nota para ele por pelo menos ter tido a coragem de dizer o que quer fazer.

Gabriel Alves, quem é o teu campeão desta segunda-feira?

Começo por dar uma nota ao guarda-redes do Irão, que fez a defesa do campeonato ontem frente à Bélgica. Uma enorme defesa, aquilo é de facto fantástico. E depois, na sequência daquilo que a Mariana deu nota, eu quero dar nota ao Oyarzabal. Cultura básica, eu conheço o Oyarzabal desde junior na equipa da Real Sociedad, conforme subiu, cresceu, com os treinadores que trabalharam com ele e ele trabalhou. E, portanto, é um jogador, uma pessoa, acima de tudo, de grande caráter. E foi, eu diria, arrasado, tiroteado por palavras em relação ao primeiro jogo, exatamente frente a Cabo Verde. Ele ontem não só marca dois gols como está noutro. E depois quando foi à conferência de imprensa, interpelado pelo jornalista sobre o assunto de forma com classe, qualidade de pessoa, de caráter, desvalorizou tudo isso e disse que está ali única e simplesmente focado em ser jogador de futebol profissional e trabalhar para a sua Espanha. Para Oyarzabal, 20.

Saiu um 20. E agora, Augusto Inácio, que nota tens e para quem?

Para a surpreendente Cabo Verde, nota 18, para já. Está a ser a grande surpresa deste Campeonato do Mundo e eu espero dar uma nota maior se passar à fase seguinte. É realmente contagiante, como eu disse, e é realmente um prazer ver este Cabo Verde jogar. Mas também queria dar a nota 17 para a segunda vitória do futebol do Benfica sobre o Sporting. Ganhou nas grandes finalidades, está em vantagem para o João Rocha. Na próxima quinta-feira, se ganhar o jogo, é campeão. Se o Sporting ganhar, vai haver uma finalíssima no Luz. Mas esta vitória do Benfica foi muito importante. Para já, nota 17 para o Benfica por esta excelente vitória.

Pedro Henriques, fechamos contigo a edição de hoje.

Nota 16 para aquilo que são as tecnologias e nomeadamente as alterações às leis do jogo, que têm tido muito impacto. Japão-Tunísia, a bola não entrou na baliza da Tunísia porque só a TLG, a tecnologia de linha de gol, permitiu isso. A olho nu, todos nós íamos dizer que era gol. Temos dois gols anulados por fora de jogo, que com esta tecnologia semiautomática ou quase automática, não é com frames, não é o rapazinho do VAR estar a meter aquilo frame a frame. Não, é uma tecnologia semiautomática, o algoritmo faz tudo. Foi assim que foi anulado o gol ao Uruguai ontem, e bem, por muito que as pessoas não entendam o fora de jogo, mas isso é outra promessa. Foi assim que foi também anulado o gol do Irão, aquele lance com o Taremi, e bem, uma vez mais. E em relação às alterações da lei de jogo, mais uma que ontem vimos de forma mais evidente, porque todos nós vimos o Cabo Verde e o Uruguai. De repente, o Telmo Ancanjo faz parar o jogo porque precisa de assistência, faz parar no sentido não saiu do chão, aparentemente não houve cartões amarelos nem vermelhos para quem fez a falta e eles não estavam a perceber, e isso também é importante, por que eles tiveram que sair. Porque parando o jogo, sendo assistido, automaticamente sai, fica um minuto fora e só reentra depois do jogo ter recomeçado. É que nem isto a malta de uma maneira geral sabe. E era conveniente, porque ainda estamos numa fase assim, assim. Quando isto for a doer, partido 16 a eliminar, quem dominar melhor estas circunstâncias estará mais próximo do sucesso, não tenho dúvidas. Já disse que este vai ser o mundial da arbitragem neste sentido, das alterações profundas que houve e com muito impacto e estão a ter sistematicamente nos jogos.

E o campeão é na edição de segunda-feira, já daqui a pouco disponível no site do Observador e nas plataformas de podcast.