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E o resto é história.

É a terra a fumar.

Do incêndio e palavra ainda na zona dos Xavres. Que faz um filho, fá-lo por gosto. É que o pai, vinho vermelho, troco de conto, pouco de amor.

Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Entende?

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História" com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Nós já referimos mais do que uma vez neste programa que as independências africanas na segunda metade do século XX foram muito diferentes entre si e que há um pouco de tudo. Um dos países que teve uma independência singular foi a Rodésia. E é sobre ela que incide a pergunta do ouvinte Luiz Castelo Branco, que nos chegou quando a independência do país cumpria o 60º aniversário com a declaração de 11 de novembro de 1965, em que o regime de Ian Smith declara a independência unilateral face ao Reino Unido, mas mantendo o poder nas mãos da minoria branca da Rodésia, país que hoje conhecemos como Zimbabué. E escreve Luiz Castelo Branco: "O regime rodesiano decidiu resistir às descolonizações africanas tradicionais, que entregavam o poder à maioria negra, argumentando com o conceito da maioria da população qualificada", que era a população branca. Apesar das sanções, o regime rodesiano contou com o forte apoio de Portugal, na altura, através de Moçambique e da África do Sul, o que lhe garantia alguma segurança na região. "Gostava de ver este assunto abordado no vosso programa", diz o nosso ouvinte, "para saber até que ponto esta solução chegou a ser pensada para os casos de Angola, onde o governador Santos e Castro imaginou solução semelhante, ou Moçambique, através de Jorge Jardim". Portanto, a pergunta é dupla, Rui. Por um lado, por que a independência branca da Rodésia em 1965 é um caso único em África e, por outro, se algum modelo semelhante algum dia teve hipótese de avançar em Angola ou em Moçambique. E já agora, sou eu a acrescentar uma terceira pergunta: por que essa independência correu mal? Com a Rodésia em guerra ao longo das décadas de 1960 e 1970, até à sua transformação em Zimbabué em 1980, com a entrega do poder à maioria negra. Sendo que não é que as coisas tenham corrido muito bem a partir daí. Basicamente, por que tudo correu mal, independentemente das soluções encontradas.

Por que tudo correu mal? Portanto, vamos explicar então o caso da independência da Rodésia. 1965. Ora bem, uns cinco ou seis anos antes, no fim da década de 1950, a Inglaterra e a França, que eram os países que tinham os maiores conjuntos de colônias em África, decidiram dar a independência às suas colônias de África. E essa foi uma decisão súbita e inesperada. Por quê? Porque na década de 50 tinha-se julgado que a África continuaria a desenvolver-se em integração política com a Europa. E o argumento para isso, aliás, eram dois argumentos: um que era que só a Europa é que poderia garantir estabilidade, o império da lei, o pessoal qualificado necessário para o desenvolvimento, e por outro lado, que a África precisava da Europa, e por outro lado, a Europa também precisava da África, porque a Europa estava em confronto com a União Soviética e precisava ter uma retaguarda grande para no caso de um confronto com a União Soviética durante a Guerra Fria. Portanto, havia esses dois grandes argumentos.

Que parecem argumentos perfeitamente racionais.

Que foram utilizados na década de 50 para justificar a presença europeia em África, quando a Europa já estava a retirar da Ásia, da Índia, da Indochina, depois de alguma resistência também, da Malásia, da Indonésia. Toda a Ásia está a tornar-se independente, mas na década de 50 julga-se que a África ainda não vai por causa destas razões. Agora, por que essa decisão? A decisão tem a ver com a transformação da África durante a Segunda Guerra Mundial. Durante a Segunda Guerra Mundial, tinha havido grande prosperidade em África. Por quê? Porque a África tinha se tornado essa retaguarda dos países europeus. A África tinha exportado imensos alimentos, matérias-primas pra Europa. Depois, no pós-guerra, também tinha continuado a acontecer isso, quer dizer, a Europa estava se a reconstruir, portanto, precisava desses recursos todos. E o que isso criou? Primeiro, criou um grande interesse em África, que provavelmente não havia antes, e, por outro lado, criou na própria África uma classe média negra, educada por missionários europeus e que depois vai encontrar trabalho em todas as empresas e na administração europeia em África. Não nos topo, mas nos quadros intermédios. Quer dizer, os escriturários, capatazes, etc, começam a ser população local que, por necessidade de mão de obra, começa a ser promovida e constitui, pela primeira vez, uma classe média negra, educada pelos missionários, com empregos na administração e nas empresas econômicas europeias. Ora bem, essa classe média vai se tornar independentista ao longo da década de 1950. Isto é, vai aspirar à independência. Está a ver a Ásia tornar-se independente, por que eles não se hão de tornar também independentes? E ao mesmo tempo que está, digamos, um pouquinho naturalmente a criar essas sentimento de autonomia está a ser apoiada do exterior pela União Soviética, que está interessada em separar a Europa das suas colónias e apoia estes movimentos independentistas em África. É isso que leva os governos francês e inglês a fazerem as contas e a perceberem duas coisas. A primeira era que se insistissem em ficar em África, iriam ter de reprimir estas aspirações independentistas. Isso teria custos muito elevados em termos de segurança, porque ia dar manifestações, contestação, confrontos violentos, como tinha acontecido na Índia nos anos 30 e 40. Eles estavam a ver acontecer isso em África e sabiam o que é que isso tinha custado na Índia. Isto é, os exércitos que eles estavam a desmobilizar no fim da Segunda Guerra Mundial, provavelmente teriam que remobilizá-los e enviá-los para África para manter a ordem.

Como viria a acontecer com Portugal.

Pois. França e Inglaterra, as pessoas disseram quanto a isso: "Não vale a pena. Isto também não vale a pena economicamente". Também perceberam que aquilo não tinha um valor económico que justificasse isso. E, por outro lado, tratava-se de impedir que estes movimentos de independência negra caíssem sob a influência soviética. A melhor maneira de impedir que eles caíssem sob a influência soviética era satisfazer os objetivos antes que eles sentissem que só a União Soviética os apoiava. Se nós lhes dermos a independência antes, nenhum deles vai pedir armas e apoio diplomático à União Soviética e não vão ser contaminados pela ideologia comunista, não se vão tornar Estados comunistas. Este é o raciocínio dos dirigentes franceses e ingleses. Que surge como uma coisa inesperada, porque é uma reviravolta muito grande em relação àquilo que tinha sido as políticas oficiais até 1958, 1959. De repente, o mundo é confrontado com o discurso do Harold MacMillan, "the winds of change", os ventos da mudança. Aquilo verdadeiramente veio como uma espécie de mudança. De repente, agora vão se tornar. Esta opção não levantou grandes problemas em territórios onde a presença de população europeia era ínfima e onde havia grandes massas de população africana. Isso correspondia, sobretudo, a uma determinada parte da África que é chamada África tropical. A África abaixo do Equador, abaixo do Saara, mais ou menos central.

Que era onde havia a maior densidade de população.

É, a maior densidade de população e onde há muito poucos europeus. Os europeus aí são basicamente dois tipos: administradores e missionários. Fazem parte ou da administração de empresas, ou da administração colonial propriamente dita, ou são missionários, que são padres católicos, missionários protestantes, que estão ali a dirigir, já com muito clero local, já há muitas freiras e padres locais. Por exemplo, a Nigéria em 1960 tem 45 milhões de habitantes e deve ter uns poucos milhares de europeus que lá estão. Nestes casos, onde os europeus eram apenas administradores e apenas missionários, era muito fácil os países serem entregues a governos de maioria negra e às vezes até estes administradores continuarem durante um tempo como funcionários da administração que se mantinha, uma administração agora que era nigeriana, mas que mantinha uma série de funcionários brancos, europeus lá durante um tempo, outros obviamente voltariam. Também militares às vezes ficavam lá para treinar as forças locais. Não havia grande resistência a uma independência através da entrega do poder a partidos que representassem uma maioria africana, uma maioria negra. Isto na África tropical. Senegal, Nigéria, Camarões.

E essa entrega, quando foi feita, já existiam movimentos de guerrilha que estavam a combater?

Não, não havia movimentos de guerrilha, não há praticamente guerrilha. É entregue a políticos locais, africanos, que estão já integrados nas instituições representativas que a França e a Inglaterra estavam a desenvolver nestes países. Isto é, nalguns casos já havia parlamentos locais, havia sindicatos, etc. Já havia estes líderes negros, formam partidos e é entregue através de eleições, geralmente são através de eleições, entregues a esses políticos.

Isso na África tropical. Na África austral as coisas foram diferentes.

A África austral é um mundo completamente diferente, porque a África austral tem um clima mais propício aos europeus, tem muito menos população negra comparativamente. Não há nenhum país como a Nigéria com esta massa humana da mesma dimensão. E aí há importantes populações de origem europeia. É o caso do Congo Belga, 115 mil europeus. A África do Sul, 3 milhões. A África do Sul já é independente na prática com este governo do apartheid. Vamos excluir a África do Sul deste raciocínio. A África do Sul não está sob domínio europeu. Já está sob domínio de africanos brancos, que é uma coisa completamente diferente. Estavam estabelecidos lá desde o século XVII, eram eles que dominavam, já fizemos aqui a história um bocadinho da África do Sul. Mas vamos falar do Congo Belga, 115 mil, da Angola e de Moçambique. Talvez no conjunto, no fim da década de 60, fossem para aí meio milhão de população originária da Europa. Vamos falar de brancos, porque é assim que eles eram Que se distinguiam. Mas era também o caso das colônias britânicas do Quênia, onde havia 80 mil brancos, da Rodésia do Norte, que é hoje a Zâmbia, 100 mil, e da Rodésia do Sul, que é hoje o Zimbábue, com 300 mil. Há 300 mil europeus ou brancos na Rodésia do Sul. O que era a Rodésia do Sul? Há duas Rodésias: Rodésia do Norte e Rodésia do Sul. A Rodésia do Sul fica no interior da África, mais ou menos ao longo de Moçambique, no interior. É um planalto bastante elevado, a mais de 1000 metros de altitude, talvez até 1500 metros em algumas áreas. A Rodésia tem 390 mil quilômetros quadrados. Não é muito povoada, característica da África Austral, esses países não são muito povoados. Em 1900 tinha só 650 mil habitantes. A população estava a crescer muito. Em 1960 tem seis milhões de habitantes. Tinha aumentado umas 10 vezes em 60 anos. Mas ainda é só seis milhões de habitantes. Repara, é 70% da atual população portuguesa num território que é quatro vezes maior do que o de Portugal.

É muito pouca densidade.

É muito pouca densidade. A maioria desta população da Rodésia do Sul, no século XIX, tinha sido bantu, é aquilo que nós chamamos negros. É a população bantu, de língua bantu. Era uma população que não era nativa da Rodésia, era uma população que tinha entrado na Rodésia através de migrações a partir do século IX. Os nativos da Rodésia é a população chamada San ou Khoisan, que estava a ser empurrada pelos bantu, como na África do Sul, desde o século IX. Estavam a ser empurrados e exterminados até pelos bantu. Agora os bantu também, na sua maioria, faziam parte de uma tribo, que era a tribo Shona, na Rodésia. E essa tribo era, por sua vez, dominada por uma classe guerreira, que era os Ndebele ou Matabele, que são zulus, basicamente. O que é que temos aqui? Antes da chegada dos europeus, já temos um processo de colonização, isto é, com os bantos a eliminarem a população nativa, que são os San, e um processo imperialista, que é esta classe guerreira de zulus que domina a maioria Shona na Rodésia. Já há colonialismo, já há império antes dos europeus. É importante notar isso pra aquelas pessoas que julgam que o mundo antes dos europeus chegarem era um paraíso em que toda gente se dava bem, eram todos amigos uns dos outros, e depois quando os europeus chegam é que trazem os pecados todos e trazem as malfeitorias todas. Não, isso já era um mundo de guerras, de colonização, de extermínio de população, de escravização e de impérios como este império Ndebele, que é o poder com que os europeus se vão confrontar quando chegam no século XIX. É este grande império Matabele dos zulus, que é um império de guerreiros que dominam e escravizam o resto da população.

Certo. A seguir vamos chegar aos brancos, mas vai ter que ser na segunda parte, porque entretanto chegamos ao final do nosso tempo da primeira. Até já. Seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estamos a falar da independência da Rodésia, uma independência dita branca. Mas nós ainda não chegamos a esse ponto, estamos ainda quando os brancos propriamente ditos começaram a chegar à Rodésia.

É óbvio que os brancos começaram a chegar no século XVI com os portugueses.

Mas em quantidade.

E aqueles que têm relevância para a constituição da Rodésia. Eles aí começaram a chegar.

Na Rodésia, os primeiros a chegar foram os portugueses.

Foram os portugueses, os Matabele. Aliás, estes nomes são nomes que os portugueses lhes davam, porque foram os portugueses os primeiros a entrar em contacto e a entrar em guerra com eles, e acordos comerciais, etc. Os britânicos propriamente ditos, que são aqueles que vão constituir a base da futura Rodésia, começam a chegar no fim do século XIX, através de uma companhia, uma empresa privada. Uma companhia comercial que é a British South African Company. E esta British South African Company era dirigida por um senhor chamado Cecil Rhodes. E daí Rhodesia, Rodésia. É o nome deste senhor que era o grande gestor desta British South African Company.

E o que ela fazia?

A British South African Company se dedica ao comércio, à exploração e dedica-se também a patrocinar a migração e a fixação de colonos europeus. Vai buscar britânicos que estão disponíveis a ir pra África, a quem eles entregam terras em África para se fixarem como agricultores. É isso que a partir do fim do século XIX, a British South African Company começa a fazer neste grande planalto que vai ser depois a Rodésia. Começa a fixar brancos, que vão se começar a dedicar à agricultura, sobretudo à produção de tabaco Claro que isto para a British South Africa Company era uma maneira de arranjar rendimento, quer dizer, fixar estes colonos brancos que começavam a trabalhar, etc. E também a exploração de minérios, a prospecção e exploração de minérios. A história da Rodésia no fim do século XIX, princípio do século XX, parece muito com a história da colonização da América do Norte. Isto é, os pioneiros que vão nas suas carroças, fixam-se nestas grandes pradarias, neste caso são savanas, e começam a produzir tabaco, criar gado, começam a ser atacados pelos zulús, organizam-se para se defender contra os zulús, há guerras com os zulús, mas depois também fazem acordos com os zulús, em que os zulús cedem parte daquelas terras, mas os brancos reconhecem aos zulús a propriedade das outras. Aliás, a British South Africa Company chega em determinado momento a ter chefes Ndebele como acionistas. Eles começam a introduzir os chefes tribais como acionistas da própria companhia colonial, isto é, eles tornam-se também parte deste projeto de desenvolvimento do planalto da Rodésia. Esta é a situação, é uma área de exploração comercial por uma companhia comercial. Isto faz lembrar, obviamente, o Império Britânico na Índia, que também começa como uma empresa privada, não começa como uma empresa do Estado. A história é muito complicada, agora vou abreviar. Em 1923, o governo britânico decide retirar o território à companhia e estabelecer uma colônia. É então que é fundada a colônia.

Mas aí já havia muita gente branca por lá.

Precisamente, é por isso mesmo que o governo britânico decide retirar. Isto é, já há suficiente população europeia, uma parte dessa população está farta do governo da companhia, quer governar a si própria, quer o autogoverno, e é isso que o governo britânico vai fazer. Retira o território à companhia e estabelece uma colônia. É em 1923 que a Rodésia passa a ser uma colônia britânica verdadeiramente, com um autogoverno. Quem tinha terras, os brancos, podia votar, tornava-se eleitor, elege um parlamento, o parlamento tem a sede em Salisbury, Salisbúria, que é a capital daquilo que vai ser a Rodésia. Esse parlamento depois escolhe um governo que tem um primeiro-ministro. É um sistema parlamentar.

Mas onde só os brancos votam, não é? Os negros não votam, não é?

Não. Negros votam, mas a maior parte daqueles que votam são brancos.

É necessário ser proprietário.

Exato, é a tal qualificação. Vigora aqui o mesmo sistema censitário eleitoral da Europa do século XIX, mas que aqui criava uma discriminação racial, digamos assim. A autoridade britânica é representada por um governador que está em Salisbúria, e representa o chefe de Estado, o rei da Inglaterra, e depois a rainha da Inglaterra. A colônia desenvolve-se, tem o governo parlamentar, tem uma universidade em 1952. Passa a ter uma universidade em Salisbury, uma universidade que curiosamente não faz discriminação racial. É pelo mérito, os estudantes são admitidos pelo mérito, porque aqueles que tinham dotado a fundação para a universidade puseram isso como critério, não haver discriminação racial. A Rodésia nunca verdadeiramente foi como os Estados Unidos. Isto parece a história dos Estados Unidos, mas isto não são os Estados Unidos. E não são os Estados Unidos porquê?

Os números são diferentes.

Na América do Norte, os europeus tornaram-se imediatamente a maioria esmagadora da população no século XIX. Em 1800, havia 4,3 milhões de brancos para 600 mil índios. A desproporção é completa, enorme. Em 1900, há 67 milhões de brancos para 230 mil índios. A Rodésia também não é sequer a África do Sul, porque na África do Sul há o povoamento branco desde o século XVII e há 3 milhões de brancos em 1960 na África do Sul, que são 20% da população da África do Sul. A Rodésia, não. Na Rodésia, a minoria branca é de fato mesmo uma minoria e é muito mais recente, é uma minoria que chegou no fim do século XIX, princípio do século XX. Pelo recenciamento de 1969, dos 6 milhões de habitantes, cerca de 6 milhões de habitantes, 93% são negros e 6% são brancos. E depois há também asiáticos, etc. Não é uma minoria que possa ser ignorada como na Nigéria. Na Nigéria não contava. Era uma série de funcionários, etc. Mas também não era a minoria da África do Sul, 20%, e claro, não era a maioria dos Estados Unidos. O que vai acontecer aqui? O que vai acontecer aqui é que o Quênia vai se tornar independente em 1963, a Rodésia do Norte como Zâmbia em 1964, e eles vão se tornando independentes, independência significando a entrega do poder a líderes políticos negros. E por que os brancos da Rodésia do Sul resistiram?

