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E o resto é história.

É apenas fumaça.

Do incêndio de Coimbra, ainda na zona dos Chiados.

Quem faz um filho, fá-lo por gosto. É sangue vermelho, suor do corpo, fogo de amor.

Quer transformar este país numa ditadura. Entende?

Não.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, sejam bem-vindos ao episódio número 45 de "O Resto é História", com a dupla do costume, João Miguel Tavares e Rui Ramos. Nos últimos programas, temos falado bastante da Segunda Guerra Mundial por duas razões: porque muita coisa importante aconteceu em maio de 1940, há precisamente 80 anos, e muita coisa igualmente importante aconteceu em maio de 1945, há precisamente 75 anos. Isso significa que estamos em época de efemérides e elas são sempre uma excelente desculpa para conversar sobre história. E entre os acontecimentos importantes de maio de 1945, o mais importante deles todos é a rendição incondicional da Alemanha nazista, a 7 de maio de 1945, após a conquista de Berlim por parte do exército soviético. A minha pergunta é esta, Rui: por que o regime nazista resistiu obstinadamente até a sua destruição total, quando já não existia qualquer hipótese de vitória? E por que, apesar de tudo, não privilegiou uma rendição mais honrosa ao exército aliado, em vez de acabar humilhada pelo exército soviético que os nazistas tanto desprezavam?

Essa pergunta tem inspirado os historiadores nos últimos anos.

Obrigado, Rui. Sabes que és uma pessoa muito inspiradora. Obrigado.

Exatamente. Há, aliás, um livro que é traduzido para português, do Ian Kershaw, que se chama "O Fim", penso que é assim o título em português, "The End" na edição inglesa, que é precisamente sobre os últimos meses da guerra e é uma tentativa de explicar por que a Alemanha, entre o fim de 1944 e meados de 1945, não houve um momento antes mesmo do fim em que não tivesse considerado a possibilidade de pôr termo à guerra, uma vez que a guerra parecia perdida. E isto tem uma certa relevância se pensarmos nos custos para a Alemanha do prolongamento da guerra desde meados do ano de 1944. Em meados do ano de 1944, há o desembarque aliado na Normandia, o desembarque americano e inglês, e há uma ofensiva soviética na frente leste. E torna-se claro aí que não só a Alemanha não pode já ganhar a guerra, e isso já se percebia desde o ano de 1943, desde o ano anterior, mas como desde meados de 1944, é claro que a Alemanha vai mesmo perder a guerra. Isto é, vai ser difícil não perder a guerra. E o custo de prolongar a resistência, quando já se tinha tornado claro que a guerra parecia perdida, é enorme. Basta pensar nisto: metade dos soldados alemães que morreram na Segunda Guerra Mundial, morreram nos últimos 10 meses da guerra. Isto é, entre julho de 1944 e maio de 1945. 2,6 milhões de mortos. Foram nos últimos 10 meses da guerra, metade. Tal como a maior parte das vítimas civis alemãs, vítimas quer das operações dos exércitos aliado e soviético na Alemanha, quer da campanha aérea aliada de bombardeamento das cidades alemãs, que se intensificou depois de meados de 1944. Também outro dado interessante: 60% de todas as bombas que caíram na Alemanha, caíram depois de julho de 1944. Isso quer dizer, se a guerra tivesse acabado, imaginemos, em julho de 1944, aliás, quando houve aquele atentado contra Hitler no dia 20 de julho, a Alemanha teria sido poupada à maior parte da destruição que sofreu durante a Segunda Guerra Mundial. Nós há umas semanas atrás falámos aqui de Dresden, da destruição de Dresden, a cidade alemã completamente obliterada pelos bombardeamentos. Ora bem, Dresden aconteceu em fevereiro de 1945. Só outro dado para dar ideia do que a Alemanha sofreu nestes últimos meses da guerra. A Força Aérea Britânica, em março de 1945, num mês, deitou tantas bombas sobre a Alemanha como tinha feito nos primeiros três anos da guerra, entre 1939 e 1942. Isto é, num mês, tantas bombas como em três anos. Portanto, se a Alemanha tivesse rendido em julho, no verão de 1944, teria sido poupada à maior parte da mortalidade e da destruição que sofreu durante a Segunda Guerra Mundial.

