Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

E o resto é história.

É apenas fumaça.

Do Incêndio de Pedra, ainda na zona dos Xavres. Quem faz um filho, fá-lo por gosto. É sangue vermelho, suor do corpo, fogo de amor. Quer transformar este país numa ditadura.

Não, não.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, sejam bem-vindos ao episódio número 83 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Hoje eu queria começar com uma grande notícia e um grande agradecimento aos nossos ouvintes. Esta semana ultrapassamos a marca de um milhão de downloads do programa "E o Resto é História", desde que ele começou a ser emitido no final de junho de 2019. São números muito impressionantes de ser alcançados em apenas 20 meses. Hoje em dia, o "E o Resto é História" tem uma média de 20 mil downloads semanais, o que é notável pra um programa com estas características. O mérito é sobretudo teu, Rui, muitos parabéns a ti, senhor historiador.

Parabéns a todos e também a toda gente que faz o programa todos os dias.

Agora começamos aquela parte em que eu te digo: "Você é extraordinário, senhor Rui Ramos", e tu dizes: "Não, eu sabesá". Não, a modéstia impede. Bom, mas parece-me que a melhor maneira de celebrar estes números, em vez de nos estarmos aqui a elogiar um ao outro, é dedicar integralmente o programa de hoje às perguntas dos nossos ouvintes. E começamos por uma proposta muito singular e certamente bastante dolorosa do ouvinte Manuel Castelo Branco. O pai de Manuel Castelo Branco, Gaspar Castelo Branco, era diretor-geral dos Serviços Prisionais quando foi assassinado por membros das FP 25, a 15 de fevereiro de 1986, à porta de sua casa. Foi o mais alto quadro do Estado a ser morto pelas FP 25, deixou três filhos e Manuel Castelo Branco é um deles. Na altura, tinha apenas 17 anos. Eu passo a ler o e-mail que ele nos enviou. "Em fevereiro, passam 35 anos sobre o assassinato do meu pai. Em março, passam 25 anos sobre a anistia às FP 25 de Abril. Em abril, passam 41 anos sobre os primeiros atentados das FP 25 de Abril e não seria uma boa altura", propõe ele, "para que o E o Resto é História abordasse o tema de um grupo terrorista que matou 17 pessoas, baleou dezenas de pessoas, tendo ainda roubado mais de € 5 milhões entre assaltos a bancos e empresas? Fica a sugestão", diz ele. Parece-me inevitável, Rui, seguir esta sua sugestão, tanto mais que as Forças Populares de 25 de Abril parecem hoje oriundas de um país muito distante. E, no entanto, em 1987, já Portugal era membro oficial da CEE, ainda morriam pessoas e a extinção oficial das FP 25 ocorreu apenas na década de 90. O que foram estas FP 25, Rui, e o que explica a sua existência e persistência numa democracia que então já era consolidada?

As FP 25, autodesignadas Forças Populares 25 de Abril, fazem parte de uma época de terrorismo urbano, de guerrilha nos países ocidentais, em toda a Europa, que teve o seu auge em meados da década de 1970. Esta é uma violência que tem, nalgumas regiões, ligações ao nacionalismo, como na Irlanda do Norte, através do IRA, e no País Basco, através da ETA, mas na maior parte dos outros casos, na Alemanha, na França, na Itália, na Espanha, em Portugal, na Grécia, são grupos esquerdistas que se organizam em grupos armados clandestinos para ações violentas, para assassinatos, para colocação de bombas. É o caso da chamada fração do Exército Vermelho ou Grupo Baader-Meinhof, na Alemanha, das Brigadas Vermelhas na Itália, da Ação Direta em França, dos Grupos de Resistência Armada 1º de Outubro, GRAPO, em Espanha, da Organização Revolucionária do 17 de Novembro na Grécia e até do Exército Vermelho no Japão, etc. Há uma proliferação de organizações clandestinas armadas.

Isto são modas também que surgem.

Isto é uma moda. É uma espécie de vaga. E repito, isto acontece sobretudo em meados dos anos 70, os chamados, na Alemanha e na Itália, os anos de chumbo. Em Portugal, as FP 25 surgem na década de 80 e já são, de alguma maneira, um fenômeno serôdio em relação à vaga do terrorismo nos outros países, embora ainda houvesse terrorismo na Alemanha, os Baader-Meinhof também ainda estavam ativos. A chamada segunda ou terceira geração dos Baader-Meinhof, que teve várias gerações, ainda estava ativa.

E em Espanha.

