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E o resto é história.

É a terra a fumar.

Do Incêndio e palavra ainda na zona dos Chiados. Que faz um filho Falo por gosto É que o pai Lhe deu vermelho Trouxe do colho O fogo do amor Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Entende? Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Qualquer pessoa que veja as notícias está farta de ouvir estas duas palavras nos últimos tempos: Doutrina Monroe, uma visão daquilo que deveria ser a estratégia geopolítica dos Estados Unidos no século XIX, que tem sido constantemente invocada para justificar a estratégia geopolítica de Donald Trump no século XXI. A Doutrina Monroe foi cunhada pelo presidente americano James Monroe na década de 1820, mas teve um enorme impacto não só nesse século, mas até bem dentro, ou até sobretudo, bem dentro do século XX. Disse James Monroe, em 1823, numa mensagem que enviou ao Congresso dos Estados Unidos, que os continentes americanos, ele aqui referia-se à América do Norte, América Central, América do Sul, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, estava a falar das independências, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência europeia. Esta doutrina de que a América é para os americanos surgiu à época como uma resposta às tentações colonialistas europeias, que permaneciam bem vivas, mas teve repercussões muito para além delas. Rui, tu consegues explicar em detalhe que doutrina foi esta? Como é que se justifica que um conceito nascido há 200 anos continue a dominar as conversas do nosso presente? E já agora, também a assustar tanta gente, como se tem visto. E se calhar eu sugeria que começasses por nos descrever, por nos explicar quem é este James Monroe, não é, porque ele não pertence àquela categoria de presidentes americanos que toda a gente conhece de cor.

Não é propriamente dos presidentes americanos mais conhecidos, embora tenha deixado o nome associado a esta doutrina. Claro, para perceber isto importa conhecer quem é Monroe. Importa saber também que a redação da declaração e as ideias, aliás, são do secretário de Estado, John Quincy Adams.

Que viria a ser presidente dos Estados Unidos.

Que viria a ser o sucessor de Monroe na presidência em 1825. Mas claro, quando eu digo que as ideias e a redação são do John Quincy Adams, o que deu a autoridade a estas ideias foi ser uma declaração do presidente dos Estados Unidos e por isso a associação legítima a James Monroe. Agora, importa talvez tanto como isso é perceber o contexto em que Monroe faz essa declaração em 1823. Mas só uma nota sobre James Monroe. Ele nasceu em 1758. Serviu no exército que lutou pela independência americana a partir de 1776 e foi em 1781 delegado ao Congresso que dirigiu a política das colônias em rebelião contra a Grã-Bretanha. Portanto, ele é um dos chamados pais fundadores dos Estados Unidos. Foi eleito presidente em 1816, serviu dois mandatos de quatro anos, entre 1817 e 1825, e foi o último presidente saído do grupo dos pais fundadores, dos Founding Fathers. É o último presidente desse grupo. Mas curiosamente, Monroe esteve também associado a outra dimensão da formação dos Estados Unidos. Essa formação dos Estados Unidos não passou só pela luta pela independência em relação à Grã-Bretanha entre 1776 e 1783, mas pela expansão dos Estados Unidos na América do Norte, e Monroe esteve muito associado a isso. Em 1803, sob a presidência de Madison, foi Monroe quem negociou a compra da Louisiana à França. A Louisiana era um território de dois milhões de quilômetros quadrados, no centro dos atuais Estados Unidos, e através da compra da Louisiana à França, os Estados Unidos duplicaram de tamanho em 1803.

Sim, é bom recordar às pessoas, pra quem não sabe bem ou não se lembra, que os Estados Unidos dessa altura não tinham nada a ver com os Estados Unidos atuais.

Não, eram os Estados Unidos, neste caso estamos a falar dos Estados Unidos, era apenas a costa leste, eram 13 colônias na costa leste e foi através desta grande compra que os Estados Unidos subitamente duplicaram o tamanho. Depois, Monroe, foi também ele, já como presidente em 1819, que comprou a Flórida à Espanha. Portanto, ele está envolvido numa série de aquisições que aumentam o território dos Estados Unidos.