Já para não falar da própria comunidade judaica.

Já para não falar daqueles que sofreram também pela continuação da guerra, quer soldados aliados, quer soldados russos. É preciso pensar que no verão de 1944, Auschwitz continua. O campo de concentração de extermínio de Auschwitz, na Polônia, continuou em operação e foi quando, em agosto, foi exterminada uma das últimas grandes comunidades judaicas da Europa, ainda relativamente preservada, que era a comunidade dos judeus húngaros. Cerca de meio milhão que foram exterminados nesse verão de 1944. Se nós pensarmos também, isto torna-se ainda mais merecedor de alguma reflexão, quando pensamos que a Primeira Guerra Mundial, em novembro de 1918, acabou quando ainda não havia um único soldado aliado na Alemanha. Por quê? Porque o alto comando alemão, entre outubro e novembro de 1918, se convenceu de que não tinha condições pra vitória e pressionou o governo imperial para iniciar conversações com os aliados para pôr termo à guerra. Portanto, por que em meados de 1944 não aconteceu o mesmo? Há muitas explicações pra isso. O Ian Kershaw, no "The End", chama a atenção para a diferença entre a ditadura nazista de Hitler e o império dos Hohenzollern. Em 1918, a Alemanha é um Estado constitucional, tem partidos políticos, tem um Parlamento, tem um governo que depende do imperador, mas que também tem liberdade de ação. Os comandos militares têm uma grande autonomia, portanto, podem confrontar o governo com o fato de a possibilidade de vitória estar comprometida. Nada disso se passava em 1945. Há uma ditadura, não há estruturas para organizar e veicular dissidência em relação ao Führer, em relação ao líder Adolf Hitler.

Até porque a própria dissidência que existia foi despachada depois do atentado falhado, não é?

Uma grande parte, isto é, daqueles que estavam mais disponíveis nos comandos militares para se opor ou para terem uma opinião diferente de Hitler, foram executados em 1944. Na Alemanha, há um reino de terror nesses últimos anos da guerra. Quem quer que mostre sinais de que não acredita na vitória está sujeito a represálias, a retaliações, e no exército os desertores são imediatamente executados. Quem mostra qualquer opinião derrotista está sujeito à morte. Isso é uma parte da explicação.

Mas a loucura de Hitler explica tudo?

Não, eu acho que vou ficar-me aqui em duas explicações, ou duas razões, ou duas sequências de causas que podem fazer compreender este prolongamento da guerra a partir do verão de 1944. A primeira: sim, Hitler. Hitler tem uma ideologia apocalíptica. Ele fez da guerra uma espécie do confronto existencial entre raças. A guerra serve para a reconstrução racial da Europa, tal como é entendida por Hitler. No leste da Europa, o exército alemão, as forças armadas alemãs levam a cabo uma guerra de uma brutalidade enorme, com o extermínio da população judaica, com represálias e um tratamento brutal das populações civis. Portanto, há esta mentalidade de que só pode haver vencedores e vencidos, ou sobreviventes e aniquilados, como disse o Hitler em 1943, portanto, uma mentalidade de intransigência. Mas não basta ter em conta a mentalidade, é preciso ter em conta os fatos criados por esta mentalidade. E há dois fatos criados por essa mentalidade. O primeiro é que esta guerra, que os alemães entenderam que não devia ter limites no leste da Europa, criou também na Alemanha o receio das grandes retaliações quando a maré da guerra se invertesse. E isso começou a se confirmar quando os exércitos soviéticos entraram na Prússia e começaram também a exercer brutalidades enormes sobre a população alemã. E, portanto, há nesse momento, nos últimos meses da guerra, na Alemanha, um instinto de defesa. Aliás, a guerra é prolongada mesmo depois da morte de Hitler, em 30 de abril de 1945. A guerra só acaba em 7, 8 de maio, e o objetivo das Forças Armadas alemãs nessa semana de maio é precisamente tentar retirar o que for possível dos exércitos alemães, tentar retirar para Ocidente para se renderem às forças aliadas e não se renderem às forças soviéticas. Aliás, com grande sucesso. Basta pensar que só 30% dos militares alemães é que caíram prisioneiros dos russos em maio de 1945. Portanto, eles conseguiram retirar uma grande parte dos exércitos para Ocidente. Com razões.