E em Espanha, os GRAPO. E além do IRA, na Irlanda do Norte, etc. Qual é a lógica por trás destas opções do que eles chamam luta armada e que nós podemos chamar, muito propriamente, terrorismo? Há aqui quatro aspectos a ter em conta. O primeiro: tratam-se de organizações de esquerda, de uma nova esquerda, uma esquerda que é crítica do tipo de ação política, eleitoral e parlamentar dos partidos estabelecidos à esquerda, dos partidos sociais-democratas, até dos partidos comunistas, no caso da Itália. Isto é uma extrema-esquerda que é crítica desses partidos, porque dizem que esses partidos renunciaram à revolução e estão apenas a tentar obter melhorias para os trabalhadores através do Estado Social. Ora bem, o que esta extrema-esquerda que está por trás destes grupos armados quer é recuperar a ideia de revolução como uma rutura Obtida através da destruição violenta do sistema do capitalismo, mas também da democracia, que eles chamam de democracia burguesa. Eles têm influências. A grande influência vem das guerrilhas de tipo comunista do Terceiro Mundo, do maoísmo na China, da Revolução Cubana. O que eles tiraram desses episódios dos anos 40 e 50? Tiraram a ideia de que a revolução, ou a mudança, em vez de ser provocada por uma espécie de propaganda junto das massas, a convencer os operários e depois outras classes sociais das vantagens do socialismo, em vez de se fazer esse trabalho lento, não, devia-se começar por provocar um choque através de uma vanguarda armada que criasse uma ruptura entre o sistema, isto é, entre as classes altas, entre o Estado, etc., e o resto da população. E eles pensam que a essa vanguarda armada, a essas minorias armadas, compete, através da violência, tornarem-se representantes do resto da população. Isto é mais ou menos aquela teoria do foco do Che Guevara, isto é, de um grupo armado que se forma numa parte de um país e que a partir daí começa uma insurreição, esperando que o seu exemplo leve o resto da população supostamente oprimida a juntar-se lhes. No terceiro mundo, estes focos armados tinham o seu lugar nas montanhas ou nas florestas da África, da América Latina, da Ásia. E bem, esta extrema-esquerda europeia acha que também pode fazer o mesmo nas cidades europeias. Isto é uma guerrilha urbana, transformar as cidades, aliás, como diziam os Baader-Meinhof, em Vietnams, quer dizer, isto é trazer o Vietname pra casa, como eles diziam, isto é, trazer o Vietname pra Europa. Isto é a época da guerra do Vietname na década de 60. Agora, como é que eles esperam atrair as populações? Eles esperam atrair as populações através de uma lógica extraordinariamente perversa. Eles acham que a democracia que existe, as liberdades que existem, são apenas fachada. Verdadeiramente, os ocidentais, os europeus, na Alemanha Ocidental, na Itália, em França, em Portugal, vivem ainda num Estado fascista, mas é um Estado fascista que está disfarçado, que deixa haver eleições livres, deixa as pessoas falar. Isto é uma lógica esquisita, mas é fascista.

Até porque é uma lógica que não tem forma de ser desconstruída, é fechada em si própria.

É fechada em si própria, é um Estado fascista. E o papel destes grupos armados é provocar este Estado fascista a revelar-se. Eles, através da violência, querem obter uma resposta violenta do Estado para depois dizer à população que eles esperam depois ter com ele: "Estão a ver? Aqui está, vocês vivem sob um Estado fascista." É por isso que os GRAPO, por exemplo, iniciam as suas ações em Espanha, um grupo terrorista dos mais violentos, precisamente depois do fim da ditadura franquista. O objetivo deles é impedir uma transição pra democracia, é tentar, através dos seus atentados, através dos seus assassinatos, que são muito dirigidos contra as Forças Armadas, contra oficiais das Forças Armadas e membros das forças de segurança, tentar provocar as Forças Armadas espanholas a-

Convidando-as a um novo golpe

...a um novo golpe de Estado e quase conseguem isso em 1981, com aquele golpe de Estado, que é em grande medida justificado por aqueles que fazem o golpe de Estado pela insegurança que existe em Espanha, pela ação dos GRAPO e depois também da ETA. Aquilo que eles querem é arranjar uma ditadura pra depois poder combater a ditadura, uma coisa extremamente bizarra. Mas reparem, foi isto precisamente que grupos similares a estes conseguiram, por exemplo, no Uruguai e na Argentina, no Uruguai em 1971, 72, na Argentina em 1975, 76, os Montoneros na Argentina, os Tupamaros no Uruguai, eles conseguem mesmo provocar golpes de Estado militares, trazer ditaduras militares, e depois aquilo que conseguem é pura e simplesmente serem exterminados pelas ditaduras militares. Mas a lógica era esta: vamos obrigar esta democracia a desmascarar-se, a mostrar que afinal é uma ditadura militar, e depois vamos combater esta ditadura militar e então com o apoio popular. Esta é a lógica sinistra desta gente.