Daí também as ligações a Donald Trump, as atuais.

E a ideia de aquisição, quer dizer, que é uma...

Sim, de aumentar o tamanho dos Estados Unidos.

Ainda vamos falar disso, porque vai acontecer mais vezes aquisições nesta história. O que é que significava em 1823 o presidente dos Estados Unidos anunciar que os Estados Unidos, na prática, consideravam os dois hemisférios como esferas separadas de influência, é isso que ele na prática está a dar a entender, e que não aceitariam ou veriam como hostil qualquer intervenção de potências europeias nas Américas. Mas ao mesmo tempo, ele diz que não interfeririam nos negócios da Europa ou das colônias europeias. Portanto, isto é importante. Ele diz que não interfeririam, os Estados Unidos também não interfeririam na política europeia ou na política da Europa em relação às suas colônias. Em 1823, as Américas espanhola e portuguesa estão ainda em guerras de independência. Os movimentos independentistas na América Espanhola são, sobretudo, protagonizados por colonos europeus, os chamados crioulos, que é assim que se diz na América Espanhola. Isto é, os descendentes de europeus nascidos nas Américas são quem está protagonizando a luta pela independência, não são os indígenas, são os colonos. É uma luta que começa por volta de 1808, quando a Espanha é ocupada pela França, portanto, nesta altura terá cerca de 15 anos de guerras, de declarações de independência.

Nós falamos também disso aqui, a propósito da independência da Venezuela.

Exatamente. Em 1823, a situação é complexa. A Espanha ainda tem exércitos a combater na América, a combater contra os independentistas. Portugal ainda não reconheceu a independência do Brasil, que tinha sido declarada pelo príncipe real Dom Pedro no ano anterior, e ainda há colônias europeias nas Américas, as Guianas francesas, inglesa e holandesa no continente, e depois várias ilhas nas Caraíbas. Cuba ainda é uma colônia espanhola, a Jamaica e as Bahamas ainda são colônias inglesas, Guadalupe e Martinica ainda são colônias francesas e por aí fora. Agora, o que verdadeiramente preocupa e motiva a declaração de James Monroe não é o que está acontecendo na América, é o que aconteceu na Península Ibérica.

Somos nós os inspiradores da doutrina Monroe?

Sim, aliás, no parágrafo da doutrina Monroe, começa por referir a Espanha e Portugal, o que aconteceu em Espanha e Portugal. E o que aconteceu em Espanha e Portugal em 1823? Também já falamos aqui disso. A Espanha foi ocupada por um exército francês, que veio restaurar a autoridade do rei Fernando VII e derrubar o regime liberal que existia em Espanha. E isso causa também uma queda do regime liberal em Portugal ao mesmo tempo. Qual é que é a preocupação do governo americano neste momento? O exército francês entrou em Espanha com o apoio das grandes potências europeias, a Áustria, Prússia e a Rússia. E o receio americano é que estas grandes potências decidissem agora, tal como ajudaram o rei de Espanha a pôr fim ao regime liberal na Península Ibérica, ajudem agora o rei de Espanha também a restaurar a sua autoridade nas colônias das Américas.

Portanto, que houvesse um retrocesso das independências ou uma luta mais feroz.