E fizeram bem, claro.

E fizeram bem. Dos três milhões de prisioneiros alemães dos soviéticos, um milhão morreu em cativeiro, morreu nas prisões de Stálin. Ora bem, portanto, por um lado, temos este grande receio na Alemanha destas retaliações, sobretudo soviéticas do Exército Vermelho, embora em relação também aos aliados, com a sua campanha de bombardeamentos, também não houvesse tanta certeza. Mas enfim, pensava-se que os americanos e ingleses podiam ser mais condescendentes, como de fato foram. Agora, isto levou também a uma posição de intransigência do lado dos aliados. Quer dizer, desde 1943, perante a barbaridade da guerra conduzida por Hitler, também os aliados passaram Apenas admitir como fim da guerra a rendição incondicional da Alemanha, isto é, rendição sem condições e ainda mais com o julgamento dos responsáveis pela condução da guerra na Alemanha como criminosos de guerra. Ou seja, não estava aberta para a Alemanha, na Segunda Guerra Mundial, a partir de 1943, a possibilidade de um armistício como aquele que pôs termo à Primeira Guerra Mundial em 1918. Em 1918, o alto comando alemão, o governo alemão, pôde negociar com os aliados. A Alemanha nazista não tinha possibilidade de negociar com os aliados, a única coisa que podia fazer era render-se sem condições, isto é, pôr-se à mercê dos aliados. Portanto, isto era uma grande dificuldade, porque desde 1943, a única maneira que os alemães tinham de acabar a guerra era de porem as armas e entregarem-se ao arbítrio dos seus inimigos. E isto era um problema mesmo para aqueles que conspiraram contra Hitler, por exemplo, em julho de 1944, a conspiração de militares contra Hitler, eles tiveram de enfrentar esse problema, isto é, podiam derrubar Hitler, mas não tinham possibilidades de abrir negociações com os aliados, porque os aliados não admitiam negociar com eles. A única coisa que eles podiam fazer era render-se. Isso criou uma sensação de fatalidade, que não havia alternativa senão uma luta até o fim.

E qual é a segunda grande razão?

A segunda grande razão é também uma situação no terreno que nós agora, porque sabemos o que aconteceu, a Alemanha perde a guerra em maio de 1945, estamos a olhar para a história, sabendo já o fim dessa história, portanto, tudo nos parece levar fatalmente a esse fim. Aliás, fui eu próprio que expliquei, o que eu estava a explicar também parecia conduzir para a derrota inevitável. Ora bem, em meados de 1944, mesmo no fim de 1944 e no princípio de 1945, ainda era, na Alemanha, possível argumentar que qualquer outro resultado talvez ainda fosse possível. É bom pensar, mesmo no outono de 1944, no fim do ano de 1944, os aliados, os americanos e os ingleses já estão em França e na Itália, os russos já libertaram a Ucrânia, já estão a entrar, a aproximar-se das fronteiras da Alemanha, na Prússia. Há uma campanha aérea violentíssima conduzida por americanos e ingleses sobre a Alemanha, com a destruição das cidades alemãs, mas mesmo assim a Alemanha ainda é muita coisa. A Europa ocupada ainda vai da Noruega até à Grécia e vai da Holanda até à Polônia, portanto, ainda é uma extensão territorial imensa. Os alemães nunca tiveram tantos homens em armas como no fim de 1944, tinham 10 milhões, ainda tinham um exército de 10 milhões de homens. E nunca tinham produzido tantos armamentos como também no fim de 1944. E o exército alemão ainda conseguiu, nesse outono de 1944, quer parar a ofensiva aliada, quer depois voltar à ofensiva ocidente em dezembro, com a ofensiva das Ardenas, e na frente leste também conseguiu parar a ofensiva soviética até janeiro de 1945. Mais, quer os exércitos aliados, quer o exército russo, à medida que vão avançando, vão ficando longe das suas bases e estão a ser sujeitos também a um grande desgaste devido à resistência alemã. Isto é, basta pensar que mesmo a conquista de Berlim em maio de 1945, portanto, as últimas duas, três semanas da guerra, a conquista de Berlim custou aos russos 100 mil mortos. Isso dá a ideia da resistência alemã, mesmo no fim da guerra, o exército alemão continua a ter uma capacidade de combate enorme, está a sofrer perdas enormes, já não tem iniciativa estratégica, mas continua a ter uma disciplina, uma capacidade de combate enorme. Aliás, as coisas continuam todas a funcionar na Alemanha, um país já meio ocupado pelos exércitos inimigos, cidades destruídas e os salários dos funcionários públicos continuam a ser pagos, as pensões, os correios ainda estão a tentar funcionar. Portanto, há ali uma máquina que é difícil desmontar. Ora bem, o que essa máquina permite? Permite a possibilidade de pensar que se a resistência for muito grande, isso pode levar ou os russos ou os aliados a rever os seus objetivos militares e a admitir, talvez, negociar com a Alemanha. Portanto, essa é a esperança, uma esperança louca, mas é a esperança dos responsáveis, dos dirigentes nazistas entre o fim de 1944 e o princípio de 1945. É, aliás, também, depois, em 1945, a esperança dos japoneses, isto é, que a resistência seja tão grande, que a capacidade de ainda infligir derrotas aos inimigos, mesmo à custa de perdas grandes, seja suficiente para os levar a hesitar sobre a continuação da guerra. No caso da Europa, a dividirem-se entre aliados e russos, os alemães, os nazistas percebem que comunistas e democracias são como água e azeite e que só estão circunstancialmente unidos e, portanto, imaginam que se continuarem a resistir, vão levar a uma divisão. E se acrescentarmos depois a isto A ideia, o mito das novas armas, como os foguetões V, que são disparados sobre Inglaterra.