Mas quer dizer que toda a gente era ideologicamente sustentada ou havia gente que era pura e simplesmente delinquente?

Não, no meio destes grupos armados, e vamos falar disso a propósito das FP 25, há pura e simplesmente delinquência e às vezes há também uma outra coisa, há um niilismo, um radicalismo pelo radicalismo, que faz com que, por exemplo, um dos fundadores dos Baader-Meinhof na Alemanha, o Horst Mahler, um comunista assanhado em 1970, hoje é um neonazi, tornou-se um neonazi. Provavelmente ele é o mesmo, só que as roupas radicais que vestiam são diferentes. Bem, estas são as razões, a lógica, se podemos chamar lógica, desta guerrilha urbana, desta opção pela luta armada. Agora, como é que era possível? Porque uma coisa é querer e outra coisa é possível. Bem, é possível porque há, no fim dos anos 60, sobretudo, uma grande descredibilização Das universidades e da boemia intelectual. O chamado Maio de 1968 em França e as insurreições estudantis nos Estados Unidos, em França e em muitos países, no México. É um front também transversal que tem a ver com transformações nas universidades, mais gente nas universidades, etc. Isso cria uma rede de apoiantes, de simpatizantes, que permite a estes grupos terem apoio.

Uma base de recrutamento.

Basta pensar que em Itália, por exemplo, a polícia nos anos 70 prendeu 12 mil pessoas associadas às Brigadas Vermelhas. 12 mil pessoas. Isto é muita gente. Eles têm casas onde se escondem, têm apoiantes, têm gente que os vê com simpatia dentro destes grupos estudantis de onde eles vêm. Por exemplo, as Brigadas Vermelhas são fundadas em Itália, por estudantes de Sociologia da Universidade de Trento. E há professores universitários suspeitos de estar também associados a este terrorismo, como o Antonio Negri, professor de Ciência Política na Universidade de Pádua, que é preso em 1979 e acusado de ser o mentor das Brigadas Vermelhas. Ele nega, tem negado até hoje, diz que não é verdade, mas a verdade é que foi preso. E depois há também apoio externo. Apoio externo é um apoio que vem das ditaduras comunistas que ainda existem na Europa. Por exemplo, os serviços secretos da Checoslováquia dão apoio às Brigadas Vermelhas, isto é, recolhem, fornecem armas, etc. Por vezes diretamente, outras vezes indiretamente, através de movimentos armados do Terceiro Mundo, como os movimentos palestinianos. Os Baader-Meinhof fazem treino no Médio Oriente junto destes movimentos palestinianos. E os Baader-Meinhof têm também o apoio, sabemos hoje, da Alemanha de Leste, da Stasi, isto é, da Polícia Secreta da Alemanha de Leste, que também lhes dá apoio. Eles têm apoios que fornecem armas, fornecem dinheiro.

No caso das FP-25 foi auxílio da Líbia.

Provavelmente da Líbia. Há apoios da Líbia. E depois também há um ambiente, finalmente, há um ambiente que propicia também este tipo de visão apocalíptica, que é aquele que está associado à crise de petróleo de 1973 e depois ao processo inflacionista que vai até aos anos 80. A inflação, estas subidas de preços fazem uma grande conflitualidade social, muitas greves. Há uma crise industrial no Ocidente e portanto também há um ambiente que convida a estas visões niilistas de rupturas violentas e de extrema violência. Isto é outra coisa que nós temos de ter em conta. As Brigadas Vermelhas assassinam pessoas na Itália, juízes, advogados, professores universitários, até sindicalistas comunistas, que não seguem a linha desta extrema esquerda, são assassinados. É de uma extrema violência. Por exemplo, os Baader-Meinhof, em 1975, assaltam a embaixada alemã em Estocolmo, tomam as pessoas que lá estão, o pessoal da embaixada como reféns, pra exigir a libertação de presos dos Baader-Meinhof. E quando o governo alemão se recusa a libertar os presos, eles começam mesmo a matar os reféns. Matam dois reféns. É mesmo sério. É um endurecimento enorme desta gente. Estudantes, gente muito jovem que de repente começa a matar mesmo e a ter um gosto do sangue e aquilo a tornar-se qualquer coisa mais do que propriamente já a ideologia.