Reparem nisto: a política dos Estados Unidos até então tinha sido de neutralidade entre a Espanha e os independentistas. Os Estados Unidos não estavam a apoiar as independências, a não ser clandestinamente. Há um grande apoio em termos do público, que lê jornais, etc. Simpatiza imenso com os crioulos e com a revolta dos colonos. Mas o governo americano diz: "É uma questão entre a Espanha e as populações das Américas e resolvem nós, não fazemos absolutamente nada disso." Os Estados Unidos, aliás, só vão começar a reconhecer estas repúblicas independentes na década de 1820. Eles demoraram imenso tempo a reconhecer. Eles não dizem: "Nós vamos apoiar aqueles que estão a lutar contra a Espanha, ou contra Portugal também, nas Américas." O que eles dizem, e isto vem de encontro com a lógica diplomática americana: "Os Estados independentes que conseguiram confirmar ou afirmar a sua independência nas Américas, em relação a esses Estados independentes, nós consideramos hostil que as potências europeias agora os venham outra vez reduzir a colônias". Isto é, aqueles que conseguiram, de fato, estabelecer-se como Estados independentes, devem permanecer independentes. A declaração até deixa em aberto aqueles casos em que os espanhóis estão a vencer e conseguiram restabelecer a sua autoridade. Nesse caso, a Espanha, tudo bem, mas nos casos em que os independentistas conseguiram afirmar a sua autoridade, estabelecê-la de fato, os Estados Unidos veriam com maus olhos as tentativas de restabelecer a autoridade espanhola.

Mas os Estados Unidos nessa altura podiam fazer alguma coisa? Porque também não tem nada a ver com-

Só pra dizer mais uma coisa, e isto vinha de encontro à linha da diplomacia americana, que era, ao contrário das potências europeias, reconhecer governos de fato Isto é, os Estados Unidos não se pronunciavam sobre os regimes dos outros países. Reconheciam os regimes que estavam, de facto, estabelecidos. Por exemplo, os Estados Unidos vão ser um dos poucos países no mundo a reconhecer o governo Dom Miguel em 1828, porque é um governo de facto. O rei Dom Miguel tomou conta, todos os outros países dizem que ele é um usurpador, etc., mas é um governo de facto, é reconhecido pelos Estados Unidos. Portanto, enquanto as potências europeias têm uma política externa baseada na ideia de legitimidade, só reconhecem governos legítimos, os Estados Unidos reconhecem governos de facto.

Certo.

Portanto, onde eles estão estabelecidos de facto, eles reconhecem.

Mas na altura, os Estados Unidos, como nós já dissemos, não tinham nada a ver com o país que conhecemos hoje em dia.

Nada, absolutamente nada.

O que verdadeiramente eles podiam fazer?

Não podiam fazer nada. Os Estados Unidos não eram o país que era hoje. Tinha só nove milhões de habitantes, dos quais 1,5 milhões eram escravos. Portanto, a população livre nos Estados Unidos era pouco maior do que o dobro da população portuguesa nesta altura, que era três milhões. Era muito menos do que a população espanhola. A Espanha tinha 11 milhões de habitantes, tinha mais do que os Estados Unidos. Era muito menos do que a britânica. A Grã-Bretanha tinha 20 milhões de habitantes, mais do dobro da população dos Estados Unidos, e a França tinha três vezes a população dos Estados Unidos, com 30 milhões de habitantes. Repare só isto, Nova Iorque tinha 100 mil habitantes, era metade da população de Lisboa. O tamanho de Nova Iorque era metade de Lisboa, quer dizer, era uma cidadezinha pequenina. A economia dos Estados Unidos era ainda agrícola e de exploração de recursos naturais. A maior parte da população dos Estados Unidos, nesta época, ainda consiste em pequenos lavradores independentes, que basicamente consomem o que vão produzindo. É a tal democracia agrária de que falavam dos presidentes americanos, o Thomas Jefferson. É isso que os Estados Unidos são, uma democracia agrária, uma democracia de lavradores independentes. É verdade, já estava a começar a haver um surto industrial no norte de Nova Iorque.

Tinha essa produção de algodão.

Que estava também a começar a expandir-se. Atenção, isso é tudo coisas ainda recentes, ainda não têm a força que vão ter uma década ou duas décadas depois.

Porque depois a expansão é muito rápida.