Mito? Eles existiam, não é? Quer dizer, o mito é que conseguiram desenvolvê-las.

Era mito no sentido que a quantidade que os alemães conseguiam produzir nesta altura já não era suficiente para efetuar uma verdadeira inversão da situação nos campos de batalha. E depois, claro, tinha-se também o desprezo nazi e racial pelos seus adversários, considerados inferiores e, portanto, incapazes da vontade que caracterizava os alemães. Portanto, com tudo isso, percebe-se melhor a aparente loucura da resistência alemã nos últimos meses da guerra.

Ok, Rui, muito obrigado. Temos aqui outras perguntas a fazer em relação à Alemanha, mas está a chegar ao fim o tempo desta nossa primeira parte e nós voltamos já a seguir. Fica aí, até já.

Chamo-me Rita Porto e sou jornalista da secção de sociedade. Trabalho os temas de saúde no Observador e posso dizer que estamos a acompanhar o surto do novo coronavírus desde o primeiro dia. Ainda ninguém imaginava que se iria tornar uma pandemia e que em tão pouco tempo chegaria a Portugal. E aqui estamos, o Observador a informar, a explicar, a dar-lhe conta da evolução do coronavírus minuto a minuto. É isto que fazemos todos os dias, a toda hora, com rapidez, mas sempre com clareza e rigor para lhe fazer chegar a melhor informação. Estamos sempre ao seu lado e agora precisamos que esteja do nosso lado. Se quer juntar-se à nossa missão de serviço público, torne-se assinante do Observador.

Sejam bem-vindos à segunda parte de "O Resto é História". Há uma pergunta que sempre me fascinou, Rui, e que eu gostava muito de trazer para aqui. A Alemanha ficou totalmente arrasada após a Segunda Guerra Mundial, como acabamos de ver. Acabámos de explicar essas razões. Como é possível que um país absolutamente destruído, dividido em dois, com uma geração inteira de jovens dizimada pela guerra, milhões e milhões de mortos, em pouco mais de 20 anos, estivesse de novo transformado na maior economia europeia? Como é que foi possível esse milagre?

E usas a palavra milagre porque foi a palavra que nos anos 50 e 60 foi usada para descrever a ressurreição da Alemanha. A Alemanha era a maior economia europeia antes da Segunda Guerra Mundial e passados 10, 15 anos da Segunda Guerra Mundial, voltou a ser a maior economia europeia, o milagre económico. E estamos a falar da maior economia europeia, só metade da Alemanha, isto é, a Alemanha Ocidental, que já era a maior economia europeia constituída em 1949. Em 1960, já era uma das maiores economias, aliás, europeias e do mundo. Portanto, isto é uma sensação, o milagre econômico alemão foi uma coisa que impressionou toda a gente no seu tempo.