Tal como aconteceu também em 78, na Itália, com o assassinato do Aldo Moro.

Com o Aldo Moro, exato. Precisamente Aldo Moro, que está a tentar obter um compromisso entre a democracia cristã e o Partido Comunista Italiano. E é isso que as Brigadas Vermelhas não querem. As Brigadas Vermelhas não querem compromissos, querem rupturas, querem extremismo, querem polarização, querem crispação. É isso que estão a tentar obter com a sua violência. As FP-25 começam em Portugal só em 1980, a 20 de abril, com uns petardos a anunciar as FP-25. Vários dos seus operacionais vêm de grupos armados que tinham atuado antes de 1974, como as Brigadas Revolucionárias, que depois estiveram associados, depois de 1974, ao PRP, o Partido Revolucionário do Proletariado.

E por que elas chegaram tão tardiamente? É por causa da própria revolução?

A minha explicação é a revolução, é que no auge da revolução e no auge daquilo que vai ser o terrorismo no resto da Europa, estes grupos, os membros, os potenciais membros destes grupos armados, estavam digamos que ligados ao poder em Portugal, ao poder militar, ao MFA, por exemplo. O PRP, por exemplo, tem um grande contacto com o Otelo Saraiva de Carvalho no COPCON, está muito próximo do COPCON. Portanto, na época em que nos outros países da Europa Ocidental estes grupos armados estão mais ativos, é uma época em que eles estão ligados ao poder em Portugal e, portanto, não há terrorismo deles. A violência clandestina em Portugal nessa época, em 1975, é mais uma violência vinda da direita que contesta o MFA e o poder militar revolucionário, por exemplo, o MDLP, etc. As FP-25 têm membros vindos de grupos armados anteriores, das Brigadas Revolucionárias, por exemplo, que são fundadas em 1970, mas têm uma prática e uma orientação completamente diferente. Quer as Brigadas Revolucionárias, quer a Ação Revolucionária Armada, que esteve ligada ao PCP, são ambas de 1970, são grupos armados ligados, sobretudo, a sabotagens e tentam evitar vítimas. Eles causam vítimas, mas causam vítimas involuntariamente, sempre. Colocam bombas, tentam destruir instalações, armamento, no caso da ARA, sobretudo. Ora bem, as FP-25 não são uma continuação destes grupos, embora tenham alguns membros destes grupos. Por quê? Porque as FP-25 adotam a prática das Brigadas Vermelhas e dos Baader-Meinhof, com assassinatos e até a preparação de tomada de reféns. Eles tinham já instalações para tomar reféns, que depois não chegaram a fazer, além dos assaltos a bancos, etc.

Ok. Rui, nós estamos aqui agora a chegar ao final desta primeira parte. Nós continuaremos a falar das FP-25 na segunda parte de "E o Resto é História". Até lá. Olá, sejam bem-vindos a esta segunda parte do episódio número 83 do "E o Resto é História?". Estávamos a falar das FP-25. Rui, que entre 1980 a 1987 assassinaram pelo menos 13 pessoas.

Sim, 13. O número que foi dado por nosso ouvinte, 17. Às vezes há dúvidas.

Sim, porque também contam as próprias pessoas que morreram das próprias FP-25. São alguns operacionais que morreram no decorrer das operações.