Depois é uma coisa absolutamente impressionante. Mas nesta altura, nós estamos a falar desses Estados Unidos. E depois, os meios de projeção de força militar então eram quase nulos. A marinha de guerra dos Estados Unidos só chegava basicamente para operações na costa. Eles em 1816 tinham lançado um programa de construções navais para ficarem com nove navios de linha. Os navios de linha eram os navios de confronto em batalhas navais, e 12 fragatas, mas mesmo depois eles só tinham um navio de linha em operações. Os outros estavam na doca porque era demasiado caro ter os navios todos em operações. Aliás, para dar a ideia da relativa fraqueza dos Estados Unidos, em 1812 e 1814, os Estados Unidos tinham estado envolvidos numa nova guerra com a Grã-Bretanha. Uma guerra que tinha sido causada pelo esforço da Marinha Britânica de impor um embargo comercial à França.

Tinha causado dificuldades à marinha americana.

Ao comércio americano com a Europa, de repente os navios americanos estavam a ser parados, a ser revistados pelos navios ingleses. Por outro lado, havia ambições americanas sobre o Canadá, que eles nunca se tinham conformado com a ideia de que não tinham ficado com a América do Norte toda, que havia aquela colônia britânica a norte. E, por outro lado, também as autoridades militares britânicas no Canadá continuavam a ajudar as tribos indígenas nos Estados Unidos, ou na área em que os Estados Unidos estavam a expandir e a resistir contra os Estados Unidos. Aliás, esta é uma das grandes razões de queixa, quer dos colonos na América do Norte, quer dos colonos na América Espanhola, é que as potências coloniais protegem os indígenas contra os colonos. Isto é, um dos grandes motivos das revoltas é que eles constantemente, em Madrid, em Londres, estão a proteger os indígenas e esta também é uma das razões para esta guerra. Ora bem, mas o que interessa é o que aconteceu durante esta guerra. O que aconteceu é que os Estados Unidos ficaram completamente isolados pelo bloqueio naval inglês, os britânicos fizeram um bloqueio naval aos Estados Unidos, e Washington, a capital dos Estados Unidos, foi ocupada e incendiada pelo exército britânico em 1814. Os americanos não conseguiram impedir uma invasão dos Estados Unidos pela Grã-Bretanha, pelo exército britânico, que ocupou a capital. Em 1814, os Estados Unidos não tinham mais que 35 mil homens no exército e os britânicos, só na América, tinham 48 mil homens. Isto é, o exército britânico na América era maior do que o exército dos Estados Unidos. Para não comparar com a força naval. Os Estados Unidos em 1814 tinham 12 fragatas. A armada britânica, só na América, tinha 11 navios de linha e 34 fragatas. A desproporção de forças é absolutamente enorme.

Havia muitos civis armados.

Não, o que os Estados Unidos tinham era meio milhão de civis armados. Quer dizer, era muito difícil conquistar os Estados Unidos, mas os Estados Unidos não conseguiam projetar, nesta altura, a força para fora.

Muito bem, assim chegamos ao final da primeira parte. Voltamos já a seguir. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História". Rui, nós estávamos aqui a falar dos Estados Unidos, como eles não eram nada dos Estados Unidos que hoje os conhecemos.

Ainda não eram.

No entanto, essa doutrina Monroe já parecia que os americanos estavam a falar alto, ainda que não tivessem muitos meios para proteger aquilo que estavam a dizer.

Sim.

E então, como é que resultou essa afirmação da doutrina Monroe?

Em termos internacionais, era um bocadinho a formiga com catarro. Aliás, o Simón Bolívar, que ainda estava em campanha contra os exércitos espanhóis, agradeceu muito a declaração do presidente dos Estados Unidos, mas na sua correspondência privada: "Isto é absolutamente inútil, não nos serve pra nada, eles não podem ajudar-nos, não têm qualquer meio". Agora, o pior é quando nós vemos a história toda. É que os Estados Unidos não só não tinham meios pra ajudar, mas tinham se recusado, na prática, a ajudar. E por quê? Porque a declaração correspondeu também a uma recusa de cooperar com a Grã-Bretanha para impedir as outras potências europeias de interferir nas Américas. A Grã-Bretanha tinha proposto ao governo americano uma espécie de aliança para impedirem que a França, a Áustria, a Prússia, a Rússia fossem tentadas a ajudar a Espanha.