É só porque nós, por exemplo, aqui em Portugal, somos dados a choramingar com todos os nossos problemas históricos, mas nós não temos nenhuma guerra no nosso território há 200 anos. E nós achamos que sim, mas o nosso condicionamento histórico impossibilita-nos de crescer, de mudar. E de repente, olhamos para o lado e está aqui um país completamente arrasado. Como é que nasce a fênix das cinzas? Como é que isso aconteceu?

É um país arrasado, um país ocupado, um país dividido. Em 1945, ainda não está bem dividido em dois, está dividido em várias zonas, isto é, a zona americana, zona russa, zona britânica, zona francesa, e depois as zonas francesa e americana acabam por formar a chamada Bizona e depois a zona francesa também se junta e formam aquilo que vai ser a República Federal da Alemanha. Mas é um país com imensas limitações. Quer dizer, por exemplo, não tem representações diplomáticas no estrangeiro até meados dos anos 50. A Alemanha não tem embaixadas. A Alemanha, até 1949, está sujeita a governo militar e mesmo para além disso, ainda não está em situação de paz. Aliás, o fim da Segunda Guerra Mundial acontece só nos anos 90, isto é, 40, quase 50 anos depois é que acabam todas as limitações, finalmente, a que o Estado alemão ainda está sujeito. Isto não é um Estado livre, independente, como os outros Estados. As grandes cidades alemãs tinham sido quase completamente destruídas, tinham sido sujeitas a uma campanha de bombardeamento sistemático por áreas, sobretudo de 1944 para 1945, portanto, 50% de todas as construções e edifícios nas grandes cidades tinha sido destruído. Aliás, 20% de todas as casas na Alemanha tinham sido destruídas ou danificadas. 90% dos caminhos de ferro estavam fora de uso, portanto, o país estava completamente paralisado.

As estradas, pontes.

Tudo isso tinha sido destruído ou destruído pelos bombardeamentos dos inimigos ou pelas próprias operações de sabotagem dos próprios exércitos alemães para dificultar a progressão dos exércitos inimigos na Alemanha. Mas há aqui um pormenor que talvez explique um pouco também uma primeira explicação para este milagre. É que só 25% da capacidade da indústria alemã tinha sido comprometida na guerra, isto é, tinha sido destruída. Portanto, a Alemanha tinha perdido apenas um quarto da capacidade industrial. Aliás, é bom pensar que o pico da produção de armamentos, por exemplo, é atingido em setembro de 1944. Portanto, a Alemanha chega quase ao fim da guerra com uma indústria ainda bastante pujante, bastante ativa. E portanto, só um quarto da capacidade industrial é que tinha sido perdida. Isto quer dizer que há uma base Para recuperar. Há uma boa base industrial, há uma grande quantidade de pequenas e médias empresas muito sofisticadas que podem voltar a funcionar. E depois há a mão de obra mais qualificada da Europa e provavelmente do mundo, há uma grande cultura científica e tecnológica, há ligações entre as empresas e o mundo da finança, etc. Há toda a estrutura em um país muito destruído, mas a possibilidade de todos esses elementos voltarem a integrar e voltarem a funcionar estava lá. E a recuperação é muito rápida, é ainda mais rápida do que o milagre econômico alemão dá a entender. Em 1945, a produção industrial alemã tinha caído, naqueles últimos meses da guerra, era talvez cerca de 20% da de 1938. Mas em 1949, isto é, quatro anos depois, já está a 72% de 1938. E em 1951, seis anos depois da guerra, quando a maior parte das cidades alemãs ainda são ruínas, zonas quase lunares de destruição, em 1951, seis anos depois da guerra, a produção industrial da Alemanha já está acima da produção industrial de antes da guerra.

Isto é impressionante.

