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E o resto é história.

É a terra a fumar.

Do incêndio em Poiava, ainda na zona dos Siados.

Falo por gosto, é que arde em mim de vermelho, trovo do corpo, fogo do amor.

Quer transformar este país numa ditadura. Atento!

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a este episódio 311 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Já se percebeu que os nossos queridos ouvintes são grandes apreciadores dos rankings aqui do Rui Ramos. E desta vez o Carlos Dinis aproveitou a passagem do Dia Internacional da Mulher, que se comemora todos os anos a 8 de março, para nos enviar um desafio que encaixa perfeitamente no tipo de programa dos rankings, que a gente gosta tanto. E ele disse-nos que achava que seria muito interessante discutirmos o papel das mulheres na história de Portugal. E eu cito Carlos Dinis: "A história é sobretudo contada numa perspectiva maioritariamente masculina, deixando em segundo plano o contributo de muitas mulheres que tiveram um impacto significativo no país. Seria interessante explorar quem foram algumas das figuras femininas mais marcantes da nossa história." Rui, parece-me uma ótima sugestão e por isso o meu desafio para ti é muito simples: se consegues escolher três grandes mulheres da história de Portugal e ajudar-nos a esclarecer a importância que tiveram e a forma como causaram impacto no país. Nós temos aquela ideia de que as mulheres estão mais ou menos condenadas ao papel de figurantes da história, mas não sei. Tenho a sensação de que não partilhas exatamente essa opinião.

Não. Acho que ninguém hoje em dia partilha essa opinião. Quer dizer, nós temos ideia de que as leis e os costumes deixavam as mulheres numa posição de desvantagem em relação aos homens e depois os costumes também as privavam de elementos que geralmente justificavam a predominância masculina, como por exemplo, a literacia ou as qualificações acadêmicas. Durante bastante tempo isso aconteceu. Isso é verdade, mas isso não quer dizer que as mulheres não tivessem uma grande influência na vida doméstica, nas famílias, na economia, nas próprias comunidades, nas aldeias, nos bairros onde vivia. Para perceber isso não é preciso fazer grandes pesquisas, basta ler, por exemplo, memórias, e podem ser memórias de homens do século XIX, para perceber o papel e a influência das mães, das irmãs e das mulheres nas suas vidas. Mesmo quando são políticos a contar uma história política, percebe-se que a mãe teve uma importância enorme na sua formação e continua a ser uma referência para o indivíduo no resto da sua vida. Portanto, é-lhe reconhecida uma certa ascendência. Sabemos também que, por exemplo, a sociedade rural em Portugal não é toda igual, é muito diferente a sul e a norte. Mas, por exemplo, na sociedade rural do Minho, até ao século XX, a maior parte do trabalho agrícola é levada a cabo por mulheres. A propriedade também é transmitida através de via feminina, através das filhas. Os rapazes saem de casa, vão casar-se, emigram e são as mulheres que transmitem a casa, são as filhas. Portanto, a importância das mulheres no Minho é muito grande e pode ser avaliada, por exemplo, simbolicamente por um movimento político como a chamada Revolta da Maria da Fonte, em 1846. Nós não sabemos se a Maria da Fonte existiu ou não existiu exatamente, mas o facto de a revolta estar simbolizada por uma figura feminina dá a ideia do papel das mulheres, mesmo num movimento coletivo de comunidades, neste caso, de protestar contra o Estado, contra os impostos altos, contra as leis, as chamadas leis da saúde, que são a obrigação de enterrar os mortos nos novos cemitérios. E isso são as mulheres que se põem à frente da comunidade e que dirigem ou que incitam essa contestação. Portanto, a importância das mulheres, o papel das mulheres na história, apesar das suas desqualificações jurídicas, é grande e ainda é expressa também por uma outra dimensão da história de Portugal, que é o catolicismo em Portugal. E o catolicismo português tem uma tradicional, já vem da Idade Média, uma tradicional dimensão mariana, isto é, do culto de Maria, a mãe de Deus, que é reforçado ao longo dos séculos, isto é, não é uma coisa que diminui, é uma coisa que se aumenta até ao movimento à volta de Fátima no século XX, a partir de 1917.

E a coroa real foi oferecida a Nossa Senhora.