Portanto, a Grã-Bretanha tinha uma doutrina Monroe.

Não, a Grã-Bretanha é que tinha a doutrina Monroe. Não tinha só a doutrina, tinha os meios para efetuar. E os Estados Unidos recusaram essa cooperação e, em vez disso, fizeram a declaração, porque os Estados Unidos não queriam cooperar também com a Grã-Bretanha. Mas foi de facto a Grã-Bretanha, sem a doutrina, sem declaração da doutrina, que de facto aplicou a doutrina Monroe. Foi a Grã-Bretanha a primeira potência europeia a reconhecer a independência dos novos estados. Foi a Grã-Bretanha que forçou Portugal a reconhecer a independência do Brasil. Foi a Grã-Bretanha que deu apoio militar aos novos estados, isto é, em 1819 havia 10 mil soldados britânicos a lutar contra a Espanha nas Américas.

E por quê?

A Inglaterra tinha imensos soldados mobilizados depois do fim das guerras na Europa em 1815, quer na marinha, quer no exército. E, portanto, muita desta gente foi enviada para as Américas a lutar. O Simón Bolívar tinha 6 mil soldados britânicos com ele nas campanhas, que foram decisivos nas vitórias contra os espanhóis, porque eram soldados profissionais que tinham combatido na Europa e tinham uma capacidade de combate completamente superior, quer às tropas espanholas, quer às tropas independentistas.

Quais eram os interesses da Grã-Bretanha nas Américas para se darem a esse trabalho?

Muitas razões. A Grã-Bretanha estava um bocadinho fora das alianças europeias entre a Prússia, a Rússia, a Áustria e a França, que eram potências, digamos, conservadoras, e a Grã-Bretanha não alinhava muito com essas potências. Por outro lado, a Inglaterra era a principal interessada em que a Espanha não servisse de via para uma influência francesa nas Américas. A Inglaterra continuava a ver a França, embora agora já não tivesse lá Napoleão, estivessem os Bourbons, como um rival perigoso. Lembre-se o que eu disse sobre a população, 30 milhões contra 20 milhões. A França era verdadeiramente a grande potência na Europa Ocidental. Embora não estivesse lá Napoleão à frente, a Inglaterra não tinha absolutamente confiança nenhuma. E tinha razões pra isso, porque havia no Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, que nesta altura estava ocupado por um poeta, um escritor, Chateaubriand, o grande escritor romântico da Europa, e que era também dado a grandes fantasias e grandes planos. Ele é um dos grandes proponentes da invasão da Espanha em 1823 e tem também um grande plano pras Américas. Ele quer tornar as Américas independentes, mas monarquias, com príncipes da Casa de Bourbon. É isso que ele quer, para assegurar a influência francesa nas Américas. Portanto, não é bem restaurar a autoridade da Espanha, mas é fazer nas Américas o que tinha feito em Espanha, restaurar os reis, os soberanos legítimos, que seriam da Casa de Bourbon, que é a Casa Real Francesa e também a Casa Real Espanhola. Portanto, e a Grã-Bretanha sabia perfeitamente destes planos. E tinha os meios pra impedir isso. A Grã-Bretanha tinha uma armada que era maior que todas as outras potências juntas e, portanto, podia a qualquer momento-

Dominava os mares

...cortar as ligações entre a Europa e as Américas. Não havia dúvidas. Tinham-no feito, aliás, durante as guerras com Napoleão. E a Grã-Bretanha era também quem tinha mais disponibilidades para grandes investimentos e pra se tornar um grande mercado para os produtos agrícolas e naturais desses países. Portanto, era o grande parceiro comercial desses países e queria manter-se como grande parceiro comercial desses países. Já tinha grandes investimentos lá e queria assegurar, não vamos dizer um monopólio, mas uma grande supremacia comercial nas Américas e, portanto, não estava nada interessada em ter outros países. Aliás, os Estados Unidos, perante a Grã-Bretanha, estão na mesma posição na década de 20, 30, 40 e 50 do século 19, que estavam as outras repúblicas americanas. Os Estados Unidos beneficiavam dos investimentos britânicos, dos imigrantes britânicos e europeus, e das relações comerciais com a Grã-Bretanha. Portanto, basicamente, era um Estado cliente comercial da Grã-Bretanha, tal como a Argentina ou o Peru ou o Chile. Aliás, os conflitos dos Estados Unidos nesta altura não são com as potências europeias, são com os outros estados americanos, a quem os Estados Unidos, sobretudo o México, vão tirando território. Em 1848, depois de uma guerra com o México em 1846, 47, os Estados Unidos fazem uma das suas grandes aquisições, que também Aumenta o território brutalmente à custa de 55% do território do México. Eles compram, isso é, compram.

Exato.

Ou fazem uma oferta que o México não pode recusar. E ficam com 55% do território do México, incluindo a Califórnia, já tinham ficado com o Texas, a Nevada, o Novo México, por aí fora. Portanto, através de uma aquisição que eles consideram que é fundamental pra segurança dos Estados Unidos ter aqueles territórios a norte do Rio Grande. E o México, depois de derrotado e humilhado na guerra, não tem outro remédio, e além disso cheio de dívidas, portanto, basicamente a compra dos Estados Unidos era liquidar as dívidas do México. Por outro lado, a doutrina Monroe não impediu as potências europeias de interferir e de se imiscuírem na história, na política e na vida das Américas. Em 1845, 49, por exemplo, a França e a Grã-Bretanha fazem um bloqueio de Buenos Aires, na Argentina, um bloqueio naval. As razões são sempre as mesmas. França, Grã-Bretanha, sobretudo a Grã-Bretanha, mas são a origem dos grandes investimentos nas Américas, portanto, os grandes empréstimos. E de vez em quando aqueles países iam à bancarrota e não conseguiam pagar, e nesse momento vinha a marinha real, vinha a marinha dizer: "Bem, vão ter de pagar, senão fica o porto bloqueado". E às vezes estavam dois ou três anos bloqueados, até esses países, o que faziam geralmente era entregar as alfândegas à França e à Inglaterra. Quer dizer, diziam: "Pronto, vocês ficam com as alfândegas". Era nas alfândegas que o Estado obtinha a maior parte do rendimento e, portanto, basicamente entregavam a receita fiscal aos seus credores externos. Era isso que faziam. Mas era sempre com umas frotas.

Era o homem do fraque, mas com muitos navios.

Mas com muitos navios. Em 1862, este é um caso mais sério, a França de Napoleão III invadiu o México com a Grã-Bretanha e a Espanha, mais uma vez para reclamar o pagamento de dívidas, mas depois a França entusiasmou-se e decidiu seguir um bocadinho a política, isto é, restaurar a política Chateaubriand de 40 anos antes, agora não a favor de um príncipe da Casa de Bourbon, mas a favor de um príncipe da Casa de Habsburgo, o arquiduque Maximiliano, que os franceses instalaram como imperador do México. A França envia um exército de 40 mil homens para manter o imperador. 1862, portanto, estamos em plena Guerra Civil Americana. Os Estados Unidos então ainda tinham menos possibilidades, mas em 1865, quando acabou a Guerra Civil Americana, o governo americano invocou a doutrina de Monroe pra dizer: "Os franceses fora do México". É a primeira vez que é usada a expressão doutrina Monroe. É a primeira vez em 1865.

Ela é proferida em 1820, mas, na verdade, o termo só é cunhado mais de 40 anos depois.