106% de 1938. Com esta base, que permitiu em seis anos, em um país em ruínas, literalmente, que a produção industrial ultrapassasse os níveis anteriores à guerra, quer dizer que a questão no fim dos anos 40, depois da guerra, é mais uma questão política do que outra coisa. É a questão de saber se os vencedores da Segunda Guerra Mundial vão aceitar que a Alemanha volte a ser uma potência econômica como era antes da guerra ou não. E a princípio, há planos, até os americanos têm planos para isso, para não deixar a Alemanha recuperar o seu estatuto de potência econômica, por exemplo, desmantelar fábricas, impor limites à produção. Agora, depois de 1948, depois de os aliados terem separado e entrado em conflito com os soviéticos, isso acontece com aquele famoso bloqueio a Berlim e com o golpe de Praga em 1948, com o começo da Guerra Fria, tanto os aliados na parte ocidental, na Alemanha, que depois vai ser conhecida por Alemanha Ocidental, como os russos na Alemanha de Leste, apostam no desenvolvimento econômico das suas áreas de ocupação. Porque a partir do momento em que estão a olhar já para os alemães não como inimigos, mas como aliados contra novos inimigos, interessa-lhes que eles recuperem.

Certo.

Neste caso, as ajudas do Plano Marshall, que também é de 1948, o programa americano de auxílio para o desenvolvimento, a reconstrução da Europa depois da guerra, as ajudas do Plano Marshall na Alemanha são talvez menos importantes do que a confiança que de repente houve no mundo em relação à Alemanha.

Muitas vezes o Plano Marshall é apontado como o grande responsável pelo milagre. Tu achas então que isso é excessivo?

É excessivo, até porque o contributo do Plano Marshall é mais ou menos idêntico às reparações que os alemães tiveram de efetuar a outros países depois da guerra. Não foi assim fluxo. Não, o mais importante do Plano Marshall foi politicamente ou até mesmo em termos psicológicos, quer dizer, deu aos empresários alemães, para começar, e aos trabalhadores alemães, mas deu também aos investidores internacionais a ideia que a Alemanha ia voltar a ser uma potência econômica e valia a pena apostar na recuperação econômica alemã. E depois, claro, há as condições que são criadas na própria Alemanha Ocidental pela política dos democratas cristãos, dirigidos por Konrad Adenauer, que se torna o chanceler da Alemanha em 1949, a chamada economia social de mercado. Eles tentam combinar políticas sociais, de apoio à população com uma economia assente na iniciativa privada e em mercados relativamente abertos. Esta combinação, esta economia social de mercado, permite, por exemplo, criar um ambiente de uma certa colaboração entre a classe operária sindicalizada e as empresas e os empresários, que não há paralelo nem em Inglaterra, por exemplo, nem em França, onde há muitos conflitos. Na Alemanha, cria-se aqui esta combinação, que aliás vai durar bastante tempo e permite muita coisa. Permite, por exemplo, à Alemanha também renovar até mesmo o seu tecido econômico com a importação de tecnologias e de métodos americanos de trabalho. Na prática, até tirar uma certa vantagem da destruição da guerra para fazer coisas novas.

Aliás, essa era uma queixa britânica, não é? É que de repente a Inglaterra foi ficando para trás. Tinha velhos métodos que também não tinha forma de renovar.

Sim, e não teve quer a necessidade de coordenar esforços e boas vontades para reconstruir o país, quer essa possibilidade de começar quase de novo. E isso permite, esse milagre econômico que falávamos, por exemplo, à Alemanha Ocidental integrar 10 milhões de refugiados da Prússia Que foi ocupada pela Polônia e pela União Soviética, isto é, deixaram de ser territórios alemães, daí vieram 10 milhões de alemães e depois mais três milhões de fugitivos da Alemanha comunista, a partir de 1948, quando se percebeu que aquilo ia ser um estado satélite da União Soviética.

Já para não falar dos imigrantes que também vieram.

E depois os imigrantes do sul da Europa também.

O país conseguia dar vazão a toda essa mão de obra.