Era muito diferente a Rodésia do Sul da Rodésia do Norte?

Era muito mais diferente. Primeiro, é diferente, porque são muito mais numerosos. Estamos a falar de uma população de 300 mil, comparado com 80 mil no Quênia e 100 mil na Rodésia do Norte. Mas não são só mais numerosos, eles são diferentes. É uma sociedade diferente, é uma sociedade branca na Rodésia do Sul, diferente da do Quênia e da Rodésia do Norte.

E por quê?

Costumam um bocadinho atribuir a resistência deles à independência com uma maioria negra ao preconceito racial. E de fato, até certo ponto isso é verdade, porque nós estamos a falar de uma minoria branca que está habituada a ver os negros ou como selvagens ou como serviçais. Os brancos são uma elite proprietários que usavam o trabalho negro nas suas fazendas Mas a questão não é apenas racial. Às vezes a questão é reduzida à raça porque obviamente tem uma dimensão pejorativa.

E é uma explicação fácil.

Sim, nós como historiadores temos que compreender o ponto de vista de todos. O que não quer dizer que sejamos a dar razão, mas temos que compreender esse ponto de vista. E portanto temos que compreender também o ponto de vista destes 300 mil brancos da Rodésia do Sul. E o que eles estavam a ver em 1965? O que eles estavam a ver é que os países que se tinham tornado independentes com líderes políticos negros, estavam a passar por processos de desordem, de guerra civil, de estabelecimento de ditaduras, em que a população branca, como por exemplo no caso do Quénia e da Rodésia do Norte, estava a ser alvo desta demagogia. Isto é, estes ditadores para voltarem o descontentamento da população deles para outro alvo, indicavam os brancos como alvo. E por exemplo, seguiam políticas de redistribuição da terra contra os brancos, que tornavam os brancos uma espécie de gente detestada e que nestes países, quer no Quénia, quer na Rodésia do Norte, levou à saída dos brancos. Portanto, é isso que na Rodésia do Sul, eles estão a ver acontecer à volta deles. O que acontece é que por mais bem-intencionados que sejam inicialmente estes políticos negros, eles precisam de apelar às massas da população negra. Por outro lado, querem estabelecer poderes autoritários e, portanto, inevitavelmente vão nos apontar como os bodes expiatórios de tudo o que está a acontecer, de todo o mal e, portanto, nós vamos ser sacrificados. Ora bem, os brancos da Rodésia do Sul não eram só mais numerosos, eram diferentes. Eram diferentes até dos brancos da Rodésia do Norte. Os brancos da Rodésia do Norte eram, sobretudo, brancos que estavam ligados à indústria mineira e ao comércio e portanto viviam nas cidades. Eram menos, eram um terço dos brancos da Rodésia do Sul. O que acontecia nos brancos da Rodésia do Sul é que a maior parte deles estão ligados à cultura da terra, são agricultores, são fazendeiros, portanto são gente muito mais vulnerável à redistribuição de terras, por um lado. Por outro lado, são fazendeiros que vêm das classes pobres britânicas. Ao contrário do Quénia, no Quénia havia muitos fazendeiros brancos que vinham da aristocracia britânica, das classes altas. E portanto faziam aquela vida do filme do "Out of Africa", portanto, cocktails, gente toda glamorosa, em grandes propriedades, etc. Estes brancos da Rodésia do Sul são a canalha para essa gente, são os pobres. São aqueles tipos que eram operários pobres em Inglaterra e que vieram com contratos com a companhia para lhes serem entregues terras na Rodésia do Sul e que se tornaram depois proprietários prósperos. Portanto, eles têm uma relação muito forte com a terra.

Que sentem que é deles. Algo que foi bom eles que construíram.

E tinham o sentido que aquela sociedade tão próspera em que eles vivem, é o trabalho deles e dos sacrifícios que eles fizeram. Já com uma ou duas gerações, muitos deles já tinham nascido na Rodésia. Além disso, sentiam também que era próspero para eles, mas também achavam que era próspera para os negros a quem eles davam trabalho, com quem eles estavam, às vezes também eram proprietários ao lado e com quem eles tinham intercâmbio. E portanto, julgavam: "Não, isto é o melhor para todos nós. E se nós formos obrigados a ir embora, vamos perder não apenas aquilo que construímos, mas todo este país vai se perder, porque não há pessoal tão qualificado e tão empenhado na produção como nós". Portanto, sim, há superioridade racial, não vamos esconder isso. É óbvio que há, quer dizer, há racismo, vamos dizer assim, há esse sentimento, mas não há só isso. Há também esta defesa do mundo que era o deles, o mundo que eles tinham construído com bastante sacrifício. Portanto, eles não eram classes altas como os do Quénia que: "Olha, foi ótimo estar aqui durante uns tempos, mas vamos embora. Agora vamos embora, já chega. Porque temos propriedades também em Inglaterra ou noutros lados quaisquer".

Eles não tinham para onde voltar.

Aquilo era o mundo deles, era o país que eles achavam que tinham feito. E portanto, há também essa dimensão. O que eles vão então fazer? Bem, a Rodésia do Sul não é como as colônias portuguesas governadas a partir de Lisboa. Isto é, Angola e Moçambique são governadas a partir de Lisboa. A Rodésia do Sul tem um parlamento próprio em Salisbury, portanto em Salisbúria, hoje Harare. Esse parlamento escolhe o governo, tem o primeiro-ministro, portanto era entre os 300 mil brancos que havia, que eram escolhidos os eleitores, por causa daquelas qualificações. Não exatamente por um critério de discriminação racial, mas por critérios que acabavam por ter um resultado racial, como no sul dos Estados Unidos, na segregação racial. Não eram os negros que eram proibidos de votar, mas precisavam de saber ler e escrever, eram proprietários, etc. Isto excluía a maior parte da população branca, portanto, eram os brancos que votavam. O governo era branco. E em 1962, as eleições são ganhas por um partido que se chama de Rhodesian Front, a Frente Rodesiana, ganha as eleições. Curiosamente, ganha as eleições com 54% dos votos. A política que vai ser seguida na Rodésia não é unânime entre os brancos, isto é muito importante. Tal como a política de apartheid na África do Sul não é unânime entre os brancos. Aquilo divide a comunidade branca. Há metade que está a favor, há outra metade que não está a favor. Mas enfim, elege este governo da Frente Rodesiana, o líder era o Ian Smith, e é este governo que em 1965, quando percebe que a Inglaterra, como potência colonial, está a preparar-se para entregar o poder à maioria negra, se antecipa e declara a independência unilateral da Rodésia. Isto é a declaração unilateral de independência. É assim que é conhecida. Agora, eles não fazem só isso, não se limitam a declarar unilateralmente a independência. Na frente rodesiana há várias opiniões, a própria frente rodesiana não é homogênea. Há aqueles que acham que o que eles devem fazer é assegurar uma transição mais lenta e mais gradual do que aquela que a Inglaterra estava a prever para uma maioria negra. Isto é, aceitam que um dia será entregue a uma maioria negra, mas querem que seja mais gradual, de maneira a qualificar a população negra para a independência. Eles dizem, e esta é a expressão que eles usam: "Queremos uma transição para mãos responsáveis", ou mãos qualificadas. Às vezes também é usada essa expressão. Sim, vamos entregar a uma maioria negra, mas esta maioria ainda não está qualificada e não está capaz, vai se tornar qualificada e então gradualmente irá um dia ter o poder. Isso é uma parte. Outra parte, não. Outra parte são nitidamente racistas, querem um sistema de apartheid como na África do Sul, isto é, de desenvolvimento separado, constituir um Estado onde os negros nunca terão lugar. Há também esta dimensão na frente rodesiana. Há um choque entre essas duas correntes, uma corrente de transição gradual para uma maioria negra, não já, mas daqui, e outros não, é desenvolvimento separado, que é a política do Partido Nacional na África do Sul e que o Partido Nacional implantou na África do Sul no pós-guerra.

Mas naquele momento não existia apartheid na Rodésia.

Não há apartheid na Rodésia. Há segregação de serviços públicos, há escolas para negros e escolas para brancos, mas, por exemplo, não há proibição de casamentos mistos, ao contrário do que existe na África do Sul e ao contrário também do que havia no sul dos Estados Unidos. Os negros podem organizar partidos políticos, desde que não sejam violentos. Tinham partidos políticos, tinham sindicatos e partidos políticos.

E podiam votar desde que tivessem propriedade.

E podiam votar desde que tivessem propriedades. O que acontecia era que a maior parte da propriedade, sobretudo das terras mais férteis, estava na posse dos brancos. Por exemplo, em 1969, os negros tinham apenas oito lugares no Parlamento, um Parlamento de 66 lugares. Mas tinham oito lugares para os eleitores negros, eram eleitos pelos eleitores negros, e depois havia oito lugares para os chefes tribais.

Certo. E os brancos tinham 50.

50 lugares para 16 dos negros. Sim, se alguém dissesse: era um Estado racista, na prática era um Estado racista e é como tal que começa a ser contestado pelos negros. Os negros estão organizados como? Têm já partidos, sindicatos, mas estão sobretudo organizados pelas igrejas, as igrejas protestantes. 84% da população é cristã, 62% é praticante nos anos 80, estou a falar de estatísticas dos anos 80, é praticante. É uma população cristã negra muito fervorosa, digamos assim, protestante. Isso faz lembrar um bocadinho o sul dos Estados Unidos outra vez. Estas igrejas protestantes, e são os líderes religiosos negros que fazem a contestação da solução desta Rodésia independente, deste Estado branco, com uma base de apoio que corresponde, por um lado, à cristianização, por outro lado, também, curiosamente, à alfabetização. A Rodésia do Sul tinha a população negra mais alfabetizada da África. Ainda hoje tem, aliás. E por quê? Por causa das igrejas, da missionação protestante intensa, e por causa também do Estado rodesiano. O Estado rodesiano investe na educação da população negra, isto é, por exemplo, em 1970, cerca de 60% das crianças negras estão na escola primária. É verdade que os brancos estão a 100%.

Ou seja, essa alfabetização impregnava uma base de resistência.

Quando nós comparamos isto com um país africano como a Libéria, que nunca foi colonizado e que é quase analfabeta 70% nesta altura, vemos que este Estado colonial na Rodésia do Sul tinha verdadeiramente feito um esforço para integrar a população negra.

Isto realmente é um retrato muito diferente daquilo que era Angola e Moçambique, para regressar à pergunta.

É muito diferente. Vamos já ver as três razões pelas quais era muito improvável que Angola e Moçambique pudessem ser Rodésias do Sul. Primeira razão: a população de origem europeia em Angola e Moçambique tinha vivido sob a ditadura do Estado Novo e não tinha nem a liberdade, nem as instituições representativas dos europeus da Rodésia do Sul. Na Rodésia do Sul havia um governo local com um primeiro-ministro eleito, e foi esse governo que declarou a independência à revelia da potência colonial, que era a Grã-Bretanha, porque a Grã-Bretanha só tinha um poder geral sobre a Rodésia do Sul, não administrava a Rodésia do Sul.

Tanto que não houve nenhuma espécie de resistência.

Não teve resistência, não havia possibilidade de resistência.

Ninguém mandou tropas.

Mandou mais tarde, em 1980, mas noutras condições, que já vamos falar. A autoridade na Rodésia do Sul é o governo da Rodésia do Sul, que é o governo que declara a independência. Nada disto era em Angola e Moçambique. Angola e Moçambique são governados por governadores nomeados por Lisboa Não há parlamentos. Era a primeira vez que estavam a ser constituídas, em 1973, 74, assembleias legislativas nestes estados. Mas numa ditadura.

Certo.

Na Rodésia do Sul há uma vida pública democrática que permite aos brancos, é verdade que de alguma maneira também inclui uma parte dos negros, mas uma minoria só dos negros, mas permite aos brancos organizarem-se e tomarem a direção dos assuntos. Isso não acontecia na Rodésia.

O exército é local, não é?

E depois temos em Angola e Moçambique outra coisa, que era: quem garantia a segurança de Angola e Moçambique são tropas, que em 50% são recrutadas na metrópole, são portugueses da metrópole que fazem serviço militar em Angola e Moçambique, e os comandantes são todos metropolitanos. Quando eu digo todos, havia com certeza alguns oficiais nascidos em Angola e Moçambique, mas praticamente capitães, coronéis, generais, é tudo gente da metrópole. E o que acontece em 1974, quando aparece finalmente a liberdade? Poder-se-ia ter dado o caso desta população europeia de Angola e Moçambique finalmente poder organizar-se e constituir partidos, eleger assembleias, etc. O que acontece é que as Forças Armadas portuguesas que estão em Angola e Moçambique decidem que querem acabar com a guerra. E querem acabar com a guerra entregando os territórios aos partidos independentistas armados, que querem uma independência de maioria negra.

Sim.

E o que acontece é que eles estão tão empenhados nisso, porque acham que é assim que podem pôr termo à guerra, que vão reprimir as pretensões dos brancos a constituírem-se como interlocutores. A independência de Moçambique, a independência de Angola é feita com as discussões entre o governo português, mais exatamente até as autoridades militares portuguesas, e os dirigentes dos partidos armados independentistas que combatiam a presença portuguesa em África, isto é, a FRELIMO, o MPLA, a UNITA e a FNLA. O meio milhão de brancos que nesta altura vive nestes países não tem voz, porque lhe é retirada pelas próprias Forças Armadas. Repara, isto é completamente diferente, mais uma vez, da Rodésia do Sul. Na Rodésia do Sul, as forças de segurança que existem são de recrutamento local e estão sob comando local, isto é, são os rodesianos brancos que comandam estas forças de segurança. Além disso, há também uma outra questão que é a manutenção do próprio poder branco. Na Rodésia do Sul isso é possível porque já existe um sistema, aquele sistema de segregação racial, não sendo igual ao da África do Sul, acaba por ser um sistema de segregação racial como no sul dos Estados Unidos até à década de 50, 60. E o que acontece é que na África portuguesa, a política oficial, mesmo já da ditadura portuguesa, ditadura salazarista, era de sociedades multirraciais, isto é, era contra a segregação racial. Não era possível independências brancas, a não ser violando até a filosofia com que tinham sido criadas estas sociedades portuguesas em África. Isto é, que era uma filosofia multirracial e no princípio da década de 70, mesmo a ditadura salazarista estava a fazer um grande esforço de integração das populações negras, por exemplo, através da escolarização e promoção de quadros negros, etc. Manter uma supremacia branca como na Rodésia, teria de contar com a aceitação da população negra. Seria mais complicado. Seria um processo muito mais complicado, mas repito, pelos dois primeiros fatores, isto é, não haver instituições representativas nem vida democrática, e as Forças Armadas serem Forças Armadas metropolitanas, não serem Forças Armadas locais, praticamente impedia uma solução, uma evolução rodesiana.

Estamos então com uma Rodésia independente, branca.

Mas que também não acabou bem.

E que também não acabou bem.

E que também nos vai permitir concluir que independências brancas, como se dizia, em Angola e Moçambique, também não teriam acabado bem.

Da descrição que tu tiveste, a Rodésia parecia ser o país, tirando a África do Sul, em todo o continente africano, com melhores condições para ter essa independência e funcionar.

Em 1980, para antecipar, quando Robert Mugabe, o líder independentista negro, recebe a Rodésia, o líder da Tanzânia diz-lhe: "Cuidado, recebeste a joia de África, isto é a joia, uma das melhores economias, uma das sociedades mais prósperas, vê se não a estragas".

Claro, e ele estragou.

Isso era pra adiantar esta joia de África. Vamos anterior. O que corre mal e por que isto não pode durar? Primeiro, a Inglaterra não recebe bem esta declaração unilateral de independência. A proposta do governo da Rodésia é continuar a ser um membro da Commonwealth britânica, é recusado pela Grã-Bretanha.

E por quê?

Porque a Grã-Bretanha está interessada em ter boas relações com os países africanos e obviamente os países africanos não recebem muito bem esta independência da Rodésia do Sul e a Inglaterra não quer fazer parecer que está a apoiar a independência da Rodésia do Sul, portanto é muito severa com a Rodésia do Sul. Declara mesmo um embargo, que chega ao ponto de ter a expressão de um bloqueio naval ao porto, por exemplo, português da Beira. O porto português da Beira funcionava como o porto De mar da Rodésia, porque havia depois um caminho de ferro para a Rodésia do Sul, e os britânicos fazem um bloqueio naval em 1965, 66. Salazar e a administração colonial portuguesa obviamente tinha apoiado muito a independência da Rodésia do Sul, porque não queria um Estado negro a apoiar guerrilhas nacionalistas nas fronteiras de Moçambique e portanto tinha apoiado muito os brancos. Mas a Inglaterra tenta dificultar a violação das sanções por parte de Portugal. Portugal está a violar as sanções, a África do Sul também está a violar as sanções, mas reparem, nenhum Estado do mundo vai reconhecer a Rodésia do Sul. A Rodésia do Sul dura 15 anos, nunca foi reconhecida nem pelas Nações Unidas, nem por nenhum Estado. Este isolamento sob um regime de sanções, um regime de boicote, era muito difícil manter isto muito tempo. Depois, desde 1965, há dois partidos independentistas africanos que lançam guerrilhas contra o regime que eles chamam de regime branco da Rodésia. São ZAPU, Zimbabwe African People's Union, e a ZANU, Zimbabwe African National Union.

Tinham apoio soviético, imagino.

Mas por que há dois partidos? Aliás, têm os dois apoio soviético, mas por que há dois partidos? Porque representam as duas populações diferentes da Rodésia. A ZAPU representa os Ndebele, os Matabele, os Zulues, e a ZANU representa os Shona. Isto é, logo na luta pela independência, há dois partidos que representam as duas populações diferentes.

Uma conceção tribal.

Eles não reconhecem o nome de Rodésia, porque acham que é um nome colonial e optam, discutem entre eles qual é o nome. A alternativa era Matabeleland, que era assim que os europeus conheciam aquilo, mas isso dava vantagem aos Zulues, não interessava aos Shona, e acabaram por descobrir depois o Zimbabwe, que era o nome de um reino que tinha existido naquele planalto milhares de anos antes, de que havia ruínas. Zimbabwe quer dizer casas de pedra.

Para mostrar que era uma civilização sofisticada.

Sim, uma civilização antiga. Quando acaba o Moçambique português em 1975, abre-se uma enorme frente. Ao princípio, eles estão a fazer guerrilha, sobretudo a partir da Rodésia do Norte, da Zâmbia. Agora, de repente, ficam com Moçambique, que tem uma fronteira gigantesca com a Rodésia, têm Moçambique para fazer guerrilha. E a ZANU e a ZAPU chegam a ser forças de guerrilha muito mais poderosas do que alguma vez a FRELIMO, o PAIGC, o MPLA, a UNITA e a FNLA foram. Chegaram a ter cerca de 40 mil homens em armas. É uma coisa gigantesca. Nunca, jamais, as forças que combateram a administração portuguesa tiveram esta dimensão. É uma dimensão muito grande. E curiosamente, depois o governo da Rodésia tem forças armadas muito pequeninas, muito mais pequenas do que as forças portuguesas. Tem cerca de 50 mil homens, tem um exército de 10 mil homens. Portugal tinha quase 80 mil homens em África, só do exército português metropolitano, depois mais 80 mil recrutamento local. Para enfrentar forças de guerrilha muito mais pequeninas do que estas forças da ZANU e da ZAPU. Eles vão contestar o governo rodésiano, vão fazer uma guerra, não vão ter grandes sucessos militares, mas vão manter a Rodésia em guerra. Obviamente, o regime rodésiano não vai dizer nunca que está a resistir à maioria negra, diz é que está a resistir ao comunismo, porque acha que a ZANU e a ZAPU são forças soviéticas. Isto já não é uma situação boa para a Rodésia. Por outro lado, também temos a África do Sul. A África do Sul não está nada interessada. Isto é contraintuitivo, mas a África do Sul não ficou nada interessada com a independência da Rodésia. O regime branco da África do Sul acha que é um regime africano, branco, mas africano. Isto é, de população que chegou à África do Sul ao mesmo tempo que a população negra no século XVII. E quer ser reconhecida como tal pelos outros países africanos, dizer: "Nós somos brancos, mas isso não interessa, nós somos africanos, nós não somos europeus. Nós somos africanos. Somos como vocês, mas temos uma cor de pele diferente. Vocês vieram da África tropical, nós viemos de um pouquinho mais acima da Europa, mas chegamos aqui a esta parte do continente ao mesmo tempo e agora vamos ficar a viver aqui juntos". Eles acham que são africanos e olham para os rodésianos como colonos, como colonialistas. Era um pouco a relação que eles tinham com os portugueses. Os sul-africanos achavam que os portugueses eram colonialistas, os portugueses achavam que eles eram racistas, e os sul-africanos achavam que os portugueses eram colonialistas, porque eram europeus. Eles não se consideravam europeus, consideravam-se africanos. Era um pouquinho o mesmo raciocínio da Inglaterra. Para ter boas relações com os outros países africanos, e há um grande investimento da África do Sul, sobretudo na década de 70, para ter boas relações com os outros países, eles não querem ter que sustentar a Rodésia do Sul, não querem ter ali um regime colonial de europeus, e portanto fazem grande pressão, sobretudo a partir de 1976. Fazem uma grande pressão sobre o governo do Ian Smith para chegar a um acordo para uma transição para um governo de maioria negra. E é isso que vai ter de fazer.

E é verdade que essa transição acontece.

É, o Ian Smith em 1978 chega. Mas é uma transição complicada. Há uma primeira fase em que o Ian Smith chega a um acordo com líderes negros que estão dentro da Rodésia do Sul Portanto, de partidos não violentos, que não fazem luta armada. O seu chefe principal é um bispo, é o bispo metodista Abel Muzorewa. Ele chega a um acordo em 1978 com o bispo Muzorewa para uma transição para um governo de maioria negra. O que eles fazem? O Parlamento fica dividido entre deputados que são eleitos pelos brancos e deputados que são eleitos pelos negros, que é para não sufocar os brancos. Os brancos ficam com 28 lugares no Parlamento e os negros ficam com 80. Já há uma maioria negra completa, uma maioria mais do que absoluta. Este é o acordo. E depois no governo, um quarto dos lugares seriam para os brancos e três quartos para os negros. Este é o acordo a que Ian Smith chega com o Muzorewa. Esse acordo é proposto em referendo entre os brancos e 85% dos brancos aprova este acordo. Acha este acordo bom. Uma transição para uma maioria negra com estes líderes nacionalistas moderados negros que ficariam a governar a Rodésia do Sul. E há eleições em 1979, 60% da população vota, negros também votam, elegem este Parlamento e o bispo Muzorewa torna-se primeiro-ministro. E o nome do país muda para Rodésia Zimbábue. Os dois nomes, fica com os dois nomes. Fica a ser chamado Rodésia Zimbábue. Qual é que é o problema? A ZANU e a ZAPU, que estão a fazer guerra contra o regime, não aceitam este acordo. Continuam a fazer a guerra e a própria Inglaterra e os Estados Unidos também não reconhecem este acordo. Acham que isto não é suficiente e mantêm o regime de sanções contra o governo, agora um governo de maioria negra, mas que continua sob sanções e em guerra com a ZAPU e a ZANU. E em dezembro de 1979, é Muzorewa que negoceia com a ZANU e a ZAPU para um outro processo em que a ZANU e a ZAPU possam concorrer a eleições. Isto dá a ideia de que mesmo que houvesse os planos do Jorge Jardim para Moçambique, que são muito parecidos com estes do Ian Smith, de 1978, para a Rodésia do Sul, muito provavelmente a FRELIMO ia recusar, ia continuar a guerra e mais tarde ou mais cedo, ia cair numa solução como caiu a Rodésia em 1980, que foi finalmente eleições que são ganhas pela ZANU, que tem o apoio da maioria da população, que é a Shona, entrega o poder ao líder da ZANU chamado Robert Mugabe, que se torna o líder. Ele recebe a joia da África e a partir daí faz tudo o que é possível para destruir. O projeto dele é adquirir o poder total na Rodésia. Numa primeira fase, o alvo não é a minoria branca. Ele até trata os brancos mais ou menos nessa primeira fase. É os Ndebele, os Zulus, do outro partido, o ZAPU. É com eles que ele vai iniciar um confronto, uma espécie de guerra civil, que vai resultar num grande massacre de população Zulu. Em 1982, cerca de 20 mil Ndebeles são massacrados. Isto faz lembrar, a uma escala completamente diferente, da Ruanda entre os Hutus e os Tutsis. Aqui os Ndebele são os Tutsis, a elite guerreira, e os Hutus são os Shona, que são a população de criadores de gado e de cultivadores. Ele avança contra os Ndebele, destrói basicamente a ZAPU, obriga o Joshua Nkomo, que era o líder da ZAPU, a sair do país, a exilar-se, e depois consegue obrigá-lo a um acordo em que o Joshua Nkomo basicamente se submete à ZANU, ao Robert Mugabe. E mais tarde, com a contestação cada vez maior do seu poder, passa a uma segunda fase que é o ataque à minoria branca. A minoria branca, que entretanto já tinha percebido pra onde é que aquilo ia seguir e estava a sair. Mas é por volta já do fim do século XX, no fim da década de 90, que ele ataca a minoria branca, expropriando basicamente os agricultores brancos. Cerca de 4 mil agricultores brancos, aqueles que já restavam também de várias distribuições de terra, vão ser expulsos nessa altura, as suas terras vão ser entregues basicamente aos dirigentes do partido ZANU, isto é, dos dirigentes do partido do Robert Mugabe, e basicamente isso destrói a agricultura do Zimbábue. Só para dar um exemplo, a produção de milho, que era uma das maiores da África, caiu 85%. A produção de café pura e simplesmente acabou. Era uma das grandes exportações, era a grande exportação do Zimbábue. Imaginem um regime instalado em Portugal que acabasse com a produção de vinho e com a exportação de vinho. É o equivalente do que o Robert Mugabe conseguiu no Zimbábue. Acabou com a grande exportação do Zimbábue nesta altura. Mugabe é ditador até 2017. 37 anos. São 37 anos de declínio econômico, de hiperinflação, de desemprego 60% dos animais selvagens são mortos nesta época. Caçadores furtivos acabam com a maior parte da fauna, atacam os parques que havia. Há uma epidemia de sida terrível na década de 90 que faz cair a esperança de vida no Zimbábue de 60 para 44 anos, é uma coisa absolutamente impressionante. Em 1960, a Rodésia do Sul tinha tido um PIB que era o equivalente a 60% do PIB mundial.

Da média.

Da média do PIB mundial. Por volta de 2010, o Zimbábue, em vez de 60%, tem um PIB que é equivalente a 5% da média do PIB mundial. Isto dá ideia do afundamento total do país. Apesar de tudo, continua a ter a maior taxa de alfabetização de África, sem Robert Mugabe, mas continua a ditadura do partido ZANU, mesmo sem Robert Mugabe, é muito provável que evolua de outra maneira. É muito curioso, eu quando fiz pesquisa para este podcast, encontrei um comentário na internet de um cidadão do Zimbábue, do atual, africano, negro, que diz que o sonho dele era que o Zimbábue fosse como a Rodésia, sem a segregação racial. Que bom que era que o Zimbábue fosse como a Rodésia, obviamente, sem o governo de minoria branca e sem a segregação racial. Foi isso que não foi. Infelizmente, os líderes da frente rodesiana em 1965 tinham razão naquilo que estavam a ver. Provavelmente não ajudaram nada a que fosse diferente aquilo que viria a acontecer. Não devem ter ajudado nada a solução, não deve ter sido a melhor. Pelo contrário, pioraram provavelmente as circunstâncias do que viria a acontecer à Rodésia, mas infelizmente foi o fim.

Tu tinhas dito que o exército britânico, as Forças Armadas britânicas iam acabar por intervir.

Sim, em 1980 o que acontece é que, isto é um pormenor curioso. Em 1980 há um acordo entre Muzorewa e a ZANU e a ZAPU. E a ZANU e a ZAPU não reconhecem a República da Rodésia, nem a República da Rodésia-Zimbábue, que era a que existia então. Portanto, oficialmente, durante uns meses, a Rodésia voltou a ser a colônia britânica da Rodésia. Foram enviados paraquedistas, foi enviado um governador-geral britânico que presidiu às eleições na colônia britânica da Rodésia, em 1980, para finalmente a Inglaterra entregar o poder ao Robert Mugabe, oficialmente. Mugabe não recebeu o poder de um governo, de um regime que ele não reconhecia, que era, neste caso, o regime já de maioria negra do país que se chamava Rodésia-Zimbábue, recebeu o poder do governador britânico, porque para o ZANU e a ZAPU não existia a República da Rodésia, nem a República da Rodésia-Zimbábue. Foi o único caso em que a descolonização passou por uma recolonização. Isto é, a Rodésia para se tornar um Estado independente de governo de maioria negra, voltou a ser uma colônia britânica e só depois é que se tornou um Estado.

Isso é uma bela história. Sim, senhor. E assim termina esta edição de "E o Resto é História". Nós voltamos para a semana. Até lá.

E o resto é história. É a terra fumar. Do incêndio de Pedrógão Grande, ainda na zona dos Siados.

Quer transformar este país numa ditadura. Lamento, lamento.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.