Em 1865. Exato. Agora, não foi a ameaça dos Estados Unidos, foi sobretudo a pressão militar da Prússia, na Europa, que levou os franceses a retirar, em 1865, do México. E mesmo assim, os franceses mais tarde voltam às Américas. Aliás, andam sempre por ali. Por exemplo, entre 1881 e 89, já falamos aqui disso, foram os franceses quem investiu e quem conduziu a obra do Canal do Panamá, que é uma obra fundamental. Era uma obra que pros Estados Unidos tinha uma importância estratégica, mas que se as coisas tivessem corrido bem à França, tinha ficado nas mãos da França.

Sim.

Isto é, uma potência europeia tinha ficado com a via pela qual a costa leste e a costa oeste dos Estados Unidos ficariam em comunicações mais rápidas. Portanto, como é que nesta altura, depois de 1865, é definida a doutrina Monroe? A doutrina Monroe é definida como a ideia de que nenhum território na América, que tivesse deixado de ser uma colônia europeia, podia voltar a ser uma colônia europeia. Portanto, não é que os europeus não possam ter colônias na América. Se têm, continuam com as colônias na América.

Mas em 1870 já não restava muita coisa, não é?

Havia, por exemplo, o caso da República Dominicana, que em 1861, depois de anos de guerras e de bancarrotas, tinha decidido pedir à Espanha pra voltar a ser outra vez uma colônia espanhola. Era uma maneira de obter crédito e dinheiro, etc. E os espanhóis tinham entrado lá. Bem, os espanhóis quando ouviram esta nova declaração, resolveram retirar da República Dominicana, que em 1865 voltou a ser independente. Mas quando é que as coisas verdadeiramente mudaram? As coisas verdadeiramente mudaram no fim do século XIX. E mudaram quando os Estados Unidos mudaram também.

Ou seja, quando se afirmaram mesmo como uma grande potência mundial.

Exatamente, uma coisa que nada tem a ver com 1823. Os Estados Unidos, no fim do século XIX, têm uma enorme base industrial. A sua produção de aço era maior do que a da Grã-Bretanha e da Alemanha combinadas. Já estamos a falar da maior potência industrial do mundo no fim do século XIX. Agora é um país industrial, 60% da mão de obra trabalha já na indústria. Tem uma enorme população, 76 milhões de habitantes, comparado com os nove milhões de 1823.

É impressionante, realmente, o crescimento.

É uma coisa impressionante. Os Estados Unidos aumentam depois a população, quer dizer, cada década aumenta, dá um salto.

Dobrava, quase.

Dá quase um salto. E isto leva, obviamente, os políticos americanos a pensar num papel mundial para os Estados Unidos. Isso começa em 1895 Quando os Estados Unidos forçam o Reino Unido a aceitar arbitragem internacional no seu conflito com a Venezuela sobre o território de Essequibo, já falamos aqui disso. Há, de facto, uma arbitragem, mas depois a arbitragem é favorável à Inglaterra, o que deixa toda a gente, incluindo os Estados Unidos, desapontada. Mas em 1898 é mais grave. Em 1898, os Estados Unidos vão aliar-se aos independentistas cubanos para expulsar Espanha de Cuba. Cuba era a última grande colónia europeia nas Américas. E em 1898 são os Estados Unidos que destroem a armada espanhola e obrigam Espanha a sair de Cuba, e depois obrigam Espanha, mais uma vez com uma oferta irrecusável, a vender-lhes as Filipinas, Guam e Porto Rico. São vendidas pela Espanha aos Estados Unidos. E em 1904 é quando os Estados Unidos tomou o lugar dos franceses no Canal do Panamá. Portanto, de repente, há aqui os Estados Unidos que já não têm apenas uma doutrina, mas já têm os meios.

O senhor Monroe já estava mais que morto, enterrado e comido pelas larvas, quando finalmente a sua doutrina foi posta em prática.

É redefinida em 1904 pelo presidente Theodore Roosevelt. Roosevelt define a doutrina Monroe, isto é curioso, porque não é assim tão simples como parece, o direito dos Estados Unidos intervirem no caso de, e vou citar: "Flagrante e crônica malfeitoria por parte de uma nação da América Latina". Flagrante e crônica malfeitoria, quer dizer, por parte de uma nação da América Latina. O que ele estava a referir-se? Ele estava a referir-se àquele que tinha sido o grande motivo para as potências europeias intervirem nas Américas no século XIX, que é a recusa de pagar dívidas, as falhas de crédito. O que ele está a dizer é que, a partir deste momento, quando um estado americano chega a uma situação de crédito malparado, de bancarrota, os Estados Unidos vão intervir para pôr as contas ou pôr esse país em ordem, de maneira a prevenir uma intervenção das potências europeias. As potências europeias não teriam de intervir porque os Estados Unidos-

Tinham a exclusividade do homem do fraco.

Repito, as potências europeias são as grandes financiadoras das repúblicas latino-americanas no século XIX, e por isso recorrem à política canhoneira para cobrar dívidas. Tinham feito isso à Venezuela em 1902, e aquilo que o Roosevelt está a dizer é que a maneira de impedir a intervenção europeia seria a intervenção americana.

E aconteceu.

E a doutrina Monroe adquire então o sentido que não tinha em 1823. Não tinha absolutamente em 1823, que é dar aos Estados Unidos um direito de intervenção na América Latina quando as coisas não estão bem. E os americanos, obviamente, é que definem quando é que as coisas não estão bem. É assim que eles vão ocupar o Haiti em 1915, já tinham ocupado a Nicarágua em 1912, vão ocupar também a República Dominicana em 1916 e até vão governar esses países durante bastante tempo para, supostamente, os restabelecerem. A doutrina Monroe ainda vai ser invocada durante a Segunda Guerra Mundial para ocupar a Gronelândia, depois da Alemanha ter ocupado a Dinamarca em 1940. A ideia agora é que a doutrina seria uma maneira de os Estados Unidos conceberem a sua defesa compreendendo todas as Américas. A defesa dos Estados Unidos é a defesa de todas as Américas e durante a Guerra Fria, ela é redefinida como o direito de impedir o estabelecimento de regimes pró-soviéticos nas Américas. E é assim que o presidente Kennedy a vai invocar explicitamente em agosto de 1962 para se opor à instalação de mísseis soviéticos em Cuba.

O Kennedy invocou a doutrina Monroe.

A doutrina Monroe diz que é uma tradição dos Estados Unidos não permitirem a potências europeias estabelecerem-se no hemisfério ocidental. Nesse sentido, parece respeitar o sentido original, portanto, Kennedy em 1962 parecia estar de acordo com o sentido original, mas a verdade é que para muitos estados da América Latina, o que a doutrina Monroe significava no século XX é o direito de intervenção dos Estados Unidos. E é nesse sentido que em 2013, o secretário de Estado norte-americano John Kerry-

Quando Obama é presidente.

Quando Obama é presidente, vai anunciar que a doutrina Monroe acabou. Isto é dizer aos estados americanos: "Agora vamos entrar em parcerias em pé de igualdade, vamos renunciar a esse direito de intervenção". E é esse direito que Donald Trump traz em 2025 no seu documento de estratégia de segurança nacional, aí definindo a doutrina Monroe da maneira mais clara possível como a supremacia americana no hemisfério ocidental. É dessa maneira como a vai definir muito claramente. Não era bem isso que estava nas intenções do presidente Monroe ou John Quincy Adams em 1823. Também não era isso que eles podiam fazer, mas agora os Estados Unidos podem fazer isso.

Muito bem. E assim acaba esta edição de "E o Resto é História" sobre a doutrina Monroe. Nós voltamos para a semana. Até lá.

E o resto é história.

Quer transformar este país numa ditadura. Atentos, atentos.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.