Exato. Aliás, a Alemanha já durante a Segunda Guerra Mundial tinha tido cerca de sete milhões de trabalhadores imigrantes, só que eram imigrantes à força, isto era um trabalho quase escravo. Depois dos anos 1940, 1950, uma parte, sobretudo trabalhadores do sul da Europa, portugueses, turcos, italianos, aparecem já como imigrantes, mas imigrantes livres. E depois, além desta economia social de mercado construída pelos democratas cristãos, Conrad Adenauer e sobretudo o seu lendário ministro Ludwig Erhard, que é o grande cérebro, que aliás tinha sido o homem dos americanos, isto é, os americanos tinham identificado imediatamente como o homem para tratar dos assuntos econômicos da Alemanha já a partir de 1947, 48. Mas além disso, depois temos também a integração europeia, que começou a criar um mercado na Europa para determinados produtos, inicialmente, depois foram carvão, aço, etc. Mas também facilitou quer investimentos internacionais, quer as circulações de mão de obra e de tecnologias. E qual é a importância desta integração europeia? Esta integração europeia faz parte de uma espécie de um começo de uma integração internacional, mundial, no começo daquilo que nós chamamos hoje a globalização, e que vai contra a situação na Europa e no mundo em termos de relações econômicas internacionais que vigorava antes da Segunda Guerra Mundial, que era a dos protecionismos nacionalistas. Portanto, este fim dos protecionismos nacionalistas depois de 1945, patrocinado pelos Estados Unidos, facilita também a recuperação das economias europeias e da Alemanha. Portanto, o milagre alemão faz parte também deste milagre da Europa Ocidental, que tem a sua maior época de crescimento da história entre 1950 e 1973, mas também deste milagre mundial, isto é, as economias no mundo nos últimos 80 anos cresceram mais do que alguma vez tinham crescido. E isso deve-se a essa globalização, que hoje é muito criticada, tem muitos aspectos que as pessoas lamentam, mas que permitiu também esta recuperação.

Ok, muito bem.

Este milagre.

Muito bem. Bom, nós entusiasmamo-nos aqui a falar da Segunda Guerra Mundial, mas não queremos deixar de abrir aqui um pequeno espaço para as perguntas dos nossos ouvintes. O Hélder Santos Delgado enviou-nos um e-mail muito simpático a agradecer o belíssimo programa que nós aqui fazemos e do qual ele diz que ainda não perdeu nenhuma edição. E deixou a seguinte pergunta relacionada com a Fortaleza de São João Batista de Ajudá, na atual República do Benin: "Soube há pouco tempo que foi uma feitoria administrada por Portugal até aos anos 60 do século XX e que praticamente toda a gente desconhece. Por que razão", questiona Hélder Santos Delgado, "Portugal terá mantido funcionários e autoridade representativa numa fortaleza sem qualquer uso por mais de 100 anos? E que personagem é esta de Francisco Félix de Sousa, ligado à fortaleza e ao comércio de escravos, que deixou uma vasta prole no Benin?" Tudo boas perguntas. Que história que é esta, Rui?

É uma história fascinante que já foi usada por romancistas e por cineastas, nenhum deles português, mas nós não temos, infelizmente, o hábito de aproveitar as nossas boas histórias e portanto confiamos nos estrangeiros para contarem as histórias por nós.

E que filmes são esses, já agora, e que livros?

O livro é o romance, que inicialmente era um ensaio, depois tornou-se no romance do Bruce Chatwin, "The Viceroy of Ouidah", portanto "O Vice-rei de Ajudá", que é um romance que foi publicado em 1980, que é precisamente sobre o Francisco Félix de Sousa e a presença portuguesa no Benin, na cidade de Ajudá, Ouidah para os franceses. Portanto, o romance do Bruce Chatwin foi publicado em 1980, ele mudou o nome do personagem de Francisco Félix de Sousa para Francisco Manuel da Silva.

E depois foi adaptado pelo Herzog, não é?