Coroa real também a Nossa Senhora. Portanto, é uma religião em que ao lado do Deus Pai, há a Mãe de Deus, que aliás, para uma grande parte dos crentes, é o principal objeto de devoção e de culto. Agora, nada disto impede, de facto, como nota o nosso ouvinte, que a história de Portugal, enquanto história política de Portugal, isto é, da monarquia portuguesa e depois da República, pareça uma história masculina, isto é, com reis, presidentes da República, depois chefes militares, chefes religiosos, sempre homens, quase sempre homens. Nos Lusíadas De 1572, há personagens femininas como a formosa Maria e Inês de Castro, mas os heróis, de facto, também são quase sempre homens, apesar também do papel de Deusa Vénus na intriga, de uma figura divina, feminina, que preside à intriga. Mas sim, a história no sentido da vida pública, da vida política, parece masculina, o que corresponde um pouco àquela visão, sobretudo do século XIX, em que as mulheres fazem parte do mundo doméstico e o mundo público, o mundo político, é o mundo para os homens. Uma espécie de divisão do trabalho, entre aspas, metaforicamente, no século XIX entre homens e mulheres. Mas isto não era sempre assim. Isto não foi sempre assim. Isto é uma visão que não nos permite perceber, de facto, o papel das mulheres na história. Isto é, mesmo na história pública, mesmo na história política, as mulheres têm uma grande importância. Houve mulheres que tiveram um papel importante nessa vida pública e isso aconteceu por três vias. A primeira é o modo como uma mulher podia, em certas circunstâncias, herdar o poder que competia aos homens da sua família. Se essa mulher, por exemplo, se tornava a representante de uma família real ou de uma família aristocrática. Uma mulher podia herdar esse poder. Essa é uma primeira via.

O poder do homem.

Um poder do homem, mas que de repente se tornava um poder da mulher, porque ela representava aquilo que o homem também representava. Uma mulher, de repente, podia representar também a ascendência social, a ascendência política que estava, em princípio, reservada aos homens, mas que à falta de um homem, uma mulher podia representar. Depois, uma segunda via para essa influência feminina, o modo como a religião católica permitia às mulheres, apesar de não terem acesso ao sacerdócio, ocuparem posições importantes à frente de instituições religiosas, como por exemplo, conventos femininos, em que podiam ser madres superiores, por exemplo, desses conventos, ou então, quando as mulheres se entregavam à vida religiosa ou uma vida marcada pela religião, tornarem-se, por essa via, pessoas influentes na sociedade, isto é, serem vistas pela sociedade como pessoas cuja opinião é importante atender, é importante consultar. Esta era outra via, a via religiosa, que impunha também as mulheres como influentes na vida pública. E depois, já mais recentemente, a partir do século XIX, há o modo como as mulheres usam vias como a instrução, o culto das letras e das artes, mesmo antes de terem todos os direitos ainda dos homens, isto é, por exemplo, o direito de votar, de eleger e ser eleita, mas já usam as letras e as artes para obterem um prestígio, uma influência pública similar à dos homens enquanto escritores, enquanto artistas. Isto começa a notar-se, aliás, não é só em Portugal, é toda a Europa, todo o mundo ocidental, a partir do século XIX. Obviamente, já tinha havido mulheres antes que cultivavam as letras e as artes, havia pintoras, escritoras, mas no século XIX a mulher escritora começa a se tornar cada vez, por exemplo, mais importante, como autora de romances, de poesia e de outro tipo de trabalhos literários, e a ser objeto do mesmo tipo de culto que os homens tinham.

Portanto, tu estás a definir estes três modos de se ser influente, vais dar três exemplos e um sobre cada um destes modos, é isso?

É incrível como tu consegues adivinhar estas coisas.

Já são muitos anos.

Já são muitos anos de observação. Bem, eu de facto vou dar três exemplos destes três modos das mulheres adquirirem influência pública. Repito, para além da influência que podiam exercer a nível doméstico, famílias, comunidades, agora estou a falar de uma influência pública, isto é, que não corresponde apenas ao facto de serem mães ou de serem habitantes de uma determinada localidade.

Portanto, vai ser uma rainha, alguém com uma dimensão religiosa muito importante e, finalmente, uma mulher escritora.

Vamos a isso então. O primeiro exemplo que vou dar é já conhecido dos nossos ouvintes no sentido em que já falamos aqui dela, a rainha dona Teresa, a mãe de Dom Afonso Henriques. Dona Teresa não foi só, de facto, a mãe de Dom Afonso Henriques, foi também a mãe das aspirações de Dom Afonso Henriques e das ambições de Dom Afonso Henriques. E por quê? Porque dona Teresa era filha, embora ilegítima, do rei do Leão e Castelo e da Galiza, Afonso VI, um grande rei da Espanha medieval, que também usou o título de imperador de toda a Espanha, alguém que tinha enormes aspirações no fim do século XI. Dona Teresa nasceu em cerca de 1079, não há certeza em relação a isso. E por ser filha do rei, ela começa a usar o título de Infanta, que remete pra um filho do rei, e depois o título também de rainha. Embora não tenha um reino, usa o título de rainha. Por quê? Por ser filha do rei Afonso VI de Leão e Castela. Ela casa com o conde Dom Henrique, um cavaleiro borguinhês que se torna o conde de Portucale O condado chamado Condado Portucalense. Eles terão casado por volta de 1095, 1096, quando ela tem 16 anos, ele é mais velho, tem 26. Ele vai governar o Condado Portucalense, que é um território ao sul do rio Minho, que faz parte do Reino da Galiza, e que faz fronteira com os poderes muçulmanos, e por isso é uma posição importante para um cavaleiro do norte da Europa assumir, como organizador e líder das forças militares que estão ao sul do rio Minho para resistir aos muçulmanos, e casado com uma filha, embora ilegítima, do rei de Leão e Castela. Em 1112, o Conde Henrique morre e é Dona Teresa que passa a governar o condado como, e este é o título que ela assume, Rainha Teresa de Portugal, filha do rei Afonso. Ela é rainha por ser filha do rei, é assim que ela assume o título.

Nós diríamos que uma filha de um rei é uma princesa, não é? Mas aquilo lá funcionava com uma lógica diferente.

Não funcionava com uma lógica diferente, eles são infantes. Ela é que apropria o título de rainha por ser filha do rei, então também é rainha. Porque ela tem uma meia-irmã, que é a rainha Dona Urraca, de Leão e Castelo. É ilegítima, mas se ela é rainha, como é meia-irmã, também se torna rainha. Ela também aproveita a morte do pai, Afonso VI, em 1109, três anos antes da morte do marido, para começar a reivindicar autonomia política para o noroeste peninsular. A posição do pai é herdada pela meia-irmã de Dona Teresa, a rainha Dona Urraca, e na prática, o que a rainha Dona Teresa está a tentar fazer é dizer: "A rainha Dona Urraca fica rainha de Leão e Castela e eu fico rainha da Galiza". Mais ou menos isto. "Fico rainha da Galiza, portanto dividimos o reino do nosso pai, as possessões, os reinos do nosso pai, dividimos entre nós". Ela depois tem o apoio de nobres galegos, os Travas. Um dos Travas, Travas é o nome da família, torna-se o companheiro dela, ela vai ter filhos do Fernão Peres de Trava depois da morte do conde.

Sem se casar?

Dizia que se teria casado, embora o Fernão Peres de Trava já fosse casado. Aquilo era uma situação estranha, porque ela apresenta-se às vezes como mulher do Fernão Peres de Trava ou tratada como tal nalguns documentos, mas não é clara a relação. Nós temos estudos sobre ela do José Mattoso, na sua biografia de Dom Afonso Henriques, de 2006, e depois uma biografia de Dona Teresa, do Luís Carlos Amaral e de Mário Jorge Barroca, publicada em 2012, que faz parte de uma série, que são a série de rainhas de Portugal, a primeira é a rainha Dona Teresa. E sendo verdade, como já aqui dissemos uma vez, que o interesse de Dona Teresa não parece ter estado na independência do Condado Portucalense, a visão dela parece ser mais o reino da Galiza.

Que incluiria o condado.

Sim, a sua perspectiva política parece ser mais o noroeste peninsular, o antigo reino da Galiza, de que o Condado Portucalense, ao sul do rio Minho, faz parte. No entanto, ela contribui, certamente, para criar aquele ambiente em que o seu filho, Dom Afonso Henriques, nascido cerca de 1106, não sabemos exatamente, vai depois reivindicar a autonomia daquilo que vem a ser o Condado Portucalense, apoiado por nobres portucalenses. Aliás, é aí que ele depois vai entrar em choque com a mãe, em 1128, porque na prática, o Afonso Henriques parece muito mais baseado no Condado Portucalense do que a mãe, que tem esse apoio da nobreza galega e que aspira a mais. A mãe parece ter mais aspirações do que o filho, mas é o filho que acaba por se impor à mãe e que vai conseguir a independência do Portucalense unido ao Condado de Coimbra, unir os dois condados, em vez de unir o Condado Portucalense ao Reino da Galiza. Mas reparem, mesmo Dom Afonso Henriques começa inicialmente a ser tratado por infante e depois por rei, muito provavelmente, por ser neto de Afonso VI. Isto é, é através da mãe que ele tem essa realeza. Se nós juntarmos a isso o facto das manobras de autonomia da mãe terem criado este espaço de autonomia no noroeste peninsular, o ponto é que a história de Portugal começa com uma mulher, a filha de um rei, a conspirar e a intrigar para obter poder. E não é a última rainha, nem a última grande senhora aristocrática que o faz na história de Portugal. Temos depois muitas outras a seguir. Leonor Telles, a mulher de Dom Fernando, é uma personagem fundamental da crônica de Dom João I, de Fernão Lopes, quem leu isso ou quem leu excertos da crônica no ensino secundário, sabe isso. A rainha Leonor Telles é uma grande figura. E depois, em 1640, temos Dona Luísa de Gusmão, que é filha de uma grande casa aristocrática de Espanha, a dos Duques de Medina-Sidônia, é ela que incita o Duque de Bragança a declarar-se rei. E temos depois a Dona Carlota Joaquina, também filha dos reis de Espanha, no princípio do século XIX, a pressionar e a tentar talvez substituir o seu marido, o príncipe Dom João, depois o rei Dom João VI, no governo de Portugal, tal como depois tentou substituir o irmão no governo de Espanha e das Américas quando ele foi aprisionado. Temos muitas rainhas muito ativas, temos rainhas regentes, como Dona Catarina da Áustria, a viúva de Dom João III, no século XVI, ou Dona Luísa de Gusmão, a viúva de Dom João IV, no século XVII, que governaram o reino, eram elas que governaram o reino. E temos, finalmente, depois, duas rainhas, Dona Maria I, filha de Dom José, no século XVIII, e Dona Maria II, no século XIX. E se é verdade que Dona Maria I ficou incapacitada durante a maior parte do seu reinado, por problemas de saúde mental, a Dona Maria II, que foi rainha entre 1834 e 1853.

Quase 20 anos.

Quase 20 anos. Ela foi uma força na política portuguesa, corajosa, decisiva, cheia de opiniões, com uma ideia do país, sempre no centro da vida pública e respeitada como tal, mesmo por aqueles que a detestavam

Muito bem, nós chegamos ao final da nossa primeira parte, mas voltamos já a seguir com mais grandes mulheres da história de Portugal. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte do Resto da História. Nós estamos a falar de três grandes mulheres da história de Portugal. O Rui começou com uma rainha, a seguir a ir para uma religiosa e finalmente para uma escritora, por razões que foram explicadas na primeira parte. Neste momento ainda estamos na rainha, porque tu tinhas mais exemplos para nos dar desse poder feminino que é parecido com o poder masculino.

Nós tínhamos começado com a Rainha Dona Teresa, logo no princípio da história de Portugal. Uma mulher política extraordinariamente importante, mas não queria só deixar nas rainhas, não queria deixar o exercício do poder só em rainhas. Há também senhoras da aristocracia que exerceram funções que nós geralmente atribuímos ou imaginamos que eram prerrogativa dos homens.

Sobretudo como viúvas.

Vou dar um exemplo. Nem sempre, embora o exemplo que eu vá dar seja esse o caso. Vou dar um exemplo da história da fortaleza portuguesa de Mazagão, que ficava no norte de África, que é uma praça portuguesa até ao século XVIII. Mas em 1635, a fortaleza de Mazagão passou a ser governada por Dom Francisco Mascarenhas, Conde de Castelo Novo. E o Dom Francisco Mascarenhas governou Mazagão até que em 11 de abril de 1640 caiu numa emboscada dos mouros e foi morto. E os mouros, quando perceberam que tinham conseguido matar o governador da fortaleza de Mazagão, pensaram: "bem, aqui está a oportunidade." Não só mataram o governador, mas mataram cerca de 130 outros portugueses que tinham ido com o governador e que também caíram na emboscada e que eram figuras importantes militares da fortaleza. Os muçulmanos da região pensaram: "bem, é agora que vamos conquistar Mazagão. Não tem o governador, perdeu a maior parte dos seus chefes militares, está mesmo ali à mão. Vamos formar um exército para cercar e para conquistar Mazagão." E o que é que acontece em Mazagão? O governador morreu na emboscada e é a sua mulher, a mulher do Conde de Castelo Novo, Dona Luísa Antônia de Velasco, que assume o comando da praça e dirige a defesa de Mazagão contra o ataque dos mouros. Vou citar aqui o Dom António Caetano de Sousa na sua história genealógica. Ele descreve o que a condessa, a condessa de Castelo Novo, a viúva, fez nesta ocasião. Diz o Dom António Caetano de Sousa, no século XVIII, referindo-se a acontecimentos no princípio do século XVII: "Com ânimo varonil, tanto que teve a notícia da morte do marido, mandou fechar as portas e tomando o bastão de general, saiu da sua casa, foi às muralhas, que fez guarnecer, fez reforçar, e jogar a artilharia, disparar a artilharia sobre os inimigos com admirável acordo e valor." Foi ela que dirigiu os disparos da artilharia e desta maneira livrou a praça do perigo e a governou enquanto não chegou a ela o sucessor. Enquanto não chegou à praça o sucessor do marido. Portanto, Dona Luísa Antônia de Velasco, com o bastão de general, comandou. Isto é interessante, por que isso foi assim? Provavelmente porque em Mazagão, morto o conde e governador, mais ninguém dispunha de tanta autoridade como a condessa viúva para exercer a liderança. Podia haver muita gente lá com qualificações e pretensões de liderar a praça, mas não tinham a autoridade que tinha a viúva do governador e portanto ela na prática assumiu o papel de dirigente. Isto quer dizer que na política e até na guerra, como neste caso, uma mulher podia, em certas circunstâncias, exercer o poder e a liderança, sobretudo por questões de parentesco. E como a posição social era fundamental para dar autoridade para exercer a liderança, de vez em quando eram mulheres que estavam nessa posição e que assumiam essa liderança, e provavelmente até mais vezes do que nós pensamos. Este exemplo é tirado da história de Mazagão durante o período filipino, da autoria do professor António Dias Farinhas, só para referir isso para quem tenha interesse em ler mais. Aliás, a história de Mazagão é extraordinariamente interessante e talvez um dia possamos contar.

Pronto, aqui está uma grande mulher com ânimo varonil.

Com ânimo varonil.

Mas havia também outras grandes mulheres que não necessitavam necessariamente desse ânimo varonil.

Não, podiam ter outros ânimos.

Outros ânimos. Ânimos religiosos, agora?

Agora os ânimos. Primeiro temos de perceber o que era a religião na antiga sociedade portuguesa até ao século XIX. Era uma grande via de influência, porque de alguma maneira combinava o que é hoje a autoridade dos intelectuais ou dos comentadores com a autoridade dos especialistas. Uma vez que a religião era também a via Para procedimentos que garantiam o favor de Deus e, portanto, o bom sucesso. Tal como hoje um economista é consultado para que uma política econômica de um governo possa ser bem-sucedida, na altura também um religioso era consultado pra que a política de um governo, fosse qual fosse, militar ou outra coisa, fosse também bem-sucedida, porque através dele, através dos seus conselhos, podia-se proceder de determinada maneira, de modo a obter o favor divino. Por isso é que temos padres e frades, às vezes também porque eles eram bastante competentes em termos de instrução, muito práticos nas letras, a exercer até o século XIX cargos no governo junto do rei. Mas não só homens. O exemplo que vou dar aqui é o da Madre Brísida.

Madre Brísida.

Ou Brígida, mas na altura diz-se Brísida. No tempo do Rei Dom João IV, o nome dela é Madre Brísida de Santo António. Este era o nome religioso. O nome civil era Dona Leonor de Mendanha. Ela nasceu em 1576, dois anos antes da Batalha de Alcácer-Quibir, e morreu em 1655, 15 anos depois da restauração do Reino de Portugal. E nós conhecemos a sua história porque um frade, Frei Agostinho de Santa Maria, escreveu a sua biografia. O título é "História da vida admirável e das ações prodigiosas da venerável madre soror Brísida de Santo António", publicada em Lisboa em 1701. É um volume de quase 200 páginas para te conhecer essa história, para contar uma história desta mulher extraordinariamente influente, que 50 anos depois um frade escreve a sua história, informa-se, documenta-se.

Mas essas histórias não eram também muito dadas ao prodígio?

Não, claro.

Ou seja, o inventavam bastante.

Não a inventavam, a senhora era prodigiosa. Vamos pensar que não é propriamente-

Vamos pensar que o biógrafo foi-

O que nós sabemos desta Madre Brísida? Ela começou como Dona Leonor, era fidalga, herdeira de uma grande fortuna. Agora, desde pequena, segundo o frade biógrafo, deu mostras de grande religiosidade, de ascetismo, com jejuns, etc. Isto é interessante, porque nós geralmente imaginamos as freiras das famílias fidalgas obrigadas a professar pelos pais não terem dote pra as casarem, portanto, punha-as nos conventos. Esta é a ideia, não é uma ideia errada. No caso de Dona Leonor, aparentemente não é assim. É Dona Leonor que quer ir pro convento contra a vontade dos pais. Essa vontade ter-lhe ocorrido ao ler a biografia da rainha Santa Isabel da Hungria aos 11 anos e ela a partir daí começa a ter visões, começa a ter êxtases místicos, é um misticismo muito focado na relação com Cristo, que ela trata como o esposo. A linguagem, aliás, hoje em dia pode parecer até um pouquinho erótica, amorosa, porque ela trata-o como o marido dela, o esposo dela é Cristo, nesta união mística com Cristo. Mas também faz parte a ideia de rejeitar os enganos do mundo, é que ela quer se libertar do mundo e quer se concentrar naquilo que mais importa. São essas as razões que ela dá para querer professar e não seguir a via que a família, a família Mendanha, quer que ela siga, quer casar-se com um fidalgo, porque ela é uma fidalga muito rica, e portanto, seria fácil arranjar-lhe marido. O que ela demonstra é uma capacidade, através da opção religiosa, de ir contra a família. Isto é, a opção religiosa pra ela acaba por ser uma opção em que ela afirma a sua individualidade, a sua independência, a sua autonomia. A família quer casá-la, ela quer professar num convento e consegue, no convento das religiosas inglesas de Santa Brígida, em Lisboa, e daí o nome que ela assume de Brígida ou Brísida. E através do convento, ela entra, torna-se freira, através do convento, ela vai obter duas coisas. Primeiro, um poder institucional, uma vez que acaba por chegar a madre superiora, não exatamente deste convento das religiosas inglesas, mas num outro convento, o convento de Nossa Senhora da Esperança, também em Lisboa. Ela torna-se madre superiora do convento. E depois uma enorme influência pública. Por quê? Porque a sua reputação de santidade, ascetismo, de visões místicas, torna-a imensamente procurada pela elite lisboeta, pela elite religiosa, por padres que a vão consultar sobre assuntos espirituais, por aristocratas, famílias da corte, que também a consultam sobre: "Devem fazer isso, devem fazer aquilo", e a própria família real, e sobretudo a rainha Dona Luísa de Gusmão, que a torna uma confidente, isto é, o biógrafo dá a entender que a rainha não faz nada sem primeiro consultar a Madre Brísida, para saber o que ela pensa e o que ela não pensa. Todos em Lisboa, nos anos 40 e 50, a consultam Ela torna-se uma das personagens mais influentes do seu tempo e como todas as personagens influentes, obviamente acaba por suscitar inimigos e invejosos. O padre do convento de Santa Brígida torna-se imediatamente inimigo por inveja, porque ela é de repente as visitas constantes de membros da família real, membros da aristocracia à madre, a pedirem-lhe conselhos e ele, que é padre, é completamente ignorado.

É colocado de lado.

E posto de lado. Há também invejas depois no convento onde ela se torna madre superiora de outras freiras que também acham que ela está a abusar e que tem demasiada influência. Chamam que é uma hipócrita e uma embusteira, até aí, gente cética como tu. Mas a madre Brígida não, a madre Brígida é considerada, quando morre, Lisboa toda lamenta ter perdido aquela fonte de sabedoria, de conselhos espirituais, é uma das pessoas mais importantes do seu tempo.

Estou a ficar com curiosidade, Rui. A senhora deixou os seus conselhos por escrito ou isto se passa tudo pelas páginas do biógrafo? Não há obra?

Há freiras que deixaram muita coisa escrita, ela não é o caso. Aliás, recusa, depois diz o seu biógrafo que ela é muito modesta. Quando as pessoas a consultam, ela ao princípio até diz: "Não, sigam a vossa própria opinião, pensem." Agora, o mais interessante da história da madre Brígida é que ela não é única. A sociedade portuguesa no século XVII, no século XVIII, está cheia daquilo que se chama beatas e não exatamente no sentido pejorativo, isto é, de mulheres com fama de santidade, com fama de prudência, de adivinhação, que exercem um papel igual ao da madre Brígida a outros níveis sociais inferiores, isto é, de conselheiras, de orientadoras para assuntos. Portanto, mesmo em povoações remotas, há estas mulheres de virtude, como se costumava dizer, às vezes identificadas como bruxas também, por vezes, mas que são conselheiras, isto é, em que as pessoas mais poderosas, mais importantes entram em contacto para saber o que elas pensam. Portanto, esta vida espiritual, esta vida religiosa, é uma outra via pela qual mulheres exerceram um papel público, um papel naquilo que nós hoje podíamos chamar a esfera pública, quer dizer, a vida pública da sociedade portuguesa e na história de Portugal. A madre Brígida é de facto uma figura importante do tempo de Dom João IV, entre 1640 e 1656.

Já temos uma rainha e uma conselheira, verdadeiramente, uma freira conselheira. E qual é o terceiro exemplo? Era o da escritora, é isso que íamos falar?

É o da escritora. E diz respeito a um tempo, o século XIX, em que as mulheres, mesmo ainda privadas de capacidade política, o direito de eleger e de ser eleitas, e também restringidas na sua autonomia pelo poder do pai ou poder do marido, que está consagrado nas leis, nos códigos de leis, apesar de tudo, começaram a adquirir influência através da instrução, no domínio da literatura ou da ciência ou da arte, que se tornam domínios importantes na sociedade do século XIX, um pouco substituindo a religião. De repente, a literatura, a ciência e a arte começam a substituir a religião como fontes da influência que antigamente era exercida, influência intelectual, que hoje diríamos influência intelectual, que era exercida por vias religiosas e agora passa por via literária, por via artística, e as mulheres também se começam a situar aqui, mesmo ainda antes de terem a autonomia jurídica e as capacidades e os direitos políticos que só vão adquirir muito mais tarde, já no século XX. E o exemplo que vou citar também é um nome conhecido dos lisboetas, pelo menos, que é Maria Amália Vaz de Carvalho. O nome do liceu desde 1933. Ela é a primeira mulher que foi sócia da Academia das Ciências de Lisboa em 1912, com outra mulher, Carolina Michaelis de Vasconcelos. Ela nasceu em Lisboa em 1847. Na prática, é contemporânea da chamada geração de 70, isto é, Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero de Quental. Aliás, ela tem correspondência com eles e conhece-os e trata com eles. Ela não é uma pessoa qualquer, temos de admitir isso. Ela é filha de um deputado, é da família do Visconde de Monção, que era o presidente da Câmara Municipal de Lisboa entre 1847 e 1849. Ela tem a vantagem de vir da elite social, mas não é desse prestígio social que ela vive. Ela vive da reputação que adquire a partir dos anos 60, de 1866, ainda tem 19 anos, quando começa a ler os seus poemas nos salões de Lisboa e a ser muito aplaudida por esses poemas, e outros escritores a notarem o talento que ela tem. Ela começa a escrever nos jornais, começa a escrever contos, crónicas, versos. Usa por vezes pseudónimos, mas curiosamente usa sempre pseudónimos femininos. Nunca usa pseudónimos masculinos.

Como acontecia muitas vezes no século XIX.

Como acontecia por vezes. E também faz trabalhos de erudição, que estavam mais associados até ao homem de letras do que propriamente à mulher de letras. Por exemplo, ela começa a escrever uma biografia do Duque de Palmela em 1898, utilizando fontes de arquivo, etc. Portanto, um trabalho que estava mais associado ao Ao homem e à mulher. Com mérito, sim. Ela torna-se uma das primeiras mulheres escritoras profissionais em Portugal. Ela em grande medida vive de escrever. Aliás, em 1874, ela casa com um poeta, o Gonçalves Crespo, portanto, uma espécie de casamento literário, de liquidamente entre dois escritores. Ela vai ficar viúva depois, bastante nova, em 1883, com 36 anos e dois filhos menores. A escrita torna-se uma das suas principais fontes de rendimentos e, ao mesmo tempo, mantém uma vida literária, por exemplo, através de um salão literário. Recebe escritores em casa, onde há conversas. Aliás, para se perceber o estatuto dela, é interessante examinar as cartas que Antero de Quental lhe escreveu na década de 80, que são cartas sobre filosofia, extraordinariamente complexas, que é um sinal que ele nem a conhecia pessoalmente. Acho que não se encontraram.

Mas reconhecia-lhe um estatuto intelectual.

Mas reconhecia-lhe uma interlocutora com quem podia discutir grandes problemas filosóficos e literários naquele contexto.

E foi sufragista?

Ela não é sufragista, curiosamente. Ela não é adepta do voto das mulheres, mas torna-se, na passagem do século XIX para o século XX, a principal autoridade pública, isto é, reconhecida pela opinião pública, sobre a educação feminina, em livros como "Mulheres e Crianças", de 1880, "Cartas a Luísa", de 1886, ou "Às Nossas Filhas", de 1906. E a ideia dela é curiosa, é a ideia de que tudo mudou. A época em que ela está a viver, no fim do século XIX, princípio do século XX, como ela diz, não se parece com nenhuma outra época do passado. As coisas mudaram completamente. Ela diz até de uma maneira dramática: "Destruímos toda a autoridade, demolimos toda a tradição, a família, aparentemente a mesma, pouco tem em comum com a família de outros tempos." E esta ideia de uma grande mudança serve para quê? Serve para dizer que as mulheres não podem continuar a ser educadas da mesma maneira. As mulheres vão ter um outro papel, já não são apenas mães e esposas, muitas delas, como ela diz, vão ficar sozinhas e têm de ser educadas para isso.

E têm de viver por si.

E têm de viver autonomamente, têm de ser capazes de vida autónoma. Como ela diz: "O casamento deixou de ser a condição normal da vida da mulher." Isto é interessante.

É muito moderno, de facto.

É interessante na passagem do século XIX para o século XX, esta escritora começa, em termos públicos, a falar de um lugar das mulheres, de um estatuto das mulheres, já muito diferente daquele que ela diz que ainda tinha conhecido na sua infância. Tudo tinha mudado. E isso é expresso por uma mulher escritora que depois tem um reconhecimento público, a Academia das Ciências recebe-a, o Estado dá-lhe o nome de um liceu em Lisboa nos anos 30. Portanto, é a consagração da mulher escritora, da mulher intelectual e também como alguém que tem algo importante a dizer acerca da época e da sociedade do seu tempo. É isso que Maria Amália consegue.

Muito bem. E assim termina com estas três grandes mulheres, esta edição de E O Resto é História. Nós voltamos para a semana. Até lá.

E o resto é história.

É a terra com marcha! Do Vicente e Poábra, ainda na zona dos Xavres. Aqui, os portugueses estão a viver um dos momentos mais importantes da vida. Quer transformar este país numa ditadura. Atento, atento.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.