Exato. A mortalidade, isto é, os assassinatos das FP-25, dando o seu período de ação, comparam com os 23 assassinatos do grupo 17 de Novembro na Grécia. As Brigadas Vermelhas terão matado 75 pessoas em Itália entre 1974 e 1988. Os Baader-Meinhof terão matado 35 pessoas na Alemanha. A polícia, por outro lado, a polícia na Alemanha, mais dura, terá matado mais de 20 membros dos Baader-Meinhof em confrontos. E os GRAPO, em Espanha, mataram cerca de 84 pessoas. São números grandes, porque os GRAPO condenavam pessoas à morte, que era uma coisa espantosa. Havia pena de morte em Espanha dos GRAPO. Como as FP-25, as pessoas mortas pelas FP-25 eram pessoas condenadas à morte pelas FP-25. Eles formavam um tribunal e depois eram os carrascos. Portanto, a pena de morte existiu em Portugal nos anos 80, praticada pelas FP-25, que matava pessoas. Decidia que um empresário não tratava bem os trabalhadores, portanto, era condenado à morte, assassinado. Decidiu que o diretor-geral dos Serviços Prisionais também não cuidava como eles achavam que devia cuidar dos presos das FP-25 e, portanto, é condenado à morte e é assassinado. Eles chamavam execuções. Isto dá a ideia da perversão a que chegou a gente que esteve por trás das FP-25. Agora, o que é que era exatamente as FP-25? Aqui o novelo começou a desfiar em junho de 1984, quando a polícia efetuou cerca de 40 prisões do que designou como a cúpula política das FP-25. Qual foi a interpretação da polícia? A interpretação da polícia, baseada nos documentos que foram apreendidos durante estas prisões, é que as FP-25, as Forças Populares 25 de Abril, faziam parte de uma organização. Uma organização que era designada nos documentos por Projeto Global, da qual eram a parte armada e clandestina, e havia depois uma parte política legal, que era a Força de Unidade Popular, FUP. Por isso, às vezes o processo é designado por FUP 25 de Abril. Esta parte legal, Força de Unidade Popular, que seria dirigida por Otelo Saraiva de Carvalho. É o major que planeou o 25 de Abril em 1974 e que 10 anos depois é preso como estando à frente de uma organização que desenvolve atividades terroristas. Ele é acusado de ser o orientador da organização em termos globais e, portanto, também das FP-25. O Otelo Saraiva de Carvalho, obviamente, negou sempre isto, mas nós sabemos que o Otelo, desde o tempo do COPCON, tinha relações próximas com membros das Brigadas Revolucionárias, do PRP, de que são oriundos uma parte dos membros das FP-25 e que têm aquela ideia de talvez tentar provocar outra vez a revolução que falhou em 1975. Agora, como é que era possível pensar isto? Tu dizes um país já na CEE. Ainda por cima, quando nós pensamos que o Otelo Saraiva de Carvalho, que foi candidato presidencial em 1976 e de fato teve 800 mil votos, tinha apoio grande aí. Mas foi outra vez candidato presidencial em 1980, quatro anos depois, quando surgiram as FP-25, e teve só 85 mil votos, portanto, um décimo. Isto era um movimento em queda. Como é que eles esperavam tomar o poder e fazer a revolução que não tinham conseguido fazer em 1975? Em 1980, obviamente, Portugal ainda não estava na CEE, havia uma crise, incerteza econômica e também uma grande polarização política à volta do governo da Aliança Democrática. Depois, em 1983, veio mais um programa de ajustamento do Fundo Monetário Internacional, portanto, havia um ambiente de crise. E este é que é o ponto essencial. O que nós temos aqui é esta gente das FP-25. Quando nós lemos, e muitos deles escreveram coisas e publicaram livros, quando nós lemos a tentativa deles explicarem as suas próprias ações, percebemos que é gente que vive numa bolha. De uma bolha que não tem contato com a realidade, que é a bolha daquilo que eles chamam a luta armada, que aquilo se tornou um modo de vida pra eles.

Já não sabiam fazer outra coisa.

Há muito dinheiro roubado, eles têm muito dinheiro, eles roubam muito dinheiro e, portanto, há muito dinheiro. Os assaltos a bancos são, aliás, a sua principal atividade, é assaltar bancos. Muitos deles provavelmente são delinquentes e quase assassinos. Por exemplo, em Itália há uma interpretação quase das Brigadas Vermelhas, que é uma espécie de máfia da esquerda. Aquilo acabou por ser uma máfia, até com os códigos da máfia sobre silêncio, cumplicidade, etc. E a organização, aquilo que nós sabemos das FP-25, de alguns dos seus modos de atuar, revela o mesmo tipo de comportamento de uma organização como os narcotraficantes, etc. Isto é, de violência e de vingança. Por exemplo, em outubro de 1980, eles tentaram assaltar um banco em Malveira da Serra, perto de Sintra, e membros da população que se aperceberam do assalto reagiram, também tinham armas, e mataram dois membros das FP-25 E as FP-25 voltaram duas vezes ao local, em março de 1981 e em outubro, no ano seguinte, para se vingar. Tentaram matar um habitante da Malveira em 1981 e depois mataram dois GNR em outubro. Isto é como vingança pura e simples. Portanto, isto já não é associado a luta revolucionária nenhuma. Isto é um bando de criminosos que está a vingar-se. E depois temos elementos que nos permitem ver essa ligação à delinquência. Por exemplo, anos depois, já no século XXI, em 2010, descobriu-se que a chamada rede do multibanco, era uma rede de bandidos que assaltaram cerca de 100 caixas de multibanco e fizeram cerca de 50 carjacking, isto é, assaltos a carros com violência. Este grupo de bandidos, a chamada rede do multibanco, era dirigida por quem? Por um ex-membro das FP-25, que aliás tinha organizado o grupo exatamente como as FP-25 funcionavam, com a mesma disciplina militar, com os mesmos pontos de apoio. Portanto, um indivíduo para quem a delinquência e a criminalidade tanto podia ter a bandeira vermelha como não ter bandeira nenhuma e ser simplesmente para roubar dinheiro. Portanto, há uma dimensão aqui, de facto, de criminalidade. E quando há uma anistia, quando se fala de anistias-

Houve uma anistia em Portugal

...como houve em Portugal em 1996, para crimes políticos, entendeu-se estes crimes como políticos, excluindo-se os crimes de sangue, mas depois os crimes de sangue nunca se consegue apurar quem é que foi o autor material. A responsabilidade é da organização, mas quem é que disparou fulano ou sicrano, não se sabe e portanto também não se conseguiu apurar. Mas de facto muitos destes crimes são pura e simplesmente crimes, não são crimes políticos, são crimes. E são crimes contra regimes democráticos, são crimes contra a liberdade, contra eleições livres, contra tudo aquilo que se deve ao 25 de Abril, feito por uma organização que perversamente abusou do nome do 25 de Abril.

Muito bem. Rui, o escritor Afonso Reis Cabral, mais uma pergunta de um ouvinte ilustre, também nos enviou uma questão referente a um seu antepassado, mas felizmente essa sua questão é um pouco mais animada. Como é público, Afonso Reis Cabral é trineto de um tal José Maria de Eça de Queiroz, não sei se já ouviste falar, Rui.

Vagamente.

Vagamente. E depois de se declarar, o Afonso Reis Cabral, não o Eça de Queiroz, seguidor total de "O Resto é História".

O Eça de Queiroz era mais importante do que um milhão de Download, esquece.

Quem sabe não seria um admirador no século XIX se houvesse-

Ou não fazia Download, por menos

Download não fazia. O Afonso Reis Cabral, depois de se declarar seguidor total de "O Resto é História" e nos garantir que já ouviu todos os episódios, deixou-nos esta questão: "A propósito das recentes honras de Panteão Nacional para Eça de Queiroz", e para quem não sabe, no dia 14 de janeiro foi decidido pelo Parlamento Português atribuir honras de Panteão Nacional aos restos mortais de Eça de Queiroz. "Gostava de saber o que está subjacente à ideia de Panteão, quando foi fundado o conceito por cá e quais os principais momentos até chegarmos à configuração que temos hoje em dia." Basicamente, o Afonso Reis Cabral pede-nos um apanhado da história do nosso Panteão Nacional, não esquecendo os Jerónimos e o Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra. Vamos então a isso, Rui. Ficas desde já desafiado a dizer que isto não começou tudo no século XIX.

Não começou tudo no século XIX, mas em Portugal começou. O Panteão Nacional foi criado, a ideia, a instituição foi criada em 1836 com um destino. O destino era receber os restos mortais de cidadãos exemplares que tivessem servido o país nas suas áreas de atividade, quer como políticos, escritores, enfim, a mais ampla área de atividades. A ideia é uma ideia romana e o Panteão refere precisamente, aliás, há um panteão em Roma reconstruído pelo imperador Adriano em 126 depois de Cristo, mas da Agripa, que tinha sido originalmente construído por Agripa, mas aquilo que se conhece é a reconstrução do imperador Adriano. O Panteão refere-se a um templo dedicado a todos os deuses. Portanto, aqui era dedicar um templo a todos os cidadãos ilustres, àqueles que foram importantes para a pátria. E neste sentido, essa ideia de Panteão Nacional vem da Revolução Francesa. A Assembleia Nacional, em 1791, decidiu que uma igreja em Paris, a igreja de Santa Genoveva, em Paris, seria consagrada aos heróis da nação, como um templo da nação, como um panteão. E o primeiro a ser lá colocado foi Mirabeau, que era um dos grandes oradores da Revolução Francesa, e foi também o primeiro a ser deitado fora, porque dois anos depois descobriu-se que afinal Mirabeau tinha mantido uma grande correspondência com o rei Luís XVI e portanto o herói da revolução foi de repente considerado um traidor, e então eles foram buscar lá o cadáver outra vez e atiraram uma bala. O Panteão começou desta maneira. Essa é a inspiração para o Panteão Nacional em Portugal. Mas há aqui um ponto importante: a ideia do Panteão Nacional existe em Portugal desde 1836, mas eles não tinham um sítio para ser Panteão Nacional. Esse é que é o ponto. Não havia um sítio.

Tinham a ideia, mas não o local.

Os revolucionários franceses foram buscar a igreja de Santa Genoveva, mas os liberais portugueses, em 1836, não se lembraram de arranjar um sítio. Então o que é que aconteceu? O que aconteceu é que quando se tratou de homenagear figuras importantes, começou a usar-se o Mosteiro dos Jerónimos. Foi isso que se fez em 1880 com Luís de Camões Terceiro centenário, arranjou-se os ossos de Camões para os lados do Campo de Santana ou uns ossos quaisquer. Decidiram que eram de Camões e foram colocados num túmulo condigno nos Jerónimos e depois, quando se tratou de homenagear Alexandre Herculano em 1888.

Com os ossos já verdadeiros.

Esses ossos verdadeiros, porque o Alexandre Herculano tinha morrido em 1877, também se levou o Alexandre Herculano para os Jerónimos. Aparentemente, os Jerónimos estavam se a tornar, no fim do século 19, uma espécie de panteão. Mas isso foi contrariado por uma decisão de 1916 de designar pro Panteão Nacional, e isto também é irônico, a Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa.

A tal que até tinha dado direito a um provérbio, não é?

Exato. Ora, o que tinha característico a Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa, em 1916? É que embora a sua construção tivesse sido iniciada no século 17, ainda não estava acabada. O que quer dizer que continuou a haver um panteão, agora o panteão já tinha um sítio, mas era um sítio que não podia ser usado, porque não estava acabado. E o que é que aconteceu? Continua a acontecer o mesmo. Em 1918, o presidente Sidónio Pais é assassinado. Os seus admiradores querem dar-lhe uma grande homenagem como um dos grandes homens da pátria. O que é que fazem? Levam-no para os Jerónimos. Em 1921, trata-se de fazer a tumulação, como aconteceu noutros países que participaram na Primeira Guerra Mundial entre 1914 e 1918, do soldado desconhecido. Aliás, em Portugal havia dois soldados desconhecidos, que era o soldado desconhecido na Europa e o soldado desconhecido da África.

Muito bem.

E para onde é que foram? Foram para o Mosteiro da Batalha, que nessa altura, em 1921, aliás, veio até o rei da Bélgica para a cerimônia de inumação dos corpos destes soldados, foi considerado o templo da pátria e onde se fez acender a chama da pátria. De repente, mais um panteão no Mosteiro da Batalha.

Já temos dois, mas nenhum oficial.

Nenhum oficial. Finalmente, em 1966 são concluídas as obras da Igreja de Santa Engrácia, que só demoraram 284 anos. Quem tem queixas de pedreiros e de construtores civis, pense bem das obras de Santa Engrácia, quer dizer, as famosas obras de Santa Engrácia. Só 284 anos.

Se foi em 66, agora também sobra 55 anos, está perfeito.

É verdade. E quando foi concluída, então é que começaram a fazer-se transferências para lá. No ano de 1966, fizeram-se transferência para o Panteão dos restos mortais de Almeida Garrett, Guerra Junqueiro, João de Deus, do presidente Carmona, de Sidónio Pais, que foi tirado dos Jerónimos e foi levado para Santa Engrácia, para o Panteão Nacional, e de Alfil Braga. Mas acontece que entre 1966 e 1990, nunca mais ninguém foi levado para o Panteão.

Certo.

E mais, em 1985 comemorou-se os 50 anos da morte de uma figura que se tinha tornado, neste fim do século 20, uma das grandes figuras do país, quase paralela a Camões, que era Fernando Pessoa.

Certo.

Ora bem, o que é que se faz para homenagear Fernando Pessoa? Leva-se para o Panteão Nacional? Não. Leva-se para os Jerónimos. Qual é a lógica? A lógica é: bem, mas está lá Camões, o maior poeta ou o outro maior poeta a nível de Camões, tem que estar também ao lado de Camões, não pode estar lá no Panteão.

No Panteão Nacional. A lista era um bocadinho de-

Ora bem, isto faz com que-

Era a equipe B.

Começa o Panteão Nacional de Santa Engrácia a tornar-se a equipe B da equipe A que está nos Jerónimos.

A primeira liga está nos Jerónimos.

Agora a questão aqui é que este problema que a República tem e o Estado liberal, não saber onde é que é o panteão, mesmo quando já há um Panteão Nacional. Isto não tem apenas a ver com problemas que sejam inerentes ao atual regime comemorativo. Isto tem a ver também com os panteões reais que existiam anteriormente. E esse é que é um dos grandes problemas. Por exemplo, em França, o Panteão Real foi, desde o século X ao século XIX, durante mil anos, a igreja de Saint-Denis, ao norte de Paris.

Certo.

Todos os reis de França, menos três, foram durante mil anos sepultados em Saint-Denis. Quer dizer, que é a grande necrópole, é o grande panteão da monarquia francesa. Ora, o reino de Portugal nunca teve nada de equivalente. As várias dinastias e os vários reis dentro da mesma dinastia andaram sempre a distinguir-se entre os outros através dos locais de sepultura. É verdade que o Dom Afonso Henriques está no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. E o filho, o Dom seis primeiro, também. Aliás, em túmulos do século XVI, não são os túmulos originais. Mas depois dele, os seus descendentes, os outros reis, escolheram os mais variados lugares para serem sepultados. O Dom Dinis está em Odivelas, o Mosteiro de Odivelas em Lisboa, o Dom Pedro, como toda a gente sabe, que foi em Este Castro, está no Mosteiro de Alcobaça, etc. E depois do século XIV e no século XV, os novos reis da dinastia de Avis, a começar por Dom João I, que mandou construir o Mosteiro Dominicano de Santa Maria da Vitória na Batalha, arranjaram um outro lugar para serem sepultados, um outro panteão, o panteão da dinastia de Avis, ou pelo menos dos reis do século XV, que é o Mosteiro da Batalha, onde está o Dom João I e estão os seus filhos, o rei Dom Duarte e depois os descendentes, o Dom Afonso V e o Dom João II. Chegamos a Dom João II e parece que o Mosteiro da Batalha se está a tornar o panteão da dinastia de Avis. Erro, porque o Dom Manuel constrói um novo templo, o Mosteiro dos Jerónimos, e quer ser sepultado no Mosteiro dos Jerónimos, que aliás, onde vai ser sepultado já muito tempo depois de morrer. De repente, temos um outro panteão. Isto poderia querer dizer que o filho de Dom Manuel, o Dom João III, também vai ser sepultado no Mosteiro dos Jerónimos De facto, acabou por ser sepultado no Mosteiro dos Jerónimos, mas contra a sua vontade, porque ele queria ser sepultado em Tomar. Aliás, porque ele dava-se pessimamente com o pai, o Dom Manuel e portanto, se calhar não queria ficar ao pé de Dom Manuel. Mas ele acabou por ser sepultado no Mosteiro dos Jerónimos, contra a vontade dele e depois até Dom Sebastião. Os reis do século XVI estão sepultados nos Jerónimos. E depois temos a dinastia de Habsburgos, os Felipes que estão em Espanha e a partir de 1640 voltamos a ter reis naturais com a dinastia de Bragança de Dom João IV. Dom João IV quando morre, abre um novo panteão. Esse panteão é o Mosteiro de São Vicente de Fora, que era um mosteiro construído no século XVII, tinha sido concluído em 1627. Portanto, devia estar muito ao gosto da época. E os Braganças, a maior parte dos reis da dinastia de Bragança, a partir do século XVII, estão sepultados no panteão de São Vicente de Fora. Exceto um, que é Dona Maria I, que está na Basílica da Estrela, que mandou construir. Portanto, estes reis não conseguiam ser fiéis a um lugar. Obviamente, é também um panteão, porque não é apenas o panteão dos Braganças, isto é, da família Bragança, mas estão lá também, no panteão de São Vicente de Fora, os marechais Duque de Saldanha e Duque da Terceira, que foram fundamentais para a aclamação de Dona Maria II e para se tornar rainha de Portugal e portanto os Braganças quiseram que eles lá estivessem também. Portanto, é perfeitamente um panteão.

Sempre que havia uma casa bonita e nova lá vinha a realeza.

Como é que temos estado a resolver isto até agora? Bem, temos estado a resolver isto dando o nome de Panteão Nacional a quase todos estes monumentos. Portanto, agora temos um Panteão Nacional de Santa Engrácia, temos um Panteão Nacional do Mosteiro dos Jerónimos, a partir de 2013, é também Panteão Nacional. E a partir de 2016, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha, e o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, também são Panteão Nacional. E já agora, acho que o Mosteiro de São Vicente de Fora também devia ser declarado Panteão Nacional. Portanto, para responder ao Afonso Reis Cabral, temos muitos panteões nacionais. Portanto, em Portugal, quando morre uma pessoa ilustre, não tem falta de alojamento, quer dizer, nos vários panteões nacionais que nós temos.

Muito bem. E com tanto panteão, assim termina este episódio número 83 de "O Resto é História". Cá voltamos para a semana. Até lá.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.