Exatamente, em 1977. "A Cobra Verde", com o Klaus Kinski no papel do Francisco Manuel da Silva. Ora bem, de onde é que vem essa história? Bem, essa história não seria desconhecida para quem fez a quarta classe antes de 1974, quando a pessoa não podia esquecer que havia uma feitoria São João Batista de Ajudá, que segundo o artigo número um da Constituição de 1933, fazia parte dos territórios portugueses na África Ocidental, que era o Arquipélago de Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe e suas dependências, São João Batista de Ajudá, Cabinda e Angola. Portanto, São João Batista de Ajudá estava aqui descrita com o mesmo destaque que tinha Angola. Era uma daquelas pequenas joias da coroa que o governo de então se agarrava. A fortaleza tinha sido construída no fim do século XVII, em 1680, e depois foi reconstruída no princípio do século XVIII, em 1721, com o consentimento dos reis de Ajudá e depois do Daomé, quando o Daomé ocupou o reino de Ajudá, e era uma das três fortalezas europeias que existiam em Ajudá. As outras eram da França e da Inglaterra, e o objetivo dessas fortalezas era uma espécie de feitorias, delegações comerciais para controlar o tráfico de escravos no Golfo da Guiné. Aliás, o rei de Ajudá e depois o rei do Daomé eram o grande fornecedor de escravos a ingleses, franceses e portugueses, mas literalmente milhares de escravos. No caso dos portugueses, os escravos eram sobretudo levados para o Brasil, e aliás, é do Brasil Que veio no princípio do século XVIII a iniciativa da reconstrução do Forte de São João Batista de Ajudá, feita em 1721. Portanto, aquilo é uma feitoria fortificada, não é uma fortaleza tipo europeu, é um forte com muros de argila, tem um fosso, tem canhões. Estava a 4 km da costa por imposição do Rei de Ajudá, que era para os europeus não poderem recorrer a apoio naval, no caso de haver um conflito com o rei. Os europeus lá são constantemente sujeitos a humilhações e a ataques, quer por parte do rei de Ajudá, quer por parte do rei do Daomé. Acontece a abolição do tráfico de escravos no princípio do século XIX e as feitorias francesa e inglesa passam a interessar-se no comércio do óleo de palma, mas a feitoria portuguesa fica mais ou menos abandonada. Isto é, os portugueses não conseguem substituir o tráfico de escravos por outro qualquer interesse comercial. E é nessa fase que um empreendedor brasileiro com iniciativa, o Francisco Félix de Sousa, passa a dedicar-se ao contrabando de escravos, portanto a um comércio que nessa altura já era ilegal de acordo com as convenções internacionais, com o apoio do rei do Daomé. O rei do Daomé, a quem ele aliás ajuda a ocupar o trono, dá-lhe o título de capitão dos brancos e ele começa a dedicar-se ao contrabando de escravos para o Brasil. Ele torna-se um personagem curioso, tem um grande harém, tem 80 e tal filhos. Ele acaba por criar ali uma espécie de tribo dos Sousas. Entre 1969 e 1970, a República do Benin teve como presidente um descendente do Francisco Félix de Sousa, o Paul Émile de Sousa, presidente da República do Benin, que era um descendente deste Francisco Félix de Sousa. A presença portuguesa é reativada pelo Estado português em 1865, portanto na segunda metade do século XIX, quando há uma força portuguesa que reocupa o forte e tenta a partir daí impor um protetorado sobre o Daomé. Os franceses é que ocupam o Daomé, portanto não são os portugueses, mas consentem que os portugueses fiquem naquela feitoria. Aquilo torna-se uma coisa simbólica da presença portuguesa tolerada pelos franceses. Quando o Daomé se torna independente como república, depois do que vai ser a República do Benin a partir de 1960, tenta recuperar a fortaleza também por uma questão simbólica. Isto é, que não fazia grande diferença, mas eles tentam recuperar. E então há apenas dois portugueses que lá estão, dois residentes, digamos assim, e um deles, o encarregado de negócios, incendeia a fortaleza para não a entregar ao Estado africano independente. E isso é muito celebrado em Portugal como um ato de grande coragem. Só em 1975 é que o governo português reconhece a anexação da fortaleza de São João Batista de Ajudá pela República do Benin. Aparentemente, a fortaleza hoje é um museu da cidade de Ajudá.

Obrigadíssimo. Acho que esta história merecia provavelmente mais tempo, talvez a gente volte a ela um dia. Muito obrigado por ter estado conosco e até para a semana.

E o resto é história.

É apenas pomada! Do incêndio de Coimbra ainda na zona dos Chiados. Aqui os bombeiros tentam controlar o incêndio das Casas Novas. Quer transformar este país numa ditadura. Não, não.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto